Capítulo 2

Íris Lisboa POV:

Era madrugada. O cheiro de Fabrício misturava-se ao perfume doce de Pâmela quando ele deslizou para a cama, esperando que eu estivesse dormindo. Seus passos eram silenciosos, mas meu coração, acelerado e fraco, sentia a cada movimento.

Ele se deitou, depois de um longo banho, e virou-se para mim. "Íris?", ele murmurou, a voz carregada de uma culpa forçada. "Está acordada?"

Abri os olhos, virando a cabeça para encará-lo. "Sempre à espera, Fabrício," eu disse, minha voz um sussurro frio. O quarto estava escuro, mas a luz da lua entrava pela janela, revelando o contorno de seu rosto.

Ele suspirou. "Eu sinto muito por ontem. A reunião se estendeu mais do que o previsto." Ele estendeu a mão, hesitante, para tocar meu rosto.

Eu desviei. "O jantar esfriou. E os sonhos também," minha voz era suave, quase imperceptível, mas as palavras eram lâminas.

Fabrício hesitou. "Eu... eu sei que falhei. Mas eu vou compensar. Prometo." Ele parecia aliviado, como se minhas palavras não tivessem perfurado sua armadura.

"Descanse, Fabrício," eu disse, virando-me de costas para ele. "Você deve estar exausto."

Ele não percebeu a ironia, a frieza cortante por trás da minha 'gentileza'. Ele apenas suspirou de novo, e logo ouvi o ritmo de sua respiração se acalmando. Ele dormiu.

Enquanto a respiração dele se tornava mais profunda, eu me levantei. Peguei uma caneta e um papel da minha escrivaninha. Minhas mãos tremiam, e as primeiras palavras escorreram para a folha, manchadas por uma lágrima solitária. A primeira carta.

"Querido Fabrício, este é o primeiro de muitos sussurros do túmulo..."

Na manhã seguinte, levantei antes do sol. O cheiro de café fresco preencheu a cozinha enquanto eu passava as roupas dele. A camisa que ele usaria para o escritório, as calças que se ajustavam perfeitamente ao seu corpo. Cada movimento era um ato de amor e, agora, de vingança.

Fabrício desceu as escadas, surpreso ao me ver já em pé. "Íris? Você está acordada tão cedo?"

"Eu sempre fui a primeira a levantar para você, Fabrício," respondi, dobrando a camisa. "A primeira a cuidar de você. A primeira a estar ao seu lado."

Ele me abraçou por trás, seu queixo apoiado no meu ombro. "Eu sei, meu amor. Você é a mulher mais dedicada que eu já conheci." Meu coração, fraco, acelerou com o toque, uma traição do meu próprio corpo.

Empurrei-o suavemente. "Vá tomar seu café. Preparei o seu favorito." Eu precisava de espaço. Precisava que ele não sentisse meu corpo tremer.

Ele sorriu, o sorriso de um homem que tinha tudo. "Você é perfeita, Íris."

Perfeita? Que piada amarga.

Servi o café e o pão com queijo que ele tanto gostava. Ele comeu apressadamente, elogiando cada mordida. "Lembro-me da primeira vez que você fez isso para mim, Íris. Naquela cabana na floresta, quando tínhamos apenas um ao outro."

Eu sorri, um sorriso que não alcançava meus olhos. Minha mente já estava longe, traçando os próximos passos. A máscara era pesada, mas eu a usaria até o fim.

Quando ele estava pronto para sair, eu o acompanhei até a porta. Dei-lhe um beijo casto na bochecha. "Tenha um bom dia, meu amor."

Ele se virou, já descendo os degraus, quando eu vi. Uma pasta fina, escorregando do bolso de seu paletó, pousando no chão. "Fabrício, você esqueceu seus documentos!"

Minha primeira intenção foi chamar o mordomo para entregar a pasta. Mas então, uma ideia se acendeu na minha mente. Era uma oportunidade. "Não, eu mesma levo. Preciso esticar as pernas."

O mordomo parecia surpreso, mas eu já estava no carro, dirigindo em direção ao escritório de Fabrício. No caminho, ouvi conversas sussurradas. "Pobre Íris. Ela parece tão frágil. Como Fabrício aguenta?" "Dizem que a outra, Pâmela, é muito mais vibrante, mais adequada para ele agora."

Ignorei os olhares e os sussurros, minha expressão impassível. Cheguei ao prédio colossal que Fabrício havia construído. Subi no elevador particular até o último andar.

Quando as portas se abriram, ouvi. A voz de Pâmela. Melodiosa, risonha, vindo da sala de Fabrício.

"Fabrício, querido, os relatórios da Íris são sempre tão... precisos. Ela realmente tem um talento para organizar as coisas, não é?"

A voz de Fabrício soou complacente. "Sim, Pâmela. Íris é incrivelmente eficiente. É uma pena que ela... uh... não esteja mais tão ativa na empresa."

Então ouvi a voz de Maurício. "A senhora Lisboa sempre foi um pouco frágil. Pâmela, com todo o seu vigor e mente estratégica, seria uma parceira de negócios muito mais formidável."

Denis, o outro sócio, concordou. "Exatamente. As doces habilidades da Íris são encantadoras, mas o mundo dos negócios é para tubarões, não para peixinhos indefesos."

Eu esperei. Esperei que Fabrício os repreendesse, que defendesse a mim, sua companheira. Mas o silêncio dele foi a resposta mais cruel de todas.

Ele não disse uma palavra.

Minhas mãos tremeram. A pasta escorregou dos meus dedos, caindo no chão com um baque surdo.

A risada coletiva preencheu a sala. Eles estavam rindo de mim. Fabrício estava rindo comigo.

Naquele instante, meu celular vibrou. Uma mensagem de Fabrício: "Não vou para casa esta noite, meu amor. Tenho muito trabalho."

A escuridão me engoliu. O chão desapareceu sob meus pés. Minha visão escureceu. O último que ouvi foi o som do meu próprio corpo caindo.

Capítulo 3

Íris Lisboa POV:

"Íris! Íris, você está bem?"

A voz de Fabrício me trouxe de volta. Abri os olhos, a luz do teto do que parecia ser uma enfermaria corporativa piscando. Ele estava curvado sobre mim, os olhos cheios de uma preocupação que parecia... ensaiada. Seus braços me ergueram gentilmente, e o perfume de Pâmela, ainda impregnado em sua roupa, me atingiu como um soco no estômago.

"Fabrício," eu murmurei, minha voz fraca.

"O que você estava fazendo aqui?", ele perguntou, me aninhando em seus braços. "Você me assustou, meu amor."

"Vim trazer seus documentos," eu disse, a mentira escorregando fácil da minha língua. "Você os esqueceu em casa."

Ele assentiu, beijando minha testa. "Minha Íris, sempre tão atenciosa. Você precisa descansar. Não se esforce tanto."

Eu me afastei delicadamente. "Vi Pâmela aqui hoje. Ela... ela estava aqui?"

Ele enrijeceu. Aconteceu tão rápido que, se eu não estivesse prestando atenção, teria perdido. "Pâmela? Não, claro que não. Ela estava apenas... deixando alguns documentos para Maurício." A mentira escorreu de sua boca com uma facilidade alarmante.

Olhei para ele, meus olhos fixos nos seus. "Oh. Entendi." Eu o fiz acreditar que eu acreditei.

"Você é a única para mim, Íris. Sempre. Pâmela é passado." Ele tentou me beijar, mas eu virei o rosto, fingindo estar exausta demais.

Meu celular vibrou. A mesma melodia de antes. Fabrício me olhou, seu rosto contorcido em uma leve carranca. "Preciso ir, meu amor. Assuntos urgentes."

"Fique," eu pedi, minha voz pequena. "Por favor."

Ele hesitou por um momento. "Eu... eu não posso, Íris. É importante para o negócio. Eu volto logo." E com isso, ele se foi, deixando-me sozinha com o cheiro persistente de seu perfume misturado ao dela.

Assim que a porta se fechou, eu pulei da cama, arrancando o soro do meu braço. A agulha rasgou minha pele, mas a dor física era insignificante comparada à dor que sentia em minha alma.

Meu corpo estava fraco, meus pulmões ardiam, mas uma determinação gelada me impulsionava. Eu tinha que ver. Tinha que confirmar.

Segui Fabrício.

Ele dirigiu até uma área isolada da floresta, um lugar que costumávamos ir quando éramos apenas um lobo e uma garota. O carro parou. E lá estava ela. Pâmela.

Ela estava abraçada a Fabrício, seus lábios nos dele. "Meu Fabrício," ela sussurrou, a voz carregada de falso afeto. "Você não sabe o quanto eu ansiava por seus braços."

Fabrício a apertou. "Você é a única, Pâmela. Íris é... uma conveniência. Uma relíquia do passado."

Meu mundo desabou. Eu ouvi isso. Com meus próprios ouvidos. 'Uma conveniência'.

Meu corpo congelou. Eu me lembrava de Fabrício me defendendo, furioso, quando outros o chamavam de 'lobo selvagem' e me desprezavam por ser apenas uma humana comum. Ele sempre disse que eu era sua força, seu coração.

Mas agora, eu era apenas uma conveniência.

A raiva me deu um pico de energia. Eu cambaleei de volta para o carro, o coração batendo dolorosamente contra minhas costelas. A humilhação, a traição me consumiam.

Voltei para casa e entrei na minha sala de confeitaria, o único lugar onde eu me sentia segura. Minhas mãos, há apenas algumas horas tremendo de dor, agora estavam firmes, cheias de um propósito cruel.

Peguei uma nova folha de papel. A segunda carta.

"Fabrício, você se lembra daquele dia na floresta? Eu me lembro..."

No dia seguinte, fui ao joalheiro. Lá estava a pulseira Coração do Oceano, a joia que Fabrício me deu. "Quero vendê-la," eu disse, a voz firme.

O joalheiro, um homem idoso e respeitoso, olhou para mim, chocado. "Senhora Lisboa, essa pulseira... é única. Seu valor é inestimável, não apenas pelo ouro e as pedras, mas pela tecnologia nela."

"Eu sei," eu disse, meus olhos fixos nos dele. "Preciso do dinheiro. E preciso que seja hoje. Agora."

Ele hesitou, mas a determinação em meus olhos o fez ceder. Ele me fez uma oferta que era mais do que generosa. Eu assinei os papéis sem olhar para trás.

Quando voltei para casa, ele estava lá. Sentado na sala de estar, me esperando. "Íris! Onde você estava? Por que saiu do hospital sem me avisar?" Seus olhos varreram meu pulso, e eu vi o choque em seu rosto quando ele notou a ausência da pulseira.

"Eu precisava de ar," eu disse, minha voz calma. Observei-o, esperando sua reação.

"E a pulseira? Onde está o Coração do Oceano?", ele perguntou, a voz subindo uma oitava.

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