Capítulo 2

Quando tinha 14 anos, minha mãe aceitou pagar a taxa do vestibulinho pra Etec, porque se sentiu culpada ao extremo por um rompante.

Ela estava tentando tirar habilitação, e no dia do exame prático, chegou em casa mais cedo, na parte da manhã.

Paola estava na escola e Mayara e meu pai no trabalho. Eu estava esfregando as calças jeans no tanque. A gente tinha máquina de lavar, mas minha mãe não permitia eu usar a máquina para lavar, apenas para enxaguar e torcer. Ela dizia que não lavava direito e gastava muita energia.

Então, eu tinha que esfregar as roupas de todos a mão. As piores peças eram as calças jeans, que além de mais pesadas, eram em grande quantidade: três adolescentes em casa, todos saiam todos os dias de casa para escola ou trabalho, realmente bastante coisa pra esfregar.

Minha mãe chegou e veio direto pra lavanderia, sem nem tirar a bolsa do ombro, ficou de frente para mim, que olhei para ela assustada:

- Mãe, porque está em casa tão cedo? Aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu sim. Eu não passei na prova de direção.

E sem quê nem porquê, estalou a palma no meu rosto. As lágrimas vieram aos meus olhos, mas não chorei. Minha mãe odiava demonstrações de fraqueza em mim. Eu nunca podia chorar por nada. Então perguntei pra ela, com os olhos vermelhos tentando controlar as lágrimas:

- Porque você me bateu?

- Não passei no exame porque estava nervosa. Saí de casa nervosa porque não achei a bermuda que eu queria usar. E sabe porque não achei? Porque você é uma incompetente, inútil, que não guarda as coisas no lugar certo. Então eu me atrasei procurando e fiquei mais nervosa ainda, porque nem podia te acordar pra procurar e acabar me atrasando ainda mais. E acabei reprovando na prova de direção. Por sua culpa, porque tudo o que me acontece de ruim é sua culpa, porque você é um inferno em minha vida!

Minha mãe deu as costas pra mim, mas antes de sair da lavanderia, parou e nem se deu ao trabalho de virar pra me olhar:

- E vai fazer meu prato que eu tô com fome.

Toda molhada de esfregar calça jeans, parei tudo no meio pra esquentar a comida pra ela e lhe servir.

Coloquei a chave no portão, dando graças a Deus por estar em casa. Balancei a cabeça, afastando as lembranças ruins. Eu tinha passado o dia inteiro na rua. Saí muito cedo pra não perder o fechamento dos portões, e realmente era muito longe de lá até em casa de volta. Tinha comido um pacote de bolacha antes da prova, já eram quase 8 horas da noite. Queria tomar um banho, jantar e ir pra cama.

Desde o vestibulinho, tinha descoberto que sempre tinha dores de cabeça de ansiedade em fazer uma prova difícil. Não sei se porque pensava demais, se tinha medo de decepcionar ou outro motivo, mas minha cabeça começava a doer absurdamente quando ia preencher o gabarito e só parava depois que eu dormia. Então estava ansiosa por esse momento, mas me decepcionei consideravelmente quando entrei e vi a pia cheia de louças, pratos sobre a mesa e panelas vazias sobre o fogão. "Pelo menos esvaziaram as panelas e colocaram a comida na geladeira", pensei

Percebi que estava sozinha em casa, quando vi o bilhete pregado na geladeira, quando fui ver o que tinha pra comer.

"Saímos para comer pizza, não tinha a menor condição de fazer janta com essa bagunça na cozinha. Espero que você não tenha intenção de ir dormir deixando essa cozinha nesse estado que eu te arrebento. Bateu pernas o dia inteiro, agora faça suas obrigações"

Novamente, meus olhos encheram d'água. Dessa vez, eu deixei rolar, não tinha ninguém pra ver minha fraqueza em casa. Fui para o quarto que dividia com minhas irmãs, peguei roupas e fui tomar banho. Prendi o cabelo em um rabø de cavalo, limpei a cozinha inteira enquanto chorava, tentando ser o mais rápida possível. Estranhamente, a fome passou e o que sentia era um bolo em minha garganta.

Quando terminei a cozinha, deixando impecável, pensei com alívio que dali a três meses, eu ia completar 18 anos e poderia colocar fim naquele sofrimento! Eu tinha que arrumar uma forma de sair da casa da minha mãe, passando ou não no vestibular. Se eu tiver passado, era mais importante ainda sair de lá, para que ela não fizesse o mesmo de quando comecei a ETEC.

Passar no vestibular era uma honra, e isso era comemorado pelos veteranos. Quando passava em uma instituição pública para colégio técnico, não era diferente. Chamam de vestibulinho, pois seria curso técnico junto com ensino médio. Não era fácil passar e menos ainda agregar todas as matérias técnicas junto com a grade curricular regular.

E os bichos e bichetes, eram batizados em uma cerimônia similar à da faculdade. Pintavam nossos rostos, escreviam "bichete" na testa, espirravam desodorante barato, creme de barbear no cabelo, essas coisas. Ser pego no trote da Etec ou universidade, era motivo de orgulho.

E eu voltei pra casa toda pintada, com a testa bichete, fedendo desodorante vagabundo, os riscos verde e amarelo na bochecha, e nada disso chamava mais atenção do que o enorme sorriso estampado em meu rosto. Todos que entravam no ônibus e olhavam pra mim, sorriam junto e me parabenizavam.

E quando cheguei em casa, minha mãe ficou doida, disse que bicho eram os alunos daquela escola e eu não iria mais me prestar aquilo. No outro dia, me levou na escola antiga para rematrícular.

Por sorte, as meninas da secretaria que me conheciam pela dedicação aos estudos, convenceram minha mãe que o trote era um ritual pra encher um pai de orgulho.

Quando terminei de limpar a cozinha, sequei o banheiro com desinfetante nas peças e paredes, escovou os dentes e fui deitar, antes que meus pais chegassem com minhas irmãs. Queria evitar todo mundo. E mais ainda, que minha mãe percebesse que eu andei chorando.

Consegui evitar todos por aquela semana. Como era semana de provas finais, todos estavam concentrados em estudar e meus pais me deixaram em paz...

Capítulo 3

Toda adolescente tem uma melhor amiga, eu sou tão diferente, que tenho um melhor amigo. Eu não gosto das meninas!

Fernando seria o cara perfeito para namorar: é loiro, olhos verdes, dentes perfeitos, alto, atlético, tem covinhas na bochecha. Educado, gentil, uma pessoa muito agradável.

Se não se envolvesse com o crime, eu até tentaria. Mas eu sempre penso: era só o que me faltava, depois de tudo que passo com minha mãe, virar mulher de bandido!

Alguns dias depois que fiz a prova, Fernando foi checar a lista dos aprovados pra mim. Quando ele chegou, eu estava colocando a mesa para almoço, Paola o recebeu.

Ele entrou com uma cara muito séria, e meu coração parou uma batida. Como seria no ano seguinte? Eu tinha que sair de casa, trabalhar, me manter. Como pagaria a taxa pra tentar de novo? Valeria a pena?

Fernando pegou na mão do meu pai e deu um beijo na testa da minha mãe.

- Tia, trouxe uma notícia não muito boa.

-Pode falar, Fernando. O que aconteceu?

- A senhora vai ter que colocar essas duas folgadas pra cuidar da casa ano que vem, pois em fevereiro, começa a formar uma odontóloga pela USP, porque a Alícia passou em sexto lugar no vestibular!

Segurei meu coração, depois pulei no colo de Fernando, rindo. Minhas irmãs pularam junto e começaram a gritar de felicidade, depois Paola saiu gritando em direção a rua, que eu ia me formar na USP.

Mas minha mãe mandou parar de escândalo, que não tinha motivos para aquilo. Eu estava abraçada com meu pai, que também parecia muito feliz com a notícia. Só minha mãe estava azeda! Me soltei do meu pai e virei pra ela:

- A senhora não pode ficar feliz por mim? Quantas pessoas você conhece que foram aprovadas na USP? Lá só entra bacana, é muito difícil um pobre conseguir!

- Parabéns, você é muito inteligente, não precisava de uma prova pra gente saber disso. Mas não é esperta. Você passou, mas não vai cursar. Sacrifício de tolo ir fazer a prova e ficar nessa ansiedade esses dias todos.

- Porque não vou cursar, mãe?

- Porque você prestou para odontologia, ao invés de escolher um curso mais fácil e acessível. Pra você cursar, precisa tomar duas conduções todos os dias, ids e volta, e quem vai bancar essa farra? E a carga horária não são 4 horas como na escola. Vai ter que sair cedo e voltar tarde. Quem vai fazer suas tarefas na casa? E pior, você não vai pagar mensalidades e matrícula, mas vai ter que comprar todos os livros porque a faculdade não dá o material didático, e para odontologia em especial, tem que comprar todo o material cirúrgico para estudar. Onde vai arrumar todo esse dinheiro?

- Eu vou trabalhar, mãe. Vou me virar, mas vou cursar a universidade.

- Não, você não vai. Precisa cuidar da casa pra eu trabalhar.

- Mãe, desde muito pequena, cubro todas as suas obrigações como a senhora do lar. Lavo, passo, cozinho, limpo a casa e cuido das suas filhas, como se eu fosse a mulher da casa. Mas agora é o meu futuro, minhas escolhas, eu sou quase uma adulta e não vou me afundar lavando seu banheiro e o de ninguém, em troca de um prato de comida.

- Sai todo mundo. Mayara, serve o almoço pra sua irmã, seu pai e o Fernando. Vou conversar com Alicia.

Quando estávamos só nós duas na sala, minha mãe virou pra mim muito calma e falou:

- Você ainda é menor de idade, eu preciso te matricular como sua responsável. Se você esperar até completar a maioridade, vai perder o prazo e a vaga vai pra outra pessoa.

- Eu tenho pai, sabia?

- Sério que você acha que seu pai vai fazer algo contra a minha vontade?

- O que você quer para me matricular?

- Você vai noivar antes da matrícula, e se casar quando terminar a faculdade.

- Aceito, não sei com quem vou casar, mas aceito.

- Você pensa que sou idiotå? Depois da maioridade, você cancela o acordo. Já vai estar matriculada mesmo. Por isso, você vai selar o noivado com a primeira noite antes do casamento. E vai servir seu noivo sempre que ele quiser. Vamos almoçar. Vou deixar você pensar. Mais tarde conversamos.

Depois do almoço, Fernando me ajudou a limpar a cozinha, depois pediu pra me levar pra tomar um sorvete. Claro que minha mãe só deixou, com ele prometendo que traria pra todos.

Na sorveteria, contei tudo para ele, que tinha percebido que eu não estava bem, quase nem toquei na comida.

- E o que você pretende fazer?

- Ainda não sei, estou tendo uma ideia, mas preciso conversar com ela primeiro. Amanhã você vem de manhã me ver, pra gente conversar?

- Claro, sempre! Mas porque será que sua mãe vai te casar?

- Amanhã eu te conto. Tenho uma teoria, e foi o que me deu a ideia.

- Então me conta...

- Acho que ela vendeu minha virgindade.

- Ela não faria isso. E mais, se foi alguém com dinheiro pra comprar sua virgindade, ela empurraria para Mayara e não pra você.

- A menos que seja um cara nojento e escroto, o que não duvido, pra comprar a virgindade de alguém.

- São só teorias, Alícia. E qual é sua idéia?

- Se ela vendeu minha virgindade, vai entregar com defeito.

- Não entendi.

- O cabaço é meu. Eu tenho um sonho e vou ter que fazer sexø pra conseguir atingir. Depois, lavou tá nova. Se eu perder a matrícula, não vou nem querer mais viver, quanto mais virgem. Se tenho que fazer esse sacrifício pra conseguir a matrícula, vendo minha virgindade antes!

- Está mesmo disposta a fazer isso?

- Não vou ser refém da minha mãe pra sempre.

- Certo. Converse com ela e amanhã nos falamos.

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