Capítulo 2

O mundo de Leo não apenas desmoronou; ele implodiu. Minha ligação para sua família distante foi um ataque cirúrgico. Em poucos dias, ele se foi, levado pela mesma estrutura de poder que ele sempre desdenhou. Suas tentativas de resistir, de voltar para Jade, foram fúteis. Ele era um peão em um jogo muito maior do que ele podia compreender, um jogo que eu acabara de colocar em movimento.

Suas ligações frenéticas, suas mensagens desesperadas, foram recebidas com silêncio. Eu o havia bloqueado. Apagado. A lenda do Rei e da Rainha de São Paulo estava morta, substituída por sussurros de uma Rainha implacável que havia exilado seu Rei.

Eu não me importava. A dor oca no meu peito era uma companhia constante, mas era ofuscada por um desejo ardente de provar que ele estava errado. De provar que todos estavam errados. Ele me achava "implacável demais"? Eu lhe mostraria o que era ser implacável.

Meu foco se estreitou para um único ponto: a aniquilação completa de nossos concorrentes, especialmente Gustavo Matarazzo. A dor me alimentava, uma energia sombria que aguçava minha mente e entorpecia minhas emoções. Eu trabalhava incansavelmente, dormindo pouco, comendo menos. O mundo corporativo se tornou meu campo de batalha, e eu era uma general sem misericórdia.

Semanas depois, a cidade fervilhava com rumores da minha crueldade, da minha ambição fria. Mas ninguém via os gritos silenciosos sob a fachada polida, a mulher frágil à beira do abismo. A dor era um tormento viciante, um lembrete constante do que eu havia perdido e do que eu tinha que provar.

Uma noite, o silêncio sufocante da minha cobertura se tornou insuportável. Eu ansiava por barulho, velocidade, uma ameaça tangível para combinar com a tempestade dentro de mim. Me encontrei em um racha clandestino na periferia da cidade, o rugido dos motores um bálsamo para meus nervos em frangalhos.

"Olha só o que o vento trouxe", uma voz zombeteira cortou o barulho. Era Marcos, sobrinho de Matarazzo, um bandido mesquinho que achava que podia preencher o lugar do tio. Ele havia perdido uma parte significativa das propriedades de sua família para mim nas últimas semanas. "A própria Rainha de Gelo. Veio ver como o mundo real vive?"

Eu o ignorei, meu olhar fixo na pista de asfalto.

"Ela provavelmente precisa de uma nova emoção agora que seu brinquedinho se foi", Marcos provocou, aproximando-se. Seus capangas riram. "Dizem por aí que ele fugiu com uma coisinha bonita. Deixou a Rainha sozinha em seu castelo de vidro."

Meus olhos se viraram lentamente para ele, mais frios que a noite do deserto. "Você está falando demais, Marcos."

Ele riu, um som áspero e irritante. "Sentindo-se corajosa, é? Que tal uma pequena aposta, então? Aposto que você não tem coragem de entrar em um carro e correr. Não comigo." Ele gesticulou para um muscle car tunado, seu motor roncando impacientemente. "O vencedor leva tudo. Meus cassinos restantes. Sua... reputação. Ou o que resta dela."

Uma centelha de algo sombrio e perigoso se acendeu dentro de mim. Era isso. Uma chance de sentir algo, qualquer coisa, além da dor surda da traição. Uma chance de testar os limites, de cortejar o desastre. "Fechado", eu disse arrastado, minha voz firme. "Mas se eu ganhar, você vai rastejar até mim de joelhos quebrados e implorar por misericórdia."

Seu sorriso se alargou, predatório. "Combinado."

Deslizei para o banco do motorista de um supercarro preto e elegante, emprestado de um dos meus contatos. Minhas mãos agarraram o volante, o couro frio sob meus dedos. A arma de partida disparou. Pisei fundo, o carro disparando para a frente, um borrão de velocidade e barulho.

Então, a percepção insidiosa surgiu. A direção parecia solta. Os freios, sem resposta. Marcos. Ele havia adulterado o carro. Uma risada fria me escapou. Claro que ele tinha. Isso não era apenas uma corrida; era uma tentativa de assassinato.

Uma emoção perversa me atravessou. Era isso. A aposta final. Forcei o carro ainda mais, ignorando a direção instável, os protestos do motor. O velocímetro subia, borrando o mundo lá fora. Uma curva acentuada à frente, levando diretamente a uma queda abrupta da estrada do cânion. Minha visão se estreitou. A dor, a traição, a solidão esmagadora — tudo se fundiu em uma única e aterrorizante resolução. Que acabe.

O carro gritou, os pneus perdendo tração, a beira do penhasco se aproximando. Fechei os olhos, uma estranha sensação de paz se instalando sobre mim.

De repente, um impacto violento. Outro carro, um borrão preto, bateu no meu, forçando meu veículo de lado, para longe do precipício. O mundo girou, uma cacofonia de metal rangendo e vidro se estilhaçando. O cinto de segurança cravou no meu ombro enquanto minha cabeça chicoteava para frente e para trás. Escuridão.

Quando meus olhos se abriram, o mundo era uma bagunça borrada de arestas afiadas e cores suaves. Uma dor latejante pulsava atrás das minhas têmporas. Meu braço gritava em protesto, torcido em um ângulo antinatural. Ouvi gritos, vozes frenéticas. Alguém estava inclinado sobre mim, seu rosto indistinto.

"Laura? Laura, você consegue me ouvir?" A voz era familiar, mas estranha. Um choque de algo parecido com pânico me atravessou.

Então, clareza. O rosto dele. Leo. Seu cabelo estava desgrenhado, um corte sangrando acima da sobrancelha, seu paletó impecável rasgado. Ele parecia ter passado pelo inferno. Ele estava me puxando dos destroços, suas mãos gentis, mas firmes. Meus olhos se desviaram para o braço dele, me embalando. Um corte profundo e irregular sangrava livremente através de sua manga. Ele estava ferido. Por minha causa.

"Seu idiota", murmurei, as palavras grossas de dor e algo mais que eu não conseguia nomear.

"Marcos!" Leo rugiu, voltando sua atenção para a multidão. Ele me empurrou para os braços de Sérgio, que havia aparecido milagrosamente, e então caminhou em direção a Marcos, seus olhos ardendo com uma fúria perigosa. "Seu lixo! Você tentou matá-la!"

Marcos, pálido e trêmulo, gaguejou: "Ela trapaceou! Ela quebrou as regras! Ela mereceu!"

"Regras?" Leo zombou, agarrando Marcos pelo colarinho. "Você adulterou o carro dela, seu covarde! Você não passa de um rato, assim como seu tio!"

"Ele está certo, Leo", uma voz suave interrompeu o caos. Jade. Ela emergiu da multidão, seus olhos inocentes arregalados de medo, agarrada a um homem que parecia suspeitosamente com o "irmão" que Matarazzo havia mencionado. "A Laura... ela sempre foi assim. Implacável. Ela não se importa com ninguém além de si mesma. Ela provavelmente mereceu." Sua voz era um veneno sedoso, gotejando falsa preocupação.

As palavras me atingiram no peito, mais frias e duras do que qualquer golpe físico. Implacável. Não se importa com ninguém além de si mesma. As palavras de Leo, ecoadas por Jade. Uma onda de amargura me invadiu, limpando a névoa da dor. Ele ainda estava cego. Ainda perdido na inocência fabricada dela.

Afastei-me de Sérgio, ignorando o protesto do meu braço ferido. "Vamos embora", eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção. "Já vi o suficiente."

Leo se virou, seus olhos arregalados. "Laura, espere. Eu posso explicar." Ele deu um passo em minha direção, sua mão se estendendo.

Então Jade, com um suspiro teatral, tropeçou. "Leo! Minha cabeça... me sinto tonta." Ela balançou dramaticamente, agarrando o estômago. Leo imediatamente desviou sua atenção, seu braço envolvendo-a, segurando-a perto. Meu olhar caiu para seus suéteres azul-claros combinando — um símbolo de seu novo e puro começo. Uma sensação doentia de ironia. Ele a escolheu, de novo. Sempre ela.

Patético, pensei, um gosto amargo na boca. Você é verdadeiramente patético, Leo Madden.

Não esperei que ele explicasse. Não esperei que Jade se recuperasse. Apenas me afastei, a adrenalina da experiência de quase morte desaparecendo, deixando para trás apenas o peso esmagador de uma finalidade total e desoladora.

Capítulo 3

O mundo girava ao meu redor, um caleidoscópio vertiginoso de dor e traição. Meu braço latejava, um lembrete constante do acidente quase fatal, mas a verdadeira agonia era uma ferida mais profunda e fria. Eu tinha que fugir. Longe de Leo, longe de Jade, longe do peso esmagador da traição deles.

"Laura!" A voz de Leo cortou a névoa, urgente e desesperada. Ele estava atrás de mim, sua mão buscando meu braço ileso.

Mas antes que ele pudesse me tocar, Jade soltou um pequeno grito sufocado. "Leo! Minha cabeça... dói." Ela balançou, seus olhos tremulando.

A mão de Leo caiu, sua atenção instantaneamente desviada. "Jade! O que há de errado?" Ele a pegou nos braços, seu rosto marcado pela preocupação. "Alguém chame uma ambulância!"

Eu assisti, um nó frio e duro se formando no meu peito. Ele a escolheu, de novo. Sempre ela. Meus ferimentos, minha quase morte, não significavam nada comparados à sua delicada fragilidade. Era um padrão familiar, um eco cruel de suas palavras: "Ela é pura, sabe?"

Sérgio estava ao meu lado, me apoiando enquanto eu mancava em direção ao seu carro que esperava. "Apenas me tire daqui", murmurei, minha voz rouca. Não olhei para trás. Não conseguia.

A sala de emergência era um borrão branco e estéril, cheio de vozes sussurradas e o bipe rítmico das máquinas. Meu braço foi engessado, meu ferimento na cabeça suturado. Recusei analgésicos. Eu queria sentir tudo, cada latejar agonizante, cada pontada afiada. Era uma punição merecida.

Através do vidro da sala de observação, observei Leo andar de um lado para o outro, seu rosto uma máscara de preocupação. Jade estava na cama, parecendo pálida e frágil, sua mão agarrada à dele. Ele murmurava palavras de consolo, acariciando seu cabelo. A imagem da devoção.

Meu estômago se revirou. Este não era o homem com quem eu construí um império, o homem que me via como igual, como parceira. Ele era um tolo apaixonado, completamente cativado por uma mentira.

Assinei meus papéis de alta, meu nome um rabisco de desafio. Quando me virei para sair, Leo me viu. Seus olhos se arregalaram, um lampejo de alívio, depois preocupação.

"Laura! Você está acordada! Você está bem? Eu... eu estava tão preocupado." Ele começou a vir em minha direção, sua mão se estendendo.

"Não", eu disse, minha voz plana. Não vacilei, não me movi. "Não temos mais nada a dizer."

"Mas... a Jade, ela está..." ele começou, sua voz sumindo.

"Ela é problema seu agora", completei por ele, meu olhar mais frio que os ventos de inverno. "Fique com ela. E boa sorte."

Virei-me, Sérgio me guiando. Leo tentou seguir, mas uma enfermeira o parou gentilmente, lembrando-o da condição delicada de Jade. Seus olhos, cheios de um apelo desesperado, encontraram os meus por um momento final e agonizante. Não lhe dei nada. Apenas um olhar vazio, um reflexo estilhaçado da mulher que ele havia quebrado.

Saí do hospital, o ar fresco da noite mordendo minha pele. Sérgio me levou para minha cobertura, mas eu não conseguia ficar lá. Parecia grande demais, vazia demais, cheia de fantasmas demais. Eu o direcionei para o antigo prédio de apartamentos na periferia do centro, aquele que Leo e Jade haviam reivindicado.

A fachada de tijolos desbotados parecia ainda mais desolada ao luar. Entrei com a chave reserva que ainda carregava, uma relíquia de uma vida diferente. O ar lá dentro estava pesado com o cheiro de tinta barata e fumaça de cigarro velha. Eles haviam tentado nos apagar, pintar sobre nossas memórias.

Um brilho de luz chamou minha atenção. Uma pequena foto emoldurada. Éramos nós, jovens e imprudentes, rindo na escada de incêndio, nossos braços um ao redor do outro. Peguei-a, meus dedos traçando o contorno de seu rosto.

"Laura?" Uma voz me assustou. Era Dona Rosa, a síndica do prédio, seu rosto gentil marcado pela preocupação. "Não te vejo por aqui há séculos. O Leo... ele me disse que você não viria mais." Seus olhos se suavizaram. "Está tudo bem, querida?"

Forcei um sorriso frágil. "Está tudo ótimo, Dona Rosa." Meu olhar caiu para a data rabiscada no verso da foto: 26 de outubro. Nosso aniversário. Quinze anos. Hoje.

Quinze anos, pensei, uma risada amarga borbulhando na minha garganta. E ele esqueceu. Ou talvez, ele simplesmente não se importou.

"Eu só vim... pegar algumas coisas", menti, a foto ainda em minha mão. Eu precisava sair. Antes que sua "musa" voltasse.

Como se fosse um sinal, a porta rangeu ao abrir. Jade estava lá, parecendo surpreendentemente vibrante para alguém que acabara de estar na emergência, seus olhos se estreitando ao ver a foto em minha mão. "O que você está fazendo aqui?", ela exigiu, sua voz perdendo o tom inocente. "Esta é a nossa casa agora."

"Nossa casa?", repeti, um sorriso cínico brincando em meus lábios. "Engraçado, parece que me lembro de construir este lugar do zero com outra pessoa." Inclinei-me, minha voz caindo para um sussurro baixo e perigoso. "Você deveria ter cuidado, garotinha. Algumas fundações são construídas em rocha sólida. Outras", gesticulei ao redor do apartamento descascado, "são construídas em areia movediça. E quando desmoronam, levam tudo junto."

Seu rosto corou, seus olhos ardendo com uma fúria súbita e inesperada. "Você se acha tão esperta, não é? Acha que pode simplesmente entrar aqui e arruinar tudo? O Leo me escolheu! Ele me ama! Ele quer começar uma família comigo, uma família de verdade, não uma parceria fria e calculista como a sua!" Ela agarrou o estômago novamente, um gesto calculado. "Ele quer um bebê, Laura. Meu bebê."

As palavras me atingiram como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Um bebê. Nosso sonho. Um sobre o qual havíamos falado em sussurros, planejado para um futuro que agora parecia impossivelmente distante. Ele havia me prometido uma família, um legado. E agora... com ela.

Minha mente girou, uma torrente de memórias inundando meu cérebro. Os tratamentos de fertilidade, as inúmeras consultas médicas, as lágrimas silenciosas que chorei no banheiro quando me disseram que talvez nunca acontecesse. Leo me abraçou então, me confortou, prometeu que não importava, nós éramos o suficiente. Mentiras. Tudo mentiras.

Uma risada fria e oca me escapou. "Um bebê?", repeti, a palavra com gosto de cinzas. "Que... conveniente."

Os olhos de Jade piscaram, um toque de algo calculista em suas profundezas. "Ele me ama", ela insistiu, sua voz tremendo, mas a convicção se foi. "Ele ama nosso bebê."

Olhei para ela, para a mentira brilhando em seus olhos inocentes, e depois para a foto de Leo e eu, jovens e cheios de esperança. O contraste era gritante, brutal. A dor era tão profunda que quase parecia paz. Despiu toda pretensão, toda esperança, todo afeto remanescente. Não restava nada além de uma raiva gélida e ardente.

"Fique com seu bebê, Jade", eu disse, minha voz pouco mais que um sussurro, mas infundida com uma ameaça inconfundível. "E fique com ele. Porque a partir deste momento, vocês dois estão mortos para mim."

Joguei a moldura da foto no chão de madeira gasta, deixando-a se estilhaçar. Os cacos de vidro refletiam o rosto aterrorizado de Jade, um espelho adequado para a ruína que ela havia causado. Virei-me, saindo do apartamento, daquele prédio e daquela vida. Não olhei para trás. A chuva começou a cair, fria e implacável, espelhando a tempestade que rugia dentro de mim. Eu estava farta.

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