Capítulo 2

Ponto de Vista de Helena Monteiro:

O sono não veio. Revirei-me na cama king-size da suíte presidencial que Arthur mantinha para mim, os lençóis parecendo lixa contra minha pele. As luzes da cidade vazavam pelas janelas do chão ao teto, pintando padrões estéreis nas paredes. Cada sombra parecia conter o rosto furioso de Caio, cada sirene distante soava como o grito imaginado de Catarina.

Por volta das 3 da manhã, desisti. Eu estava vestindo um robe quando ouvi um clique fraco vindo da porta principal da suíte. Meu sangue gelou. A segurança neste prédio era impenetrável. Ninguém chegava a este andar sem autorização.

Antes que eu pudesse sequer pegar meu celular, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Dois homens grandes, com roupas escuras e máscaras de esqui, preencheram o vão da porta. Meu grito foi sufocado quando um deles avançou, sua mão tapando minha boca, o cheiro de café requentado e suor enchendo minhas narinas.

Eu lutei. Chutei e me debati, minhas unhas cravando no braço grosso que envolvia meu tronco, mas era como lutar contra uma parede de tijolos. O outro homem pegou um rolo de fita adesiva. Eles amarraram meus pulsos e tornozelos com uma eficiência brutal, depois colocaram um pedaço de fita sobre minha boca. Um capuz preto foi enfiado sobre minha cabeça, me mergulhando em uma escuridão sufocante e aterrorizante.

Fui jogada sobre um ombro como um saco de batatas. O movimento era brusco, minha cabeça batendo contra uma omoplata dura. Fui carregada para fora da suíte, por um elevador de serviço que eu nem sabia que existia, e para o que parecia ser o ar frio da noite de uma garagem.

A porta traseira de uma van bateu, e fui jogada no chão duro e estriado. O veículo arrancou, me jogando contra a lateral. O pânico, frio e agudo, arranhou minha garganta. Isso não era um simples assalto. Era um sequestro profissional.

Depois do que pareceu uma eternidade de curvas bruscas e paradas repentinas, a van finalmente parou. As portas traseiras rangeram ao abrir, e fui arrastada para fora pelos braços amarrados, meus pés descalços raspando no concreto áspero.

Fui empurrada por uma porta, o ar ficando denso e viciado, pesado com o cheiro de corpos sujos, perfume barato e algo metálico, como sangue velho.

Mãos rudes puxaram o capuz da minha cabeça.

O brilho repentino e ofuscante de um holofote me fez apertar os olhos. Quando os forcei a abrir, piscando contra a luz forte, meu coração parou.

Eu estava em um palco.

Abaixo de mim, um mar de rostos lascivos me encarava. Homens, na maioria. Ricos, velhos e predadores. Seus olhos percorriam meu corpo, vestido apenas com uma fina camisola de seda, com uma fome que revirava meu estômago. Era algum tipo de leilão, um leilão clandestino e imundo realizado em um galpão que fedia a podridão.

"Me soltem!" Minha voz era um grito abafado contra a fita adesiva. "Vocês não têm ideia de quem eu sou! Eu sou Helena Monteiro!"

Um homem de aparência gordurosa, com um terno barato, subiu ao palco, um microfone na mão. Ele riu, um som úmido e ruidoso.

"Heleena Monteiro? Claro, gracinha. E eu sou o Rei da Inglaterra", ele zombou no microfone. A multidão riu. "Agora, cavalheiros, vamos começar os lances por esta bela peça de mercadoria. Fresquinha, como podem ver. Vamos começar com quinhentos mil reais!"

O caos explodiu. Mãos se ergueram no ar. Números eram gritados, cada um mais alto que o anterior.

"Um milhão!"

"Um milhão e oitocentos!"

"Dois milhões e meio!"

Eu me debatia contra minhas amarras, gritando por trás da fita, mas meus apelos se perdiam nos lances frenéticos. Eu não era mais uma pessoa. Era um objeto, um prêmio a ser ganho. O preço subia com uma velocidade aterrorizante — cinco milhões, dez milhões, vinte. Meu terror era uma coisa viva, um animal selvagem preso no meu peito, arranhando para sair.

"Vendido!", o leiloeiro finalmente gritou, batendo um martelo. "Para o cavalheiro no fundo por cinquenta milhões de reais!"

Uma onda de enjoo me atingiu. Tinha acabado. Eu havia sido vendida.

Dois guardas desamarraram meus pés e me arrastaram para fora do palco, por um corredor escuro, e me empurraram para uma sala pequena e sem janelas. A porta bateu, a fechadura clicando com uma finalidade ensurdecedora.

Um momento depois, a porta se abriu novamente. Um homem corpulento, com a testa suada e olhos pequenos e porcinos, entrou. Ele segurava uma taça de champanhe. Ele era meu comprador.

"Cinquenta milhões de reais", disse ele, a voz escorregadia como lodo. "É melhor você valer a pena." Ele deu um passo mais perto, seu olhar rastejando sobre mim. "Embora eu tenha que dizer, Caio Almeida não estava mentindo. Você é uma beleza."

O nome me atingiu como um soco. Caio.

"O que você disse?", murmurei através da fita.

O homem sorriu, uma torção grotesca de seus lábios. Ele estendeu a mão e arrancou a fita da minha boca. Eu ofeguei, a pele em carne viva ardendo.

"Eu disse, Caio Almeida manda lembranças", repetiu o homem, saboreando meu choque. "Ele disse que você precisava aprender uma lição. Que você se achava melhor que ele. Ele te vendeu para mim. Bem, não vendeu, exatamente. Ele te deu para mim. Como um presente. Por nossos negócios passados."

A sala girou. O ar fugiu dos meus pulmões. Caio. Caio fez isso. Ele não apenas me deixou, ou me traiu. Ele orquestrou isso. Ele me jogou aos lobos para ser despedaçada. O homem que eu construí, o homem que eu amei, tinha acabado de tentar me fazer ser estuprada e quebrada pelo crime de tê-lo deixado.

O homem, meu comprador, deu outro passo. "Não se preocupe, vou cuidar bem de você. Caio disse que eu podia me divertir, e depois ele... recolheria o que sobrasse."

Sua mão alcançou a alça fina da minha camisola. Eu recuei, me pressionando contra a parede fria e úmida.

"Não me toque", sibilei, minha voz tremendo. "Eu te dou o dobro do que ele te deve. Cem milhões. Eu posso te dar cem milhões de reais. Apenas me deixe ir."

Ele riu. "Querida, não é mais sobre o dinheiro."

O terror, puro e absoluto, inundou cada célula do meu corpo. Minha mente ficou em branco. Era isso. Era assim que terminava. Despida do meu nome, do meu poder, da minha dignidade, em uma sala imunda à mercê de um monstro.

Ele avançou, seus dedos gordos agarrando a seda do meu vestido. O tecido rasgou com um som doentio.

Um grito rasgou minha garganta, cru e desesperado.

E então, o som de madeira se partindo. A porta da sala voou das dobradiças, caindo no chão com um estrondo explosivo.

Emoldurado na porta, silhueta contra a luz fraca do corredor, estava Caio. E agarrada ao seu braço, espiando para dentro da sala com olhos grandes e falsamente inocentes, estava Catarina.

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Capítulo 3

Ponto de Vista de Caio Almeida:

A visão de Helena, com a camisola rasgada, o rosto pálido de terror, me atingiu como um soco no estômago. Por uma fração de segundo, um instinto primitivo e protetor surgiu em mim. Eu queria matar o desgraçado gordo que estava sobre ela.

Então Catarina ofegou, um som pequeno e teatral, e pressionou o rosto no meu braço. "Oh, Caio, isso é horrível! Ela está bem?"

O toque dela foi como um interruptor sendo acionado. O lampejo de preocupação por Helena desapareceu, substituído por uma raiva quente e justificada. A culpa era de Helena. Toda ela. Se ela não tivesse sequestrado Catarina, se não tivesse tentado forçar um aborto, se não tivesse sido tão difícil, nada disso teria sido necessário. Eu tinha que ter meu filho de volta. Essa era a única maneira de assustá-la para que obedecesse.

"Helena", eu disse, minha voz fria, mascarando o tremor que senti momentos antes. "Você procurou por isso."

A cabeça dela se ergueu. Seus olhos, aqueles olhos azuis brilhantes que costumavam me olhar com tanto amor, agora estavam cheios de uma mágoa tão profunda que era quase negra. A dor em seu olhar era uma coisa física, e me atingiu mais forte do que seu tapa jamais havia feito.

"Você... você fez isso?", ela sussurrou, a voz falhando.

"Eu fiz o que tinha que fazer", retruquei, desviando. "Você não me deixou escolha quando levou a Cah. Você ameaçou meu filho." Dei um aperto reconfortante no ombro de Catarina.

Helena soltou uma risada, um som quebrado e histérico que ecoou na pequena sala úmida. "Seu filho? O filho que você ia pagar para ser raspado do útero dela ainda ontem?"

"Isso foi antes de você me provocar!", disparei, minha voz se elevando. "Antes de você jogar nossa vida fora por algum babaca rico! Você me humilhou, Helena. Você me fez de idiota."

Ela apenas me encarou, a risada morrendo em seus lábios, deixando para trás uma calma assustadora. "Eu te fiz de idiota?", ela repetiu suavemente. "Não, Caio. Eu te fiz. E você foi o idiota que pensou que eu não poderia te desfazer."

Um arrepio percorreu minha espinha.

Ignorei e me virei para o porco gordo, Mendonça. "Saia. Já paguei pelo seu trabalho."

Mendonça lambeu os lábios, os olhos ainda fixos em Helena. "Mas o acordo era..."

"O acordo é o que eu digo que é. Agora suma da minha frente antes que eu mude de ideia sobre deixar você sair daqui vivo." Minha voz era baixa e ameaçadora. Eu tinha poder agora, e não tinha medo de usá-lo.

Ele se esgueirou para longe como o rato que era.

Catarina deu um passo à frente, o rosto uma máscara perfeita de simpatia. "Oh, Helena, sinto muito que isso tenha acontecido. Você está bem? O Caio estava tão preocupado com o bebê, não estava pensando direito."

Passei o braço pelos ombros de Catarina. "Nunca mais toque nela, Helena. Nunca mais chegue perto do meu filho. Você me entendeu? Isso foi um aviso. Da próxima vez, eu não estarei aqui para cancelar."

Catarina arrulhou: "Caio, não seja tão duro. Ela passou por muita coisa." Ela estava bancando a pacificadora, a alma gentil pega no meio. Era uma boa atuação.

"Eu vou proteger você e este bebê com a minha vida, Cah", eu disse, olhando diretamente para Helena. "Ninguém nunca mais vai te machucar."

Com um último olhar demorado para a expressão devastada de Helena, virei-me e conduzi Catarina para fora da sala, deixando Helena sozinha nos destroços que eu havia criado.

Enquanto nos afastávamos, eu podia sentir os olhos de Helena nas minhas costas. Lembrei-me de uma vez, anos atrás, quando um bêbado em um bar foi agressivo comigo. Eu era apenas um músico falido na época. Helena, minha quieta e despretensiosa Helena, se interpôs entre nós, olhou o homem nos olhos e disse: "Toque nele e você perde a mão." O homem riu, mas algo na voz dela o fez recuar.

Mais tarde naquela noite, eu a abracei e sussurrei: "Você é minha protetora."

Ela sorriu e prometeu: "Sempre."

Essa promessa agora parecia um fantasma, um membro fantasma que doía com uma dor que eu me recusava a reconhecer. O garoto que precisava daquela proteção se foi. Eu era um rei agora, e reis não precisam de proteção. Eles pegam o que é deles.

Mas quando a porta se fechou atrás de mim, deixando Helena no escuro, não consegui afastar a sensação de que não tinha apenas lhe ensinado uma lição. Eu havia destruído algo insubstituível.

O pensamento era aterrorizante, então o reprimi, enterrando-o sob a nova onda de raiva e justificação. Ela merecia. Ela me traiu primeiro.

Eu tinha que acreditar nisso.

Ponto de Vista de Helena Monteiro:

Ele foi embora. Ele simplesmente se virou, com o braço em volta dela, me deixando na sala fria e fedorenta com os pedaços rasgados da minha camisola e o fantasma de sua traição.

Deslizei pela parede até sentar no chão imundo. Abracei meus joelhos e encarei a porta vazia.

Ele havia prometido me proteger. Sempre.

O garoto por quem me apaixonei, aquele com fogo nos olhos e um violão nas mãos, teria morrido antes de deixar alguém encostar um dedo em mim. Mas aquele garoto se foi. O sucesso e a insegurança o envenenaram, o transformaram neste monstro cruel e arrogante que me via como nada mais que um obstáculo, uma posse a ser punida.

As lágrimas que eu pensei terem acabado começaram a cair novamente, quentes e silenciosas. Mas não eram lágrimas por ele. Eram por mim. Pela tola que eu fui. Pelos cinco anos que desperdicei em uma mentira.

Eu não choraria por ele novamente. Nenhuma lágrima a mais.

A porta rangeu ao abrir. Um dos meus seguranças pessoais, um homem chamado Marcos que eu mantinha de prontidão, entrou. Ele estava me seguindo desde que deixei Caio, uma precaução que agora eu percebia ter sido terrivelmente insuficiente.

"Senhora", disse ele, a voz gentil. Ele colocou o paletó sobre meus ombros. "Está ferida?"

Ele tentou me oferecer um sedativo do kit de emergência, mas afastei sua mão. Eu não queria ficar entorpecida. Eu queria sentir isso. Eu precisava que a raiva queimasse os últimos vestígios de amor que eu tinha por Caio Almeida.

"Estou bem", eu disse, a voz rouca. Levantei-me, apertando o paletó em volta de mim.

Ele iria pagar. Ambos iriam pagar. Caio por sua crueldade, Catarina por sua ganância. Eu construí seu império do zero com meu dinheiro e meus contatos.

Agora, eu teria prazer em derrubar tudo.

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