O homem coloca o charuto na boca e começa a dar tragadas como sua despedida diante da criatura que deixa a sua voz soar de uma forma alarmante.
— Nada mais posso fazer além de me render. — O homem diz internamente.
A criatura estica o seu braço na direção do homem e este solta a fumaça do charuto na cara da coisa que está se aproximando com o intento de acabar com a sua vida.
Repentinamente a criatura recua dando três passos para traz e começa a cambalear como se estivesse embriagado.
— O quê? O maldito está recuando?
O homem tira o charuto da sua boca, olha para o objeto que cospe fumaça e volta o seu rosto para a criatura que não pára de rugir e cambalear como se estivesse a sentir uma dor intensa.
Ele não sabe o que está acontecendo e enquanto a coisa cambaleia sem nenhuma direção, ele ganha a coragem e aproveita o momento para fugir, sair do quarto para longe da criatura e salvar a sua vida.
Ele corre com toda a velocidade que consegue até que se vê fora da casa. No entanto, do lado de fora observa uma enorme nave em destroços, algo que não parece pertencer ao planeta terra.
— Alienígenas? — é a primeira palavra que lhe aparece em mente.
Não escuta nenhum som além da sua respiração e o céu continua vermelho que vai se intensificando aos poucos. Ele não sabe dizer se é noite ou é dia, pois tudo está tão monótono.
A criatura já não deixa o seu rugido soar até chegar no lado de fora da casa.
A fome começa lhe atacando e uma grande vontade de voltar a casa para algo comer lhe invade, porém o medo de voltar a encontrar aquela criatura no interior do edifício é enorme e lhe impede.
Ele pára e olha para a entrada da casa e isso lhe dá a chance de ver a porta com detalhes onde tem um nome escrito. Olha com mais atenção para ver bem, pois é um nome que não é tão visível.
— Punkson — ele lê bem devagar e isso lhe convida uma memória perdida.
Na sua memória vê um jovem idêntico a ele escrevendo o nome na porta e sorrindo com toda veemência.
— É meu nome.
Ele se lembra do seu nome. Ele é Punkson.
— Não pode ser, esta enorme casa é minha. Quem sou eu? — ele coloca a pergunta para si mesmo com os olhos fixos na porta.
Com a mão esquerda ele organiza o seu comprido e liso cabelo atrás das orelhas e com a outra mão manuseia o seu charuto. Dá uma tragada demorada e não faz nada além de parar e olhar para a porta.
Aí ele se lembra de uma forma natural como correu até a casa quando foi perseguido pela coisa minutos atrás. As suas memórias estão voltando aos poucos e o que lhe fez pensar logo numa nave alienígena foi o noticiário que ele viu na sua TV, na sala antes de se esconder no quarto.
— O número de vítimas está aumentando a cada dia que passa, os Zralkies estão atacando em todas as regiões de Moamba, principalmente a cidade de Orge. — Soa na sua consciência o que viu na TV.
Punkson ainda na porta tenta se esforçar para montar as peças para achar um sentido de tudo o que está acontecendo ali e para piorar, não sabe se há uma possibilidade de encontrar outros sobreviventes além dele mesmo.
Ele respira fundo, senta na superfície com as pernas cruzadas e reza com a esperança que encontre mais pessoas que tenham escapado das excêntricas coisas que estão atacando os humanos sem nenhum freio.
Depois da reza ele levanta e se apercebe que a coisa que deixou no interior da sua casa não rugia e nem soava os passos da mesma. Ele olha para o céu, deixa o seu charuto escapar da sua boca e volta os seus olhos para a entrada da porta.
— Será que é isso que estou pensando? — ele se pergunta olhando fixamente para a entrada e o seu coração já parou de batucar no interior do peito.
Ele imagina que haja uma grande probabilidade de a criatura ter morrido por conta da oração que fez segundos atrás. Uma onda de coragem lhe faz voltar a entrar na casa e antes de tudo testa os interruptores para ligar as lâmpadas da casa e poder visualizar tudo com toda clareza.
Logo no primeiro interruptor que pressiona a lâmpada liga e tudo na sala fica iluminado. Misteriosamente tudo no espaço está bem organizado exceto os lugares por onde passou quando estava fugindo da coisa esquelética.
A fome cresce a passos largos e o homem não pensa em mais nada além de matar a fome para depois verificar se a criatura morreu de fato. É uma vontade fora da razão, pois mesmo sabendo que está diante de um grande perigo, mas ainda assim prefere se dirigir a cozinha para poder comer algo e matar por completo o que lhe incomoda; a terrível fome.
Ele caminha até a cozinha, antes de chegar sente um cheiro familiar que lhe recupera uma memória muito importante que não devia ter sido perdida. Punkson se lembra que aquela comida que lhe recebe na cozinha é a favorita da sua amada filha, no entanto ele já não se lembra do nome dela o que lhe incomoda de uma forma agonizante.
Ao chegar na cozinha, Punkson pressiona o interruptor e a lâmpada traz a sua luz intensa onde o homem consegue ver uma cozinha bem organizada como se tivesse passado pelas mãos femininas.
Ele olha para cada detalhe e não consegue acreditar no que está vendo diante de si.
— Quem está morando aqui? Será que fui eu que fiz tudo isso? — As palavras soam na sua mente, mas não há ninguém para confirmar o que ele está achando.
Na mesa tem um frango assado e arroz de cenoura ainda deixando dançar o vapor que denuncia que a comida é recém feita.
Como uma pessoa qualquer, o homem hesita em correr até a comida para servir e comer, pois questões começam a lhe perturbar a mente.
— Quem está morando aqui?
De repente, os passos começam a soar na direção da cozinha, mas nenhum rugido soa. São passos leves e preguiçosos.
O coração do Punkson começa a batucar dentro do peito novamente.
O que será que está vindo desta vez?
Continua...
Punkson tem sorte, pois ao olhar para um dos cantos da cozinha consegue ver uma arma AKM ao lado de uma geleira. Rapidamente ele vai até a ela, pega e se posiciona para ameaçar o seu inimigo e preparar-se para atirar caso seja necessário. Ele respira ofegante. Primeiro , organiza o seu cabelo colocando atrás das orelhas diversas vezes à medida que os passos do seu inimigo soam em direção do lugar onde está a cozinha.
Não demora e o dono dos passos aparece na entrada do espaço, Punkson sem pensar duas vezes e sem ver o que é ou quem é, pressiona o gatilho, mas nenhuma bala abandona a arma .
— Muitas guerras travamos e todas elas começaram assim. — palavras soam vindo de uma uma outra pessoa diferente do Punkson.
Os olhos do homem do terno branco começam a deixar lágrimas mornas transbordar das suas órbitas.
O dono dos passos é um homem com uma grande massa corporal com um chapéu e um palito na boca, também com duas pistolas, uma em cada mão apontando e prestes a atirar contra o outro.
— Pai...
— Darkin?
— Você... está vivo? — diz o homem sem acreditar no que acaba de ouvir.
— Felizmente... eu te amo. — Punkson diz e as suas lágrimas apenas continuam a escapar dos seus olhos diante do seu pai.
— Eu... — com um ar triste o homem diz direcionando a sua mão direita ao chapéu como se quisesse ajustar.
— Não precisa dizer agora. Eu sei que ainda não me perdoou, eu entendo.
— Agora não é o momento. — diz o pai do Punkson e volta a colocar as duas pistolas de onde tirou.
Punkson abaixa a arma e corre até ao pai para lhe dar um abraço, mas o outro logo que sente o filho rejeita-o.
— O que houve com os seus olhos? — Punkson pergunta com uma grande preocupação.
— É isso mesmo que você está vendo.
— Não pode ser.
— Relaxa, apenas fiquei cego, mas ainda posso lutar contra os Zralkies.
— Sinto muito. Mas o que são Zral...
— Zralkies.
— Exato.
— Não sei ao certo o que são, só tenho certeza que são nossos inimigos. — o homem diz passando a mão na sua enorme barriga e caminha lentamente até a geleira onde leva uma garrafa de álcool e uma arma dourada. — Toma, você vai precisar disto. — ele diz entregando ao seu filho e como se estivesse a evitar o assunto.
Punkson recebe a arma e em seguida com as costas da mão direita limpa as suas lágrimas.
— Pai... Você disse Darkin?
— Esperava que dissesse outra coisa além do seu nome? Espera, você também está tendo lapsos graves de memória?
— Bem, perdi uma boa parte da minha memória e estou recuperando aos poucos, mas sempre me pergunto a mesma coisa. O que está acontecendo comigo. — O homem do terno branco diz e em seguida faz uma pausa para analisar as palavras do seu pai e em seguida continua — Como assim eu também estou tendo lapsos graves de memória?
— É que a sua mãe antes de morrer também apresentava os mesmos lapsos que tu apresentas. Se esquecia de coisas simples como nomes, apelidos...
— Não, não... — diz Punkson com uma voz derrubada e cai no chão de joelhos com as lágrimas voltando a rolar para o chão saindo das suas esferas de visão. — Porquê está acontecendo tudo isto? Ela não podia morrer...
— Na verdade ninguém. — o homem cego diz.
Punkson não consegue acreditar que a sua mãe morreu e o que mais lhe consome é ter perdido as memórias de uma forma estranha que não consegue compreender.
— O que houve com ela, como é que morreu? — Punkson questiona ao seu pai que calado olha para o filho sem nenhuma resposta. — Pai, por favor me responda.
O homem nada responde apenas olha para o filho e em seguida diz:
— Vamos comer antes que a comida arrefeça, mas primeiro tome esta munição para ter um bom apetite... vais precisar. — O homem com um tom frio dá ao outro munição para usar na sua arma dourada e leva a comida por ele confeccionada para sala.
Com a munição na mão, Punkson olha para a parede que exibe uma fotografia onde ele faz parte. Ele vê os seus pais abraçando ele e a sua irmã que exibe um sorriso lindo e inocente. Ao lado da mesma foto tem um nome escrito; Thomas Punkson. É aí que ele descobre que "Punkson" não é o seu nome, no entanto, sim, seu apelido e o seu nome foi pronunciado pelo seu pai que é Darkin.
Darkin leva a munição e coloca na arma e depois sai da cozinha para a sala onde o seu pai está. Olha para o seu progenitor e diz:
— Eu vou comer consigo, mas primeiro quero ter certeza que a criatura que está nesta casa morreu ou ainda está rondando por aqui.
— Que criatura? — pergunta o pai dele, mas depois percebe do que o filho está falando. — Zralky.
— Me conte mais sobre isso, parece que sabe de alguma coisa sobre...
— Vamos comer. — o homem friamente diz ao jovem do terno branco e não se demora para começar a comer.
— Certo, bom apetite — Darkin diz e não demora a se dirigir ao quarto onde se escondeu quando fugia da criatura esquelética.
Organizou a sua arma dourada, presente do seu pai.
Vai e chega no quarto andando lentamente com a arma apontando a frente com cautela e olhando para todos os lados, mesmo com o medo lhe tentando dominar. Ele estando na entrada e não vendo nada com clareza, atento, estica a sua mão até ao interruptor e pressiona, a lâmpada do espaço fica ligada e aí ele tem uma das maiores imagens diante dele. Ele não pode acreditar, pois nunca viu uma coisa tão cruenta como o que está vendo, simplesmente horrendo.
Darkin continua apontando e o seu alvo está bem ali diante dele...
Continua...