Bia Souza estava na porta, um sorriso brilhante e inocente estampado no rosto. Ela segurava uma bolsa térmica nas mãos.
"Dante! Trouxe aquele filé que você adora!", ela chilreou, os olhos arregalados e cheios de adoração.
Os Almeida congelaram. O timing era perfeito demais, condenatório demais. O ar na sala ficou denso com verdades não ditas.
Eu quase tive que rir. Bia vinha aparecendo em nossa casa com frequência crescente, sempre sob o pretexto de trabalho, sempre nos momentos mais "coincidentes". Na semana passada, ela "esqueceu" um arquivo e precisou buscá-lo em um sábado de manhã. Ela já tinha o código de segurança do nosso portão da frente.
Percebendo a tensão, o sorriso de Bia vacilou. Ela fingiu preocupação. "Ah, estou interrompendo alguma coisa? Posso só deixar isso e ir embora."
"Não, fique!", disse Dante, a voz urgente. Ele praticamente me empurrou para o lado enquanto corria até ela, sua linguagem corporal um escudo entre Bia e eu.
Ele pegou a bolsa dela, seu toque demorando em suas mãos. "Você é tão atenciosa", ele murmurou, a voz carregada de uma ternura que ele não me mostrava há anos.
Era um eco doloroso. Essa era a voz que ele costumava usar para mim, na época em que precisava de mim, antes de seu nome estar na capa das revistas de arquitetura.
Ele levou Bia para a mesa de jantar, sentando-a na cadeira bem ao lado da dele, um espaço que sempre foi implicitamente meu.
"Viu, Clara?", Dante anunciou para a sala, a voz alta e performática. "Isso é consideração. A Bia sabe que eu gosto de um filé simples e bem feito. Não... isso." Ele gesticulou com desdém para as minhas vieiras.
Olhei para o filé que ela havia trazido. Era de um boteco barato do centro. Eu conhecia cada corte de carne que Dante gostava, como ele gostava que fosse cozido, o açougue específico que ele preferia. Ele odiava bife barato.
Ou pelo menos, costumava odiar. Agora, suas preferências eram as mesmas de Bia. Não era sobre a comida; era sobre a pessoa que a trouxe.
Uma onda de amarga percepção me invadiu. Ele não estava apenas substituindo minha comida; ele estava me substituindo por completo.
Bia, aproveitando a atenção, produziu mais presentes. "Sr. Almeida, eu trouxe isso para o senhor", disse ela, entregando a Júlio uma pequena caixa mal embrulhada. Era um prendedor de gravata barato, do tipo que se encontra em uma loja de departamento.
"Que maravilha! Uma jovem tão atenciosa", bradou Júlio, seu elogio embaraçosamente alto.
Meu estômago se revirou. Lembrei-me do relógio vintage de milhares de reais que encontrei para o aniversário de Júlio no ano passado. Ele mal havia grunhido em reconhecimento.
Em seguida, Bia se virou para Griselda. "E Sra. Wagner, para a senhora." Ela apresentou um lenço de seda. Eu podia dizer a três metros de distância que era uma imitação barata de um design que eu mesma havia admirado no mês passado.
"Oh, é adorável, querida", Griselda se derreteu, enrolando o tecido barato em volta do pescoço. "Você tem um gosto tão requintado." Ela sabia que era falso. Ela era uma mulher que conseguia identificar uma falsificação do outro lado da sala. Eles estavam fazendo isso de propósito.
Então, Griselda desferiu o golpe final. Ela olhou de Bia para mim, sua expressão uma mistura de pena e triunfo. "Sabe, Bia, você seria uma adição maravilhosa a esta família."
Não era uma sugestão. Era uma declaração. Eles estavam publicamente testando minha substituta bem na minha frente.
Algo dentro de mim se quebrou. A represa cuidadosamente construída que continha oito anos de raiva e humilhação se rompeu.
Meu coração começou a bater contra minhas costelas, uma batida frenética de fúria.
Com um grito que foi arrancado do fundo da minha alma, eu avancei e varri a mesa com o braço.
Vieiras, taças de vinho e talheres voaram pelo chão em uma explosão caótica de vidro e porcelana.
Todos pularam para trás, seus rostos uma máscara de choque.
"Que porra há de errado com você?", Dante gritou, o rosto contorcido de raiva. "Você está louca?"
Júlio e Griselda me encararam, o choque rapidamente se transformando em fúria fria. Eles me empurraram e me empurraram, e agora que eu finalmente havia quebrado, eles me olhavam como se eu fosse o monstro.
"Se eu estou louca?", retruquei, uma risada selvagem e histérica borbulhando do meu peito. O som era rouco e feio. "Depois de oito anos nesta casa, estou surpresa por não estar."
Minha risada se transformou em um rugido de pura raiva. Peguei o vaso mais próximo — uma peça ridiculamente cara que Griselda nos dera de presente — e o atirei contra a parede. Ele se estilhaçou em mil pedaços.
Então fui para a coleção premiada de prêmios de arquitetura de Dante, aqueles com o nome dele gravado, mas com meu gênio por trás deles. Eu os varri da lareira, seu som metálico no piso de madeira uma satisfação profunda de destruição.
Júlio e Griselda recuaram, os rostos pálidos de medo. Eles nunca tinham me visto assim. Eles só conheciam a Clara quieta, complacente e útil.
"Clara, pare!", gritou Bia, correndo para a frente com uma falsa demonstração de preocupação.
"Fique longe dela!", gritou Dante, puxando Bia para trás dele. Ele me olhou com puro desprezo. "Ela só está tendo um chilique."
Suas palavras me atingiram mais forte do que um golpe físico. Um chilique. Ele descartou minha dor, minha raiva, meu colapso completo como um ataque infantil.
E assim, o fogo dentro de mim se apagou, substituído por uma calma glacial. A loucura recuou, deixando apenas um silêncio vazio e ecoante em seu lugar.
"Limpe isso", ordenou Dante, sua voz voltando ao seu tom de comando usual. Ele realmente acreditava que, depois disso, eu varreria humildemente os cacos de nossa vida quebrada e tudo voltaria ao normal.
Eu não disse uma palavra. Apenas me virei e caminhei silenciosamente em direção ao quarto.
"Dante, talvez você devesse ir com ela", sugeriu Bia, a voz escorrendo falsa simpatia. Ela sabia que ele não iria. Estava apenas desempenhando seu papel.
"Ela está bem", zombou Dante. "Ela faz isso para chamar a atenção. Ela vem de uma origem simples, sabe. Não aprecia as coisas boas da vida." Seu olhar seguiu minhas costas em retirada, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos.
"Vamos embora", disse Griselda impacientemente. "Esta noite está arruinada. Deixe a empregada limpar."
Os três rapidamente pegaram suas coisas e se dirigiram para a porta, me deixando sozinha nos destroços.
Enquanto saíam, Júlio parou e gritou, a voz fria e dura. "Lembre-se do seu lugar, Clara. Você é uma Almeida agora. Seu dever é suportar. Sem nós, você não é nada. Toda a sua carreira é por causa desta família."
Fiquei na porta do meu quarto e ouvi a porta da frente se fechar. Nada. Ele achava que eu não era nada sem eles. Por oito anos, eu derramei cada gota do meu talento, da minha energia, da minha vida naquele escritório. Eu sacrifiquei meu próprio nome pelo dele. E eles achavam que tinham me feito.
Olhei para a bagunça na sala de jantar. Não era um lar. Era um palco para uma performance que eu não estava mais disposta a dar.
A ilusão romântica do amor havia morrido há muito tempo.
Fui até a lareira, tirei nosso retrato de casamento e o joguei nas brasas agonizantes. Observei os rostos sorridentes de nossos eus passados se curvarem e virarem cinzas. Então encontrei o brasão da família Almeida emoldurado que pendia no corredor e o espatifei no chão.
Entrei no quarto e peguei uma mala. Embalei apenas o que era meu. Minhas roupas, meus livros pessoais e meu portfólio de projetos original — aquele em um disco rígido seguro e criptografado.
Então, sentei-me na beira da cama e peguei meu celular. Enviei uma mensagem de texto para a única pessoa que Dante temia e respeitava na indústria: seu principal concorrente, Bruno Ramalho.
"Bruno, é a Clara Mendes. Eu deixei o Dante. Preciso de um lugar para ficar e estou procurando um novo emprego. Estou com meu portfólio."
Meu celular vibrou quase instantaneamente. Uma resposta de Bruno.
"Já era hora. A suíte de hóspedes da minha cobertura é sua. Estou abrindo uma garrafa de champanhe. Bem-vinda ao time vencedor."
Uma foto se seguiu: uma garrafa de Dom Pérignon gelando em um balde de gelo.
Eu sorri pela primeira vez em anos. Bruno vinha tentando me contratar há anos, dizendo que sabia que eu era o verdadeiro talento por trás do escritório Almeida. Eu sempre recusei por um senso equivocado de lealdade.
Minha principal motivação não era Bruno, nem o emprego, nem o dinheiro. Era provar para Dante, para sua família e para o mundo que eles não me fizeram. Eles apenas me seguraram.
Eu queria ver o escritório Almeida desmoronar sem mim. Eu queria vê-los perceber que o "nada" que eles descartaram tão descuidadamente era, na verdade, tudo.
Horas depois, os Almeida voltaram, suas risadas ecoando no hall de entrada. Eles esperavam me encontrar, arrependida e limpando.
Em vez disso, encontraram os destroços, agora frios e silenciosos.
"Clara!", gritou Griselda, a voz cheia de indignação. "Onde está essa mulher?"
Dante viu o brasão da família espatifado no chão. Então ele viu as cinzas na lareira, a forma distinta de uma moldura de quadro ainda visível. Seu rosto ficou pálido. Uma emoção indecifrável brilhou em seus olhos — não apenas raiva, mas algo como medo.
"Acho que... acho que ela foi embora por minha causa", disse Bia, fingindo inocência.
"Não é sua culpa, Bia", disse Dante automaticamente, confortando-a. "Ela é instável."
Ele pegou o celular e foi para o escritório para me ligar.
"Clara, onde diabos você está?", ele exigiu, a voz um rosnado baixo de posse.