Capítulo 2

DAIANA

Dizem que cada mulher nasce com um destino traçado, umas para amar, outras para obedecer.

Mas eu, Daiana Miriam Sánchez Rodríguez, nasci para desafiar o que estava escrito.

Eu sempre fui considerada a ovelha negra da família Rodríguez.

Não por falta de amor, nem por desobediência pura, mas porque dentro de mim nasceu algo que não cabia entre as cercas, os cavalos e as tradições que sustentavam o nome dos Rodríguez desde tempos de guerra e poeira.

Enquanto minhas primas bordavam enxovais, eu e minha irmã aprendemos a domar potros e medir o valor de um homem pelo tamanho de sua fazenda, passava as tardes observando o horizonte, sonhando com o que havia além das colinas de Albuquerque. O cheiro da terra molhada depois da chuva era doce, mas o que eu queria sentir era o vento de outros mundos.

O campo me sufocava com sua rotina, cercas, rezas, cavalos e silêncios. Diziam que eu era teimosa, que não tinha o temperamento de uma dama.

Mas o que ninguém compreendia é que dentro de mim havia um fogo antigo, herdado talvez das mulheres que ousaram escolher o próprio caminho e pagaram caro por isso.

Todos pareciam nascer com o cheiro de terra impregnado na pele e o som dos cascos como trilha da vida, eu nasci com a alma inquieta. Nasci com o cheiro de terra molhada, sim, mas também com o coração pulsando como o silvo distante de uma locomotiva que corta as colinas de Albuquerque, levando embora os sonhos daqueles que têm coragem.

E eu tive coragem.

Ou loucura.

Às vezes não sei dizer.

Eu queria ver o mundo, respirar outros ares, descobrir quem eu realmente era e qual seria o meu destino longe dos limites traçados pelo sobrenome que carregava. Mas, na minha família, querer mais era um pecado. E mulher que sonhava alto demais era logo chamada de ingrata.

Meu pai, don Eduardo Rodríguez, era homem de ferro e silêncio. Carregava no olhar o peso da honra e na voz o aço do comando. Acreditava que o destino de uma filha era casar-se cedo, gerar herdeiros robustos e preservar o nome da família.

Mas eu não nasci para pertencer.

Nem a ele, nem a ninguém.

Minha mãe, doçura resignada, sempre dizia que eu trazia o temperamento das mulheres de antes da queda, aquelas que olhavam os homens nos olhos e falavam sem pedir licença.

Talvez fosse verdade.

Desde menina, eu sonhava em tocar os céus com as próprias mãos. Queria entender a vida das plantas, o instinto dos animais, os segredos que faziam a terra florescer ou morrer.

Mas, naquela época, moça que falava em ciência era vista como heresia.

E mulher que sonhava em estudar... era vista como louca.

Nosso maior rival sempre foi a família Hernández. O ódio entre nós era tão antigo que ninguém sabia dizer ao certo como começou. Apenas que devia continuar.

Meu pai os detestava com uma devoção quase religiosa. Bastava ouvir aquele nome para o rosto dele endurecer e a voz se transformar em uma linha cortante de rancor. Quando meu pai pronunciava o nome "Hernández", a voz dele se tornava fria como lâmina. Eu cresci ouvindo que os Hernández eram arrogantes, gananciosos, que roubavam terras e corações, além de frios e que um Rodríguez decente jamais deveria sequer cruzar o olhar com um deles.

E, no entanto, havia algo no proibido que me atraía como o som distante de um violão em noite de lua.

Alguns diziam que começou por causa de uma cerca mal traçada, outros juraram que fora por uma mulher, ninguém sabia ao certo. Só sabíamos que o ódio era parte do sangue.

De qualquer forma, era um ódio sagrado.

Meu pai não suportava sequer ouvir o nome deles.

E quando o vento trazia o som dos cascos vindos das colinas dos Hernández, ele cuspia no chão e murmurava uma oração em castelhano antigo, como se exorcizasse o próprio diabo.

O que é proibido sempre tem o sabor do mistério.

Mas eu, em segredo, achava tudo aquilo... fascinante. Não entendia o motivo de tanta raiva.

Os limites, os perigos, o proibido.

E, sobretudo, o nome que ecoava nos murmúrios das moças da cidade: Alejandro Hernández.

Nunca cheguei a conhecer pessoalmente o senhor Ethan Hernández nem seu filho, o herdeiro da fazenda "Doze Estrellas" e as histórias sobre ele corriam como o vento entre as colinas.

Diziam que era cowboy sedutor, o mais belo de todos os pecados e perigoso, com o olhar dos homens que carregam pecados demais no peito, o tipo de homem que não se olhava duas vezes sem se perder, que arrancava suspiros e deixava corações em ruínas, um predador de sorrisos, que se alimentava do desejo alheio e desaparecia antes do amanhecer.

Montava um cavalo negro como a noite, e as moças da cidade suspiravam quando o viam passar. Algumas juravam que ele sorria com um canto da boca, como quem promete e ameaça ao mesmo tempo. Outras diziam que ele era frio, incapaz de amar.

Alto, moreno, cavaleiro de olhos como noite antes da chuva. As moças suspiravam quando ele passava montado em seu cavalo preto, o chapéu sombreando os olhos e o cigarro pendendo dos lábios.

Filho de don Ethan e dona Bárbara Hernández, irmão de Victória, o mesmo homem que meu pai chamava de ladrão de gado e assassino de honra.

Eu ouvia as histórias e fingia desinteresse, mas, no fundo, imaginava quem seria esse homem que fazia o tempo parar na pequena Albuquerque.

A vida entre as colinas e os rios secos, era sempre a mesma. Os dias começavam com o sol dourando os campos e terminavam com o sino da capela marcando o silêncio.

E naquele silêncio, o tédio crescia.

Tédio é perigoso, sabe?

É no tédio que o destino planta as sementes da mudança.

Meus avós maternos, que viviam na Cidade do México, escreveram-me uma carta.

Convite, bênção e fuga disfarçada.

Queriam que eu passasse uns meses com eles, para "ver o mundo", diziam. Meu pai, claro, reagiu como um touro ferido, disse que a cidade era antro de perdição, que moça decente não andava sozinha entre desconhecidos, que devia viver sob o olhar do pai e, depois, sob o do marido.

Mas eu insisti, com lágrimas e palavras afiadas.

Infernizei sua paciência até o limite.

E quando uma mulher Rodríguez decide algo... nem o orgulho de um patriarca consegue detê-la. No fundo, ele temia que eu descobrisse o mundo... e gostasse dele.

Capítulo 3

Parti no trem ao amanhecer.

A locomotiva rugiu como fera viva, cuspindo fumaça e promessas. E ali, entre o ranger do ferro e o cheiro de carvão, nasceu a minha liberdade. Não levei muita coisa, apenas um vestido azul, um terço, uma Bíblia herdada da minha avó e o coração latejando com medo e esperança.

A Cidade do Mexico de 1879 era um outro mundo.

Carroças, cafés, damas com vestidos de seda francesa, cavalheiros com bengalas e chapéus altos. O som das fontes, o aroma de chocolate quente, os pregões nas praças, tudo parecia feito para encantar e confundir.

E pela primeira vez, percebi o quanto meu pai estava errado: o mundo podia ser perigoso, sim... mas também era belo.

Meus avós me acolheram com ternura e orgulho.

Dona Carmen, com seus olhos de águia, e o velho don Tomás, que ainda cheirava a cavalo e a vinho tinto. Eles me ensinaram que o saber era o maior dos tesouros. Foi sob o teto deles que me apaixonei pelos livros de botânica, pelos tratados de veterinária e pelas histórias dos grandes cientistas europeus.

Certo dia, enviei uma carta longa e muito amorosa, precisava convencer meu pai a permitir que continuasse com meus avós, anunciei meu desejo de ficar definitivamente com meus avós e cursar uma boa faculdade. Meu pai ficou furioso. Disse que eu estava esquecendo minhas raízes, que o mundo era cruel e que eu era ingênua demais para sobreviver nele. Mas minha mãe, com sua doçura firme, o convenceu de que seria "apenas por um tempo". Talvez ela já soubesse que aquele tempo se transformaria em uma vida inteira.

Viajei pelo mundo com meus avós.

A cada porto, a cada estrada, parecia que o tempo me concedia uma nova alma. Atravessamos o Atlântico num grande navio francês que cheirava a sal, a vapor e a promessas.

Vi a neve cair sobre Paris, cobrindo os telhados como véu de noiva, enquanto homens com cartolas falavam de progresso e damas em seda recitavam Baudelaire nos cafés.

Caminhei pelas ruelas de Roma, entre ruínas e catedrais, ouvindo o eco dos séculos sob meus passos. Em Sevilha, aprendi que o sangue e a música às vezes nascem da mesma dor; e em Lisboa, o mar parecia murmurar segredos antigos em cada onda que tocava o cais.

Quando seguimos para o Oriente, descobri que o mundo era ainda maior do que as histórias diziam. Em Kyoto, respirei o perfume das flores de cerejeira e ouvi o som sereno das fontes, como se a própria terra meditasse.

Nas savanas da África, o calor tinha a cor do ouro, e os animais caminhavam com a majestade dos reis que nunca precisaram de coroas.

Ali, compreendi a força silenciosa da natureza, essa mestra antiga que ensina sem palavras e castiga sem aviso.

Vi desertos, montanhas, mares que pareciam não ter fim. E em cada lugar, aprendi que liberdade não é ausência de raízes, é saber que se pode voltar a qualquer tempo, por escolha e não por obrigação. Entre locomotivas e navios, entre estradas de poeira e cartas trocadas com o México, descobri quem eu era: uma mulher que não aceita fronteiras.

Foi nessas viagens que decidi o que queria ser: não esposa, não sombra, não herdeira, mas dona do meu próprio destino, guardiã do saber que nasce da terra e do mistério dos animais.

Quis aprender suas dores, suas forças, seus silêncios. E foi assim que escolhi o caminho da veterinária e da agronomia, unindo o amor pela vida à ciência da sobrevivência.

Pouco a pouco, deixei de ser apenas uma moça curiosa e tornei-me uma mulher com propósito. Matriculei-me na Escola Nacional de Agricultura e Veterinária, uma das poucas mulheres a cruzar aquelas portas.

Os homens me olhavam como quem observa um cometa raro, estranho, perigoso. Mas eu não me importava, a cada livro lido, a cada animal tratado, sentia que me aproximava de algo maior: o domínio sobre a própria vida.

Foram anos de aprendizado e solidão.

Alguns colegas tentaram aproximar-se, encantados com minha rebeldia e com o sotaque suave das planícies de Albuquerque. Mas eu nunca deixei que ultrapassassem a linha, meu pai me mataria. O amor, para mim, era como cavalo bravo: admirava-se à distância, sem tentar montar.

Quando me formei, o México passava por transformações. Ferrovias cortavam desertos, e novas fazendas surgiam onde antes só havia mato e vento. Eu poderia ter ficado na capital, lecionando ou trabalhando com os ricos criadores de cavalos andaluzes.

Mas o destino, ou o sangue, me puxou de volta às colinas.

No dia em que voltei a Albuquerque, o sol se punha vermelho atrás das colinas, tingindo de ouro e sangue a paisagem que eu tanto temia rever.

O vento trazia o cheiro de poeira, cavalo e história. E, enquanto o coche avançava pela estrada de terra, uma sensação estranha percorreu meu peito, como se o passado me observasse por entre os arbustos.

Eu voltei diferente.

Minha chegada foi um escândalo silencioso.

Os empregados cochichavam, as senhoras da vila desviavam o olhar. "Uma mulher estudada", murmuravam. "E veterinária, ainda por cima." Mas meu pai, estava orgulhoso, não parava de exclamar satisfação aos quatro ventos. Dizia aos vizinhos que eu voltei para ajudar nos negócios da fazenda. E eu, para não ferir o meu pai, deixava-o acreditar nisso, ao menos no início.

A paisagem era a mesma de sempre: O rio cortando preguiçoso o vale, os ipês amarelos na encosta, os sinos da capela tocando ao longe.

Mas havia algo novo.

Uma tensão no ar, uma mudança invisível.

Minha amiga e companheira de estudos, Manuela López, já havia regressado ao México antes de mim. Escreveu-me uma carta com sua caligrafia elegante, traçada com tinta sépia, onde me oferecia um convite que, de tão ousado, parecia até um sonho: abrirmos juntas uma pequena clínica veterinária nos arredores de Albuquerque, dedicada ao cuidado dos animais do campo e ao estudo das ciências agrárias, algo quase inédito por aquelas bandas.

A ideia, à primeira vista, soa como loucura.

Mulheres tratando do gado, curando cavalos, avaliando plantações... era o tipo de tarefa que, para os homens da fronteira, pertencia apenas aos que traziam o sol nas costas e o chicote na cintura.

Mas Manuela tinha um espírito tão livre quanto o meu, e havia em suas palavras um fogo que me contagiou.

Aceitei.

Seríamos pioneiras.

Duas mulheres desafiando os limites do deserto e o juízo dos velhos senhores. Duas vozes femininas erguendo-se entre o mugido do gado e o ranger das porteiras.

Passamos semanas trocando cartas, fazendo contas, sonhando o impossível. A clínica ficaria num antigo casarão abandonado, perto do rio Grande, aquele mesmo que se espreguiçava entre as colinas poeirentas e os campos de trigo que balançavam ao vento como ondas douradas.

Ali, diziam os anciãos, o som da água carregava as vozes dos mortos e os segredos dos vivos.

Eu mal podia conter o entusiasmo.

Depois de tantos anos em terras distantes, de ter visto o nascer do sol sobre as cúpulas de Paris e o entardecer em Roma, eu finalmente voltaria para o meu México, para o meu deserto, trazendo nas mãos o saber e no peito a esperança.

Mas o destino tinha outros planos, meu maior desafio ainda me esperava.

Descobri que o principal benfeitor daquela clínica era ninguém menos que Alejandro Hernández, administrava as terras do pai que faziam fronteira com as nossas, senhor de rebanhos e de almas, o mesmo cujo nome ainda fazia meu pai cerrar os punhos.

Um Hernández... O inimigo jurado dos Rodríguez.

E, ainda assim, seria ele o homem cujo dinheiro sustentaria nosso sonho.

O nome que, desde menina, eu aprendi a detestar.

O mesmo que fazia meu pai cerrar os punhos e cuspir no chão.

Um Hernández... O inimigo jurado dos Rodríguez.

E, ainda assim, seria ele o homem cujo dinheiro sustentaria nosso sonho.

Diziam que ele era agora o homem mais poderoso de todo o vale, dono das terras que faziam fronteira com as nossas, senhor de rebanhos e de almas, era arrogante, orgulhoso, indomável.

Cuja fama entre as mulheres era quase lendária.

Alguns o chamavam de o Senhor das Doze Estrelas; outros, de maldição ambulante.

O nome que, desde menina, eu aprendi a detestar.

O mesmo que fazia meu pai cerrar os punhos e cuspir no chão.

Um Hernández... O inimigo jurado dos Rodríguez.

E, ainda assim, seria ele o homem cujo dinheiro sustentaria nosso sonho.

Naquela noite, não consegui dormir.

O vento batia na janela como se sussurrasse velhas histórias de amores proibidos, de sangue derramado, de pactos feitos sob o luar do deserto. Senti, pela primeira vez em muitos anos, um pressentimento, como se o chão sob meus pés começasse a se mover, lento e traiçoeiro, anunciando que minha vida jamais voltaria a ser a mesma.

Foi nesse tempo que percebi que as colinas de Albuquerque guardam segredos antigos.

Segredos de amores proibidos, de pactos quebrados, de rancores que o vento não apaga.

E, enquanto os dias se tornavam mais quentes e as noites mais longas, comecei a entender que nenhum de nós era apenas vítima ou culpado.

Todos éramos feitos da mesma mistura de orgulho e desejo, de terra e tempestade.

O vento sopra do norte, trazendo o cheiro das chuvas de verão. E que algumas histórias, como a dos Rodríguez e dos Hernández, não terminam.

Apenas adormecem sob o pó das estradas, esperando que alguém, um dia, as desperte novamente.

Dizem que o deserto guarda tudo o que o homem tenta enterrar. E eu sabia, no fundo da alma, que meu passado me esperava ali, silencioso, paciente, com o mesmo olhar de um predador antes do salto.

O que poderia dar errado no meu retorno?

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