Capítulo 2

Ponto de Vista: Alessa

Três dias depois, eu estava estacionada do outro lado da rua de uma cafeteria chamada 'Copa Dourada', um lugarzinho da moda em uma parte da cidade que nenhuma Família reivindicava. Era território neutro.

Meu celular vibrou com uma mensagem de Lorenzo.

Saudades da minha linda esposa. Esta cidade não é nada sem você.

Tudo mentira.

Um momento depois, seu sedã preto parou no meio-fio. Ele saiu, vestido com um terno sob medida que custava mais que meu primeiro carro, um sorriso encantador fixo no rosto enquanto falava ao telefone. Sua persona pública. O Arquiteto.

Então sua expressão mudou. O sorriso desapareceu, substituído por um olhar de fome impaciente. Sua voz baixou, tornando-se um comando ríspido.

"Entrada de serviço. Agora."

Ele desligou e desapareceu em um beco ao lado do café. Observei enquanto ele usava um cartão-chave para entrar por uma porta lateral discreta do Hotel The Atherton.

Quarto 207.

Minha fonte estava correta. Isso não era um deslize de uma noite. Era uma rotina.

Saí do meu carro e caminhei até a entrada principal do hotel, segurando meu próprio celular no ouvido, fingindo uma conversa profunda enquanto me posicionava perto dos elevadores. Eu esperei.

Quarenta e cinco minutos. Uma eternidade.

Então, disquei o número dele. Forcei minha voz a ficar aguda, enchendo-a com um pânico fabricado que eu havia aperfeiçoado ao longo de anos sendo esposa da máfia.

"Lorenzo? Eu... não estou me sentindo bem. Acho que estou tendo outra crise de pânico. Preciso de você. Por favor, venha para casa. Agora."

Houve um lampejo de hesitação em sua voz, uma fração de segundo em que eu soube que ele estava pesando suas opções. Então a mentira suave veio, praticada e fácil.

"Claro, meu bem. Estou terminando uma reunião no escritório da filial. Chego aí o mais rápido que puder."

Escondi-me em um nicho perto da saída de emergência, meu coração martelando um ritmo frio e constante contra minhas costelas.

Segundos depois, a porta do Quarto 207 se abriu com violência. Lorenzo saiu furioso, o celular já pressionado contra a orelha, esbravejando que algo urgente havia surgido. Ele marchou em direção aos elevadores, apertando o botão de 'descer' como se quisesse atravessar a parede com um soco.

A porta do 207 se abriu novamente. Uma jovem, loira e vestida com algo justo e da moda, saiu correndo atrás dele.

"Não vai", ela choramingou, agarrando seu braço. Sua voz era irritante, infantil. "Ela pode esperar."

Lorenzo a sacudiu, o rosto uma máscara de irritação. Ele lhe deu um beijo rápido e displicente e entrou no elevador que esperava, sem olhar para trás. As portas se fecharam.

A mulher se virou, fazendo beicinho, e meu sangue gelou.

Eu a conhecia.

Era Kátia Shepherd. A professora particular de história do Marco.

Lembrei-me das palavras de Marco semanas atrás, elogiando o quão "legal" Kátia era. "Ela entende, mãe", ele havia dito. "Como o pai."

As peças se encaixaram, formando um mosaico de traição tão profundo que me roubou o fôlego. Meu filho não apenas sabia. Ele aprovava. Ele era um cúmplice na humilhação de sua própria mãe.

Isso não era mais apenas sobre um marido infiel. Era uma conspiração, tramada e nutrida dentro das paredes da minha própria casa.

A dor que eu deveria sentir foi instantaneamente incinerada por uma raiva pura e absoluta.

Peguei meu celular. Minha primeira ligação foi para Zara, minha assistente pessoal, a mulher que administrava a segurança da minha casa com a eficiência silenciosa de um soldado experiente.

"Quero tudo sobre Kátia Shepherd", eu disse, minha voz desprovida de qualquer emoção. "As finanças dela, os amigos, as redes sociais, os segredos. Tudo. Quero isso até de manhã."

Minha segunda ligação foi para um número seguro da AdvogadaDeAço88.

"Eu tenho minhas provas", eu disse. "Agora, preciso do palco perfeito para destruir o mundo dele."

Capítulo 3

Ponto de Vista: Alessa

O cheiro de alho e alecrim me atingiu no momento em que entrei em casa. Lorenzo estava na cozinha, com um dos meus aventais de babados amarrado sobre seu terno caro, interpretando o papel do marido preocupado e dedicado. A atuação era impecável.

"Alessa, graças a Deus", disse ele, correndo para o meu lado. Ele me mimou, servindo uma taça do meu vinho tinto favorito e me guiando para uma cadeira antes de colocar um prato de arrabbiata picante — minha comida de conforto. "Como você está se sentindo?"

Tomei um gole do vinho, o líquido encorpado tinha gosto de cinzas na minha boca.

"Melhor agora que você está aqui."

Alguns minutos depois, ele se desculpou para ir ver o Marco. Dei a ele trinta segundos de vantagem antes de segui-lo, meus sapatos de sola macia não fazendo barulho na escada de mármore. Parei do lado de fora da porta entreaberta do quarto de Marco, me misturando às sombras que se acumulavam no corredor.

"E aí, campeão. Lição de casa toda feita?" A voz de Lorenzo era casual, sem esforço. Ele mencionou que sua "reunião" havia sido interrompida.

"A 'reunião' foi boa?", perguntou Marco. O desprezo na voz do garoto era inconfundível.

Lorenzo riu — um som baixo e conspiratório que fez meu estômago se contrair.

"Sua mãe teve uma de suas crises. Você sabe como ela fica."

"Ela está bem?", perguntou Marco, a pergunta pouco mais que um pensamento entediado.

"Ela está bem", disse Lorenzo, seu tom displicente. "Só precisa de um pouco de atenção. Como está minha professora particular favorita?"

"A Kátia é legal", disse Marco. "Muito melhor que aquela velha rabugenta, a Sra. Albuquerque, que você contratou no ano passado."

Eu podia praticamente ouvir o orgulho presunçoso na voz de Lorenzo.

"Ela é especial, não é?"

"Mas acho que a mamãe está desconfiando de algo", alertou Marco, seu tom mudando. "Ela estava me fazendo umas perguntas estranhas sobre garotas outro dia. Acho que ela viu as mensagens no iPad."

"Não se preocupe com isso", Lorenzo o tranquilizou. "Deixei ela pensar que eram para você. Uma mulher como sua mãe" — sua voz pingava condescendência — "preferiria acreditar que o filho está em apuros do que encarar a verdade sobre seu casamento perfeito."

"Ela é tão chata", zombou Marco.

As palavras me atingiram como um golpe físico.

"Você deveria simplesmente largá-la e ficar com a Kátia."

Lorenzo fez uma defesa sem entusiasmo.

"Calma, Marco. Ela é uma boa mulher. Uma boa mãe. Ela mantém a casa funcionando." Não havia amor em suas palavras, apenas uma avaliação fria da minha utilidade.

Marco bufou.

"A Kátia seria uma madrasta muito mais legal."

Uma onda de tontura me atingiu. Recuei da porta, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. Cheguei ao banheiro principal a tempo, o vinho e o gosto amargo da traição queimando minha garganta enquanto eu vomitava no vaso sanitário.

Lorenzo me encontrou lá momentos depois, ajoelhada no chão frio. Ele estava ao meu lado em um instante, todo preocupação fingida enquanto suas mãos se estendiam para mim.

"Não", eu murmurei, recuando de seu toque. "Não me toque."

Ele congelou, as mãos pairando no ar.

"Alessa? O que foi? O que eu fiz?"

"Preciso ficar sozinha", eu disse, minha voz assustadoramente calma.

Pela primeira vez que me lembro, ele pareceu genuinamente assustado. O controle estava escapando de suas mãos.

"Me desculpe", ele gaguejou. "Seja o que for que eu fiz, me desculpe." Ele começou a divagar, sua voz carregada de desespero. "Não se esqueça que a Gala da Associação de Construtores é na próxima sexta. É a noite mais importante da minha carreira. Eles vão me dar o prêmio de Inovador do Ano. Preciso de você lá. Podemos até fazer um brinde... aos nossos vinte anos."

Deixei uma única lágrima calculada traçar um caminho pelo meu rosto. Olhei para ele, meus olhos arregalados com uma dor cuidadosamente fabricada.

"Claro, Lorenzo. Eu estarei lá."

Um alívio puro e absoluto inundou seu rosto.

"Essa é a minha garota."

Ele se moveu para me abraçar, para selar nossa suposta reconciliação. Levantei uma mão, parando-o no lugar.

"Só... me dê alguns minutos."

Ele assentiu, ansioso demais para respeitar meu estado "frágil". Ele recuou lentamente, fechando a porta suavemente atrás de si.

Olhei para meu reflexo no espelho. A mulher ferida e frágil no reflexo havia desaparecido. Em seu lugar havia outra pessoa, seus olhos tão duros, frios e brilhantes quanto diamantes.

O palco estava montado.

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