Ponto de Vista: Giovana Ribeiro
Entrei em casa, o silêncio ensurdecedor. Os cômodos grandes e vazios ecoavam com o vazio da minha vida. Fui ao meu escritório, abri uma gaveta e tirei minha certidão de nascimento, minha carteira de motorista, meu passaporte. Todos os pedaços frágeis de papel que provavam que eu era Giovana Ribeiro.
Levei-os para a pia da cozinha, uma pequena chama desafiadora tremeluzindo em minha mão. Um por um, assisti às chamas consumirem minha identidade. O papel enrolou, escureceu e virou cinza. Meu nome, quase, se foi.
Um sorriso pequeno e genuíno tocou meus lábios. Uma sensação de leveza, de liberdade, que eu não sentia há anos.
Então, um fantasma de memória. Diogo, dez anos atrás. Éramos namorados de colégio, cheios de sonhos, construindo nossa primeira startup em uma garagem apertada. Ele me prometeu o mundo, e eu acreditei nele. Éramos pobres, mas tínhamos um ao outro. Não parecia dificuldade na época. Parecia uma aventura.
Ele jurou que me amaria para sempre. Suas palavras, gravadas tão profundamente em meu coração, agora pareciam uma piada cruel. Para sempre. Que mentira patética.
Fui até minha mesa de cabeceira, abrindo a gaveta forrada de veludo. Dentro, aninhado na seda, estava o medalhão de platina vintage que Diogo me dera no dia do nosso casamento. Uma antiguidade que ele caçou por meses. Ele disse que as duas metades interligadas representavam nossas vidas.
— Esta platina, Giovana — dissera ele, com os olhos sinceros —, é resiliente. É feita para nos unir, para sempre. Enquanto permanecer inteira, nós também permaneceremos.
Segurei-o na palma da mão. Parecia frio, pesado, uma relíquia de uma vida diferente. Abri a mão. Ele caiu no chão de azulejo. Peguei um peso de papel de latão pesado da mesa de cabeceira e o desci com força. *Crack.* A dobradiça delicada se partiu. A face do medalhão torceu. Não se estilhaçou como vidro, mas deformou, o fecho quebrando, o metal rasgando.
Minha respiração engatou. Não de tristeza, mas de uma satisfação fria e silenciosa. Finalmente.
Reuni cuidadosamente os pedaços retorcidos, cada um um pequeno monumento a uma mentira despedaçada. Coloquei-os gentilmente em uma pequena e elegante caixa de presente. Eu adicionaria um bilhete mais tarde. Um adeus.
A porta da frente se abriu.
— Giovana, amor? Cheguei! — A voz de Diogo, irritantemente alegre, perfurou o silêncio frágil.
Ele entrou na sala de estar, uma caixa de bolo de grife em uma mão, um buquê dos meus lírios favoritos na outra. Ele sorriu, aquele sorriso público e performático.
— Surpresa! Mil-folhas frescos daquela padaria que você ama!
Ele veio por trás de mim, envolvendo os braços na minha cintura, pressionando um beijo no meu pescoço. Instintivamente enrijeci, virando a cabeça ligeiramente. O cheiro de um perfume desconhecido agarrou-se a ele, doce e enjoativo. Era o de Karina. Eu sabia.
— Sem fome — disse, minha voz inexpressiva. Olhei para os doces. Ele lembrou. Ele sempre lembrava das pequenas coisas que eu gostava. Só não importava mais. Ele se importava com minhas preferências, mas não com meu coração.
Ele se afastou, fazendo bico.
— Você está brava comigo? Sei que me atrasei, mas o lançamento demorou mais do que o previsto. E o trânsito na Marginal estava um pesadelo. — Ele parecia tão contrito, tão menino. Um ator tão bom.
Meu estômago revirou novamente. O perfume era sufocante.
— Não, não estou brava — murmurei. Era verdade. Eu não sentia nada além de uma aceitação fria e vazia.
Ele sorriu, aliviado. Inclinou-se, pressionando outro beijo nos meus lábios. Então tirou uma pequena caixa de veludo. Dentro, uma chave de carro brilhante em forma de coração.
— E isso, meu amor, é para você. O primeiro 'Alma Gêmea' a sair da linha de produção. Meu presente para a única mulher digna de dirigi-lo.
Ele começou um monólogo sem fôlego sobre o sucesso do carro, as encomendas transbordando, as ações disparando. Seus olhos brilhavam de autossatisfação. Ele não notou minha imobilidade.
Peguei a chave. Parecia pesada, um símbolo não de amor, mas de traição.
— Diogo — interrompi, minha voz baixa. — Você sempre vai me amar?
Ele riu, um som estrondoso e confiante. Puxou-me para mais perto, enterrando o rosto no meu cabelo.
— Claro, amor. Sempre. Você é meu destino. Minha alma gêmea.
Ele tinha dito isso tantas vezes. Já tinha sido música para meus ouvidos. Agora, era um insulto grotesco.
— Você disse uma vez — continuei, empurrando-o gentilmente —, que se algum dia me traísse, eu deveria ir embora. Que você não me culparia.
Seus olhos claros e inocentes encontraram os meus. Nem um pingo de culpa.
— E eu quis dizer isso, Giovana. Claro.
Nesse momento, o celular dele vibrou. Uma chamada de vídeo. O nome de Karina brilhou na tela. Ele pegou o telefone, o rosto empalidecendo, e moveu-se para recusar a chamada.
— Não — disse eu, um leve sorriso brincando em meus lábios. — Atenda.
Ele hesitou, então, vendo minha expressão calma, relaxou. Atendeu e saiu da sala, indo para o corredor, baixando a voz.
Eu não precisava ouvir as palavras dele. Os murmúrios suaves e sedutores do lado de Karina passavam claramente pelas paredes finas.
— Amor, você foi tão bom ontem à noite... Já estou com saudades...
Fechei os olhos. Então os abri, serena. Caminhei para a cozinha, o calor do dia desaparecendo com o sol.
Diogo voltou alguns minutos depois, parecendo satisfeito consigo mesmo.
— Tudo bem, querida? Só uma ligação rápida de trabalho. Nada importante.
Ele estendeu a mão.
— Vamos. Vamos comemorar seu aniversário. Reservei aquele restaurante francês chique que você adora.
Ponto de Vista: Giovana Ribeiro
Levantei-me e os olhos de Diogo caíram imediatamente sobre a caixa de presente que eu havia colocado na mesa de centro. O rosto dele se iluminou.
— O que é isso? Outra surpresa? — Ele caminhou em direção a ela, uma excitação infantil na voz.
— É para você — disse, minha voz plana. — Seu presente de aniversário.
Ele riu, pegando a caixa.
— Meu aniversário é só semana que vem! Você é sempre tão atenciosa, meu amor. — Seus olhos brilhavam. Ele era tão alheio. *Ele vai descobrir em breve*, pensei, uma satisfação fria se espalhando por mim.
— Abra no seu aniversário — disse a ele, com um toque de aço na voz.
Ele colocou cuidadosamente a caixa sobre a lareira, ao lado de uma foto emoldurada nossa do casamento.
— Eu vou — prometeu, os olhos cheios de afeto. — Você me faz o homem mais feliz do mundo.
Ele pegou minha mão, me puxando em direção à porta.
— Vamos. O jantar nos espera.
Descemos para a garagem subterrânea. Lá estava ele. O carro "Alma Gêmea", brilhando sob as luzes fluorescentes, sua pintura rosa quase cegante. Sua traição final, agora estacionada em nossa casa.
— Quer dar uma volta com ela? — perguntou ele, os olhos praticamente saltando das órbitas de orgulho.
Caminhei lentamente ao redor do carro, minha respiração presa na garganta. A placa personalizada: "GIOVANA". Meu nome. Estampado no veículo de sua infidelidade. Meu corpo começou a tremer, um pavor frio penetrando em meus ossos. Vi o rosto de Karina, seu sorriso zombeteiro, a mão dela na coxa de Diogo no vídeo. Tudo dentro do meu carro.
Diogo viu minha hesitação.
— O que foi, amor? Não gostou? — Ele parecia genuinamente preocupado.
Balancei a cabeça.
— Não, é lindo — menti. — É só que... não estou acostumada a dirigir um carro tão grande. Faz tempo que não dirijo na cidade. — Minha desculpa era fraca, mas ele acreditou.
Ele pegou as chaves da minha mão trêmula.
— Sem problemas! Eu dirijo. Eu até te ensino. Pense em todos os lugares que iremos. — Ele abriu a porta do passageiro com um floreio.
Tirei um lenço umedecido antisséptico, esfregando o couro suntuoso do banco do passageiro antes de me sentar. Esfreguei e esfreguei, como se pudesse apagar a presença de Karina, seu cheiro, seu toque. Era inútil.
Diogo riu novamente.
— É um carro novo, querida. Por que você está limpando?
— Não gosto que outras pessoas toquem nas minhas coisas — disse, minha voz cortante. As palavras pairaram no ar, pesadas com um significado não dito.
O sorriso dele vacilou. Um lampejo de algo — vergonha? medo? — cruzou seu rosto. Ele limpou a garganta rapidamente.
— Certo. Bem, vamos lá. Aquele macarrão trufado não vai se comer sozinho.
Ele tagarelou sobre o restaurante estrelado, o menu requintado, a harmonização perfeita de vinhos. Eu mal o ouvia. Minha mão roçou em algo duro sob o assento. Um batom. Fúcsia.
Eu o peguei. Ele viu. Seus olhos dispararam nervosamente. O rosto dele ficou vermelho carmesim.
— Ah, isso! É... um novo truque de marketing. Uma cor popular. A Karina deve ter deixado cair. — Ele tropeçou nas palavras.
Levantei o objeto, um sorriso fraco e arrepiante nos lábios.
— Isso também é um presente, Diogo?
Ele gaguejou:
— Não, não! Apenas uma amostra. A equipe de vendas provavelmente colocou lá por engano.
Zombei internamente. Girei a tampa. A ponta do batom estava gasta, claramente usada. Olhei para ele, meu olhar penetrante.
— Odeio coisas de segunda mão, Diogo — disse suavemente. — Homens também.
Ele recuou, como se tivesse levado um tapa. Sua mão disparou, agarrando meu pulso.
— Giovana, por favor! Sinto muito. Eu... — A voz dele estava grossa de pânico.
Não respondi. Simplesmente levantei a mão e joguei o batom na lixeira da esquina enquanto estávamos parados no sinal.
Meu celular vibrou. Karina. *'Ops, deixei meu batom no Alma Gêmea de novo! Não queria sujar minha bolsa nova, rs. Diga ao Diogo que pego amanhã de manhã, tá?'*
Olhei para Diogo, o rosto dele uma máscara de arrependimento suplicante. Era tudo uma performance. Era tudo tão absolutamente sem sentido.
Virei a cabeça, observando as luzes da cidade passarem borradas. Eu só queria que este dia acabasse. Queria comemorar meu último aniversário com ele, e depois cair fora.
Chegamos ao restaurante. Ele abriu minha porta, um marido encantador e devoto. As pessoas ao redor arrulhavam. "Que cavalheiro!" "Ele está tão apaixonado!" "Ela é tão sortuda!"
Diogo se empavonou, absorvendo a admiração. Ele me conduziu para dentro. Uma mesa carregada com meus pratos favoritos nos esperava. Cozinhados por outra pessoa. Pagos por ele. A ilusão suprema.