Capa do Romance A Garota Que Ele Chamou de Ensaio

A Garota Que Ele Chamou de Ensaio

9.3 / 10.0
Após abrir mão de uma bolsa na USP para acompanhar o namorado de longa data ao Rio, descobri sua verdadeira face. Ouvi-o dizer em francês que eu era apenas um treino, um estepe enquanto ele focava em uma modelo. Ele não sabia que eu dominava o idioma. Sem alarde, cancelei minha matrícula carioca e recuperei minha vaga em São Paulo. Bloqueei seu acesso à minha vida e parti, deixando para trás o homem que subestimou minha lealdade e inteligência.

A Garota Que Ele Chamou de Ensaio Capítulo 1

Recusei uma bolsa integral na USP para seguir meu namorado de dez anos até o Rio de Janeiro.

Achei que meu sacrifício fosse a prova suprema de amor, até ouvi-lo rindo com o melhor amigo na cozinha.

Ele falava em francês, confiante de que sua namorada "básica" e "simplória" não entenderia uma única palavra.

— *Elle était juste une pratique*, — ele zombou, a voz pingando desdém. — Ela foi só um treino. Uma sessão de aquecimento. Só isso.

Meu sangue gelou nas veias.

Ele continuou, explicando que eu não passava de um "estepe", uma garantia segura para manter a cama quente enquanto ele perseguia seu verdadeiro alvo: uma modelo famosa chamada Bella.

Ele afirmou que eu era patética, leal como um cão, e que jamais o deixaria.

A ironia?

Eu passei anos estudando francês em segredo para impressionar a avó dele.

Eu entendi cada insulto. Cada sílaba de desprezo.

Não o confrontei.

Não fiz um escândalo.

Simplesmente caminhei até o quarto, cancelei minha matrícula na universidade do Rio e aceitei a oferta da USP.

Quando ele percebeu que seu "estepe" havia sumido, eu já estava em outro estado, e ele estava bloqueado em tudo.

Capítulo 1

Ponto de Vista de Kiara:

O cheiro dele, uma mistura de almíscar e aquele perfume importado caríssimo, ainda estava impregnado na minha pele, um lembrete cruel das promessas sussurradas há apenas algumas horas. Ele havia jurado um futuro, uma vida entrelaçada, e eu, tola apaixonada, acreditei em cada palavra. Agora, o murmúrio baixo de sua voz vindo da sala, pontuado pelo tom mais grave de outro homem, cortava a paz frágil do apartamento antes do amanhecer. Félix e Diego. Seu melhor amigo, seu confidente. Meu estômago se contraiu. Eu deveria estar dormindo, aninhada a ele, mas uma inquietação persistente me manteve acordada, me levando à cozinha para beber água.

Foi então que eu ouvi. Não apenas as vozes, mas o ritmo rápido e cortado do francês. Meu sangue gelou, um pavor familiar se enroscando no meu estômago. Félix raramente falava francês quando eu estava por perto. Era sua linguagem privada, uma ferramenta que ele usava para exalar um ar de exclusividade, para marcar limites contra aqueles que ele considerava "de fora". Eu deveria ser "de dentro". Passei anos aprendendo francês, secretamente, meticulosamente, na esperança de impressionar sua formidável avó, Dona Helena, que adorava se comunicar na língua de Molière. Tinha sido minha homenagem silenciosa ao mundo dele, uma declaração muda do meu compromisso. Ele não sabia que eu entendia. Ele não podia saber.

— *Elle était juste une pratique, mon ami. Une séance d'entraînement. C'est tout.*

Suas palavras, cristalinas, me atingiram como um soco físico. Ele disse: "Ela foi só um treino, meu amigo. Uma sessão de aquecimento. Só isso." Cada átomo do meu corpo gritou, congelou, se estilhaçou. Minha mão voou para a boca, sufocando um grito. O copo que eu segurava tremeu, ameaçando cair. Minha respiração falhou, presa na garganta, cada batida do meu coração um tambor doloroso e ensurdecedor contra minhas costelas.

Diego riu, um som baixo e cúmplice. — *Et maintenant, la vraie cible?*

— *Oui. Bella Ramsey. Elle est le prix. Kiara… Kiara est bonne pour garder le lit au chaud. Toujours là. Un filet de sécurité. Elle ne partira jamais.*

"E agora, o verdadeiro alvo?" Diego perguntou.

"Sim. Bella Ramsey. Ela é o prêmio. Kiara... Kiara serve para manter a cama quente. Sempre lá. Um estepe. Um tapa-buraco. Ela nunca vai embora."

As palavras ecoaram no silêncio súbito e aterrorizante da minha mente. Treino. Estepe. Nunca vai embora. Meu mundo, construído sobre anos de história compartilhada e devoção silenciosa, desmoronou em pó ao meu redor. Não era apenas um término; era uma demolição. Ele me via como um espaço reservado, uma conveniência, um corpo quente até que o "verdadeiro prêmio" aparecesse. E a certeza dele de que eu "nunca iria embora" foi a parte mais arrepiante. Ele conhecia minha lealdade, minha devoção cega, e havia transformado isso em uma arma contra mim. O ar na cozinha ficou pesado, sufocante. Minha visão embaçou nas bordas.

Alguns momentos depois, a porta da sala rangeu. Ouvi os passos leves de Félix se aproximando, cantarolando uma música da playlist que criamos juntos. Ele parou na porta da cozinha, os olhos ainda pesados de sono, enrugando os cantos daquele jeito charmoso que ele tinha.

— Ei, dorminhoca — ele murmurou, a voz suave, carregada de uma ternura que agora parecia veneno puro. Ele se moveu em minha direção, passando um braço pela minha cintura, pressionando um beijo no meu cabelo. — Sem sono? Quer um chamego?

Minha pele se arrepiou de nojo. O toque dele, que antes parecia meu lar, agora parecia o abraço de uma víbora. Uma onda de náusea me invadiu, quente e fria ao mesmo tempo. Forcei um sorriso fraco, me afastando gentilmente. — Só sede. Vou voltar para a cama. — Minha voz soou estranha, fina e estridente. Me perguntei se ele conseguia ouvir o tremor, a mentira por trás dos meus olhos.

Passei por ele, cada passo um esforço hercúleo, minhas pernas parecendo chumbo. Não olhei para trás. Tranquei-me no meu quarto, encostando na madeira fria da porta, lutando contra a vontade de vomitar. Meu mundo lindo e perfeito tinha acabado de implodir, e os destroços estavam por todo o chão. Tropecei até a cama, desabando sobre o edredom, minhas mãos tremendo incontrolavelmente. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes, queimando trilhas pelas minhas bochechas. Não eram lágrimas suaves e silenciosas. Eram soluços dilacerantes que rasgavam meu peito, cada um uma agonia. Parecia que meus pulmões estavam colapsando, como se meu coração estivesse sendo esmagado por uma mão invisível e cruel.

Nosso primeiro beijo, sob o velho carvalho no quintal dele, um toque de lábios desajeitado e inocente quando tínhamos quatorze anos. O jeito que ele segurou minha mão no funeral da minha avó, uma âncora silenciosa na minha dor. Todas as sessões de estudo tarde da noite, os sonhos que compartilhamos, planejando nossas vidas juntos no Rio de Janeiro. Ele sempre disse que estávamos destinados a isso, parceiros em tudo. Parceiros. A palavra tinha gosto de cinzas na minha boca agora. Não, eu era a sombra dele, o plano B, o treino.

Meu celular vibrou na mesa de cabeceira, me fazendo pular. Uma mensagem. De Félix.

"Bom dia, raio de sol. Diego acabou de sair. Tenho que ir para o escritório mais cedo. Reunião importante sobre a aquisição da Torre Ramsey. Te vejo mais tarde, meu amor. Pense em mim. Beijos."

Torre Ramsey. Bella Ramsey. A menção casual do nome dela, entrelaçado com o trabalho dele, o futuro dele, nosso suposto futuro... foi uma nova facada. Ele não estava pensando em mim, não de verdade. Ele estava pensando em sua imagem pública, em seu "prêmio". Ele já estava seguindo em frente, poucas horas depois de me prometer o mundo, e esperava que eu ficasse aqui, esperando, pensando nele?

Meu estômago revirou. Peguei o telefone, meus dedos atrapalhados. A mensagem, o apelido carinhoso — meu amor — o beijo casual, tudo parecia um escárnio. Uma onda quente de fúria, pavor frio e nojo profundo tomou conta de mim. Com dedos trêmulos, toquei na mensagem, apagando-a. Então, com uma determinação feroz que eu não sabia que possuía, encontrei o contato dele. Bloquear. Bloquear número. Pronto. Foi uma ação pequena, quase insignificante, mas pareceu como arrancar um membro, uma amputação dolorosa e necessária. O silêncio depois foi ensurdecedor, mas estranhamente mais leve.

Encolhi-me em uma bola na cama, puxando os joelhos contra o peito, tentando me fazer o menor possível. Dez anos. Dez anos da minha vida estiveram inextricavelmente ligados a Félix Decker. Crescemos como vizinhos, nossas vidas uma tapeçaria perfeita de infâncias compartilhadas. Ele era o garoto de ouro, o herdeiro, charmoso e popular sem esforço. Eu era a garota quieta e estudiosa, sempre um passo atrás, sempre observando, sempre apoiando. Eu tinha sido sua maior torcedora, sua confidente mais leal, sua assistente não oficial, sempre pronta para estender a mão, sempre lá para recolher os cacos quando um de seus romances passageiros inevitavelmente desmoronava. Ele se apoiava em mim, confiava em mim e, às vezes, em momentos de descuido, olhava para mim com uma intensidade que fazia meu coração disparar, me fazendo acreditar que ele me via, realmente me via, além da sombra. Ele até segurou minha mão uma vez, um aperto longo e reconfortante, quando contei a ele sobre meu sonho de ser arquiteta, desenhando prédios impossíveis em guardanapos. Ele simplesmente sorriu e disse: "Qualquer coisa que você quiser, Kiara. Você vai fazer acontecer." Eu me agarrei a esses momentos, a essas migalhas de afeto, me convencendo de que eram prova de algo mais profundo, algo real.

Meu celular vibrou novamente, desta vez com uma chamada de vídeo. Era Clara, minha melhor amiga do ensino médio, atualmente estudando em Paris. O rosto dela, emoldurado por um coque bagunçado, preencheu a tela, um sorriso largo dividindo seu rosto. — Amiga, você NÃO vai acreditar no que eu acabei de ver! — ela exclamou, a voz borbulhando de excitação. — Estou literalmente indo pegar um croissant e adivinha quem eu vi?

Meu coração parou. Não. Não podia ser. Não tão rápido.

Clara, alheia às feridas frescas sangrando dentro de mim, girou a câmera. A tela se encheu com o cenário movimentado de um café de rua parisiense. Então, a câmera deu zoom, tremendo, em uma mesa. E lá estava ele. Félix Decker. Rindo, a cabeça jogada para trás, o braço passado possessivamente ao redor da cintura de uma mulher deslumbrante com cabelos loiros impossivelmente longos e um sorriso ofuscante. Bella Ramsey. Eles estavam sentados impossivelmente perto, os rostos a centímetros de distância, a mão dela descansando casualmente na coxa dele. Ele estava sussurrando algo no ouvido dela, e ela riu, inclinando-se para ele, os olhos brilhando.

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