À primeira vista, aquele local não passava de duas paredes alinhadas. Mas para aquelas sombras inquietas, que
por ali deslizavam, ele era uma espécie de degredo, retrato
de suas vidas, ou simplesmente purgatório, sobretudo para
aqueles que perderam as rédeas da carruagem chamada vida
e acabaram colidindo, inevitavelmente, com aquela espécie
de pocilga, onde havia de tudo: bêbados, drogados, andarilhos; embusteiros e corruptos; homens e mulheres de todas
as idades, ideologias, credos e nacionalidades, que conversavam, caminhavam, falavam ao celular, e também dormiam em
colchonetes ou esteiras de palha2
como se estivessem na pró-
pria casa, pessoas que, de alguma forma, sempre viveram em
um beco sem saída, eles apenas demoraram a perceber isso.
— ...Tá bom, pode ficar tranquilo, seu dinheiro está
seguro. Nossa corretora trabalha com as empresas mais
sólidas do mercado – argumentava por celular o rapaz de
trinta e poucos anos, camisa social listrada e calça azulmarinho, sentado numa pilha de três tijolos. Acima, um
cano de ferro gotejava. De repente, uma ratazana passousobre um de seus sapatos; ainda assim ele manteve a pose
e, com a firmeza daqueles que acreditam nas próprias mentiras, prosseguiu: – De jeito nenhum... Nós não fechamos
as portas... apenas estamos em fase de transição, mudando
para novas e modernas i n s... t a l a... ções – disse pausadamente, olhando meio sem graça para o precário lugar,
quando uma gota d’água caiu em sua testa.
Perto daquela cena patética, estava um senhor de cabelo grisalho, magro, estatura média, que aparentava ter
seus cinquenta e poucos anos, observando aquele diálogo
sem qualquer discrição, dando risadas e fazendo gestos
e expressões do tipo: “Humm... ai, ai, ai...” “Ih, lascou
tudo!”.
Sem se importar com seu vizinho indiscreto, o jovem
prosseguiu falando com seu cliente ao celular:
— Eu sei que esse dinheiro era para pagar sua cirurgia
do coração... Minha avó passou por isso, sabia? Hoje, a
veia tá nova, até casou-se de novo... – Naquele momento,
o rapaz foi interrompido bruscamente pelo cliente, que,
aos berros, praticamente o impediu de seguir com suas
escusas. – Calma, seu Fortunato, não é bem assim... Deixa
eu falar... Seu Fortunato! O senhor não pode se alterar...
Olha o coração... Seu Fortunato... Deixa eu falar, porra!...
Alô, alô!... Seu Fortunato?... Alô?!... Seu Fortunatoôô?
Alô, alô... Alôôôôôô!
Sem perder tempo, o senhor grisalho indagou, nitidamente dirigindo a palavra ao jovem desesperado:
— Xiii... será que o velho enfartou? – Sem obter resposta, o autor da piada sugeriu: – Por que não tenta ligarde volta?... Ops... Já ia esquecendo, aqui ninguém tem
crédito no celular. Oh, e não adianta olhar pra mim, o meu
tá sem crédito, sem bateria e sem carregador – disse, dando uma gargalhada.
O rapaz abaixou a cabeça e se manteve em silêncio. O
piadista estalou os dedos na sua direção e perguntou:
— Ei, tudo bem aí, amigo?
— Que pergunta mais idiota! Quem pode dizer que
está bem nesta merda? – finalmente se manifestou o
rapaz.
— Ei, não precisa ficar nervoso, aqui estamos todos
no mesmo barco, ou melhor, no mesmo beco. Deixe eu me
apresentar, me chamo Gerald.
— Prazer... Fabrício.
— Você fazia o que antes de vir pra cá? – perguntou
Gerald.
— Era corretor de valores.
— Cara, isso dá muito dinheiro. Como tu veio parar
aqui?
— Eu morava em Nova York, onde fiz fortuna no
mercado de ações, mas perdi muito dinheiro com a crise
dos créditos imobiliários de risco, o subprime. Já ouviu
falar?
— Claro. Tive um vizinho que perdeu a casa, a mulher
e o cachorro – disse o senhor grisalho, enquanto pegava
duas caixas de cervejas vazias que estavam jogadas num
canto, improvisando dois assentos. – Sente-se aí, meu rapaz, e continue.
— Daí, voltei para o Brasil, montei uma corretora,onde investi o resto do meu dinheiro e de meus clientes
em empresas ligadas ao Pré-Sal... e o resto tu já sabe...
O jovem tirou um maço de cigarros do bolso, acendeu
um, oferecendo outro ao amigo com um gesto, e perguntou em seguida:
— E tu, por que veio parar aqui?
— Dívidas, meu caro! Tô atolado até o pescoço – respondeu Gerald.
— Quem não está endividado neste mundo? – indagou Fabrício, irônico.
— Poucos como eu – disse, soltando um trago.
— Não entendi! Endividado é endividado em qualquer lugar!
— Meu caso é diferente. Meu credor não é banco,
loja, cartão de crédito ou qualquer uma dessas porcarias!
— Você deve pra quem... pro diabo?
— Pior, eu devo pras minhas ex-mulheres. Pensão alimentícia, e posso ser preso a qualquer momento.
— Você disse ex-mulheres???
— Sim. Tive cinco casamentos frustrados. No último,
quase me internei em um hospício.
— Ainda bem que nem penso em me casar! – salientou Fabrício.
— Mas sua hora vai chegar.
— Que nada! Casar hoje significa que cedo ou tarde
tu vai ter uma ex-mulher.
— Essa coisa de ex-mulher faz sentido no começo.
Depois que os filhos crescem, volta tudo! Você passa a
ter diferentes famílias e ex-mulheres, entende? É proble-ma pra tudo que é lado. A única diferença é que você vai
dormir apenas com uma, ou com nenhuma delas, que é o
meu caso.
Naquele momento, um senhor de estatura média e
acima do peso, com uma barriga saliente, narigudo, bigode, calvo, de uns sessenta e poucos anos, foi chegando
de mansinho, assoviando uma velha canção, e começou a
bater palmas.
— Sábias palavras.
Os dois amigos entreolharam-se sem entender a aproximação daquela figura, enquanto o homem, de forma
bem intimista, foi lhes estendendo a mão.
— Deixe-me apresentar, Astoufo Peçanha.
— ...Tá aqui também por causa de pensão? – perguntou Fabrício, com olhar desconfiado.
— Antes fosse. Não passo de um apresentador de TV
em fim de carreira – franziu a testa, numa leve expressão
de desânimo.
— Pera aí... eu me lembro de ti! – exclamou Fabrício.
– Astoufo Peçanha, do programa “Verdade Nua e Crua”!
— O próprio.
— Que puta sacanagem que fizeram te tirando do ar...
— Sair do ar foi o de menos. Tomei mais de 20 processos nas costas! O último deles perdi sem direito a recorrer. Resultado: fui obrigado a pagar uma indenização
de um milhão de reais.
— Por quê?
— Coloquei no ar a foto de um político que desviou
milhões dos cofres públicos.— Nossa! Só por causa disso?
— O problema é que na foto estavam a esposa, a sogra, os filhos e o cunhado do larápio. E o imbecil do câ-
mera se esqueceu de desfigurar a imagem deles – disse,
franzindo a testa e levando a mão à cabeça.
— Isso é o que eu chamo de mau enquadramento de
cena... – ironizou Fabrício.
De repente, Gerald fez um sinal de silêncio:
— Xiiiiiii... pera, pessoal! Parece que tá chegando
gente nova no beco.
Todos ali passaram a observar um sujeito chegando
de mansinho, com aparência de megaempresário, sapatos
bem lustrados, terno preto engomado, combinando com
a camisa branca sob a gravata vermelho-carmim, óculos
sobre as bochechas rosadas, cabelo liso, penteado para o
lado, aparentando uns 43 anos.
— Esse aí parece grã-fino! – disse Gerald, olhando
fixamente para o sujeito.
— A começar pelo sapato... – completou Astoufo.
— É brasileiro, é brasileiro! – comemorou Fabrício.
— Como é que você sabe? – perguntou Astoufo.
— O mestre de cerimônia deu as boas-vindas em
português.
— Pela elegância, podia jurar que era francês...
— Vou lá bater um papo com ele! – disse o gaúcho,
animado.
— Ei, ê, ê... pera aí! – intercedeu Gerald. – Deixa ele
ir sossegado.
— Pra onde ele tá indo? – perguntou Fabrício— Para onde todos vão, quando chegam aqui. Não se
lembra?
— Sim! Pro final do beco.
— Exatamente. É lá que ele vai começar a entender
que está em um beco sem saída.
— Mas de uma coisa vocês podem ter certeza: ele é
brasileiro e não desiste nunca! – comentou Astoufo.
— ...E vai sempre acreditar que existe uma saída –
completou Gerald.
— Gente! O sujeito com pinta de megaempresário tá
chegando aí. – anunciou Fabrício.
Ao chegar, o camarada olhou para os demais e ao redor, com visível ar de superioridade. E Gerald, curioso
para saber o que um sujeito tão polido fazia ali, foi logo
puxando assunto:
— Ficou pouco tempo no final do beco, senhor!
— Alguns minutos, nada mais, foram suficientes para
me sentir renovado.
— E aí, o que senhor achou? – perguntou Fabrício,
um pouco temeroso da resposta.
— Sabe de uma coisa? Adorei este lugar. Um espetáculo! Um monte de gente na merda acreditando que
o amor, desses romances de folhetins baratos, poderá
salvá-los desta pocilga. Ah! Serei fonte inesgotável de
motivação para esses miseráveis, ainda que tudo pare-
ça perdido! “Mesmo que a vida lhes mostre o contrário,
nunca desistam de seus sonhos!” – disse, com expressão afirmativa. – “Lute com determinação, abrace a vida
com paixão, perca com classe e vença com ousadia”, Sir
Charles Chaplin!
— Frases profundas. O senhor lê muitos livros de autoajuda? – perguntou Fabrício.
— Não só leio como escrevo, dou palestras e tudo
mais.
— Parou por quê? – perguntou Gerald.
— Uma falência inesperada...
— É. Tem muita gente aqui na mesma situação... –
disse Gerald.
— Meu caso é diferente... quero unir o útil ao agradá-
vel, dar a volta por cima neste lugar desprezível e, ao mesmo tempo, conseguir novos leitores ávidos por motivação.
— Ô! Cliente é o que não vai faltar... – disse Astoufo.
— Só não garanto que eles terão condições de comprar os seus livros... – disse Fabrício, irônico.
— Eu sei, um bando de pés-rapados, dividindo a almôndega do almoço pra comer a outra metade no jantar.
Mas ainda assim não desistirei desses pobres diabos. “A
vitória pertence ao mais perseverante”, já dizia Napoleão
Bonaparte.
— Isso. Gostei de ver – disse Gerald, batendo palmas.
– Esta é a fórmula do sucesso: seguir firme, sem perder a
esperança!
E o Palestrante Motivacional Falido (vamos chamá-lo
assim) completou:
— “O sonho e a esperança são dois calmantes que a
natureza concede ao ser humano”, Frederico Primeiro.— Bah. Sei não! Acho que o melhor pra ti é repensar
essa teoria ou tu vai acabar morrendo com uma superdose
desse calmante – ironizou Fabrício.
— De forma alguma! “A esperança é o sonho do homem acordado”, já dizia Aristóteles. Enfim, esperança
nunca é demais!
— Depende! – contrapôs Fabrício. – Aprendi que
acreditar desmedidamente nas coisas pode te levar a um
beco sem saída como este em que nos metemos.
— Pois saiba, meu amigo, para o desgosto dos pessimistas, vou acreditar sempre, mesmo que eu tenha que
deixar de acreditar; pois acredito que, acreditar que deixar de acreditar para depois acreditar que o deixar de
acreditar foi necessário para voltar a acreditar, é de vital importância para acreditar a voltar a acreditar, pois
deixar de acreditar para voltar a acreditar torna possível
inventar uma nova maneira de deixar de acreditar para
voltar a acreditar. Entende?
— Ou seja, você não chega a lugar nenhum! – ironizou Fabrício àquelas palavras totalmente sem sentido.
— Chegar a lugar algum pode ser um grande avanço
para quem está em um beco sem saída como nós. Quiçá,
a solução.
— Então o senhor acredita que conseguiremos sair
daqui? – perguntou Astoufo, animado.
— Lógico que sim! E muito mais fortalecidos.
“Preste atenção no que vou lhe contar: em uma de
minhas palestras, das milhares que dei pelo mundo, falei
exatamente sobre isso. Existe beco sem saída, mas existesaída sem beco, entende? Ou seja, quando você sair desta
merda, não vai haver outro beco pra te infernizar. Será uma
saída ampla com horizontes e possibilidades infinitas!”
Fabrício se irritou com aquele positivismo exacerbado, arrancou o livro do sujeito e disparou:
— Ah, não! Aí já é demais!
Gerald logo intercedeu, tentando apaziguar.
— Ei, calma! Deixa ele desabafar.
— Desabafar é uma coisa, cuspir besteira é outra!
Gerald puxou Fabrício para o canto e cochichou:
— Fica assim, não! Olha pra esse cara. Num tá vendo que ele tá louco? É só não entrar na pilha dele, entende?
Gerald, Fabrício e Astoufo ficaram observando o sujeito, de expressão débil, que se demonstrava completamente perdido. Mesmo assim, talvez para disfarçar a sua
difícil situação, tentava passar o máximo de segurança
e tranquilidade. Era como se ele estivesse em uma barca encharcada a todo instante por fortes ondas, durante
uma tempestade, no meio do oceano cheio de tubarões e,
ainda assim, procurasse fósforos para acender uma fogueira, tentando chamar a atenção da guarda costeira.
Ele estava totalmente em transe, o que o tornava imune
aos impactos psicológicos de sua complicada situação,
um quadro difícil de reverter, sobretudo em um sujeito
acostumado a tirar pessoas da beira do precipício através
de suas palestras e livros de autoajuda. Sendo assim, os
três degredados deixaram que ele continuasse seu discurso desconexo:— Amigos! Vou lhes dizer! Daqui, deste beco, saíram
grandes homens! É no abismo que entendemos a profundidade do fracasso e quanto são ilimitadas as possibilidades
de sucesso! “Ter sucesso é falhar repetidamente, mas sem
perder o entusiasmo.” Winston Churchill. Já dizia Thomas
Edison: “Eu não falhei. Só descobri 10 mil caminhos que
não eram o certo”.
E blá, blá, blá e blá...
— Bah, Chegaaaaaaaa!!! – esbravejou Fabrício. –
Cara, eu tentei, mas num teve jeito! Eu sabia que a próxima asneira que tu falasse desses malditos livros de autoajuda, que você leu e não te ajudaram pra porra nenhuma,
eu ia te falar umas verdades, abrir teus olhos, guri... pra ti
acordar de vez! – disse Fabrício, furioso.
— Deixa ele, Fabrício! – defendeu Gerald.
Como se estivesse com um colete à prova de balas,
praticamente ileso de qualquer ataque verbal, o Palestrante
Motivacional Falido, numa aparente tranquilidade, disse:
— Liga, não! Deixe que ele continue! Devemos tirar
proveito de todas as situações. “Um homem de sucesso é
aquele que cria uma parede com os tijolos que jogaram
nele.” David Brinkley, jornalista.
— Ah é? Então vamos ver... – Fabrício ameaçou jogar-lhe um tijolo.
Borrando de medo, o Palestrante se encolheu, tentando
se proteger com uma das mãos.
— Ei, calma. Nada de violência – censurou Gerald,
segurando o braço do colega. – Você poderia matá-lo com
essa porcaria. Tá maluco?— Ficar com certeza, maluco beleza... – cantando e
tocando um violão, entrou em cena um sujeito com cavanhaque, cabeludo, óculos escuros, colete e calça boca de
sino, estilo anos 70 do século passado.
— Ihhh! Chegou mais um doido! – disse Gerald, colocando a mão sobre a testa.
— Quem é esse? – perguntou Fabrício.
— É o Cantor de Um Sucesso Só, que hoje não toca
nem em botequim risca faca de quinta categoria.
O sujeito, com fala cantada, dá seu apoio ao palestrante.
— Olha, meu irmão! Tava vendo o teretetê de vocês
e, como soteropolitano, na minha visão poética de musicalidade, tenho que concordar com nosso amigo empresá-
rio palestrante motivacional e outros “gári gáris”. A gente
tem que acreditar! A vitória tá em nossas mãos, tá sabendo? Este beco em que a gente está metido pode ser uma
verdadeira higiene mental...
Astoufo cutucou Gerald e perguntou baixinho:
— Que música ele cantava quando fazia sucesso?
— Linda do Carnaval. Dizem que ficou dois anos nas
paradas.
— Eu me lembro dessa música! – disse Fabrício – Ei,
toque...
— Xiiiii – Gerald fez sinal de silêncio – Pelo amor de
Deus! Não pede pra ele tocar!
— Por quê? – perguntou Fabrício— Desde que ele chegou aqui, não faz outra coisa.
Ele deve ter tocado essa música mais de mil vezes. Pera
aí! Parece que ele vai tocar outra.
— “Ando devagar porque já tive pressa e levo este
sorriso porque já chorei demaaais”...