Ponto de Vista de Elisa:
O professor Davi, o professor de Português, um homem cuja paciência geralmente parecia ilimitada, agora examinava a cola amassada, as sobrancelhas franzidas. A tensão na sala era densa, sufocante.
"Elisa", disse ele, sua voz surpreendentemente gentil, mas firme. "Isto é seu?" Ele empurrou o papel para mais perto de mim.
Apertei minha caneta, os nós dos dedos brancos. Minha garganta estava seca, um deserto. Eu não conseguia falar, não em voz alta, ainda não. Meu silêncio, um hábito de uma década, era ao mesmo tempo minha prisão e meu escudo. Apenas encarei a cola, depois para ele.
"Elisa", ele repetiu, sua voz subindo um pouco, um toque de frustração se insinuando. "Preciso de uma resposta. Este papel é seu? Você colou?"
Ele não sabia. Ele não sabia sobre o incêndio, sobre o trauma, sobre o silêncio que havia engolido minha voz por completo. Ele apenas via uma aluna desobediente. Era uma narrativa familiar, da qual eu estava cansada.
Seu rosto corou, uma veia pulsando em sua têmpora. "Seu silêncio não está ajudando seu caso, mocinha!"
Ele marchou até sua mesa, pegando o telefone. "Vou ligar para a sua coordenadora, a professora Joana." As palavras foram uma sentença de morte, sinalizando a escalada inevitável.
A voz de Amanda, um sussurro malicioso, cortou o silêncio tenso. "Olha pra ela, a mudinha. Não consegue nem se defender. Provavelmente está muito ocupada praticando como parecer inocente para todo mundo. Ela é só um caso de caridade trágico, não é, Elisa?"
Uma onda de risadinhas percorreu a sala de aula. O som era como mil agulhas minúsculas picando minha pele. Meu rosto queimava. Meu olhar disparou para Bruno, um apelo desesperado por ajuda, por resgate, pelo protetor que ele costumava ser.
O rosto de Bruno estava sombrio, uma tempestade se formando por trás de seus olhos. Ele fuzilou Amanda com o olhar, uma ameaça silenciosa que geralmente a fazia se encolher. Mas não hoje. Hoje, ela apenas sorriu com desdém.
A verdade amarga se instalou em meu estômago: isso era apenas mais um ato, mais uma cena em sua peça doentia. O "jogo" deles para me fazer chorar estava a todo vapor, e Bruno estava desempenhando seu papel lindamente.
A professora Joana, minha coordenadora, entrou correndo, seu rosto marcado pela preocupação, mas também com um toque de exasperação. A cena já era um desastre. Todos estavam olhando, sussurrando.
"Bruno", disse a professora Joana, sua voz tensa. "Você pode perguntar à Elisa o que aconteceu? Por favor?" Ela olhou para ele, depois para mim, seus olhos cheios de uma mistura de pena e urgência.
Bruno se levantou, seus movimentos rígidos, quase hesitantes. Ele caminhou em direção à minha mesa, de costas para a turma, suas mãos se movendo nos gestos familiares e fluidos da Libras. *Elisa, você colou?* Seus olhos, notei, evitaram cuidadosamente os meus. Ele estava atuando, de novo.
Observei suas mãos, seu rosto, as mudanças sutis em sua postura. Ele parecia o mesmo, mas tudo parecia diferente. Suas mãos, antes uma fonte de conforto, agora pareciam um canal para a traição. As memórias de sua gentileza passada, de seu ensino paciente, me invadiram, uma piada cruel.
Ele se virou para a professora Joana, ainda parcialmente de costas para mim. "Ela... ela admite", disse ele, sua voz baixa, mas clara o suficiente para todos ouvirem. "Ela colou."
Meu coração parou. O mundo girou. Ele nem mesmo olhou para mim. Ele simplesmente os contou. A traição foi tão súbita, tão absoluta, que me roubou o fôlego.
Mas então, uma faísca de algo se acendeu dentro de mim. Uma determinação fria e dura. Eu não o deixaria vencer o jogo deles. Eu não o deixaria me quebrar. Não assim.
Levantei-me, empurrando minha cadeira para trás com um arrastar alto que fez todos pularem. Olhei para Bruno, depois para a professora Joana, e assenti. Lentamente, deliberadamente, eu assenti. Sim.
Os olhos de Bruno se arregalaram, um flash de genuína confusão em seu rosto. Ele balançou a cabeça, um *Não* silencioso, mas eu o ignorei. Este era o meu jogo agora.
Peguei meu caderno, arranquei uma página nova e escrevi em letras grandes e claras: "EU COLEI. ME DESCULPE." Então entreguei à professora Joana. As palavras eram uma mentira, mas o ato era a minha verdade.
O rosto da professora Joana endureceu, seus lábios pressionados em uma linha fina. Ela pegou meu braço, seu aperto firme, e me levou para fora da sala de aula. Os sussurros nos seguiram, um coro de julgamento.
Amanda, observando de sua carteira, parecia genuinamente surpresa. Seu sorriso presunçoso vacilou, substituído por um flash momentâneo de incredulidade. Minha admissão a tirou do roteiro.
Bruno, ainda de pé ao lado da minha mesa, balançou levemente. Seus ombros caíram. Um tremor percorreu seu corpo, uma ondulação visível de angústia. Bom. Deixe-o sentir.
O resultado foi rápido. Minha nota na prova foi cancelada, um zero bem grande, mas fui poupada de um registro disciplinar formal. A professora Joana, soube mais tarde, havia lutado por mim na sala do diretor, atestando meu caráter, pela garota quieta e estudiosa que ela pensava que eu era.
Fiquei do lado de fora da diretoria, o sol da tarde aquecendo minha pele, mas não senti nada além de um frio arrepiante. O mundo, tão vibrante momentos atrás, agora parecia sem graça, silenciado.
Meu coração martelava com um novo tipo de determinação. O jogo deles acaba agora. Jurei a mim mesma, um voto silencioso gravado em meu ser.
Fui autorizada a voltar para a sala de aula. Amanda, ao me ver, imediatamente começou a murmurar: "Colona, colona, come mamona", baixinho, uma provocação infantil. Alguns outros se juntaram, suas vozes um zumbido baixo e zombeteiro.
Bruno se levantou de um salto, seu rosto uma nuvem de trovoada. Ele foi até a mesa de Amanda, bateu a mão nela e, em sinais rápidos e secos, *Cala. A. Boca.* Então ele veio até minha mesa, empurrando minha cadeira para trás. Ele gesticulou: *Você está bem?* Suas mãos eram gentis, seus olhos cheios de uma preocupação fingida.
Lembrei-me de como seu toque costumava me fazer sentir segura, protegida. Suas mãos gesticulando aquelas palavras familiares, *Você está bem?* Era um ritual, um bálsamo. Mas agora, eram apenas movimentos vazios, um teatro de simpatia.
Gesticulei de volta, mecanicamente: *Estou bem.* Minhas mãos se moveram, mas meu coração permaneceu imóvel, congelado.
O resto do período de prova passou em um silêncio inquieto. Eu podia sentir o olhar de Bruno em mim, pesado e constante, mas me recusei a encontrar seus olhos.
Depois do sinal, enquanto arrumávamos nossas coisas, gesticulei para ele: *Ainda vai para Lisboa para a faculdade?* Era um teste, uma confirmação final do futuro que havíamos planejado, um futuro que agora parecia impossível.
Ele não hesitou. *Claro. Sempre dissemos que iríamos.* Sua resposta foi imediata, confiante, como se nada tivesse mudado.
Assenti, um movimento pequeno, quase imperceptível. Então me virei e fui direto para a sala da professora Joana.
Peguei os formulários de inscrição para a faculdade, meus dedos traçando as linhas em branco. Preenchi uma nova inscrição, uma nova universidade, uma nova cidade: Brasília, onde meu tio morava. Meu coração batia com um ritmo desafiador.
Não, Bruno. Não iremos juntos. Nossos caminhos, antes entrelaçados, agora estavam irrevogavelmente se separando.
Ponto de Vista de Elisa:
Eu estava andando pelo corredor deserto, indo em direção à biblioteca, quando ouvi suas vozes. Amanda e Bruno. Parei na esquina, escondida pelos armários, meu coração afundando.
"Você realmente espera que eu saia com você, Bruno, quando sua mudinha está sempre por perto?", a voz de Amanda estava carregada de irritação, um som agudo e irritante. "Ela é como uma sombra, um lembrete constante de... tudo."
"Ela não está por perto", murmurou Bruno, sua voz tensa. "Ela só... precisa de mim."
"Ah, ela precisa de você", zombou Amanda. "Ela é um fardo, Bruno. Um peso morto. Sempre foi. Todo mundo sabe disso."
Meu sangue gelou. Um fardo. Um peso morto. As palavras, sussurradas tão casualmente, foram como água gelada derramada diretamente em minha alma. Afastei-me dos armários, saindo para o corredor.
Antes que eu pudesse dar outro passo, algo grosseiro e áspero foi jogado sobre minha cabeça. Um saco de lona grosso, cheirando a poeira e mofo, me envolveu, me mergulhando em uma escuridão instantânea. O pânico explodiu, quente e agudo, mas eu o contive. Eu não lhes daria essa satisfação.
Fui puxada para frente, arrastada bruscamente pelo chão, meus pés raspando nos azulejos. O som de uma porta pesada rangendo ao abrir, depois batendo, ecoou ao meu redor. O ar ficou úmido e pesado, cheirando vagamente a água parada e desinfetante. Eu estava em um banheiro, provavelmente o abandonado na ala antiga da escola.
"Olha pra ela", a voz de Amanda, agora mais clara, mais nítida, preencheu o pequeno espaço. Ela claramente achava que eu não podia ouvi-la. "Apenas parada aí, patética como sempre. Ela nunca se cansa de ser uma vítima?"
Ela riu, um som cruel e zombeteiro. "Sabe, o Bruno acha que você é uma santa. Tão pura. Mas ele odeia essa sua cara de paisagem, Elisa. Ele me disse. Ele odeia que você nunca reage, nunca chora. É chato, ele disse."
As palavras foram um golpe físico, um soco no estômago. Bruno. Meu Bruno. Ele odiava meu rosto? Ele odiava meu silêncio? O mundo girou em seu eixo.
"Sabe o que eu acho?", continuou Amanda, sua voz cheia de um veneno arrepiante. "Acho que você merece tudo de ruim que acontece com você. Você monopolizou o Bruno por tanto tempo, o fez se sentir culpado. Espero que você queime, assim como seus pais."
Meus olhos arderam, uma dor aguda e súbita. Lágrimas, quentes e incontroláveis, brotaram e escorreram pelo meu rosto, molhando o interior do saco áspero. A memória do incêndio, uma ferida aberta em minha alma, se rasgou novamente. Meus pais. O sacrifício deles. E Bruno, que havia compartilhado aquele segredo, aquele trauma, o havia transformado em arma. Ele havia contado a Amanda. Ele havia compartilhado minha vulnerabilidade mais profunda e dolorosa com minha algoz.
Um estalo agudo. Uma onda de dor agonizante subiu pela minha perna. Senti o gosto de sangue, metálico e acre. Um osso. Parecia que um osso tinha acabado de quebrar. Um gemido sufocado escapou dos meus lábios selados.
Então, um frio súbito e chocante. Água, gelada e com cheiro fétido, foi derramada sobre minha cabeça, encharcando minhas roupas, colando o saco de lona no meu rosto. Engasguei, sufocando com o fedor.
Minha cabeça foi forçada para baixo, para dentro de algo molhado e nojento. A água fria e pútrida de um vaso sanitário encheu meu nariz, minha boca. Eu me debati, minha perna quebrada gritando em protesto, meus pulmões queimando. Minha mente gritou *Bruno!* Um grito desesperado e primitivo pelo protetor que não estava lá.
Então, fracos a princípio, ouvi passos. Passos rápidos e pesados do lado de fora da porta. E então, a voz de Bruno, clara e alta através da porta fina. "Amanda! O que você está fazendo?"
Uma onda de esperança, tola e fugaz, surgiu em mim. Ele estava aqui. Ele me salvaria.
"Ah, nada demais, Bruninho", arrulhou Amanda, sua voz enjoativamente doce, como se não tivesse acabado de tentar me afogar. "Só me divertindo um pouco."
"Eu te disse pra deixá-la em paz!", a voz de Bruno era ríspida, uma nota clara de raiva. Mas então ele acrescentou: "Eu saio com você hoje à noite. Prometo. Só não faz cena agora."
Minha esperança evaporou, substituída por uma onda esmagadora de desespero. Ele ainda estava jogando o jogo dela. Ainda a priorizando.
"Só não faz cena, Amanda", repetiu Bruno, sua voz mais baixa, mais um aviso do que uma ordem. "Não exagera."
Amanda riu, um som triunfante e zombeteiro. "Ah, Bruno, você é tão hipócrita. Você sabe que adora quando eu a provoco." Sua voz era provocadora, brincalhona.
Senti, em vez de ver, o olhar de Bruno em mim, um peso frio e indiferente. Ele olhou para minha forma se debatendo, escondida pelo saco, e não fez nada. Apenas observou.
"Sério, Amanda, não arruma problema pra gente", disse ele, sua voz curta. "O tio dela é um oficial de alta patente do exército. Se isso vazar, não vai ser bom pra ninguém." Sua preocupação não era com meu bem-estar, mas com as consequências, com sua própria pele.
Então, ouvi um baque nauseante, um som suave e úmido, seguido pela risadinha de Amanda. Meus ouvidos, ainda sobrecarregados pelos novos sons, registraram o som distinto de um beijo. Um beijo longo e demorado. E então, o grito triunfante de Amanda.
"Viu?", ela sussurrou, sua voz pingando satisfação. "Ele sempre volta pra mim."
Bruno se afastou, seus passos pesados enquanto saía, a porta se fechando com um clique suave. Ele me deixou. Ele simplesmente me deixou.
A voz de Amanda flutuou de volta pela porta. "Vê se limpa ela antes que alguém a encontre. Não queremos estragar a imagem perfeita do Bruno, não é?" Ela riu de novo, um som arrepiante. "Ele é tão dividido, não é? Acha que deve algo a ela, mas é muito mais feliz comigo."
"É, tanto faz", respondeu uma voz rouca. "A muda é um pé no saco de qualquer maneira. Sempre fazendo o Bruno parecer o herói dela."
Os passos se afastaram. O silêncio caiu, quebrado apenas pelo gotejar constante de uma torneira vazando em algum lugar próximo.
Deslizei para o chão frio e úmido, meu corpo doendo, minha perna quebrada latejando. Minhas mãos, ainda trêmulas, procuraram meu celular. Uma nova mensagem. De Bruno. *Desculpa. A gente se vê em casa.*
Cada palavra era uma farpa, perfurando meu coração já estilhaçado. Minha visão embaçou. Minhas pálpebras ficaram pesadas. A escuridão, antes um terror, agora parecia um abraço acolhedor. Meu corpo cedeu. Mergulhei na inconsciência, os sons do mundo desaparecendo, substituídos pelo vazio familiar e reconfortante.
Eu estava de volta ao incêndio. O calor, a fumaça, os gritos. Os rostos dos meus pais, contorcidos de medo, mas seus olhos, fixos em Bruno, cheios de uma determinação desesperada. *Proteja-a, Bruno!* As palavras ecoaram em minha mente, um apelo silencioso.
*Eu prometo, Elisa. Vou sempre te proteger. Sempre.* Sua voz, de uma década atrás, estava clara em minha memória, um fantasma de um voto.
Ele havia prometido. Mas promessas, percebi, eram apenas palavras, facilmente quebradas, facilmente descartadas. Ele havia quebrado a sua. E ao fazer isso, ele havia me quebrado.