Ponto de Vista de Carolina Almeida:
Na manhã seguinte, meu celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido. Eu não precisava olhar para saber quem era.
*Ele está se punindo pelo que você fez*, dizia o texto. Uma mensagem de voz veio em seguida.
Apertei o play. A voz enjoativamente doce de Kátia encheu o silêncio do meu quarto. "Ele está ajoelhado em cacos de vidro, Carolina. Por mim. Pelo nosso bebê. Para expiar os seus pecados. Ele disse que não vai se levantar até você vir ao hospital e me pedir desculpas. De joelhos."
Meu polegar pairou sobre o botão de apagar.
"Ele realmente te ama, Carolina?", sua voz pingava uma falsa pena. "Ou ele só ama o poder que seu nome lhe dá? Porque um homem que ama uma mulher não a faz se ajoelhar."
Uma foto chegou. Heitor e Kátia, enrolados nos lençóis da minha cama. A mão dela estava no peito dele, bem sobre o coração. Seu anel de diamante, uma coisa brega que ele devia ter acabado de comprar para ela, brilhava com a luz. Era uma declaração de guerra.
*Vamos nos mudar para a mansão amanhã. Já pedi aos decoradores para enviarem os novos projetos. Seu gosto é um pouco... ultrapassado.*
Olhei para a parede oposta à minha cama. Um enorme retrato do chão ao teto de Heitor e eu no dia do nosso casamento. Parecíamos felizes. Imparáveis. Um rei e sua rainha. Agora, parecia um monumento à minha própria estupidez.
Caminhei até minha penteadeira, meus movimentos calmos e deliberados. Abri uma gaveta forrada de veludo e tirei uma pequena e ornamentada adaga. Um presente do meu pai. 'Para cortar laços', ele havia dito.
Voltei para o retrato. Olhei nos olhos pintados de Heitor; o artista havia capturado até a leve cicatriz acima de sua sobrancelha. A cicatriz que eu costumava traçar com a ponta dos dedos.
"Você é uma doença, Heitor", sussurrei.
Então, cravei a adaga na tela, bem no olho esquerdo dele. O som do tecido rasgando foi profundamente, brutalmente satisfatório.
No dia seguinte, eu estava esperando por eles.
Eles chegaram à tarde, o braço de Heitor protetoramente em volta dos ombros de Kátia, como se eu fosse algum tipo de monstro. Ele parecia cansado, seus olhos fundos, mas sua mandíbula estava cerrada com uma resolução teimosa.
Kátia, por sua vez, parecia pálida e frágil, um curativo aparecendo sob a gola de sua camisa. Ela se agarrava a Heitor, seus olhos arregalados com um medo cuidadosamente ensaiado.
Eles pararam abruptamente quando me viram, parada no grande hall de entrada.
O rosto de Heitor se contraiu. "Carolina. O que você está fazendo aqui?"
"Eu moro aqui", eu disse, minha voz plana. "Ou você esqueceu?"
"Você só está tornando isso mais difícil", disse ele, sua voz carregada de exasperação. Ele estava me tratando como uma criança difícil, um problema a ser gerenciado.
Kátia se inclinou para ele, sua voz um sussurro trêmulo. "Heitor, estou com medo."
"Está tudo bem, meu bem", ele murmurou, acariciando o cabelo dela. "Eu estou aqui."
Ele olhou para mim, seus olhos suplicantes. "Apenas deixe-a se mudar, Carolina. Podemos resolver isso mais tarde. Silenciosamente."
A dor que atravessou meu peito foi tão aguda, tão física, que quase ofeguei. Senti meu coração se partir em mil pedaços. Ele queria que eu ficasse quieta. Ele queria que eu engolisse essa humilhação, essa traição, e simplesmente... aceitasse. Ele algum dia me conheceu?
Eu não respondi. Em vez disso, virei-me para Arthur, que estava parado silenciosamente perto da porta.
"Arthur", eu disse, minha voz ressoando com autoridade. "Mande a equipe remover aquela monstruosidade do meu quarto e queimá-la." Gesticulei vagamente em direção à escada, em direção ao retrato desfigurado.
"Você não vai fazer tal coisa!", Heitor rugiu. Ele deu um passo à frente, bloqueando o caminho de Arthur. "Esta casa também é minha, Carolina! Pare com essa birra infantil!"
Ele virou seu olhar furioso para mim. "Você foi quem errou primeiro! Você a machucou! Você machucou nosso filho! Você não pode, por uma vez, pensar em alguém além de si mesma?"
Suas palavras eram um borrão de ruído. Meu foco estava em Kátia. Ela estava se escondendo atrás de Heitor, mas seus olhos estavam fixos em mim, e eles brilhavam com triunfo. E então, ela articulou uma única palavra. Uma palavra que parou meu coração.
'Aborto.'
Ela sorriu, um sorriso cruel e secreto só para mim. E então ela falou, sua voz alta o suficiente para eu ouvir por cima da tirada de Heitor.
"Ele me contou tudo", ela sussurrou, as palavras como veneno. "Ele disse que foi melhor você ter perdido. Que provavelmente era filho de outro homem de qualquer maneira. Ele disse que armou o acidente para se livrar dele. Ele nunca quis um filho com uma vadia fria e estéril como você."
O mundo girou.
O ar fugiu dos meus pulmões. A cicatriz na parte inferior do meu abdômen, uma fina linha prateada da cesárea de emergência que não conseguiu salvar meu filho, começou a queimar. Uma dor fantasma, uma memória de perda tão profunda que quase me destruiu.
Heitor me abraçou por semanas depois. Ele chorou. Ele construiu um pequeno memorial perto do lago em nossa propriedade. Ele jurou na memória daquela criança que me amaria para sempre.
Era tudo uma mentira.
A frieza em mim, o vazio, foi subitamente preenchido por uma fúria incandescente que consumiu tudo. Todo pensamento, toda razão, toda dor. Havia apenas o fogo.
Eu avancei.
Movi-me tão rápido que nenhum deles teve tempo de reagir. Agarrei Kátia pelos cabelos loiros, puxando-a para longe da proteção de Heitor. Ela gritou, suas mãos voando para a cabeça.
Eu a bati contra a parede. A cabeça dela bateu no gesso com um baque surdo e medonho.
"Carolina, pare!", Heitor gritou, agarrando meus braços.
Eu nem o senti. Meu mundo se estreitou para o rosto aterrorizado e choroso da mulher que acabara de profanar a memória do meu filho.
"Você tocou na única coisa que nunca deveria ter tocado", rosnei, minha voz um som que eu não reconheci.
"Você está piorando as coisas!", Heitor gritou, sua voz rachando de desespero enquanto tentava me tirar de cima dela. "Você só está aumentando seus pecados!"
Ponto de Vista de Carolina Almeida:
Meus pecados?
A palavra pairou no ar, absurda e obscena. Pensei nos anos que passei aparando minhas próprias arestas para dar espaço a ele. Eu me afastei da empresa, deixando-o assumir o título de CEO, os holofotes, a glória. Fiz isso porque o amava, porque o sucesso dele parecia o meu.
Lembrei-me da agonia de perder nosso filho. Lembrei-me de Heitor, ajoelhado ao lado da pequena pedra que colocamos perto do lago, seus ombros tremendo de soluços. Ele me confessou então, através de suas lágrimas, que estava dirigindo rápido demais, que estava distraído, que o acidente foi culpa dele.
Ele jurou que passaria o resto da vida se redimindo. Ele prometeu, sua voz rouca com uma dor que eu pensei ser real: "Se eu algum dia te trair, Carolina, se eu algum dia quebrar esta promessa, que eu sofra mil cortes. Que eu engula mil agulhas."
Tornou-se nosso voto sombrio. Um trauma compartilhado que nos unia. Por anos, o assunto filhos foi uma porta fechada, um cômodo em nossa casa compartilhada que nunca entramos. Um acordo silencioso e mútuo para proteger uma ferida que nunca cicatrizaria completamente.
E agora ele estava falando sobre meus pecados.
Meu aperto no cabelo de Kátia afrouxou. Heitor, pensando que eu havia recuperado o juízo, soltou um suspiro de alívio.
"Carolina...", ele começou, sua voz suavizando, tentando me acalmar.
Eu não o deixei terminar.
Eu ainda tinha a adaga. Estava enfiada na cintura da minha calça. Minha mão se moveu, um borrão de movimento.
Eu não estava mirando no coração dele. Isso teria sido uma misericórdia.
Avancei e passei a lâmina pequena e afiada pela sua sobrancelha esquerda. Bem sobre a cicatriz. Seu "símbolo de honra".
Ele gritou, tropeçando para trás, a mão voando para o rosto. Sangue, escuro e rico, brotou instantaneamente, escorrendo por sua têmpora e em seu cabelo escuro e perfeito.
"Essa é a primeira", eu disse, minha voz mortalmente calma. "O preço da traição, Heitor. Estou apenas começando."
Olhei para a nova cicatriz, a que eu acabara de lhe dar. Estava fresca, irritada e vermelha. Arruinava a narrativa heroica. Era uma marca de vergonha. Eu sorri. Um sorriso fino e frio que não alcançou meus olhos.
"Heitor!", Kátia gritou, finalmente encontrando sua voz. Ela se afastou da parede e avançou sobre mim, me empurrando com uma força surpreendente. "Sua psicopata! Olha o que você fez com ele!"
Eu mal tropecei. Virei meu olhar frio para ela. "Tire suas mãos de mim."
Eu a esbofeteei, com força. O som ecoou no hall de entrada. Ela cambaleou para trás, seus olhos arregalados de choque e fúria.
"Você quer ser a dona desta casa?", perguntei, dando um passo lento em sua direção. "Você quer a minha vida? Acha que tem o que é preciso para mantê-la? Você é fraca. Uma parasita. E quando ele se cansar de você, ele vai te descartar como está tentando me descartar."
Inclinei-me para perto, minha voz um sussurro. "E quando ele fizer isso, eu estarei esperando. Eu vou te encontrar, e vou te tirar tudo. Você vai acabar de volta onde começou, sem nada. Eu te prometo isso."
Lágrimas escorriam por seu rosto, mas seus olhos continham uma centelha desafiadora. "Eu não vou a lugar nenhum", ela soluçou, sua voz trêmula, mas teimosa. "Eu o amo, e ele me ama! Você é quem vai ficar sem nada!"
Suas palavras, tão semelhantes aos votos que eu um dia fiz, me deram um choque. Uma memória, nítida e vívida, brilhou em minha mente.
O guincho de pneus. O cheiro de gasolina e meu próprio medo. O mundo se contorcendo, metal gemendo. E Heitor, no banco do motorista ao meu lado, soltando o cinto de segurança naquele segundo antes do impacto. Ele se jogou sobre mim, seu corpo um escudo humano.
"Carolina!", sua voz, um rugido desesperado do meu nome, foi a última coisa que ouvi antes que o mundo ficasse preto. Ele chamou meu nome como se fosse uma oração.
"Carolina, você foi longe demais."
Voltei ao presente. Heitor estava lá, pressionando um lenço na testa sangrando, seu rosto uma mistura de dor e incredulidade.
"Você se tornou um monstro", disse ele, sua voz plana.
"Você me criou", respondi.
"Eu nunca te amei", ele cuspiu, as palavras projetadas para infligir o máximo de dano. "Eu era grato. Seu pai me acolheu. Ele me deu uma chance. Eu devia a ele. Eu devia a você. Mas amor? Essa era a sua fantasia, não a minha."
Ele deixou as palavras pairarem no ar, uma torção final e cruel da faca.
"Minha paciência com você acabou, Carolina", ele avisou, sua voz baixa e perigosa. "Não me provoque mais."
Ele se virou de mim então, sua atenção se voltando para a garota chorando no chão. Ele se ajoelhou, acolhendo Kátia em seus braços, murmurando palavras suaves e reconfortantes para ela. Ele a segurou com uma ternura que não me mostrava há anos.
"Está tudo bem, meu bem", ele sussurrou, alto o suficiente para eu ouvir. "Eu estou com você. Ela não pode mais te machucar."
Kátia enterrou o rosto no peito dele. "Estou com tanto medo dela, Heitor", ela chorou. "Ela é louca."
Ele era o herói dela agora. E eu era a vilã.
A narrativa perfeita.