Ponto de Vista de Alice Arruda:
A esperança era uma coisa perigosa e frenética. Batia no meu peito como um pássaro preso batendo contra a gaiola. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas. Uma chance de rebobinar a fita, de apagar as últimas vinte e quatro horas da minha vida que de alguma forma se estenderam por cinco anos de inferno.
Eu não podia apenas ter minha vida de volta. Eu podia ter a vida deles de volta. Mãe. Pai. O pensamento era uma luz ardente na escuridão.
Meu primeiro movimento foi instintivo. Olhei ao redor do quarto de hóspedes estéril — um quarto que eu uma vez imaginei como o quarto do bebê — e encontrei um esconderijo. Deslizei cuidadosamente a preciosa passagem para dentro do forro da minha bolsa, costurando-a com um fio solto do meu suéter. Era frágil, mas era tudo o que eu tinha.
Dormir era um luxo que eu não podia me permitir. Toda vez que eu fechava os olhos, a imagem do rosto frio de Caio e da barriga triunfante e grávida de Karina queimava por trás das minhas pálpebras. Eu os via juntos em nossa casa, dormindo em nossa cama. O pensamento era uma dor física, um ferro quente se retorcendo em minhas entranhas.
Horas depois, uma sede intensa me tirou do quarto. Desci as escadas furtivamente, a casa silenciosa e escura. A planta era a mesma, um membro fantasma da minha vida antiga, mas cada detalhe estava errado. Na cozinha, estendi a mão para pegar um copo no armário onde costumávamos guardá-los, mas minha mão encontrou uma prateleira vazia.
Lembrei-me de como Caio sempre deixava um copo de água na minha mesa de cabeceira, desde que eu lhe disse que muitas vezes acordava com sede. Um pequeno e impensado gesto de amor que agora parecia uma relíquia de uma civilização antiga. O homem que fazia isso tinha desaparecido.
"Não consegue dormir?"
Virei-me bruscamente, meu coração pulando para a garganta. Caio estava na porta, uma silhueta contra a luz fraca do corredor. Ele segurava um copo de leite.
Ele passou por mim até a geladeira sem dizer uma palavra, sua presença sugando o ar da sala. Ele não olhou para mim. Era como se eu fosse um móvel, um obstáculo inconveniente em seu caminho.
O silêncio se estendeu, denso e sufocante. Eu tinha que dizer alguma coisa. Eu não suportava essa indiferença fria.
"Eu... eu estava com sede," eu disse, minha voz mal um sussurro.
Ele assentiu, ainda de costas para mim.
"Karina tem dificuldade para dormir sem leite morno. A gravidez a deixa inquieta."
Cada palavra era um corte pequeno e preciso. Ele não estava pegando leite para si mesmo. Ele estava cuidando de sua esposa grávida. Sua nova vida. Uma vida que não tinha espaço para mim.
As palavras que eu queria dizer — Você me odeia tanto assim? Você não se lembra de nós? — morreram na minha garganta. Qual era o sentido? Ele já tinha me apagado.
Virei-me para sair, para recuar de volta para a minha jaula.
"Alice."
Sua voz me parou. Virei-me, um fiapo de esperança tola tremeluzindo dentro de mim.
Ele não olhou para mim. Seu olhar estava fixo na minha mão, que estava apoiada no balcão.
"A chave da casa," ele disse, sua voz plana. "Preciso dela de volta."
Olhei para baixo. A chave da nossa casa ainda estava no meu chaveiro. Era um design personalizado, um pequeno e intrincado 'A' e 'C' entrelaçados. Ele me deu no dia em que fechamos a compra da casa. 'Uma chave para o nosso futuro,' ele havia dito, seus olhos brilhando de amor.
Minha mão instintivamente se fechou em torno dela.
"Por quê?" perguntei, embora já soubesse a resposta.
"Karina não se sente à vontade com você tendo acesso à casa," ele disse simplesmente, como se estivesse discutindo o tempo. "Ela quer ser a única com uma chave."
Ele ia dar a ela a minha chave. A nossa chave.
A dor foi tão aguda, tão súbita, que me roubou o fôlego. Este homem, este estranho frio, estava sistematicamente desmontando cada peça da vida que construímos, cada símbolo do amor que eu pensei que compartilhávamos, e entregando as peças para ela.
Meus dedos estavam dormentes. Deslizei a chave do chaveiro. O metal estava frio contra a minha palma. Estendi-a para ele.
Ele a pegou sem que seus dedos tocassem os meus, seu olhar ainda desviado.
"Obrigado," ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção.
Virei-me e fugi, sem esperar por uma dispensa. Corri de volta para o quarto de hóspedes e fechei a porta, encostando-me nela como se para conter a maré da minha própria miséria.
Ele a amava.
O pensamento não era mais uma pergunta. Era um fato, tão sólido e imutável quanto a morte dos meus pais. Ele a amava o suficiente para me apagar. Ele a amava o suficiente para dar a ela minha casa, meu futuro, minha chave.
Deslizei para o chão, envolvendo-me com os braços. Minha mão foi para o meu estômago, plano e vazio. Uma nova onda de dor, aguda e distinta, me invadiu.
Nas breves e felizes horas antes da matéria da coluna de fofocas, eu tinha feito um teste de gravidez. Deu positivo. Eu estava esperando um filho de Caio. Eu planejava contar a ele naquela noite, durante um jantar comemorativo. Eu tinha imaginado seu rosto, o choque dando lugar à euforia.
Em vez disso, eu vi uma foto dele com outra mulher. E em minha dor e raiva, eu fugi. Fugi direto para este pesadelo.
Agora, outra mulher estava esperando um filho dele. Um filho que ele claramente queria, um filho que ele amava. E o meu? Nosso bebê era um segredo, um fantasma de um passado que ele se recusava a reconhecer.
Eu não dormi nada.
Na manhã seguinte, olhei no espelho e vi uma estranha. Seus olhos estavam fundos, contornados de vermelho. Seu rosto estava pálido e abatido. Joguei água fria no rosto, forçando-me a me recompor. Apenas mais seis dias.
Desci as escadas furtivamente como uma ladra. Caio e Karina já estavam na mesa do café da manhã. A mesa onde Caio e eu deveríamos tomar nosso primeiro café da manhã como marido e mulher. Ele estava cortando as panquecas dela em pedaços pequenos, do tamanho de uma mordida, assim como costumava fazer para mim.
A cena foi um soco no estômago.
"Alice! Bom dia!" Karina cantou, seu sorriso brilhante e enjoativamente doce. "Venha, junte-se a nós. A Maria fez seu favorito, waffles de mirtilo."
Eu congelei. Como ela sabia disso?
Caio ergueu o olhar, sua expressão indecifrável.
"Karina foi muito cuidadosa ao tentar fazer você se sentir bem-vinda," ele disse, sua voz com um toque de aviso. "Ela vasculhou todas as minhas coisas antigas para saber sobre você."
Ele não tinha contado a ela. Ela havia procurado informações sobre sua rival. O pensamento era arrepiante.
Sentei-me na ponta da mesa, sentindo-me como uma convidada indesejada no meu próprio funeral. Maria, a empregada, colocou um prato de waffles na minha frente com um baque.
Karina pegou um pedaço de panqueca do garfo de Caio, encostando-se nele afetuosamente.
"Caio, querido, minhas costas estão doendo de novo esta manhã."
"Vou preparar um banho para você depois do café," ele murmurou, sua voz se suavizando em um tom de pura adoração que eu não ouvia há cinco anos. "E vou te fazer uma massagem."
"Você é o melhor," ela suspirou, aninhando-se mais perto dele. "Não sei o que faria sem você."
Olhei para o meu prato, os waffles se transformando em cinzas na minha boca. Era a intimidade casual e sem esforço que mais doía. Os momentos tranquilos, o entendimento tácito. Eram todas as coisas que um dia foram minhas.
Ele estava encenando seu amor por ela bem na minha frente, um espetáculo deliberado e cruel projetado para me mostrar exatamente o que eu havia perdido. E estava funcionando. Meu coração estava se partindo em mil pedacinhos.
Empurrei minha cadeira para trás, o som do arrastar alto no silêncio tenso.
"Com licença."
Eu tinha que sair dali.
"Alice." A voz de Caio era afiada, me parando novamente.
Eu não me virei.
"Providenciei um carro para te levar ao cemitério," ele disse, seu tom plano e profissional. "O motorista estará aqui em uma hora."
Meus ombros caíram com uma estranha mistura de gratidão e desespero. Ele estava me dando isso, uma chance de vê-los. Mas não era um ato de bondade. Era uma transação. Uma maneira de gerenciar o problema que eu me tornei.
Ele estava me dando o endereço dos túmulos dos meus pais.
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Ponto de Vista de Alice Arruda:
Meus olhos piscaram, mas não ousei me virar. Não queria que ele visse a gratidão patética que eu tinha certeza que estava estampada no meu rosto.
"Não me entenda mal," a voz fria de Caio cortou o ar, como se tivesse lido minha mente. "Não estou fazendo isso por você. Estou fazendo por eles. É o mínimo que eles merecem depois de..." Ele parou, mas as palavras não ditas pairaram no ar: depois que a filha deles os abandonou.
"Obrigada," consegui dizer, minha voz um sussurro seco. Fugi da sala antes que as lágrimas pudessem cair.
De volta ao quarto de hóspedes estéril, encarei meu reflexo. As roupas que eu usava há dois dias estavam amassadas e manchadas. Eu não tinha mais nada. Nada apropriado para usar no funeral dos meus próprios pais, cinco anos atrasada. O pensamento me trouxe uma nova onda de vergonha.
Uma batida forte na porta me fez pular. Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu.
Era Karina. Ela entrou deslizando, seguida pela empregada, Maria, que carregava uma seleção de vestidos pretos. O sorriso de Karina estava perfeitamente pintado, mas seus olhos eram frios, avaliadores.
"Pensei que você pudesse precisar de algo para vestir," ela disse, sua voz pingando falsa preocupação. "Pedi para a Maria pegar algumas coisas do meu armário. Temos quase o mesmo manequim, não é?"
Ela gesticulou para Maria pendurar os vestidos na porta do guarda-roupa. Eram lindos, caros e totalmente estranhos.
"O Caio me mima demais," Karina suspirou, passando a mão por um vestido de seda justo. "Ele insiste que eu tenha o melhor de tudo. Ele diz que cuidar de mim é seu maior prazer agora."
Cada palavra era um dardo cuidadosamente apontado. Ela estava me mostrando seu poder, seu lugar na vida dele. Ela era a quem ele mimava agora, a quem ele cuidava. Eu era apenas um fantasma em roupas emprestadas.
"Ele é um homem diferente desde que me conheceu," ela continuou, seus olhos encontrando os meus no espelho. "Mais centrado. Ele diz que eu o salvei da escuridão depois que você foi embora."
Olhei para os vestidos pretos, sua austeridade um espelho do vazio em meu peito. Eu não podia usar as roupas dela. Parecia mais uma camada de rendição, mais um pedaço de mim que eu estaria entregando a ela.
"Obrigada," eu disse, minha voz tensa. "Mas vou usar minhas próprias coisas."
O sorriso dela vacilou por um segundo.
"Como quiser," ela disse, seu tom de repente afiado. Ela se virou e saiu do quarto, com Maria a seguindo.
Escolhi meu próprio jeans escuro e o suéter amassado com que cheguei. Era inadequado, mas era meu.
O motorista que me esperava era um rosto familiar. Francisco. Ele era o motorista de Caio há anos, um homem gentil e quieto que sempre me tratou com carinho.
Seus olhos se arregalaram de choque quando me viu.
"Senhorita Arruda? Alice? É você mesma?"
"Sou eu, Francisco," eu disse, um sorriso fraco tocando meus lábios.
"Nós todos... nós todos pensamos que você estava..." Ele parou, seu rosto cheio de confusão e pena.
Eu não podia lhe contar a verdade. As palavras soariam como loucura.
"É uma longa história," eu disse, minha voz cansada.
O trajeto foi silencioso por um tempo, então Francisco falou, sua voz baixa.
"Ele mudou depois que a senhorita foi embora. Muito. Demitiu todos os funcionários antigos, qualquer um que te conhecia. Disse que não queria nenhuma lembrança."
Meu coração se apertou. Ele havia sistematicamente apagado todos os vestígios de mim.
"E então, cerca de seis meses depois, ele se casou com ela," Francisco continuou, seus olhos no retrovisor. "A senhora Almeida... Karina. Ele a trata como se fosse de cristal. Melhor do que ele jamais... bem, ele é muito bom para ela."
Ele parou, percebendo que havia falado demais. Mas o estrago estava feito. O último fiapo de dúvida que eu tinha foi extinto. Não foi um rebote. Não foi para mostrar. Ele a amava. Mais do que ele jamais me amou.
A foto da coluna de fofocas brilhou em minha mente. O jeito que ele estava olhando para ela. Não tinha sido um erro de uma noite. Tinha sido o começo. Ele já estava se apaixonando por ela naquela época, enquanto ainda estava noivo de mim. A traição era mais profunda, mais antiga do que eu sequer imaginava.
O cemitério era silencioso e verde. Encontrei seus túmulos lado a lado sob um grande carvalho. Roberto Arruda. Amado Esposo e Pai. Maria Arruda. Amada Esposa e Mãe.
Caí de joelhos, a dor que eu vinha segurando finalmente me dominando. Deitei a cabeça na pedra fria do túmulo da minha mãe e chorei, meu corpo tremendo com soluços silenciosos e irregulares. Não sei quanto tempo fiquei ali, perdida em um mar de culpa e tristeza.
"Me desculpem," sussurrei para eles, minha voz quebrando. "Vou consertar isso. Eu prometo. Eu vou voltar. Vou impedir que isso aconteça."
Quando voltei para a casa, ela estava silenciosa. Eu estava emocional e fisicamente esgotada. Tudo o que eu queria era rastejar para a cama e esperar os sete dias passarem.
Karina me encontrou no corredor. Ela segurava uma caneca fumegante.
"Você parece exausta," ela disse, sua máscara simpática de volta no lugar. "Pedi para a cozinha preparar um chá de camomila para você. Vai te ajudar a descansar."
Ela estendeu para mim. Eu hesitei. Eu não confiava nela.
O sorriso dela se apertou.
"Ah, Alice," ela disse, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Você não precisa fingir comigo. Eu sei que você está grávida."
Minha cabeça se ergueu bruscamente. Como? Como ela poderia saber? Meu sangue gelou.
"Eu vi as vitaminas pré-natais na sua bolsa quando a Maria estava verificando," ela disse, seus olhos brilhando com um triunfo cruel. "Não se preocupe. Seu segredo está seguro comigo."
A caneca em sua mão de repente pareceu sinistra. O cheiro do chá fez meu estômago revirar. Senti uma onda de náusea, tão forte que tive que me apoiar na parede.
Passei por ela correndo para o banheiro mais próximo, esvaziando o conteúdo do meu estômago no vaso sanitário. O vômito foi violento, me deixando fraca e trêmula.
Quando finalmente saí, limpando a boca com as costas da mão, Karina estava encostada no batente da porta, de braços cruzados, o ato simpático completamente desaparecido.
"Você acha mesmo que pode voltar aqui, grávida de outro homem, e reconquistá-lo?" ela zombou, sua voz pingando veneno.
"Não é filho de outro homem," eu disse, minha voz tremendo com uma mistura de fraqueza e fúria.
"Ah, por favor," ela desdenhou. "Você nos toma por idiotas?"
De repente, a porta no final do corredor se abriu. Caio estava lá, seu rosto uma nuvem de tempestade. Ele deve ter ouvido a comoção.
A expressão de Karina mudou em um instante. Seu rosto se contraiu, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela se virou para ele, sua voz um sussurro ferido.
"Caio... eu... eu não queria te contar assim. Mas a Alice... ela está grávida."
O olhar de Caio se voltou para mim. Seus olhos, já frios, se transformaram em gelo. Ele caminhou em minha direção, sua mandíbula tensa com uma raiva mal controlada.
"Você está grávida?" ele exigiu, sua voz baixa e perigosa.
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