Capa do Romance Juntos Ressurgimos das Cinzas

Juntos Ressurgimos das Cinzas

8.7 / 10.0
Grávida de oito meses, sofri um atentado brutal em uma estrada deserta. Entre as ferragens, implorei por ajuda ao meu marido, Caio, mas ele me ignorou friamente para acudir um capricho de sua meia-irmã. O abandono custou a vida do meu filho e destruiu a carreira da minha irmã como pianista. Agora, despertamos do luto transformadas. Eles nos trataram como descartáveis, mas seremos o acerto de contas implacável que destruirá a vida perfeita de quem nos traiu.

Juntos Ressurgimos das Cinzas Capítulo 1

Minha irmã e eu estávamos presas numa estrada deserta, eu grávida de oito meses e com um pneu furado, quando os faróis de um caminhão nos cegaram.

Ele não estava desviando. Estava mirando em nós.

A batida foi uma sinfonia de destruição. Enquanto uma dor monstruosa rasgava minha barriga, liguei para meu marido, Caio, com a voz embargada de sangue e pavor.

— Caio... acidente... o bebê... tem algo errado com o bebê.

Mas não ouvi pânico. Ouvi a meia-irmã dele, Florence, choramingando ao fundo sobre uma dor de cabeça.

Então veio a voz de Caio, fria como uma lápide.

— Pare de ser tão dramática. Você provavelmente só bateu no meio-fio. A Florence precisa de mim.

Ele desligou. Ele a escolheu em vez de mim, em vez da cunhada, em vez do próprio filho que ainda nem tinha nascido.

Acordei no hospital com duas verdades. Minha irmã, uma pianista de renome mundial, nunca mais tocaria. E nosso filho, o bebê que carreguei por oito meses, tinha partido.

Eles achavam que éramos apenas um dano colateral em suas vidas perfeitas.

Estavam prestes a descobrir que nós éramos o acerto de contas.

Capítulo 1

Ponto de Vista: Gloria Almeida

A primeira ligação para o meu marido caiu na caixa postal. A segunda também. Na terceira, enquanto os faróis se transformavam em sóis ofuscantes que nos prendiam na beira da estrada deserta, eu finalmente entendi.

Meu casamento era uma mentira.

Apenas algumas horas atrás, Charlene e eu éramos o centro das atenções nas colunas sociais de São Paulo. As irmãs Almeida, a inveja de toda mulher que sonhava com um final de conto de fadas. Nós nos casamos com os gêmeos Conrad, Caio e César, herdeiros de um império corporativo que poderia comprar e vender países pequenos. Nossas vidas deveriam estar resolvidas, gaiolas douradas de conforto e adoração.

Naquela noite, o ouro descascou para revelar um ferro barato e enferrujado.

— Eles não vão parar, Glo — sussurrou Charlene, a voz tensa com um medo que espelhava o meu. Suas mãos, aquelas mãos talentosas, seguradas em milhões, que podiam fazer um piano chorar, agarravam o volante do nosso carro parado.

Apertei meu celular, o polegar pairando sobre o nome de Caio. Uma onda de náusea, aguda e ácida, subiu pela minha garganta, sem qualquer relação com os oito meses de gravidez que tornavam meus movimentos desajeitados. O bebê dentro de mim, um pequeno e insistente sopro de vida, chutou contra minhas costelas como se sentisse meu pânico.

*Atende, Caio. Por favor, só atende.*

A conexão mental entre nós, antes uma corrente vibrante de pensamentos e emoções compartilhadas, estava silenciosa. Nem sempre foi assim. No começo, a mente dele era um livro aberto para mim, cheio de garantias e de um amor feroz e possessivo que confundi com devoção. Mas ultimamente, especialmente desde que sua meia-irmã Florence voltou, a conexão se desgastou, depois ficou muda, e agora... nada. Era como gritar em um quarto vazio.

O caminhão acelerou. Não estava desviando para nos evitar. Estava mirando em nós.

Minha respiração falhou.

— Tenta o César de novo — insisti para Charlene, minha voz mal um tremor.

Ela balançou a cabeça, os nós dos dedos brancos.

— Eu tentei. Ele disse a mesma coisa que o Caio. Que eles estão ocupados.

Ocupados. A palavra foi um tapa. Ocupados consolando Florence porque ela teve uma briga boba com o ex-namorado. A voz de Caio em sua última ligação, breve e irritada, ecoava em meus ouvidos.

— Pelo amor de Deus, Gloria, você não consegue lidar com um pneu furado? A Florence está tendo um ataque de pânico. As necessidades dela vêm primeiro agora.

As necessidades dela. Uma unha quebrada era uma tragédia para Florence. Uma ida ao shopping cancelada era uma crise. E meu marido, e o marido da minha irmã, tratavam seus dramas triviais como questões de segurança nacional, enquanto suas esposas grávidas estavam abandonadas em uma rodovia escura e esquecida.

Os faróis eram inescapáveis agora, o motor um rugido ensurdecedor que vibrava pelo assoalho do nosso carro. Não havia tempo para sair, não havia tempo para fazer nada além de se preparar para o inevitável. Charlene gritou meu nome, um som agudo e aterrorizado que foi engolido pelo guincho de pneus e pelo estrondo cataclísmico de metal.

Minha cabeça bateu contra a janela lateral. A dor, branca e ofuscante, explodiu atrás dos meus olhos. O mundo inclinou, girou, e então tudo era apenas uma sinfonia de destruição — o estilhaçar do vidro, o gemido do aço se contorcendo, e meu próprio suspiro irregular enquanto uma força monstruosa me jogava contra o cinto de segurança. A alça cravou-se cruelmente na minha barriga inchada.

Uma dor nova e aterrorizante me rasgou, baixa e profunda. Era uma cãibra de intensidade tão impossível que me roubou o fôlego.

— O bebê — engasguei, minha mão voando para o meu estômago. Estava duro como uma rocha. — Char... o bebê.

Mas Charlene não respondeu. Ela estava caída sobre o volante, anormalmente imóvel. Uma mancha escura se espalhava por sua manga, e suas mãos lindas e talentosas estavam torcidas em um ângulo que fez meu estômago revirar.

O caminhão, com seu trabalho feito, acelerou na escuridão sem um segundo olhar.

Estávamos sozinhas. Sangrando. Destroçadas.

E o silêncio do lado do meu marido em nosso elo mental era mais alto que o próprio acidente.

Procurei meu celular, meus dedos escorregadios com algo quente. A tela estava rachada, mas ainda brilhava. Disquei o número de Caio novamente, rezando para um Deus em quem eu não tinha mais certeza se acreditava.

Tocou uma vez. Duas.

Então, a voz dele. Não preocupada. Irritada.

— Gloria, eu te disse que estou com a Florence. O que é tão importante que você tem que continuar ligando?

Um soluço rasgou minha garganta, cru e desesperado.

— Caio... acidente... fomos atingidas... A Charlene está ferida, acho que está inconsciente. E o bebê... tem algo errado com o bebê.

Houve uma pausa. Por uma fração de segundo, uma parte estúpida e ingênua de mim esperava ouvir pânico, ouvi-lo gritando ordens, sentir a onda de sua preocupação através do nosso elo.

Em vez disso, ouvi a voz de Florence ao fundo, um gemido patético e manipulador.

— Caio, minha cabeça dói tanto. Acho que vou vomitar.

O tom de Caio suavizou instantaneamente, um murmúrio gentil destinado apenas a ela.

— Está tudo bem, Flo. Eu estou aqui. Apenas respire. — Ele voltou a falar comigo, a voz como gelo. — Olha, pare de ser tão dramática. Você provavelmente só bateu no meio-fio. Chame um guincho. Não posso deixar a Florence agora. Ela precisa de mim.

— Dramática? — A palavra era tão absurda, tão cruel, que pareceu outro golpe. — Caio, o carro está destruído! Estou sangrando! Por favor, você tem que nos ajudar!

— Você sempre faz tudo ser sobre você, não é? A Florence é frágil. Diferente de você. Resolva isso. E não ligue de novo, a menos que o mundo esteja realmente acabando.

A linha ficou muda.

Ele havia desligado.

Ele a havia escolhido. Em vez de mim. Em vez de sua cunhada. Em vez de seu próprio filho por nascer.

A verdade se abateu sobre mim, fria e pesada como uma mortalha. Isso não era apenas negligência. Era um abandono deliberado. Nós não éramos sua prioridade. Nós nem estávamos em sua lista.

Uma onda de agonia, mais aguda que qualquer dor física, me inundou. Olhei para Charlene, tão imóvel e silenciosa, e depois para minha barriga rígida, onde o agitar frenético havia cessado. Uma umidade horrível e crescente encharcava meu vestido. Vermelho. Tanto vermelho.

A criança que eu carreguei por oito meses, a criança que amei com cada fibra do meu ser, estava escorrendo de mim. E o pai dele não se importava.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e inúteis. Tentei alcançar Charlene, fazer alguma coisa, qualquer coisa, mas meu corpo parecia cheio de chumbo. Minha consciência estava se desfazendo nas bordas, a escuridão me chamando.

Naquele momento, deitada nos destroços do meu carro, da minha irmã e da minha vida, fiz uma promessa. Se eu sobrevivesse a isso, Caio Conrad pagaria. Todos eles pagariam.

Meu último pensamento consciente não foi para meu marido, mas para a criança que eu estava perdendo. Meu menininho. Um grito silencioso por ele ecoou nas ruínas do meu coração. O mundo finalmente ficou preto.

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