Capítulo 2

Daniela Ferraz POV:

Divórcio. A palavra ecoou no silêncio do quarto, um sino desolado anunciando o fim de tudo. Era a única palavra que eu conseguia proferir, o único caminho que conseguia ver. Meu coração, antes tão cheio de uma esperança frágil e recém-descoberta, era agora uma cavidade oca, doendo com uma dor muito mais profunda do que qualquer depressão que eu já conhecera.

Caio, no entanto, não estava pronto para abrir mão de sua vida perfeita, sua esposa perfeita, sua fachada perfeita. No dia seguinte à minha descoberta, uma mensagem de texto dele chegou. "Dani, por favor. Vamos conversar. Não tome nenhuma decisão precipitada. Podemos consertar isso."

Consertar isso? Não havia nada para consertar. Estava estilhaçado além do reparo. Mas Caio não via dessa forma. Para ele, isso era um problema a ser gerenciado, uma ponta solta a ser amarrada silenciosamente.

Ele me ligou de novo, sua voz suave, persuasiva. "Eu organizei uma reunião de família, Dani. Só para conversarmos. Todos estão preocupados com você."

Preocupados comigo. Esse era o seu ângulo. Ele enquadraria minha raiva, meu coração partido, minha exigência legítima de divórcio, como uma recaída, outro episódio da minha "instabilidade mental". Eu sabia disso, assim como sabia que o sol nasceria. Ele estava me manipulando, me pintando como a louca, a ingrata, aquela que estava destruindo nossa vida "perfeita".

Entrei em sua luxuosa sala de estar, a cena já montada. Sua mãe, Berta, sentava-se rigidamente no sofá de veludo, os lábios franzidos em desaprovação. Minha mãe, Diana, se mexia ao lado dela, seus olhos dardejando nervosamente entre mim e Caio. Meu pai sentou-se em frente a eles, os braços cruzados, um olhar severo no rosto. Caio estava perto da lareira, parecendo calmo, controlado, a imagem de um marido preocupado.

"Daniela", Caio começou, sua voz suave, quase simpática. "Todos estão apenas preocupados com você. Você passou por tanta coisa, e essa conversa repentina de divórcio... simplesmente não parece com você."

Berta interveio imediatamente, sua voz afiada como uma navalha. "Sinceramente, Daniela. Depois de tudo que o Caio fez por você, ficando ao seu lado durante suas... dificuldades... e agora você joga isso nele? É ingratidão. É egoísmo."

"Berta", Caio interrompeu, uma mão erguida em um gesto apaziguador, mas seus olhos continham um triunfo sutil. "Por favor. Vamos manter a calma."

Minha própria mãe, Diana, torcia as mãos. "Dani, querida, por favor, pense nisso. Caio é um bom homem. Ele te sustenta. O que você faria sem ele? Para onde você iria? Seu pai e eu... não temos como te receber de volta." Suas palavras foram um golpe suave, mas atingiram em cheio, reafirmando meu status de fardo.

"Ela está certa, Daniela", meu pai bradou, sua voz enviando um tremor pela sala. "Você tem uma boa vida aqui. Uma vida estável. Não jogue tudo fora por algum mal-entendido bobo. Se você deixar o Caio, não espere que a gente te receba de braços abertos. Você fez sua cama."

A sala girou. Aliados. Eram todos aliados dele. Minha família, que deveria ser meu refúgio, minha âncora, era apenas mais um braço de seu controle. Eles não estavam vendo minha dor, estavam vendo o potencial escândalo, as consequências financeiras.

"Não há mal-entendido", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas entrelaçada com uma força que eu não sabia que possuía. "Caio me traiu. Com a Clarice. Eles têm um caso há meses, possivelmente anos."

Caio deu um passo à frente, sua expressão grave. "Dani, eu já te disse, foi um erro. Um momento de fraqueza. Não significou nada. Você estava sofrendo, e eu... eu estava perdido. Mas eu escolhi você. Eu sempre escolho você." Ele se virou para nossas famílias. "Eu nunca quis que nada disso acontecesse. Meu foco sempre foi a recuperação da Daniela. Isso foi um desvio, uma anomalia."

Berta assentiu vigorosamente. "Viu? Ele admite seu erro. Um homem comete erros, Daniela. Mas ele está aqui, implorando seu perdão. Você deveria ser grata por ele estar disposto a superar isso."

"Superar isso?", zombei, um som seco e amargo. "Ele planejava dar o nome dela aos nossos filhos, Berta. 'Clara' e 'Danilo'. Você não vê? Nunca foi sobre mim. Eu era apenas um tapa-buraco."

O rosto de Caio se contraiu. "Isso não é verdade! Eu te amava, Dani. Eu juro. Eu nunca quis o divórcio. Eu quero consertar isso. Quero explicar tudo." Ele pegou o celular. "Aqui, vou até ligar para a Clarice agora mesmo. Ela vai te dizer que não significou nada." Ele a colocou no viva-voz, o dedo pairando sobre o botão de chamada.

Meu estômago se revirou. Não. Ela não. Agora não.

Mas ele apertou o botão. O telefone tocou uma, duas vezes, então a voz de Clarice, suave e confiante, encheu a sala. "Caio, meu bem? E aí? Finalmente se livrou daquela sua esposa patética?"

Meu sangue gelou. O ar na sala pareceu congelar. O rosto de Caio ficou pálido, seus olhos arregalados de pânico enquanto ele se atrapalhava para desligar o viva-voz, mas era tarde demais.

A risada de Clarice, um som agudo e zombeteiro, cortou o silêncio. "Ah, espera. Ela está aí? Ainda se agarrando, hein? Sinceramente, Daniela, apenas deixe-o ir. Você é notícia de ontem. Ele nunca te amou. Você era apenas um caso de caridade, um projeto para ele se sentir bem consigo mesmo."

Uma névoa vermelha desceu sobre minha visão. Esposa patética. Caso de caridade. As palavras ecoavam os sentimentos de minha mãe e de Berta, mas vindo dela, eram veneno. "Sua vadia manipuladora!", gritei, arrancando o telefone da mão de Caio. "Como você ousa! Você arruinou minha vida, sua destruidora de lares!"

A risada de Clarice parou abruptamente. Sua voz se tornou venenosa. "Oh, ela encontrou sua voz. Bom para você, Daniela. Mas isso não muda nada. Ele é meu. Sempre foi."

Antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse sequer pensar, uma dor lancinante explodiu em meu rosto. A mão de Caio, aberta e dura, atingiu minha bochecha. O som foi um estalo alto e doentio no silêncio atordoado da sala. Minha cabeça foi para trás, o mundo se dissolvendo em um borrão de estrelas e zumbido nos ouvidos. Minha bochecha queimava, um inferno latejante.

Eu fiquei ali, momentaneamente paralisada, minha mão voando para o meu rosto, tocando a vermelhidão que rapidamente se espalhava. Caio me bateu. Na frente de todos. O homem que jurou me proteger, que afirmava me amar, acabara de me agredir. A traição estava completa.

A última gargalhada triunfante de Clarice, metálica e distante, saiu do telefone enquanto ele escorregava de meus dedos dormentes, caindo silenciosamente no tapete felpudo. Minha visão nadou, não pelo golpe físico, mas pela percepção de que tudo o que eu sempre acreditei, tudo o que eu sempre esperei, era uma mentira cruel e elaborada.

Capítulo 3

Daniela Ferraz POV:

Minha bochecha latejava, um fogo ardente que se espalhava pela minha mandíbula, subindo até minha têmpora e por trás do meu olho. A dor física era aguda, imediata, mas não era nada comparada ao peso frio e esmagador em meu peito. Caio me bateu. Caio. O homem que fora minha âncora, meu salvador, acabara de me derrubar. Na frente de nossas famílias.

Eu o encarei, minha boca aberta, mas nenhuma palavra saiu. Seu rosto era uma máscara de horror, sua mão ainda suspensa no ar, tremendo levemente. A hipocrisia de tudo aquilo era quase cômica. Ele era quem me manipulou, me traiu, me humilhou, e agora parecia que eu era quem havia cometido um pecado imperdoável.

"Caio", finalmente consegui dizer, minha voz um sussurro quebrado, rouco e grosso de incredulidade. "Por quê?"

Ele gaguejou, seus olhos dardejando freneticamente. "Dani, eu-eu não quis. Eu só-você estava gritando com a Clarice, e ela estava... eu só reagi." Suas palavras eram uma corrida frenética por uma desculpa, uma tentativa patética de justificar o imperdoável.

Desviei meu olhar dele, virando-me para os rostos silenciosos e petrificados de nossas famílias. Berta, a mãe de Caio, parecia escandalizada, mas não por mim. Pela cena que eu estava criando. Minha mãe, Diana, tinha lágrimas nos olhos, mas eram lágrimas de medo, não de empatia. Medo por sua própria posição social precária, não pela dignidade estilhaçada de sua filha. Meu pai permaneceu com o rosto de pedra, já calculando os danos à sua reputação.

"Vocês estão todos cegos?", exigi, minha voz subindo, tremendo com uma raiva frágil. "Não conseguem ver o que ele é? O que ele fez? Ele não me ama! Ele ama ela! Sempre amou!"

As palavras rasgaram através de mim, despedaçando os últimos vestígios da minha compostura. Lágrimas, quentes e furiosas, escorreram pela minha bochecha machucada. Meus joelhos cederam. Fechei os olhos, um grito silencioso rasgando minha alma, mas nenhum som escapou dos meus lábios. Apenas a torrente silenciosa e agonizante de lágrimas.

Caio correu para frente, seu rosto contorcido em remorso. "Dani, por favor. Não diga isso. Eu te amo! Juro que amo. Me castigue, Dani. Faça o que quiser. Só não diga que não acredita em mim." Ele caiu de joelhos na minha frente, pegando minha mão, seu aperto forte, desesperado. "Eu não quero o divórcio. Por favor, meu bem, por favor." Ele enterrou o rosto na minha saia, seus ombros tremendo com soluços.

Minha mãe, Diana, recuou. Meu pai pigarreou, envergonhado pela cena. Mas Berta, a mãe de Caio, viu sua chance. Ela avançou, seus olhos em chamas.

"Levante-se, Caio! Pare com essa cena!" Ela então se virou para mim, sua mão se erguendo não para confortar, mas para atacar. Antes que eu pudesse sequer registrar o movimento, sua palma aberta atingiu minha outra bochecha, um tapa agudo e ardido que ecoou o de Caio.

"Sua vagabundinha ingrata!", ela cuspiu, sua voz venenosa. "Você vê o que está fazendo com meu filho? Você o está levando às lágrimas! Você está fazendo uma cena! Você sempre foi sensível demais, frágil demais para nossa família. Teve sorte que ele sequer olhou para você!"

A sala era um borrão de gritos e movimento. Meu pai agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha carne. "Diana, controle sua filha! Tire-a daqui!"

Minha mãe, em vez de me defender, choramingou: "Dani, por favor, pare. Você está piorando as coisas. Você precisa se acalmar. Pense no que seu pai disse. Para onde você vai? O que as pessoas vão dizer?"

"As pessoas vão dizer que você é uma mulher divorciada!", meu pai rugiu, me empurrando em direção à porta. "E não ouse vir chorando para nós! Você quer jogar fora um bom homem como o Caio? Ótimo! Mas não espere um centavo de nós. Você estará por sua conta, como sempre quis, sua criança egoísta!"

Caio, ainda de joelhos, levantou a cabeça, o rosto manchado de lágrimas. "Dani, eles não estão falando sério. Por favor, não os escute. Eu vou mudar. Eu farei qualquer coisa. Vou cortar a Clarice, eu juro. Apenas me dê outra chance. Por favor, meu bem, por favor." Sua voz falhou, cheia de um desespero cru.

Mas a voz de Clarice, suas provocações, sua crueldade casual, ecoavam em minha mente. Na manhã em que Caio partiu para uma "viagem de negócios", Clarice "acidentalmente" deixou seu lenço em nossa cama. Um lenço de seda carmesim, cheirando vagamente a um perfume que eu não reconhecia, mas que Caio uma vez elogiou em mim. Ele disse que combinava com a minha pele. Eu o encontrei naquela manhã, cuidadosamente dobrado no meu travesseiro, uma mensagem sutil e zombeteira.

Então, algumas semanas depois, uma nova foto apareceu na mesa de cabeceira de Caio, uma foto emoldurada dele e de Clarice do colégio. Ele disse que era uma foto antiga, uma lembrança de seu passado, nada mais. Mas a moldura era nova. O vidro estava limpo. Era uma adição recente, uma nova estaca no chão, marcando seu território.

Lembro-me da visita casual de Clarice à nossa casa uma vez, quando Caio supostamente estava "no trabalho". Ela olhou ao redor, seus olhos demorando-se na nova pintura que eu acabara de terminar para a sala de estar. "Oh, que... aconchegante", ela disse, um leve desdém em sua voz. "Caio sempre disse que preferia o minimalismo. Mas suponho que você tenha que trabalhar com o que lhe é dado, não é?" Não era apenas uma crítica às minhas escolhas artísticas. Era uma rejeição de toda a minha presença. Uma declaração de que eu era meramente tolerada, um acessório temporário em seu espaço. O espaço que ela acreditava ser dela.

O lenço vermelho. A nova foto antiga. Seu sorriso condescendente. Era tudo um padrão, uma erosão lenta e deliberada da minha sanidade, orquestrada por ela, permitida por ele. Eles estavam brincando comigo, me atormentando, por mais tempo do que eu sabia. Minha cabeça latejava, minha bochecha ardia. Mas a dor por dentro era mais fria, mais aguda. Era a dor da clareza absoluta. Isso não foi um erro. Foi uma crueldade deliberada e calculada.

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