Capítulo 2

O telefone tocou no meio da noite, um som agudo que cortou o silêncio do meu apartamento.

Era a minha mãe.

A voz dela estava embargada, quebrada pelo pânico.

"Sofia, é o teu pai."

O meu coração parou por um segundo.

"Ele teve um ataque cardíaco. A ambulância está a levá-lo para o hospital de Coimbra. É grave."

Coimbra ficava a duas horas de Lisboa. O ar saiu dos meus pulmões.

"Mãe, acalma-te. Eu estou a ir para aí."

Desliguei e disquei imediatamente o número de Ricardo. O meu namorado. O homem com quem eu vivia há cinco anos.

Caixa de correio.

Liguei de novo. E de novo. E de novo.

Na quinta tentativa, ele atendeu. A voz dele estava distante, abafada por música alta e conversas.

"Sofia? O que foi? Estou ocupado."

"Ricardo, o meu pai. Ele teve um ataque cardíaco. Está a caminho de Coimbra. Preciso que me leves, agora. O meu carro está na oficina."

Houve uma pausa. Ouvi uma voz feminina a rir perto dele. Clara. A "musa" dele.

"Agora? Amor, é impossível. Estou na inauguração da galeria do Mário. Isto é super importante para a minha carreira. Estão cá todos."

A voz dele era leve, irritada com a minha interrupção.

"Ricardo, não estás a perceber. É uma emergência. O meu pai pode morrer."

"Não sejas dramática, Sofia. Os hospitais sabem o que fazem. Pega um Uber ou um autocarro. A gente fala amanhã."

"Um autocarro? Ricardo, são duas da manhã!"

"Então um Uber. Tu tens dinheiro para isso. Olha, tenho de ir. O Mário está a chamar-me. Beijo."

Ele desligou.

Fiquei a olhar para o telemóvel, para o ecrã preto. O som da galeria, o riso de Clara, a frieza na voz dele. Tudo ecoava na minha cabeça.

Cinco anos. Cinco anos a apoiar a "arte" dele, a pagar as contas, a acreditar nas promessas.

E na noite em que eu mais precisei dele, a carreira dele e a companhia de outra mulher foram mais importantes.

Senti uma calma estranha apossar-se de mim. Uma clareza fria.

Abri a aplicação da Uber. A estimativa da viagem era de duzentos e cinquenta euros.

Confirmei sem hesitar.

Enquanto esperava, enviei-lhe uma mensagem.

"Não te preocupes em voltar para casa. Quando eu voltar, não quero encontrar-te aqui."

Não houve resposta.

O nosso relacionamento tinha acabado. Eu só não sabia disso até àquele momento.

Capítulo 3

A viagem de carro foi um borrão de luzes de autoestrada e ansiedade. O motorista não disse uma palavra, e eu agradeci por isso.

Cheguei ao hospital de Coimbra com o sol a querer nascer. O cheiro a desinfetante e a doença pairava no ar.

Encontrei a minha mãe na sala de espera da unidade de cuidados intensivos. Ela parecia ter envelhecido dez anos em poucas horas.

"Mãe."

Ela abraçou-me com força, a chorar silenciosamente no meu ombro.

"Ele está lá dentro. Os médicos dizem que as próximas horas são críticas. Foi muito grave, Sofia."

Sentei-me ao lado dela, peguei na sua mão. Ficámos ali, em silêncio, a olhar para a porta fechada que nos separava do meu pai.

Tirei o telemóvel do bolso. Uma chamada perdida de Ricardo. E uma mensagem.

"Calma, amor. Exagerada. Liga-me quando chegares."

Exagerada.

A palavra ficou a flutuar na minha mente. O meu pai estava a lutar pela vida, e eu era exagerada.

Apaguei a mensagem. Apaguei o registo da chamada. Senti um nojo profundo a subir-me pela garganta.

Um médico saiu da UCI. Era jovem, com ar cansado.

"Família de António Mendes?"

Levantámo-nos as duas de um salto.

"Somos nós."

"Conseguimos estabilizá-lo, por agora. O enfarte foi extenso. Ele está sedado e vai permanecer em observação intensiva. As próximas 48 horas são cruciais. Podem vê-lo, uma de cada vez, por cinco minutos."

A minha mãe olhou para mim.

"Vai tu primeiro, filha."

Entrei na sala. O som dos monitores era constante, um bip rítmico que media a vida. O meu pai estava deitado na cama, pálido, com tubos a sair dele. Parecia tão frágil.

Peguei na mão dele. Estava fria.

"Pai, estou aqui. Luta, por favor."

As lágrimas que eu tinha segurado durante horas finalmente caíram.

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