A iluminação no lounge do hotel era fraca, projetada para casos ilícitos e negócios de alto risco. Haleigh estava sentada em uma poltrona de veludo de encosto alto, escondida em um canto onde as sombras eram mais densas.
Na mesa baixa à sua frente, havia um tablet fornecido pelo detetive particular que ela contratara três horas antes. A velocidade com que o dinheiro podia comprar informações em New York era assustadora.
O arquivo confirmava tudo. As contas bancárias conjuntas entre Gray e Brylee. O contrato de aluguel de um apartamento no Upper East Side em nome de Brylee, pago por uma empresa de fachada ligada a Gray.
Mas foi o arquivo de áudio que fez o sangue de Haleigh gelar.
Ela ajeitou seus AirPods e apertou o play.
A voz era inconfundível. Aguda, anasalada e escorrendo arrogância. Sra. Cooley.
"Finalmente, um herdeiro de verdade. Haleigh, aquela mula estéril, já deveria ter ido embora há anos. Certifique-se de que os advogados tenham a ordem de despejo pronta para a manhã seguinte à festa de aniversário."
Haleigh encarou o copo de uísque em sua mão. O gelo havia derretido, diluindo o líquido âmbar. Ela segurou o copo com tanta força que temeu que ele pudesse se estilhaçar, cortando a palma de sua mão. Ela quase desejou que isso acontecesse. A dor física poderia distraí-la da dor oca em seu peito.
Uma sombra caiu sobre sua mesa.
Haleigh ergueu o olhar, esperando um garçom. Em vez disso, viu um homem de terno escuro com um fone de ouvido. Ele não parecia ser da segurança do hotel. Parecia um agente paramilitar.
"Sra. Oliver", ele disse. Não foi uma pergunta. "O Sr. Barrett gostaria de uma palavra."
O celular de Haleigh vibrou sobre a mesa. Um número local que ela não reconheceu.
Ela hesitou, depois atendeu. "Alô?"
"Sra. Oliver." A voz do outro lado da linha era velha, rouca e impunha obediência imediata. "Aqui é Hjalmer Barrett."
A respiração de Haleigh falhou. Os Barretts eram a realeza americana. Dinheiro antigo. O tipo de riqueza que fazia os Cooleys parecerem ganhadores de loteria morando em um trailer park. Eles eram donos de metade do horizonte da cidade.
"Sr. Barrett", ela conseguiu dizer. "Eu não entendo."
"Eu conheço sua situação", disse Hjalmer. Seu tom era seco, desprovido de simpatia, mas cheio de propósito. "Na verdade, sei mais sobre isso do que você. Há um carro esperando lá fora."
Haleigh olhou para o segurança, depois para a janela. Um Rolls-Royce Phantom preto estava parado no meio-fio, destacando-se da fila de táxis amarelos.
Ela não tinha mais nada a perder. Seu casamento era uma mentira, sua casa estava prestes a ser tomada, e sua carreira estava entrelaçada com uma família que a desprezava.
"Estou indo", ela disse.
Ela virou o uísque aguado de um só gole e se levantou.
A viagem foi silenciosa. O interior do Rolls-Royce cheirava a couro de luxo e colônia cara. A cidade passava borrada pelas janelas escuras, um rastro de luzes e chuva.
Eles chegaram à torre da Barrett Holdings. O segurança a acompanhou até um elevador privativo que subiu direto para o escritório da cobertura.
Hjalmer Barrett estava sentado atrás de uma mesa que parecia ter sido esculpida do casco de um galeão. Ele era mais velho do que em suas fotos, seu rosto mapeado com linhas profundas, mas seus olhos eram de um azul afiado e predatório.
Ele não lhe ofereceu um assento. Deslizou um dossiê grosso pela madeira polida.
"Abra."
Haleigh deu um passo à frente e abriu a pasta.
Era uma planta. O Projeto Zenith. Sua obra-prima. O projeto arquitetônico que ela passara os últimos dois anos aperfeiçoando para a Cooley Enterprises.
Mas o cabeçalho no documento não dizia Arquiteta Principal: Haleigh Oliver.
Dizia Arquiteta Principal: Brylee Franklin.
E abaixo disso, uma análise financeira. O projeto foi estruturado para desviar ativos do nome de Haleigh para um fundo fiduciário para o "Bebê Cooley."
"Eles não estão apenas expulsando você", disse Hjalmer, sua voz cortando a sala. "Eles estão apagando sua existência profissional. Vão alegar que você era apenas uma assistente, que teve um colapso nervoso. Você sairá desse casamento sem nada. Sem dinheiro. Sem reputação. Sem carreira."
Haleigh encarou o papel. A assinatura de Gray estava no final, bem ao lado da de Brylee.
"Por que está me mostrando isso?", Haleigh perguntou, erguendo o olhar. Sua voz tremia de raiva.
"Porque eu odeio os Cooleys", Hjalmer disse simplesmente. "E preciso de uma nora."
Haleigh piscou. "Como disse?"
"Meu filho, Kane", disse Hjalmer. "Você já ouviu os rumores."
Ela já tinha ouvido. Todo mundo já tinha. Kane Barrett. A Fera de Wall Street. Os tabloides o chamavam de recluso, de monstro. Diziam que ele era desfigurado, que tinha um temperamento capaz de arrancar tinta das paredes. Ele nunca aparecia em público.
"Você quer que eu... me case com Kane?"
"Preciso de uma mulher que seja inteligente, desesperada e vingativa", disse Hjalmer. "Kane precisa de uma esposa para acalmar os nervos do conselho. Eles acham que ele é volátil demais. Um casamento estabiliza sua imagem."
"E o que eu ganho com isso?", Haleigh perguntou, com o coração martelando contra as costelas.
"Vingança", disse Hjalmer. Ele se inclinou para a frente. "Você se casa com meu filho. Eu lhe dou os recursos da Barrett Holdings. Nós esmagamos os Cooleys. Tomamos o Projeto Zenith. Nós os deixamos na miséria."
Ele empurrou um segundo documento para a frente. Um acordo pré-nupcial.
Haleigh examinou a última página. Apenas a pensão era mais do que todo o fundo fiduciário de Gray.
"O casamento é apenas de fachada", acrescentou Hjalmer. "Kane não tem interesse em... romance. Você viverá na cobertura. Você fará o seu papel."
Haleigh olhou pela janela que ia do chão ao teto. Muito abaixo, a Torre Cooley parecia um bloco de brinquedo. Pequena. Insignificante.
Se ela fosse embora, seria uma vítima. Uma mulher divorciada e estéril que foi enganada pelo marido e pela melhor amiga.
Se ela assinasse... seria a noiva de um monstro. Mas seria a noiva de um monstro poderoso.
Ela pegou a pesada caneta-tinteiro da mesa. O metal estava frio contra sua pele.
"Ele sabe?", ela perguntou. "Kane?"
"Ele faz o que é necessário para a família", disse Hjalmer.
Haleigh destampou a caneta. A ponta pairou sobre a linha da assinatura.
"Eu quero um casamento", disse ela, com a voz dura. "Uma cerimônia. Maior do que a que eu tive com Gray."
Hjalmer assentiu uma vez. "Fechado."
Haleigh assinou seu nome. O arranhar da caneta no papel soou como uma faca sendo afiada.
Ela se endireitou e olhou Hjalmer nos olhos.
"Prazer em fazer negócios com você, sogro."
Haleigh recusou a oferta do motorista de levá-la ao apartamento dos Cooley. Ela precisava do anonimato de um táxi amarelo.
Era quase meia-noite quando o táxi parou junto ao meio-fio. O prédio pré-guerra se erguia sobre ela, sua fachada de calcário iluminada por uma luz suave vinda de baixo. Antes, parecia um lar. Agora, parecia um mausoléu.
O porteiro, Eddie, deu um pulo quando a viu. "Sra. Cooley! Não esperávamos que a senhora voltasse antes de terça-feira."
"Surpresa", disse Haleigh, forçando um sorriso. Ela colocou uma nota de cem dólares na mão dele. "Não anuncie minha chegada. Quero fazer uma surpresa para o Gray."
Eddie piscou. "Entendido, senhora."
A subida de elevador foi suave e silenciosa. Haleigh observava os números dos andares subirem, seu coração batendo em um ritmo lento e pesado. Tum. Tum. Tum.
Ela saiu no foyer privativo deles. Podia ouvir música vindo de dentro. Jazz suave. Miles Davis. A playlist de "sedução" favorita de Gray.
Ela destrancou a porta. Clic.
Ela empurrou a porta para abri-la. O apartamento cheirava a cera de abelha e lírios caros.
Bem ali, no centro do tapete da entrada, estava um par de sapatos de salto Christian Louboutin de sola vermelha.
Haleigh ficou olhando para eles. Ela havia comprado aqueles sapatos para o aniversário de Brylee no mês passado. Brylee havia chorado, abraçando-a, dizendo que nunca tivera sapatos tão caros.
Haleigh tirou suas próprias sapatilhas com um chute. Ela se moveu silenciosamente pelo tapete persa com os pés de meia.
Ela subiu furtivamente a escada curva. A música vinha do quarto principal. A porta estava entreaberta, derramando uma fresta de luz dourada no corredor.
Haleigh espiou pela fresta.
Gray estava de pé ao lado da cama, de costas para a porta. Ele estava desabotoando sua camisa social. Brylee estava sentada na beirada do colchão — o colchão de Haleigh — vestindo o robe de seda de Haleigh. A seda cor de champanhe se abriu para revelar suas pernas.
Gray entregou a Brylee um copo de leite. "Beba isso. Faz bem para o bebê. Cálcio."
Brylee pegou, sorrindo para ele. "Você vai ser um pai tão bom, Gray. Muito melhor do que foi como marido."
Haleigh sentiu uma onda de tontura. Uma coisa era saber. Outra, bem diferente, era ver.
Ela se afastou da porta. Enfiou a mão na bolsa e tirou seu pesado chaveiro. Ela o segurou sobre o piso de madeira do corredor.
Ela o deixou cair.
ESTRONDO-TILINTAR-BAQUE.
O som foi explosivo na casa silenciosa.
Do quarto, o caos irrompeu.
"Merda!", a voz de Gray era um sussurro áspero. "Você ouviu isso?"
"É ela? Ela voltou?", Brylee parecia frenética. Um copo tilintou contra uma mesa de cabeceira.
"Esconda-se! Apenas se esconda!"
Haleigh esperou cinco segundos. Então se abaixou, pegou as chaves e começou a cantarolar. Alto. Uma melodia alegre e vazia.
"Querido? Cheguei!", ela chamou, sua voz subindo para uma melodia doce e cantada.
Ela caminhou em direção ao quarto, seus passos agora deliberados e pesados.
Ela empurrou a porta para abri-la.
Gray estava de pé ao lado da cama, ofegando um pouco. Sua camisa estava semiaberta, seu cabelo, bagunçado. O quarto fedia ao perfume de Brylee — Chanel No. 5.
Mas Brylee não estava mais lá.
Haleigh examinou o quarto. A cama estava desarrumada. As portas da varanda estavam fechadas. A porta do banheiro estava aberta e escura.
Seus olhos pousaram no closet. A maçaneta estava vibrando levemente, como se alguém a tivesse acabado de soltar.
"Haleigh!", exclamou Gray. Seu sorriso era aterrorizado, um esgar de pânico. Gotículas de suor brotaram em seu lábio superior. "Você... você voltou mais cedo!"
Haleigh se aproximou dele e passou os braços em volta de sua cintura. Ela podia sentir o coração dele martelando contra o peito dela como um pássaro aprisionado.
"Senti sua falta", ela arrulhou. Ela enterrou o rosto no pescoço dele, inspirando profundamente. "Mmm. Seu cheiro está... diferente."
Gray congelou. "Eu... eu estava apenas experimentando umas amostras de colônia nova."
Haleigh se afastou, cheirando o ar teatralmente. "E isso é... Chanel No. 5? É tão forte."
O rosto de Gray perdeu a cor. "Eu... eu estava procurando um presente para você. Devo ter borrifado um pouco em mim por acidente na loja."
"Um presente?", os olhos de Haleigh brilharam. Ela se virou para o closet. "Está aí dentro? Deixe-me ver!"
Ela deu um passo em direção à porta do closet.
Gray se lançou à frente, bloqueando seu caminho.
"Não!", ele gritou. Então, mais suavemente: "Não, amor. Está... está uma bagunça lá dentro. Eu ainda não embrulhei. É uma surpresa. Você não pode entrar."
Haleigh parou. Ela olhou para a porta fechada. Ela imaginou Brylee lá dentro, encolhida entre os casacos de inverno, prendendo a respiração.
Um sorriso cruel tocou os lábios de Haleigh, desaparecendo antes que Gray pudesse vê-lo.
"Tudo bem", disse ela, dando de ombros. "Não vou estragar a surpresa. De qualquer forma, estou exausta. Acho que vou apenas... tomar um banho e ir para a cama."
Ela se sentou na beirada da cama, exatamente onde Brylee estivera sentada momentos antes.
"Vem, senta aqui comigo, Gray", disse ela, dando um tapinha no colchão.
Gray olhou para o closet, depois para Haleigh. Ele parecia que ia vomitar.
"Claro, querida", disse ele, com a voz fraca.