Capítulo 2

Na manhã seguinte, a luz do sol invadiu meu quarto de hóspedes.

Eu não tinha dormido.

A porta se abriu abruptamente. Marcos.

Seu rosto estava sombrio. Ele não disse uma palavra.

Ele agarrou minha mão, seu aperto como ferro.

Ele me puxou para fora do quarto, desceu as escadas e me levou para o carro.

Ele dirigiu, rápido e em silêncio, os nós dos dedos brancos no volante.

Hospital Vera Cruz.

Ele me arrastou pelos corredores estéreis até um quarto particular.

Clara estava na cama, o braço enfaixado. Parecia pálida e frágil.

"Peça desculpas para a Clara", ordenou Marcos, sua voz baixa e perigosa.

Eu me mantive firme. "Eu não fiz nada de errado."

Clara ofereceu um sorriso fraco e doce. "Está tudo bem, Marcos. A Elisa é só jovem, provavelmente não está acostumada a ver você com outra pessoa."

Os olhos de Marcos se estreitaram para mim. "Ela é só um ano mais nova que você, Clara. E é uma adulta. Peça desculpas, Elisa!"

Sua convicção da minha culpa foi um golpe físico.

A exaustão tomou conta de mim. Ele já tinha me julgado.

"Me desculpe", murmurei, as palavras com gosto de cinzas.

Marcos ainda parecia insatisfeito.

"Preciso usar o banheiro", eu disse, precisando escapar de seu olhar.

No banheiro frio e azulejado, joguei água no rosto.

*Ele sempre vai acreditar no pior de mim agora.*

Era uma pílula amarga.

Quando saí, Marcos estava esperando.

"A Clara quer um sorvete artesanal específico daquele lugar no centro. O perto do Centro de Convivência. Preciso ficar com ela. Você vai buscar."

Seu tom era seco, desprovido de emoção.

Assenti em silêncio. O que mais eu poderia fazer?

Quando passei por ele para sair, ele falou de novo, sua voz um aviso baixo.

"Clara e eu vamos nos casar. Abandone qualquer fantasia que você ainda tenha."

Parei, de costas para ele.

"Não se preocupe, eu já abandonei. Em um mês, eu estarei-"

"Espero que seja verdade", ele interrompeu, a voz afiada. Ele voltou para o quarto de Clara.

Virei-me, chamando por ele, as palavras escapando antes que eu pudesse detê-las.

"Você ama tanto assim a Clara? Ela pode ficar com você, mas eu não podia?"

Era uma pergunta desesperada e tola. Referindo-se ao nosso status não-sanguíneo, a coisa que ele transformou em algo feio.

Ele reapareceu na porta, o rosto duro.

"Sim. Qualquer uma, menos você, Elisa! Nunca mais toque nesse assunto."

Suas palavras foram como tapas na cara.

Assenti lentamente. "Ok. Não vou."

A sorveteria ficava do outro lado da cidade. A fila saía pela porta.

Voltei correndo, o pote gelado contra minha mão.

Clara deu uma mordida delicada e depois empurrou o pote para longe.

"Derreteu. E o sabor está errado. Me traga aquele cupcake vegano da doceria perto da UNICAMP. O de veludo vermelho."

Eu a encarei. Depois para o sorvete mal tocado.

Não disse nada. Eu fui.

Isso continuou a tarde toda.

Uma marca específica de água importada.

Uma revista de uma banca chique.

Flores frescas, mas apenas peônias brancas, e tinham que ser de uma floricultura específica no Cambuí.

Elisa, a garota de recados. Correndo por Campinas atrás de coisas que Clara mal tocava, ou provava uma vez e descartava.

Cada tarefa era uma pequena humilhação.

Cada exigência cumprida, uma confirmação do apoio inabalável de Marcos a ela.

Alguns dias depois, Clara, "recuperada", com o braço ainda levemente enfaixado para fazer cena, se aproximou de mim.

"Elisa, querida", ela arrulhou, "vou fazer uma pequena reunião com alguns velhos amigos do colégio. No 'Scorpius Lounge'. Só uma coisinha de reconciliação. Você deveria vir."

Velhos amigos. Sua panelinha. Aqueles que tornaram minha vida um inferno ao lado dela.

"Acho que não, Clara."

"Ah, mas você tem que vir", ela insistiu, os olhos brilhando. "Marcos acha uma ótima ideia. Ele disse: 'A Clara está tentando, Elisa. Não dificulte as coisas.'"

Marcos. Claro.

Ele queria que eu fingisse, que validasse a farsa de magnanimidade de Clara.

Senti-me encurralada. "Tudo bem."

"Maravilha!" Clara cantou, seu sorriso não alcançando os olhos.

Capítulo 3

O Scorpius Lounge era mal iluminado, todo de veludo e cromo reluzente.

Clara, no braço de Marcos, era a abelha rainha, cercada por suas "amigas" risonhas e bajuladoras.

Encontrei uma pequena mesa em um canto sombrio, tomando um refrigerante.

Eu observava Marcos.

Ele pediu o mocktail favorito de Clara – uma mistura complicada com flor de sabugueiro e lichia.

Ele colocou seu paletó caro sobre os ombros dela quando ela fingiu sentir um calafrio no ar-condicionado.

Mais tarde, ele anunciou ao grupo: "A Clara está se divertindo, então as bebidas são por minha conta hoje."

Um coro de "uau" e "ah".

"Marcos, você está mimando ela!" uma das amigas de Clara elogiou.

Ele sorriu, um braço possessivo em volta da cintura de Clara.

Alguém mais disse: "Clara, você e o Marcos são tão perfeitos! Quando é o grande dia?"

Clara corou, uma imagem de felicidade recatada.

Marcos olhou para mim, apenas por um segundo. Meu rosto estava cuidadosamente neutro.

Então ele sorriu para Clara. "Em breve. Já estamos planejando."

A conversa fluiu ao redor deles, um rio de bajulação e excitação.

Então, alguém sugeriu um jogo. "Verdade ou Desafio, mas com um toque de 'revelação de celular'."

Tentei recusar, mas Clara, com uma insistência açucarada, me puxou para o círculo. "Ah, vamos, Elisa, não seja estraga-prazeres!"

Marcos perdeu uma rodada.

A prenda, lida com alegria por uma das amigas de Clara: "Beije seu parceiro apaixonadamente por um minuto."

Marcos não hesitou. Ele se virou para Clara, segurou seu rosto e a beijou.

Profundamente.

O grupo aplaudiu, assobiou.

Eu assisti, sentindo nada além de um leve e distante desgosto. A Elisa que teria ficado arrasada com tal cena já não existia mais.

Então, inevitavelmente, foi a minha vez de perder.

A prenda: "Mostre sua conversa de texto mais recente."

Uma onda de antecipação percorreu o grupo.

Peguei meu celular, minha expressão calma.

Abri minhas mensagens.

A conversa no topo: "Meu Davi " seguida por uma série de emojis de coração.

Alguém ofegou. "Elisa, você tem um 'Davi'? Com corações? Você está namorando sério?"

Eu sorri, um sorriso genuíno e caloroso.

"Sim. Vamos nos casar no mês que vem. Em Florença. Todos vocês estão convidados, se puderem ir!"

Guardei meu celular, meu olhar encontrando o de Marcos.

Seus olhos estavam escuros, indecifráveis. Um músculo se contraiu em sua mandíbula.

Mais tarde, pedi licença para ir ao banheiro.

Marcos estava esperando no corredor quando saí.

Ele bloqueou meu caminho.

"Que história é essa de se casar?" Sua voz era baixa, intensa. "É mais um dos seus joguinhos, Elisa?"

"Não é um jogo, Marcos." Mantive minha voz firme. "Eu voltei para visitar o memorial da mamãe e do papai, e para te convidar. Ficaria honrada se você me levasse ao altar, como meu tutor, para testemunhar minha felicidade com o Davi."

Seu rosto se contraiu. Raiva, incredulidade, algo mais que eu não conseguia nomear.

"Tudo bem", ele disse, a voz tensa de emoção contida. "Ligue para esse 'Davi' agora mesmo. Quero ouvir dele."

Peguei meu celular. Disquei.

Caiu na caixa postal.

"É madrugada em Florença", expliquei. "Ele provavelmente está dormindo."

Marcos zombou, um som áspero e desdenhoso. "Patético. Pare com essas mentiras ridículas, Elisa."

Ele se virou e foi embora.

Naquele exato momento, meu celular vibrou. Davi. Retornando a ligação.

Ele parecia sonolento. "Desculpa, meu girassol, estava dormindo. O que foi?"

Suspirei. Marcos já tinha ido. "Nada, meu bem. Desculpa te acordar. Volte a dormir."

"Você sabe que pode me ligar a qualquer hora", disse Davi, sua voz mais clara agora, mais desperta.

"Ah, a propósito, eu estava pensando naquela escultura que você desenhou anos atrás, a que você chamou de 'Flor do Deserto'. Aquela que você sempre disse que era para o dia do seu casamento. Você vai trazê-la para Florença? Ficaria incrível na cerimônia."

'Flor do Deserto'.

Eu tinha derramado meu coração de dezoito anos naquela escultura.

Um coração que, tolamente, batia por Marcos.

Hesitei por uma fração de segundo.

"Sim", eu disse. "Ok. Eu vou levá-la."

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