Ponto de Vista: Alina
Heitor levou exatamente dezessete minutos para ir de sua cobertura na zona sul até o loft de Carla no Itaim Bibi. Ouvi o cantar dos pneus na rua abaixo, seguido pela batida pesada de uma porta de carro. Segundos depois, ele estava arrombando a porta que deixara destrancada na pressa.
Seus olhos, arregalados e furiosos, pousaram primeiro em Carla. Ela estava caída no chão onde eu a deixei, suas calças de ioga brancas e imaculadas manchadas com o sangue que escorria de seu rosto. Um som baixo e gutural de raiva escapou de sua garganta.
"Alina! Que porra você fez?", ele rugiu, caminhando em minha direção. "Você enlouqueceu?"
Ele se ajoelhou ao lado de Carla, suas mãos pairando sobre ela como se tivesse medo de tocá-la, de causar-lhe mais dor. "Oh, Deus. Carla. Amor, olhe para mim."
"Ela está bem", eu disse, minha voz monótona. Meu olhar estava fixo no relógio da parede. "Por enquanto."
"Bem? Olhe para ela!", ele rosnou, finalmente olhando para mim. O homem que uma vez me olhou com devoção obsessiva agora me encarava como se eu fosse um monstro. "Ela é só uma menina, Alina! Ela não fez nada!"
"Ela tem vinte e dois anos, Heitor. E ela te ajudou a sentenciar meu pai à morte", respondi, minha voz calma um contraste gritante com sua fúria. "O relógio está correndo."
Ele me fuzilou com o olhar, sua mandíbula tensa com um ódio que não estava mais escondido. Era cru, real, e confirmava tudo. Seu perdão sempre fora uma mentira. Uma performance.
Para provar meu ponto, caminhei até onde Carla estava soluçando, agarrei um punhado de seu cabelo novamente e puxei sua cabeça para trás. Ela gritou de dor e terror.
"Pare com isso!", Heitor gritou, levantando-se de um salto. "Alina, eu juro por Deus-"
"Salve meu pai", eu disse, minha voz caindo para um sussurro mortal enquanto me inclinava perto do ouvido de Carla. "Ou eu vou quebrar cada osso do corpo dela, tão espiritualmente alinhado. Um por um."
Os soluços de Carla se tornaram mais frenéticos, seu corpo tremendo sob minha mão. Sua voz era um sussurro rouco e quebrado. "Heitor... por favor... o Universo... ele vai nos proteger..."
Aquela baboseira ridícula de nova era, mesmo agora. Era como gasolina no fogo da minha raiva.
"O Universo não está atendendo o telefone, está, Carla?", zombei.
O rosto de Heitor estava pálido, seus olhos dardejando entre mim e a garota choramingando no chão. A visão de suas lágrimas, de seu sangue, estava claramente o despedaçando. "Solte-a, Alina", ele ordenou, sua voz tremendo com uma mistura de raiva e desespero.
"Não."
"Se meu pai morrer porque você estava ocupado demais bancando Deus, eu vou fazer você se arrepender pelo resto da sua vida", ele ameaçou, dando um passo em minha direção.
A menção do meu pai enviou uma onda de pânico através da minha calma fria. Vacilei por um segundo, meu aperto no cabelo de Carla afrouxando o suficiente para ela ofegar por ar.
Ele viu. Ele viu aquele vislumbre de fraqueza e sua expressão endureceu. "Você não tem coragem, Alina."
Eu ri, um som frio e vazio. "Não tenho? Eu deixei sua mãe morrer, lembra? Você, de todas as pessoas, deveria saber do que sou capaz."
Seu rosto se contorceu, a velha ferida que eu acabara de reabrir torcendo suas feições em uma máscara de dor e fúria.
"Você tem cinquenta minutos", eu disse, minha voz como gelo. Soltei Carla, que desabou em uma pilha soluçante. "Providencie o transporte. Leve-o para o Sírio-Libanês. Dr. Evangelista. Você o conhece. Faça acontecer."
Heitor me encarou, seu peito subindo e descendo rapidamente. Por um momento, pensei que ele poderia se recusar, que seu ódio por mim era agora maior que seu afeto por seu novo brinquedo.
Ele olhou para Carla, sua expressão suavizando em uma de ternura dolorida. Ele se ajoelhou e gentilmente afastou uma mecha de cabelo ensanguentado de seu rosto. "Eu já volto", ele murmurou para ela, sua voz embargada de emoção. "Vou consertar isso."
Então ele se levantou, me deu um último olhar de puro veneno, e saiu, puxando o telefone do bolso e latindo ordens nele antes mesmo que a porta se fechasse.
No momento em que ele se foi, o choro no chão parou.
Virei-me para olhar para Carla. Ela estava se levantando, um sorriso lento e triunfante se espalhando por seu rosto ensanguentado. O olhar em seus olhos não era mais de medo; era vitorioso.
"Viu?", ela sussurrou, sua voz grossa, mas presunçosa. "Ele me escolheu. Ele sempre vai me escolher."
Meu estômago revirou.
"Ele só está salvando meu pai", eu disse, embora as palavras soassem ocas até para mim.
Ela riu, um som úmido e borbulhante. "Oh, sua pobre e patética mulher. Você realmente acredita nisso? Ele só está te acalmando. Ele me contou tudo sobre você."
Ela limpou uma mancha de sangue do lábio com as costas da mão, seus olhos brilhando com malícia. "Ele me disse que te odiou todos os dias nos últimos sete anos. Ele disse que ver você morando na casa dele, dormindo na cama dele, era como uma punição constante por sua fraqueza em te perdoar."
O ar saiu dos meus pulmões em um sopro silencioso. A sala girou, as paredes brancas e imaculadas parecendo se fechar sobre mim.
Eu nunca poderia te odiar, Alina.
Suas palavras, sussurradas no escuro todos aqueles anos atrás, ecoaram em minha mente. Uma mentira. A base de toda a nossa vida juntos, uma mentira.
Eu havia perguntado a ele, repetidamente no início: "Você me odeia, Heitor? Me diga a verdade."
E todas as vezes, ele me olhava nos olhos e dizia: "Não. Eu te amo."
E eu, como uma tola, acreditei nele. Eu construí uma vida sobre essa mentira, carreguei o peso de ser o monstro que ele tão graciosamente perdoou, tudo enquanto ele secretamente me desprezava.
"Ele disse que você está quebrada", Carla continuou, sua voz uma cantiga cruel. Ela saboreava cada palavra, torcendo a faca que já estava enterrada até o cabo no meu peito. "Mercadoria danificada. É por isso que você não pôde dar um filho a ele. Você é vazia. Uma mulher estéril e amarga, agarrada a um homem que não suporta nem olhar para você."
Vazia.
Estéril.
As palavras me atingiram com a força de um golpe físico. Uma onda de náusea e raiva incandescente me dominou, tão poderosa que me deixou tonta. As paredes cuidadosamente construídas que eu ergui ao redor da minha dor na última década não apenas racharam; elas explodiram.
Eu não pensei. Apenas reagi.
Eu me lancei sobre ela, minhas mãos se fechando em sua garganta, não apenas para assustá-la desta vez, mas para silenciá-la, para apagar aquele sorriso presunçoso e vicioso de seu rosto para sempre.
"Ele me ama!", ela engasgou, seus olhos saltando. "Ele vai me dar um bebê! Algo que você nunca pôde fazer!"
Foi isso. O golpe final e imperdoável.
Um rugido gutural de pura raiva primal rasgou minha garganta. Meu polegar encontrou o ponto macio sob sua mandíbula, pressionando, cortando seu ar. Seu rosto começou a ficar roxo. O mundo se estreitou para a visão dela se debatendo, suas mãos arranhando inutilmente meus braços.
Desta vez, eu não ia parar.
Ponto de Vista: Alina
No exato momento em que a luz começava a se apagar dos olhos esbugalhados de Carla, a porta se abriu novamente. Heitor estava lá, o rosto uma máscara de fúria.
"Alina, solte-a!", ele berrou.
Ele se moveu mais rápido do que eu jamais o vira se mover. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha carne como garras, e me arrancou de cima dela. A força me fez tropeçar para trás, meu ombro batendo com força na quina de uma estante minimalista. Uma dor aguda e lancinante percorreu meu braço, e eu gritei, agarrando-o.
Carla desabou no chão, ofegante e engasgando, sugando avidamente o ar para seus pulmões.
Heitor nem sequer olhou para mim. Ele correu para o lado dela, envolvendo-a em seus braços, embalando sua cabeça contra o peito. "Está tudo bem, amor, está tudo bem. Eu estou aqui", ele murmurou, sua voz grossa com uma ternura que ele não usava comigo há anos.
Ele olhou para mim, seus olhos ardendo de desprezo. "O helicóptero está a caminho. Seu pai está sendo preparado para o transporte para o Sírio-Libanês. O Dr. Evangelista está esperando."
Meu coração deu um salto doloroso de alívio, mas foi imediatamente inundado pela amargura da cena à minha frente.
"Deixe-me ver", exigi, minha voz tensa de dor e suspeita. Eu não ia mais acreditar na palavra dele para nada.
Ele me lançou um olhar de nojo, mas pegou o telefone e discou um número. Um momento depois, ele me estendeu o aparelho. "Fale com a enfermeira-chefe."
Vi uma transmissão de vídeo ao vivo na tela. Meu pai, pálido e imóvel, ligado a uma dúzia de máquinas. Uma equipe de médicos se movimentava ao redor dele. Uma mulher de uniforme hospitalar virou-se para a câmera. "Sra. Bastos? Estamos estabilizando-o para o transporte agora. O Sr. Bastos providenciou tudo."
Uma onda de tontura me atingiu. Devolvi o telefone a Heitor, a adrenalina que me alimentava se esvaindo, deixando apenas uma exaustão oca e dolorosa.
"Vamos nos divorciar, Heitor", eu disse, as palavras com gosto de cinzas na minha boca.
Ele ainda estava embalando Carla, acariciando suavemente seus cabelos. Ele nem olhou para mim. "Não seja ridícula."
"Não estou sendo ridícula. Acabou."
"Não", ele disse, sua voz perigosamente calma. "Não acabou. Tínhamos um acordo. Na alegria e na tristeza. Você não pode simplesmente ir embora."
"Você foi", retruquei. "No momento em que deixou ela entrar em nossas vidas."
Ele finalmente olhou para mim, seus olhos frios como gelo. "Ela é uma menina, Alina. A culpa não é dela. É sua. Você é quem não consegue se controlar." Ele olhou para o rosto ensanguentado de Carla com uma expressão de dor. "Você nunca conseguiu."
"Você e eu estamos ligados, Alina", ele disse, sua voz caindo para um rosnado baixo e possessivo. "Por Deus, pela lei, por tudo que passamos. Você nunca estará livre de mim. Nunca."
A finalidade em seu tom enviou um arrepio pela minha espinha.
Virei-me para longe dele, tirando um cigarro do maço no meu bolso. Minha mão tremia, e o papel branco estava manchado com o sangue de Carla dos meus dedos. Acendi, a fumaça acre uma queimadura bem-vinda em meus pulmões. Meu celular vibrou. Uma mensagem do meu advogado. Ele estava de prontidão.
"Diga ao seu pessoal para trazer um médico", disse Heitor, sua voz retornando ao seu tom de comando usual. "Para o seu ombro."
Eu apenas ri, um som amargo e quebrado. "Você me quebra e depois se oferece para me consertar. Esse sempre foi o seu jeito, não é?"
Lembrei-me da vez em que ele atirou um copo na parede com raiva, e um caco voou e cortou minha bochecha. Ele passou a hora seguinte limpando e enfaixando meticulosamente a ferida, suas mãos gentis, seus olhos cheios de remorso. A cicatriz ainda estava lá, uma linha prateada tênue, assim como a do braço dele, onde o chip costumava estar. Ambas marcas de seu amor. Ambas mentiras.
Ignorando-o, saí do loft e enviei uma mensagem para meu advogado. `Prepare os papéis. Sem acordo. Não quero nada. Apenas uma assinatura.`
Peguei um táxi para o Sírio-Libanês, as luzes da cidade borrando pela janela. Quando cheguei, meu pai já estava na UTI. Corri em direção ao quarto dele, meu coração martelando em meus ouvidos. Ao virar um corredor, ouvi duas enfermeiras sussurrando perto de um posto.
"Você acredita? Aquele pobre velho... o próprio genro se recusou a ajudar no início. Disse algo sobre 'equilíbrio cósmico'..."
O chão pareceu sumir debaixo de mim. Tropecei, meu ombro ferido gritando em protesto enquanto eu me chocava contra a parede para me segurar. Impulsionei-me, minha visão se afunilando, e praticamente corri o resto do caminho até o quarto dele.
E então eu o vi.
Ele estava deitado na cama, mas estava quieto demais. O bipe rítmico do monitor cardíaco havia sumido, substituído por um único tom plano e interminável. Um lençol branco estava puxado sobre seu rosto.
Não.
Não, não, não.
"Pai?", sussurrei, minha voz um apelo infantil. Entrei no quarto, minhas pernas parecendo de chumbo. Estendi uma mão trêmula e puxei o lençol.
Seu rosto estava em paz, mas sua pele estava cerosa e cinzenta. Seus olhos estavam fechados. Ele se fora.
"Pai, acorda", eu disse, sacudindo seu braço. "Vamos, pai. Eu estou aqui. É a Alina. Eu estou aqui agora."
Minhas palavras ecoaram na sala estéril e silenciosa. Ele não se moveu. Ele nunca mais se moveria.
Um soluço estrangulado rasgou minha garganta. Desabei contra a cama, meu corpo tremendo com uma dor tão profunda que parecia estar me rasgando por dentro.
E então eu ouvi.
Do quarto ao lado. Uma risada leve e feminina. A voz de Carla.
"Ah, Heitor, você é o melhor. Estou morrendo de fome! Você poderia me trazer aquele smoothie de couve orgânica daquele lugar na Madison? Aquele com spirulina extra?"
Uma onda de raiva gelada cortou minha dor. Levantei-me, meu corpo tremendo, e saí do quarto do meu pai.
A porta do quarto ao lado estava entreaberta. Heitor estava de pé ao lado da cama, sorrindo para Carla, que estava apoiada em uma montanha de travesseiros. Seu rosto estava limpo, o nariz enfaixado, mas o olhar presunçoso e vitorioso estava de volta em seus olhos.
Ela me viu parada na porta. Seu sorriso se alargou.
"Olha só quem está aqui", ela disse, sua voz pingando falsa simpatia. "Veio ver como uma mulher de verdade é tratada pelo seu homem?"
Heitor se virou. Seu sorriso desapareceu quando viu meu rosto. Ele não conseguia me encarar. Olhou para a parede, para o chão, para qualquer lugar, menos para mim.
Dei um passo para dentro do quarto. "Olhe para mim, Heitor."
Ele não se moveu.
Caminhei até ele, agarrei seu queixo e forcei sua cabeça para cima, fazendo-o me encarar. Seus olhos estavam cheios de algo que eu não conseguia ler — culpa, talvez? Irritação? Não importava.
"Ele está morto", eu disse, minha voz falhando. "Meu pai está morto."
A expressão de Heitor não mudou. Ele apenas me encarou, seu rosto uma máscara em branco. "Sinto muito pela sua perda, Alina."
Foi isso. "Sinto muito pela sua perda." O tipo de frase vazia que você oferece a um estranho.
Um som, meio risada, meio soluço, escapou dos meus lábios. Então, a raiva que eu estava segurando explodiu.
Minha mão voou para cima, e eu o esbofeteei no rosto, o som ecoando na sala silenciosa como um tiro. Sua cabeça virou para o lado, uma marca vermelha florescendo em sua bochecha.
"Como você ousa!", Carla gritou, tentando sair da cama. "Não toque nele!"
Virei-me para ela e a esbofeteei também, com tanta força que sua cabeça bateu no travesseiro com um baque surdo.
Heitor estremeceu, não com o tapa, mas com a única lágrima que finalmente escapou do meu olho e traçou um caminho pela minha bochecha. Ele me olhou então, realmente me olhou, e sua máscara de indiferença rachou. Ele parecia atordoado, como se nunca me tivesse visto chorar antes.
A memória me atingiu com a força de um soco. Anos atrás, quando a mãe dele estava passando por quimioterapia, o cabelo caindo em tufos, ele me abraçou e chorou, seu corpo tremendo de dor e medo. Eu o abracei, acariciei seus cabelos e prometi que nunca o deixaria. Eu suportaria qualquer fardo por ele.
"Você mentiu para mim", sussurrei, as palavras cruas e quebradas. "Todo esse tempo. Você mentiu."
"Alina", ele começou, sua voz de repente suave, estendendo a mão para mim. "Não vamos fazer isso aqui."
"Não me toque", rosnei, recuando de sua mão como se fosse uma cobra. "Você prometeu um 'grande funeral' para o meu pai. Uma promessa que você fez na minha cara depois de deixá-lo morrer. Você se lembra?"
Ele estremeceu com as palavras, sua testa franzindo em confusão.
"Você prometeu", repeti, minha voz subindo a um tom histérico. "Outra mentira! Como todas as outras!"
"Vou providenciar o melhor funeral", ele disse rapidamente, sua voz apaziguadora, como se falasse com uma criança. "O melhor de tudo, Alina, eu prometo."
Outra promessa. Não valia nada.
Estendi a mão e puxei o pesado e ornamentado grampo de cabelo do meu coque. Foi um presente dele, de uma viagem à Ásia anos atrás. Prata maciça, com uma ponta afiada e mortal.
Antes que ele pudesse reagir, eu me lancei para frente e cravei o grampo fundo em seu ombro, o mesmo que ele havia arrancado de Carla.
Ele rugiu de dor, tropeçando para trás.
Eu fiquei sobre ele, o grampo ainda na minha mão, agora escorregadio com o sangue dele. Olhei de seu rosto chocado e dolorido para o rosto aterrorizado de Carla.
"Você quer saber o que eu quero, Heitor?", perguntei, minha voz mortalmente calma. "Eu quero que você pegue esse suporte de soro. E quebre a perna dela."