A água era um peso esmagador, um cobertor frio e escuro me puxando para baixo. Meus pulmões ardiam por ar. Eu estava morrendo. De novo.
Mas isso não era uma memória. Isso era real.
Uma vontade feroz e desesperada de viver surgiu em mim. Eu não morreria aqui. Eu não os deixaria vencer. Não desta vez.
Eu lutei para chegar à superfície, meus músculos gritando em protesto. Minha cabeça rompeu a água e eu arquejei, sugando uma dolorosa lufada de ar.
Do outro lado da piscina, eu os vi. Alexandre estava envolvendo Sofia, que tremia, com seu paletó, sussurrando em seu ouvido. Ricardo, Daniel e Felipe estavam ao redor deles como guardas, de costas para mim.
Eles nem se deram ao trabalho de me procurar.
Na minha vida passada, eu nunca entendi por que Alexandre me odiava tanto. Eu o amava. Eu lhe dei tudo. Agora eu sabia. Ele nunca me viu como uma pessoa. Eu era um prêmio, um degrau. Meu amor era um inconveniente, minha própria existência uma jaula da qual ele queria escapar.
Eu tinha que sobreviver. Eu tinha que viver para ver todos eles caírem.
Bati as pernas, meus movimentos desajeitados e pesados, e lentamente me arrastei para a borda da piscina. Meus dedos rasparam no concreto enquanto eu puxava meu corpo encharcado para fora. Fiquei ali, tossindo e tremendo no chão frio, um amontoado de membros trêmulos.
Ninguém veio ajudar.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, Daniel se virou. "Ah, Isabela. Você saiu. Estávamos tão preocupados."
Ele se aproximou, seu rosto uma máscara perfeita de preocupação. "Tivemos que pegar a Sofia primeiro. Ela não sabe nadar. Você é uma ótima nadadora, sabíamos que você ficaria bem."
Ricardo e Felipe assentiram em concordância, suas expressões igualmente falsas.
"Você está bem?" Ricardo perguntou, estendendo a mão.
Eu me afastei de seu toque. Olhei para seus rostos, esses homens que um dia chamei de amigos. Suas mentiras eram tão praticadas, tão fáceis.
"Estou bem", eu disse, minha voz rouca. Levantei-me, meu vestido molhado grudado em mim. Eu estava com frio, mas minha raiva queimava o suficiente para me manter aquecida.
Recusei suas ofertas de uma toalha, de uma troca de roupas. Eu não queria seu falso conforto. Eu não queria nada deles, nunca mais.
Afastei-me, deixando-os perto da piscina. Podia sentir seus olhos nas minhas costas.
"Isabela, espere!" Alexandre chamou.
Eu não parei. Voltei para a cobertura, pingando água nos tapetes caros, e fui direto para o meu quarto. Tranquei a porta atrás de mim.
Tirei as roupas molhadas e fiquei sob um chuveiro quente, tentando lavar a sensação da água da piscina, a sensação da traição deles. Mas era uma mancha na minha alma, uma que só poderia ser limpa com vingança.
Mais tarde, meu celular vibrou com mensagens.
De Ricardo: Espero que esteja se sentindo melhor. Me avise se precisar de qualquer coisa.
De Daniel: Sinto muito pelo que aconteceu. Deveríamos ter sido mais rápidos. Deixe-me levá-la para jantar para compensar.
De Felipe: Pensando em você. Aqui está um presentinho para te animar. Uma notificação se seguiu. Um depósito de cem mil reais na minha conta.
Eles achavam que podiam comprar meu perdão. Achavam que eu era a mesma garota ingênua que se acalmaria com palavras vazias e presentes caros.
Apaguei as mensagens sem responder.
Os dias seguintes foram um borrão de desculpas falsas e gestos grandiosos. Flores chegavam aos montes. Ricardo me enviou uma pulseira de diamantes que eu havia admirado no ano passado. Daniel se ofereceu para me levar a Paris para uma maratona de compras. Eles estavam tentando apaziguar a garota da minha vida passada, mas ela estava morta e enterrada.
Ignorei tudo.
Eles me convidaram para um leilão de caridade de alto perfil, um evento que eu costumava amar. Eu sabia que Alexandre e Sofia estariam lá. Eu sabia que era uma armadilha, outro palco para o pequeno drama deles.
Eu aceitei o convite.
Eu os vi no momento em que entrei. Alexandre estava com o braço em volta de Sofia, que usava um vestido simples, mas elegante. Ela parecia deslocada, um ratinho entre leões, mas a presença de Alexandre lhe dava um ar de importância.
Ele me viu e seu sorriso se contraiu. Ele sussurrou algo para Sofia, e ela olhou para mim, seus olhos arregalados com uma inocência ensaiada que me revirou o estômago.
Ele a afastou, um desprezo claro e deliberado.
Ricardo e Daniel estavam ao meu lado em um instante.
"Não ligue para ele", disse Daniel, colocando uma mão reconfortante em meu braço. "Ele só está sendo um idiota."
"Ele não te merece", acrescentou Ricardo.
Eu queria rir. Queria gritar com eles, expor sua hipocrisia para toda a sala. Mas segurei a língua. Ainda não era a hora.
Olhei para a mão de Daniel em meu braço e senti uma onda de náusea. Esta era a mesma mão que um dia ajudaria a me empurrar de um barco.
Puxei meu braço. "Eu sei me virar."
Eles trocaram um olhar, confusos com a minha frieza.
"Isabela", disse Ricardo, sua voz suave. "Estamos todos esperando sua decisão. Quem você vai escolher?"
Dei a eles um sorriso pequeno e enigmático. "Vocês descobrirão em breve."
A incerteza em seus olhos foi uma pequena e satisfatória vitória. Deixe-os se contorcer. Deixe-os se perguntar.
Alexandre estava claramente tentando provar algo. Ele desfilou com Sofia pela sala, comprando-lhe champanhe caro, apresentando-a a pessoas influentes. Para cada olhar que eu lançava em sua direção, ele a puxava para mais perto, ria um pouco mais alto.
Era tudo uma performance para o meu benefício. Uma maneira de me mostrar o que eu estava perdendo, de me deixar com ciúmes e desesperada.
Na minha vida passada, teria funcionado. Eu teria ficado de coração partido.
Agora, eu sentia uma estranha sensação de paz. O homem que eu amava era um fantasma. O verdadeiro Alexandre Monteiro era este estranho cruel e manipulador. E eu estava livre dele.
Então, o item final do leilão foi anunciado. Um colar de safiras, conhecido como "A Lágrima da Imperatriz". Não era apenas uma joia. Era lendário, pertenceu a uma rainha, dizia-se que trazia amor eterno ao seu dono.
Mais importante, era o colar que meu pai havia dado à minha mãe no dia do casamento deles. Depois que ele faleceu, ela o doou para esta instituição de caridade em sua memória.
Eu tinha que tê-lo. Era um pedaço da minha família, um pedaço de um amor que era real e verdadeiro. Era tudo o que minha vida com Alexandre teria sido uma mentira.
O leiloeiro apresentou o colar. Ele brilhava sob as luzes, um azul profundo e hipnotizante. A história de amor da minha mãe estava ligada àquela safira. Eu tinha que recuperá-lo.
"O lance inicial para A Lágrima da Imperatriz será de cinco milhões de reais", anunciou o leiloeiro.
Levantei minha placa. "Cinco milhões."
Um murmúrio percorreu a multidão.
Então, outra placa se ergueu do outro lado da sala. "Seis milhões", a voz de Alexandre soou, clara e confiante.
Ele estava olhando diretamente para mim, um sorriso desafiador no rosto. Sofia estava ao seu lado, os olhos arregalados de surpresa fingida, embora um brilho de triunfo dançasse neles. Esta era outra jogada de poder.
"Sete milhões", eu disse imediatamente, minha voz firme.
"Dez milhões", ele contrapôs, sem piscar.
A sala ficou em silêncio. Isso não era mais um leilão; era um duelo. Ricardo, Daniel e Felipe baixaram silenciosamente suas placas. Eles não apostariam contra Alexandre. A lealdade deles nunca foi para mim.
"Quinze milhões", eu disse, meu coração batendo forte. Isso era uma parte significativa do meu fundo fiduciário pessoal.
"Vinte milhões", Alexandre respondeu. Ele estava gostando disso, da humilhação pública, da exibição de seu poder sobre mim.
Na minha vida passada, lembrei-me de um leilão semelhante. Ele havia me superado em um lance por uma pintura que eu queria desesperadamente, apenas para dá-la a Sofia na minha frente. A memória alimentou minha determinação.
"Vinte e cinco milhões", eu disse, minha voz tensa.
Alexandre riu. "Cinquenta milhões."
Um suspiro coletivo ecoou pelo salão. Ele tinha acabado de dobrar o preço, uma soma impossível destinada a me esmagar completamente. Ele sabia que eu não poderia igualar.
Ele havia vencido. O martelo caiu.
"Vendido, para o Sr. Alexandre Monteiro por cinquenta milhões de reais!"
Ele nem olhou para o colar. Ele olhou para mim, seus olhos frios e vitoriosos. Ele se inclinou e sussurrou algo para Sofia, que riu e deu um beijo em sua bochecha.
Ricardo e Daniel estavam ao meu lado novamente, suas vozes cheias de falsa simpatia. "Sinto muito, Isabela." "Ele é um monstro."
Ignorei-os, abrindo caminho pela multidão, meus olhos fixos em Alexandre. Eu não o deixaria ter essa vitória. Fui direto até ele. "Eu compro de você", eu disse, minha voz baixa, mas firme.
Ele ergueu uma sobrancelha. "Oh? E o que você me ofereceria?"
"Sessenta milhões", eu disse. "Um lucro de dez milhões de reais por não fazer nada."
Sofia olhou para mim, seus olhos brilhando de cobiça. Mas Alexandre apenas sorriu. "Não está à venda."
"Tudo tem um preço", insisti.
Ele me olhou de cima a baixo, uma luz cruel e zombeteira em seus olhos. "Você está certa. Tem um preço. Mas não um que você possa pagar com dinheiro." Ele se inclinou, sua voz um sussurro venenoso destinado apenas a mim. "Você quer? Ajoelhe-se. Implore por ele. Talvez então eu considere."
A humilhação foi um golpe físico. A multidão estava observando, sussurrando. Meu rosto queimava. Mas o colar... era da minha mãe. Era a memória do meu pai.
Com meu orgulho em frangalhos, fiz o impensável. Caí de joelhos no chão de mármore frio.
A sala explodiu em sussurros chocados. O sorriso de Alexandre se alargou. Ele havia vencido. Ele havia colocado a grande Isabela Sampaio de joelhos.
"Por favor", sussurrei, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "Venda para mim."
Ele se deleitou com minha humilhação por um longo momento, depois gesticulou para que a equipe do leilão lhe trouxesse a caixa. Ele a pegou, abriu e segurou o belo colar em sua mão. Ele olhou do colar para mim, ainda ajoelhada no chão.
Então, com um movimento deliberado e lento, ele quebrou a corrente delicada. As safiras de valor inestimável se espalharam pelo chão como lágrimas azuis.
Um suspiro horrorizado varreu a sala. Ele o havia destruído. Ele havia destruído a memória dos meus pais bem na minha frente, apenas para me machucar.
Algo dentro de mim se quebrou.
Levantei-me de um salto e dei um tapa em seu rosto. O som estalou no silêncio atordoado.
"Seu monstro!" Eu gritei.
Sofia imediatamente começou a chorar, correndo para o lado dele. "Alexandre! Você está bem? Isabela, como você pôde?" Ela estava se fazendo de vítima, como sempre. Mas então ela fez algo inesperado. Ela correu em direção à varanda próxima, subindo no parapeito.
"Se você vai ser tão cruel com o Alexandre, eu não quero mais viver!" ela gritou, uma imagem de desespero fabricado.
Era puro teatro. A queda era de apenas um andar para um terraço abaixo. Uma manobra para me fazer parecer a vilã.
A multidão entrou em pânico. As pessoas gritaram. Alexandre correu até ela, "Sofia, não!" Ele a "salvou", puxando-a de volta do parapeito para seus braços enquanto ela "desmaiava". Ele então se virou para mim, seu rosto uma máscara de fúria.
"Olha o que você fez", ele sibilou, sua voz cheia de ameaça. "Você vai pagar por isso."
Seus seguranças agarraram meus braços, me arrastando como se eu fosse uma criminosa.
A próxima coisa que soube foi que eu estava em um quarto particular de um hospital. Alexandre estava lá, junto com um médico.
"A Sofia está em choque", disse o médico gravemente. "O estresse que você causou a ela desencadeou um episódio grave relacionado à sua rara condição cardíaca. Ela precisa de uma transfusão de sangue imediatamente, mas seu tipo sanguíneo é incrivelmente raro. RH-negativo."
Eu congelei. Eu sabia onde isso ia dar. Meu tipo sanguíneo também era RH-negativo.
Sofia, parecendo pálida e frágil na cama do hospital, falou fracamente. "Não... não peça à Isabela. A culpa é minha. Eu não deveria tê-la irritado." Ela era tão boa em ser a mártir.
Alexandre a ignorou. Seus olhos frios estavam fixos em mim. "Você ouviu o médico. Ela precisa de sangue." Ele não estava me ordenando, não diretamente. Ele estava me encurralando. Naquela noite, sua equipe de relações públicas já estava espalhando a história. *Herdeira Cruel Isabela Sampaio Leva Namorada Inocente à Beira da Morte, Recusa Doação que Salvaria Sua Vida.*
Ele estava me prendendo em uma jaula de opinião pública. Se eu recusasse, eu era um monstro. Se eu concordasse, eu estava me submetendo à sua vontade. Olhei para seu rosto presunçoso e vi o xeque-mate que ele havia planejado.
"Tudo bem", eu disse, minha voz tremendo de raiva. "Eu faço."
Ele sorriu, um sorriso frio e triunfante. Ele havia vencido esta rodada. Enquanto as enfermeiras preparavam meu braço, eu o encarei, meu ódio uma força física.
"Eu te amaldiçoo, Alexandre Monteiro", sussurrei, para que apenas ele pudesse ouvir. "Eu amaldiçoo você e essa mulher. Espero que vocês dois apodreçam no inferno."
Ele apenas riu. "Poupe seu fôlego, Isabela. Você deveria se sentir honrada por ter seu sangue correndo nas veias da Sofia."
A agulha deslizou em meu braço. Senti minha força começar a se esvair. Minha visão começou a ficar turva. Enquanto eu mergulhava na inconsciência, minha mente repassava minha própria morte. A água fria, os rostos risonhos dos meus traidores.
E o único rosto que estava cheio de dor.
"Dário", sussurrei, seu nome uma prece em meus lábios enquanto a escuridão me consumia. "Dário..."