Capítulo 2

Sua percepção do mundo e sua filosofia o levaram a compreender a humanidade de uma forma complexa e padronizada, trouxe também um conhecimento singular sobre como e porque as pessoas têm seus sonhos, desejos, tabus e medos. Era realmente um mar de contradições e oposições, uma era de pessoas e rótulos, onde nenhum dos dois estavam muito separados um do outro.

Mas como tudo que era bom, incluindo a paz que o Sr. Clark havia trazido para dentro da sala, a aula chegou ao fim e como de costume, o último aluno a assinar a lista de chamada ficava com a responsabilidade de entregá-la ao professor e por sorte, fiquei com o trabalho.

— Senhorita Taylor, — Ele murmurou recebendo a lista que eu encarecidamente queria apenas entregar e correr para casa, mas é claro que era apenas um desejo meu. — Dei uma olhada em seu histórico da graduação e pelo que vi, está no caminho certo para a psicologia. Dará andamento ou usará a pós para outros fins?

— Filosofia. — Eu concluí, ele meneou a cabeça e conferiu a lista.

— Não dou aula extra para os alunos, mas fico à disposição caso queira ajuda em seus projetos. Seu currículo mostra muito mais que uma jovem em busca de um título para o seu nome, dou valor para os que tem um caminho já definido.

Eu agradeci, não era um costume meu puxar o saco dos professores e não seria diferente agora. O que talvez dificultaria a minha estrada em todo esse semestre, mas o que eu poderia fazer? Minha incapacidade de montar nas pessoas me conduzia ao caminho certo da vida.

Então eu corri, minha vida não se resumia apenas em estudar. O trabalho me esperava sedento da minha pobre vida corrida.

— Como estão as coisas Sarah? Emily me disse que você não para mais em casa, não me deixe preocupada, filha. — Eu revirei os olhos, olhando para parte do céu que eu conseguia ver da minha sala, já que o outro lado era também composto por mais apartamentos.

— Nada com que se preocupar, dei início ao novo semestre e estou trabalhando. Deveria estar preocupada com os meninos que agora a senhora precisa cuidar. — Minha mãe havia se casado pouco tempo antes de eu entrar na faculdade, com um homem alguns anos mais novo e com ele, vieram dois meninos de quatorze anos. — Fique tranquila, não estou me matando lentamente com drogas ou álcool.

Ela suspirou inconformada, Erick era um cara legal, mas para mim, ele não passava de um cara que estava apenas procurando o colo que não teve de sua mãe quando era pequeno. Talvez minha percepção da pessoa que ele era fosse culpa da Psicologia que eu estava estudando e praticando com o estágio no hospital, mas eu também tinha minhas certezas sobre o cara.

— Eles estão crescendo, mas você é minha única filha e preciso ter certeza de que não fará o mesmo que seu pai. Se ele tivesse pego um pouco mais leve... — Outro suspiro, minha mãe se culpavam pela morte do meu pai. Na cabeça dela, se ela tivesse obrigado ele a trabalhar menos e estar mais tempo com a família, ele estaria vivo. Mas ele era militar, então não tínhamos muito o que fazer referente ao trabalho dele.

E por isso não consegui ingressar na faculdade cedo como todos os alunos, passei quatro anos cuidando do luto da minha mãe e do meu. Foram anos difíceis. Mas assim que ela se recuperou e encontrou Erick, eu me mudei e comecei a dar estrada para a minha vida percorrer, mesmo com quatro anos de atraso.

— Está tudo bem, não estou me matando no trabalho e nem na faculdade, mãe, agora preciso ir. Se cuida.

Ela suspirou outra vez e desligou o telefone. Eu não a culpava, além de trabalhar incansavelmente como meu pai, minha aparência fazia com que ela se lembrasse dele constantemente e por isso, seu cuidado redobrava.

E tudo isso piorava quando nos víamos pessoalmente, eu era tão ruiva quanto ele, o que sempre a deixou impressionada. Mas os olhos verdes e as curvas do corpo eram presentes dela, o que me deixava impressionada. Eu poderia ser confundida a qualquer momento com um morango silvestre, de curvatura e cor, éramos como gêmeos.

Joguei a bolsa nas costas e corri para o hospital, o estágio não pagava muito, mas era o suficiente para que eu conseguisse pagar o aluguel do meu apartamento e viver como uma andarilha entre o trabalho e a faculdade. Minha casa quase não me via.

Mergulhei no trabalho como eu mergulhava nos estudos, meus pacientes eram como pequenos potes enfeitados com diversos tipos de cores, cada um com sua particularidade e seus desafios e isso me ajudava a esquecer do mundo exterior.

Conferi a papelada que amontoou no balcão da recepção e corri pelos corredores em busca dos pacientes que a maioria dos profissionais se recusavam a tratar. Era difícil, sim, mas todos eles eram pessoas comuns vivendo suas vidas antes que fossem pegos desprevenidos pelo próprio cérebro.

— Casa, conhece essa palavra, Sarah? — Eu ignorei, não importava quantas horas eu passasse dentro da ala psiquiátrica, nunca parecia ser tempo suficiente. — Se eu te der uma advertência, ficará em casa?

— Definitivamente não. — Respondi continuando minha ronda enquanto Michael me perseguia pelo corredor.

— Então vou precisar te dar uma suspensão? Qual é, você é estagiária e não pode passar de seis horas diárias, Sarah, quer que eu perca meu emprego?

— Eu bato o ponto na hora certa de sair e você me paga por fora, como sempre fez. — Não olhei para ele, sabia que estaria com aquela cara de cachorro sem dono para mim, era como se ele não tivesse peito para estar na supervisão se não fosse pelo seu trabalho impecável. — Bom dia, Jack! Como passou essa noite? Tomou o medicamento que a Sra. Jones trouxe para você?

— Como se fossem balas. — Jack riu, era um senhor com idade avançada e que me ajudava a driblar Michael quando ele teimava em me mandar para casa no início do turno.

— Diga para ela ir embora e descansar Jack, eu ainda vou perder meu emprego por causa disso e quem iria supervisionar essa louca? — Eu respirei fundo antes de fuzilar Mike com os olhos, Jack tossiu após rir um pouco mais.

— Sem essa ruiva, você já teria sido demitido, Dr. Michael.

— Viu só, Jack sabe das coisas e o que prova que seu Alzheimer está um pouco mais controlado! Nem mesmo ele pode contra o senhor, Jack.

— Ok, vocês dois causarão minha demissão. — Mike suspirou derrotado e eu pisquei para Jack. — Mas me sinto no dever de parabenizá-lo, Jack, tem tomado a medicação sem reclamar, um orgulho para a minha psiquiatria.

— Pendure uma placa para mim, Dr. — Ah, eu adorava meu precioso, Jack. — Ruiva, me mande aquele pudim, estou sofrendo de abstinência aqui.

— Pode deixar. — Pisquei outra vez e o deixamos com sua televisão no último volume.

Jack estava em seu último estágio, sabíamos que ele partiria em breve e como sua família havia abandonado ele na porta do hospital, convenci Mike a interná-lo mesmo não tendo como tratá-lo, seus remédios era cápsulas de amido ou algum aglutinado para que não interferisse em seu sistema. E com isso, ele teria um lugar para ficar. Ele não precisaria morrer abandonado em alguma calçada, poderíamos dar a ele um lugar digno e muitos cuidados antes que partisse. Sua melhora repentina apenas indicava o óbvio, logo o perderíamos.

— Me mate, Sarah. — Mike passou as mãos pelos cabelos castanhos antes de voltar a me encarar preocupado. — Você precisa ir para casa e eu preciso ter paz.

Eu ri e continuei meu passeio pela ala, não seria hoje que ele me tiraria daqui a gritos.

Capítulo 3

Passei tempo demais correndo com a papelada e esqueci que depois do turno eu precisaria voltar para a faculdade, talvez Mike estivesse certo, diminuir um pouco das horas que eu estendia do plantão poderia me ajudar.

Corri pelo campus tendo certeza de que eu perdi algumas das minhas canetas durante a maratona, perderia o início da aula e isso seria péssimo para o meu currículo estudantil.

Esqueci dos elevadores e corri pelas escadas na expectativa de encontrar a sala em seu estopim de conversas fiadas e falta de um professor dentro da classe.

— Não diagnostiquem imediatamente. O maior erro do médico é achar que ele entende mais do que os estudos feitos durante décadas, você não é especial e não deve se achar o maioral quando estiver com as maiores cartas na manga para dar a sentença para seu paciente. — Eu abri a porta no meio da explicação, Não olhei para o rosto do Sr. Clark que pausou drasticamente suas palavras até que minha bunda estivesse presa a cadeira. — Vocês precisam de limites, seu diagnóstico deve ir além das vozes da sua cabeça. Você pode acabar com a vida de uma pessoa com um diagnóstico errado.

Tentei manter silêncio, o que eu menos queria era chamar ainda mais atenção depois do fiasco do meu atraso. Tirei os cadernos da bolsa e minhas suspeitas estavam certas, eu havia perdido as minhas canetas no caminho para a sala. Fechei os olhos e respirei algumas vezes antes de pesar minhas opções.

Pedir a Jess ou suas amigas, usar meu telefone para fazer as anotações — o que foi expressamente proibido pelo Sr. Clark —, ou apenas deixar passar a aula e tentar me lembrar dela mais tarde.

— Suponhamos que vocês estejam com problemas mentais, e, convenientemente, precisem passar com um psiquiatra. — A aula continuou e o Sr. Clark caminhou despreocupadamente pelos corredores das carteiras até que se posicionou ao meu lado. — Confiarão em seu diagnóstico precoce, ou pedirão exames para que seja mesmo que minimamente comprovado o que vocês supostamente tenham? — Lentamente, ele mexeu no bolso de seu paletó acinzentado escuro e posicionou uma caneta ao lado do meu caderno enquanto parte da classe respondia sua pergunta. — Exatamente, o profissionalismo vem muito antes do seu achismo.

Pisquei algumas vezes para entender a situação, eu não havia demonstrado nada, sequer informado que não havia nada para que eu pudesse anotar de sua aula. Assim que cheguei, apenas retirei meus cadernos e os coloquei em cima da carteira.

Recebi um leve aperto em meu ombro e um olhar fuzilante de Jess e o bando da morte.

— Terminamos por hoje, nos vemos amanhã. Lembrando o que os informei no começo da aula, também darei a vocês filosofia nesse semestre e as regras durante a minha aula não mudarão.

Os alunos se arrumaram e lentamente foram saindo da sala, eu precisava enfrentar o olhar acinzentado e irrefutável do Sr. Clark, além de suas tietes que me comiam viva com os olhos, me levantei já sabendo que o restante da minha semana seria um doce tortura.

— Obrigada pela caneta, desculpe interromper a aula no meio, não irá mais acontecer.

Ele me entregou a folha de chamada e eu a devolvi após assiná-la.

— Trabalho, casa, faculdade. Me lembro como isso era na minha época, senhorita Taylor, já informei a você que relevo apenas os alunos que eu vejo potencial e que tenho certeza que finalizaram a pós. Mas deveria diminuir a quantidade de horas em seu turno, ou acabará perdendo não só as minhas aulas e sairá muito mais prejudicada do que imagina.

— Sim, eu sei. — Engoli o pequeno nó que se instalou na minha garganta. — Como eu disse, obrigada pela caneta, isso não irá se repetir.

Eu me sentia um tanto quanto histérica, e precisei respirar algumas vezes para manter meus batimentos cardíacos em sintonia com a minha respiração. Ele me fitou ligeiramente e sorriu criando poucas e finas marcas de expressão debaixo de seus olhos, estendi a caneta apenas esperando que ele pegasse para que eu pudesse sair o mais rápido possível dali, mas ele apenas tirou os óculos e passou a mão nos cabelos escuros.

— Leve-a, talvez assim se lembre de não chegar atrasada na próxima aula.

Eu tossi um obrigada e furei a fila de tietes que estavam logo atrás de mim travando a passagem para fora da sala de aula.

...

Me peguei mordendo a tampa daquela caneta, simplesmente pensando em absolutamente nada. Fiquei assim por algum tempo, pelo o que eu me lembre. Foi logo após assinar o prontuário de um dos meus pacientes, fiquei presa entre um limbo inconsciente e a visão fixa de um ponto negro na parede do quarto.

O cansaço estava agora tirando a minha atenção, se eu continuasse assim, talvez não poderia lidar com nenhum paciente. Mike tinha razão e eu odiava admitir isso.

Mas eu precisava do dinheiro que aquelas horas extras me pagavam, não era só pelo amor da minha profissão, claro que não. Estudar não era barato, principalmente na minha área e com um aluguel nas costas.

Mordisquei mais algumas vezes a caneta que ainda estava presa entre meus dentes. Eu precisava de um emprego que me pagasse melhor, mesmo amando meus pacientes eu tinha que pensar em como sobreviver antes que o dinheiro não desse mais para pagar nada além da faculdade. Era um jeito de conseguir me manter, mas, era ainda mais difícil conseguir uma vaga na área em que eu trabalhava.

— Os prontuários estão prontos? — Mordisquei um pouco mais ferozmente a tampa da caneta.

O som de suspiro pesado invadiu meus tímpanos e minha mente ignorou, aquele ponto negro na parede não deveria estar ali.

— Sarah? — O gosto do plástico era de algum modo, viciante, talvez fosse por isso que todos tinham essa mania irritante. — Sarah!

Pisquei mais vezes do que seria considerado normal, a Sra. Jones me encarava com uma carranca de fazer inveja aos amantes de filmes de terror. Os olhos fundos debaixo das pálpebras caídas eram apenas o charme do seu visual aterrorizante, a chefe das enfermeiras era um pouco mais alta do que eu e não admitia erros em sua supervisão.

— Estão aqui. — Entreguei os papéis e ela expirou com os lábios abertos. — Estão prontos desde cedo.

Ela me mediu com desdém como fazia todo santo dia e voltou para a sua sala, mau humorada, suspirei e fiquei apenas com a caneta na mão sentada na cama vazia do quarto. Hoje seria a última aula da semana com o Sr. Clark e eu me vi pensando em como eu devolveria para ele uma caneta com sua tampa completamente mordida.

Merda.

Tenho estado em um transe frequente nos últimos dias, e por vezes esses transes me traziam os olhos acinzentados quase beirando os azuis atrás daqueles óculos Ray-ban. Trauma, poderia ser claramente isso. Medo de não me dar bem o suficiente nas aulas dele por causa da pressão que ele tinha colocado em mim, inconscientemente.

Estava sendo obrigada a ser o exemplo da turma, e só agora, longe do olhar incisivo eu conseguia ver isso. Seria rude da minha parte se eu buscasse outro professor de Filosofia e Psicologia? Certamente que sim.

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