Otavio andou de um lado a outro no escritório tentando entender como tinha vindo de meter nisso, um pouco mais distante a garota desconhecida estava sentada tomando um copo d’agua que a secretaria tinha trazido gentilmente, Daniel cruzou os braços e então olhou para Otavio.
- Como se conhecem?
Otavio olhou para a garota e deu de ombros.
- Eu não conheço essa garota! Não está vendo que isso é um golpe? Certamente um concorrente nosso a mandou aqui para terminar com nossos negócios!
- Não me conhece? Sério mesmo?
Perguntou Olivia se levantando do sofá e colocando as mãos na cintura, novamente ele a observou de cima a baixo.
- Não, não conheço! Não estou louco!
- Talvez estivesse bêbado, sabe como é uma noite de muitas alegrias e muitos pesadelos depois... – Comentou Daniel, Olivia abriu e fechou a boca incrédula.
- Não foi apenas uma noite! Não sou esse tipo de garota que estão acostumados! Foram meses! Ok? Meses!
Otavio soltou uma gargalhada tão alta que as vidraças vibraram.
- Quer mesmo me fazer acreditar que eu saí com você por meses e não sou capaz de me lembrar? Até mês passado eu estava casado!
- Como se isso importasse para pessoas como você! – Disse ela respondendo na cara, Otavio fechou o rosto.
- Não sou esse tipo de homem! Não saio com uma garota apenas por estar bêbado e muito menos traio minhas esposas!
- “Minhas”? Pelo visto teve muito mais que uma.
- Tive duas se quer saber, e não, não tenho vergonha de dizer, por que dei o melhor de mim, nunca as traí as tratei com um enorme respeito, abri minha vida e meu coração a elas! Porém, foi decisão delas partir!
Olivia pôs a mão no coração.
- Estou encantada, foi emocionante, pena que é pura mentira, você não vale nada! Eu o conheço tão bem, nada disso precisaria estar acontecendo se tivesse tido a decência de me responder minhas mensagens! Foram pelo menos cinquenta!
- Mensagens? Eu nem sei quem você é, quando muito tenho seu telefone, você é completamente maluca!
- Eu não sou maluca! Não se faça de sonso comigo! Estivemos juntos sim e temos um filho! Agora haja como um homem e cumpra com seu papel!
Otavio caminhou até ela bufando de ódio.
- Tudo bem! Acho isso perfeito, mas primeiro exijo um teste de DNA, e caso ele dê negativo quero ver você ir à imprensa dizer em alto e bom som que eu não sou o pai! Você é o tipo de mulher que eu mais desprezo, se deita com qualquer um e depois seleciona o mais rico para assumir o filho, mas eu não sou tão estupido! Quero o DNA!
Ele gritou na cara dela, a fazendo fazer as lágrimas, porém Olivia se manteve firme, ela sabia que não seria fácil chegar até ali e convence-lo da paternidade, porém considerava isso uma vitória, ele estava disposto a fazer o teste e assim que a prova estivesse ali, ele seria obrigado aceitar a realidade.
Otavio deu as costas caminhando apressado até a porta, porém não escapou a tempo de ouvir a resposta dela.
- Tudo bem, não vejo problema algum nisso, assim que quiser, minha filha está disponível para a coleta de sangue.
Otavio quase excitou, até onde aquela mulher seria capaz de ir com essa mentira, ela já tinha destruído a reunião dele, então se era para isso que ela tinha sido contratada então porque não recuar agora? Por que ir tão longe? Por que insistir em uma história que não tinha nexo algum?
Olivia pegou suas coisas e se retirou da sala, Daniel a observou sair, ele não fazia ideia de quem era aquela garota, porém tinha uma leve impressão de que já a tinha visto em algum lugar, porém onde? Balançou a cabeça tonto com tudo aquilo e foi atrás de Otavio, precisava por o plano do amigo em dia, afinal aquilo tinha mudado totalmente os planos.
Assim que entrou no escritório viu que o amigo tinha aflouxado a gravata, andava de um lado a outro com um copo de uísque na mão.
- Ela já foi embora, pedi que a secretária pegasse os dados dela, nome, telefone e endereço para investigarmos depois, mas agora preciso que seja sincero comigo, não a conhece mesmo?
- Mas é claro que não! Por favor, Daniel?! Você me conhece desde a faculdade eu não sou esse tipo de homem que saí com uma mulher hoje e outra amanhã, eu não me lembro dessa garota, eu nunca a vi na vida, eu saberia se a tivesse visto e, aliás, ela nem faz o meu tipo, eu sempre gostei mais das loiras!
- Não desdenhe tanto, você a achou bonita sim, eu vi o jeito como olhou para ela ainda do lado de fora, estava encantado...
- Ela me fez perder um negócio de bilhões de dólares se alguma vez eu me senti encantado acredite o encantamento já passou!
- Não a conhece mesmo, esforce-se um pouco...
- Eu não a conheço, e se quer mesmo saber não é segredo para ninguém que eu não posso ter filhos, foi por isso que meus casamentos acabaram, você bem sabe, eu fiz muitos exames, sou totalmente estéril, minhas antigas esposas não suportaram saber que nunca seriam mães!
Daniel revirou os olhos.
- Não quer mesmo acreditar nisso quer? Você sabe muito bem que tudo que elas não queriam era ter que cuidar de um filho, elas queriam mesmo era garantir uma pensão e uma parte na empresa, e o fato de você ser estéril destruía o sonho delas.
Otavio secou o copo de uísque.
- Estava apenas tentando ver as coisas de uma forma romântica.
- Você é tão romântico, quando um coice de um cavalo.
Otavio abriu e fechou a boca fingindo estar ofendido, porém ele conhecia o amigo tão bem quanto o amigo o conhecia, era por isso que eram sócios, não havia outra pessoa no mundo que ele confiasse tanto quanto Daniel, portanto não tinha como querer negar, ele sabia o que estava falando.
Assim que Olivia chegou a casa ela desmoronou no sofá, afundando a cabeça entre as mãos, o que ela tinha feito? Tinha mesmo encarado um homem tão poderoso quanto Otavio Prestames frente a frente? Ela só podia ter surtado, ele a esmagaria, neste instante Freya correu até ela com um lindo desenho colorido nas mãos.
- Mamãe! Mamãe, você chagou! Olha o desenho que eu fiz!
Olivia levantou o rosto das mãos e pegou o desenho cuidadosamente, era lindo, Freya tinha muito talento.
- Você estava chorando mamãe?
Olivia suspirou, podia mentir, mas Freya não era tola, ela não acreditaria.
- Estava, mas não importa, já passou, sempre que vejo você minhas dores desaparecem.
Disse pegando a menina no colo e lhe dando um beijo carinhoso na face, ficou ali por algum tempo embalando ela em seus braços e cheirando o doce perfume que vinha dos seus cachos dourados, ela tinha um cheiro tão bom que era capaz de acalmar qualquer agonia que pudesse estar sentindo naquele instante, por sua filha ela seria capaz de tudo até mesmo de derrubar o poderoso bilionário Otavio Prestames.
Freya tinha nascido em inicio de Outubro, na época Olivia já não estava mais com Otavio, na realidade hoje ela percebia que eles nunca estiveram realmente juntos, o que para ela era um relacionamento para ele nunca passou de uma diversão, quando Olivia descobriu a gravidez ela chegou a acreditar que ele mudaria, que ficaria animado com a ideia de ser pai, que pararia de se envolver em confusões e em meio aos seus delírios românticos, chegou a acreditar em casamento, porém nada disso aconteceu, Otavio nunca respondeu suas ligações insistentes, ou suas inúmeras mensagens, nunca visualizou as fotos enviadas por ela, dos exames, do pré natal ou dos primeiros meses de vida de Freya, com o passar do tempo ela começou a se conformar com o fato de que ele não se importava e então passou também a não se importar, ela era autossuficiente e sua filha não precisava de um pai que não queria saber da existência dela, foi quando ela começou a seguir com a própria vida, até se envolveu romanticamente com outros homens e tudo foi seguindo seu curso normal.
Quando Olivia, porém completou dois anos de idade algo estranho começou a acontecer, manchas roxas começaram a marcar o corpo da menina , que vivia cansada, não queria brincar e apenas dormia, de inicio os pediatras acreditaram ser apenas uma anemia, coisa muito comum em crianças, mas com o passar dos meses e o aumento dos sintomas logo perceberam que não era algo tão simples, Freya tinha nascido com a doença de gaucher.
A doença de gaucher é uma doença genética e hereditária, causada pela deficiência na produção da enzima glicocerebrosidase, essa enzima é responsável pela digestão da glicocerebrosideo, um tipo de gordura facilmente encontrado nos alimentos, com o passar do tempo essa gordura que não é diluída passa a acumular e causar inúmeros problemas de saúde.
Acreditasse que apenas uma a cada 100 mil pessoas possua essa doença o que a torna muito rara, essa doença que afeta não apenas o sistema digestivo como também o baço e o fígado pode ser a precursora de outras doenças como o câncer, quando Olívia descobriu seu mundo perdeu as cores, ela desmoronou totalmente, faria tudo que estivesse ao seu alcance para ser sua pequena bem e curada, porém logo foi bombardeada com a notícia de essa ser uma doença crônica, ainda sem cura.
De inicio Freya foi submetida a um tratamento quinzenal para a reposição das enzimas necessárias para o funcionamento correto da digestão, mas com o passar do tempo aquilo já passou a não dar mais tanta resposta como no inicio, agora com ela chegando aos quatro anos de idade, a situação só tinha se agravado cada vez mais.
Suzan, médica de Freya e amiga de Olívia a chamou para um almoço certo dia, enquanto a pequena brincava no jardim com os filhos da amiga, Olívia questionou o que poderia fazer para tentar curar Freya.
- Sabe que não há cura não é?
- Mas deve existir alguma coisa, algo que possa ser feito, além das injeções...
- Bom, na verdade há, mas está em fase de testes ainda, existe um tratamento experimental com o uso de células tronco hematopoiéticas, porém não é nada comprovado.
- Certo, ainda que não seja certo, eu preciso tentar, como faço?
Suzan segurou a mão dela sobre a mesa.
- Olivia querida, tem falado com o pai de Freya?
- Quem? Otavio? Não! Deus me livre, eu o quero morto, ele nunca se importou com ela, nunca quis saber dela, nós não precisamos dele.
- Na verdade precisam sim.
- Como é?
- Um tratamento eficaz seria usar as células tronco de um bebê recém-nascido com material genético igual ou similar ao de Freya, se você fosse casada eu diria, tenha um segundo filho com o pai dela, mas nesse caso, acho que não seria um bom conselho.
Naquela noite, ao chegar a casa, ela colocou Freya para dormir e se acabou de tanto chorar sobre a cama, não queria que sua filha a visse assim, mas como faria para reencontrá-lo se ele tinha feito questão de sumir do mundo dela? Como encontrar alguém que não a queria, que não amava e como ter um segundo filho se ele nem ao menos tinha aceitado a primeira? Seu mundo desmoronou, ela encontraria outra forma, teria que haver outra forma.