Capítulo 2

— PORRA! Boca gostosa do caralho — resmunga alto.

Quem diria que o senhor puritano sabia falar palavrões. A cada estocada fico mais excitada, molhada, imaginando seu pau me fodendo. Mais algumas sugadas e ouço seu alerta, mas ignoro sentindo seu líquido quente jorrando na garganta. Engulo até a última gota. Antes que possa esboçar qualquer reação, mãos fortes seguram meus braços me levantando.

Brian gira nossos corpos pressionando meu rosto contra o azulejo frio.

Excitado, esfrega seu pau na minha bunda por cima do vestido.

— Quero você — ronrona.

— Estou aqui, não é — respondo ofegante.

Empurrando meus joelhos com os seus, afasta minhas pernas. Como um animal feroz prendendo sua presa, Brian ergue a barra do vestido, deslizando as mãos na bunda. Sinto o ardor de uma tapa na minha pele. Molhada, excitada e querendo muito transar com ele, empino o quadril contra o seu. Enrolando a mão nos meus cabelos, puxa minha cabeça para trás deslizando a língua por meu pescoço.

— Tem alguém aí?

Batidas na porta nos traz de volta a realidade. Afastamo-nos rapidamente trocando olhares, enquanto arrumamos

Outra pancada impaciente na porta me traz de volta a realidade. Por que deixei isso acontecer? Como pude manchar a memória de Sheron desse jeito, pior ainda, com Camilly. Deixei-me levar por desejos primitivos, mas porra como resistir a essa diaba provocadora? Com as mãos tremendo, ergo o zíper da calça ajeitando meu pau duro dentro da cueca.

— Brian, é o brinde cara anda logo. Está com dor de barriga? — Ethan bate novamente enquanto gira a maçaneta tentando abrir a porta.

Camilly permanece calada com um sorriso vitorioso nos lábios. Encaro dentro dos seus olhos e balanço a cabeça negativamente demonstrando o quanto me arrependo do que aconteceu. Na mais pura ousadia, ela ergue sua mão e toca meu rosto acariciando com as pontas dos dedos. Agarro seu braço com força e a puxo para mais perto, Ethan nos ver saindo juntos do banheiro já é suficientemente ruim.

— Nunca mais faça isso — digo entredentes.

— Você gostou senhor delegado puritano. — Piscando, desliza a língua nos lábios carnudos e deliciosos.

— Já avisei. — Esbarro no seu corpo para destrancar a porta, e sinto que Camilly encostar nas minhas costas roçando os seios fartos, provocando-me. Ela não cansa desses joguinhos?

Abro de supetão a porta. Ethan me encara de boca aberta, mas quando nota que atrás de mim tem uma mulher, melhor ainda Camilly, seus olhos se arregalam como se fossem saltar da órbita. Até mesmo alguém desatento como ele sabe o que um casal pode fazer dentro de um banheiro privado.

A raiva por ter cedido aos meus desejos me consome. Trêmulo, suando, sinto que estou sufocando. Lembranças dos momentos íntimos com Sheron invadem meus pensamentos. Minha esposa perfeita. Pisando duro, caminho rápido para a saída. Ouço vozes chamando meu nome, mas só ouço zumbidos.

Afasto-me do salão indo em direção ao estacionamento. Procuro por meu carro e uma maldita coincidência, o carro dela está ao lado do meu. Paro em frente ao híbrido branco, encarando através do para-brisa escuro. Apoio às mãos no capô do carro, deixando minha cabeça baixa. Fecho os olhos, e só vejo os olhos ardentes de desejo de Camilly ajoelhada na minha frente. A maciez dos lábios, a garganta aveludada e gulosa sugando cada centímetro do meu pau. A fragrância do perfume suave.

— PORRA! — Fecho as mãos em um soco, mas antes que possa socar o carro dela, chuto o pneu várias vezes tentando descontar minha raiva e frustração.

Respiro fundo recobrando o pouco de sanidade que ainda me resta dessa noite, aperto o alarme do carro destravando a porta. Sento atrás do volante, e acelero desviando dos carros estacionados, e saio fora daquele lugar, fugindo de mim mesmo.

Inconscientemente dirijo até o cemitério. Preciso estar com minha esposa, não importa como. Estaciono o carro de qualquer jeito, talvez pegando duas, ou três vagas, não importa. Não é como se as pessoas viessem ao cemitério às nove horas da noite. Como esperava os grandes portões dourados da entrada estão trancados. Dou a volta no quarteirão

procurando um espaço mais baixo no muro, e sem pensar nas consequências pulo para dentro.

Percorro o caminho de tijolos cinza contando somente com a iluminação da lua. A paz, e o silêncio é como um bálsamo para a dor que estou sentindo. Mais alguns passos e paro em frente à lápide com nome de Sheron Garcia. Minhas pernas fraquejam me colocando de joelhos. Sinto lágrimas descendo e molhando meu rosto. Engasgado com as palavras não consigo achar um jeito de pedir perdão por tudo. Principalmente por não a ter salvo daqueles bandidos.

— Perdoe-me, por favor. Prometi cuidar de você, amá-la e não cumpri minha promessa. Desculpa Sheron, me desculpa. Por favor. — Debruço o corpo apoiando as mãos no gramado. — Desculpa.

Sinto algo aquecendo meu rosto, levo as mãos até os olhos cobrindo-os e com dificuldade, os abro. Os primeiros raios de sol da manhã despontam no meio das árvores. Estava tão atordoado que não percebi quando cai no sono ali mesmo. Levanto passando a mão pela calça, camisa, me livrando da sujeira do gramado. Enfio a mão no bolso, e confirmo que carteira e celular permanecem intactos. Abaixo para pegar a chave do carro que está jogada no gramado. Lanço um último olhar na direção do túmulo, e com pesar me despeço.

— Como entrou aqui? — Sou surpreendido pelo coveiro e sua pá ameaçadora.

— Longa história, senhor. Já estou de saída, não sou ladrão. Minha esposa é a dona dessa lápide, e sou delegado. — Enfio a mão no bolso e puxo o distintivo. Empurro o distintivo e confirmo que não estou mentindo.

— Certo, é proibido, devia chamar a polícia. Espera você é a polícia.

— Posso ver a confusão em seus olhos cansados e com marcas de idade.

— Sim — respondo com o esboço de um sorriso.

Gentilmente o senhor se prontifica para abrir o portão lateral de funcionários para que eu possa sair sem precisar pular o muro de novo. Trocamos algumas palavras no percurso e ouço atentamente o seu relato de quantos casais jovens se perdem para a morte. De uma forma estranha e egoísta saber disso me traz certo consolo.

Despeço-me sem delongas, e fico indignado como deixei o carro estacionado. No mínimo levaria três multas por infrações diferentes.

— Porra! — resmungo, abrindo a porta do motorista.

Sentado e desperto para mais um dia de trabalho, ligo o rádio de comunicação da delegacia. Sonoramente os códigos e ocorrências tomam o espaço do silêncio. É isso, essa é a minha vida, ajudar pessoas que precisam e nada mais.

— Só meu trabalho — repito baixo.

Antes de ir para delegacia desvio o caminho passando em casa para tomar banho e me recompor da tragédia da noite passada. Agora que a fase casamento já acabou, não tenho o porquê ficar me encontrando com Camilly. Espero nunca mais ser obrigado ficar em um local tão pequeno e apertado junto com ela. Banho tomado, dignidade restaurada, sigo em direção ao trabalho.

Caralho fiquei apenas um dia fora da delegacia e mais parece um ano. Centenas de processos, relatórios de entrada de evidências judiciais. Definitivamente não posso me ausentar.

— Senhor? — Catarine bate na porta.

faço.

— Sim. — A policial pede que a acompanhe até a recepção, e assim o

Sentada no banco uma jovem mulher segura seu braço repleto de

hematomas, assim como o rosto. Os lábios vermelhos manchados com sangue da agressão.

Engulo em seco. Meu sangue se agita nas veias fervendo de fúria. Tantos anos presenciando vítimas de violência doméstica, mas ainda não consigo ser indiferente. Quero ir até o desgraçado e ensinar que não se bate em uma mulher, fazê-lo sangrar do mesmo jeito que sangrou uma pessoa indefesa. Esfrego disfarçadamente as mãos suadas na calça. Peço para que Catarine prossiga com o protocolo e em seguida a leve até minha sala.

Em poucos minutos tenho a Jeniffer sentada em frente à minha mesa. Ao lado sentado no canto em frente ao computador outro policial tomando nota do depoimento da vítima para inclusão nos autos do processo. Ouço atentamente cada palavra que sai de sua boca.

— Sim, trabalho em dois empregos e ele sempre rouba meu dinheiro. Não compra comida para casa, e quando não tem cerveja. Bom, acontece isso. Seu delegado, eu e meus filhos passamos fome, não sei mais o que fazer, depois de tantos anos, só criei coragem agora, por favor, nos ajude — implora, soluçando e chorando.

— Podemos emitir uma medida protetiva para a senhora, impedindo que ele se aproxime novamente. Mas tenho que ser sincero. Muitos casos essas medidas são inúteis. Aconselho à senhora morar com algum parente por um tempo, até pegarmos seu marido e tudo isso se resolver.

Mentir para as vítimas que medidas protetivas são eficazes, é como entregá-las na mão do agressor novamente. E não posso permitir. Peço para dois policiais acompanhá-la ao hospital para realizar o exame de corpo de delito, e depois até a residência para que possa recuperar seus bens e os filhos que se esconderam na vizinhança.

— Só mais uma coisa. A senhora por acaso sabe onde ele está nesse momento? —questiono de forma desinteressada.

— Acho que deve estar no bar de um amigo dele.

— Qual o endereço, por favor?

Anoto cautelosamente o endereço. Irei levar a comunicação da medida protetiva pessoalmente para esse desgraçado.

Aproximando-me do bar, desligo o farol do carro para não o alertar. Confiro quantas balas tenho no pente da pistola, e a encaixo novamente no coldre peitoral em seguida visto o casaco. Enfio as mãos no bolso da calça e faço minha melhor expressão de policial bonzinho, afinal sou representante da lei, não é?

Conforme me aproximo ouço o som de música alta, risadas extravagantes. Piso dentro do bar, encarando tudo ao redor. Homens bêbados discutem sobre futebol mal notando que entrei no estabelecimento. Meus olhos procuram uma única pessoa, e mais ao canto com uma mulher bêbada sentada no colo se encontra o agressor.

— Josef? — chamo.

— Quem é você? Não enche meu saco, babaca.

Puxo o casaco para trás expondo a arma e faço sinal com a cabeça para a mulher sair. Correndo, ela se levanta e passa por mim de olhos arregalados.

— Estou aqui para entregar a medida protetiva de sua esposa Jeniffer, sabe o que significa?

— Ah ah... Sei... Grande merda. Aquela piranha foi reclamar de mim? Cadê as provas que foi eu, poderia ter sido o amante, vai saber. — Respiro fundo contando até cem, mas não funcionou dessa vez.

Avanço sobre ele fechando minhas mãos na sua camiseta, o ergo da cadeira e bato seu corpo contra a parede com força. Aproximo a boca do ouvido, para que sinta meu hálito quente no seu cangote.

— Escuta aqui desgraçado. Se chegar perto dela de novo, vou te caçar até no inferno e meter uma bala nessa cabeça podre. Você entendeu? — Espero uns segundos a mais e a resposta não vem. — ENTENDEU? — digo cerrando os dentes.

— Si... Sim — gagueja.

Sorrindo satisfeito, me afasto soltando-o. As pessoas observam de longe sem se intrometer. Deixo o documento em cima de uma mesa.

— Isso que acontece quando se é um agressor covarde. — Pisco para eles, batendo o dedo com força no papel.

Viro-me de costas saindo do bar, e antes de sumir, ergo a mão e aceno um tchau debochado. Cretino não se cria na minha área.

Desligo o chuveiro, empurro a porta de vidro do box e alcanço a tolha pendurada no suporte da parede. Deslizo o tecido de algodão enxugando minha pele. Levemente seca enrolo meu corpo, e pego outra para o cabelo. Ando pelo banheiro até ficar em frente ao espelho. O reflexo de uma mulher forte, madura e autossuficiente reflete diante dos meus olhos. Por vezes me pego pensando como o destino pode ser cruel e jogar com a vida das pessoas. Massageio minhas bochechas com as pontas dos dedos. E o som do celular tocando me puxa de volta do momento de reflexão.

Ansiosa e com passos rápidos, chego rapidamente na escrivaninha e com o aparelho em mãos confiro o nome que salta na tela.

“Luca Ricci”

Não era isso que queria ver na tela do celular. Droga esqueci completamente do trabalho de tese relativas à pena. Era para ter entregado hoje, mas tinha compromisso importante com o responsável por gerenciar minha conta no banco. Recusar a chamada ou não? Pensando bem, o senhor Luca é o professor mais rígido e exigente do curso de direito. Sempre sério com a expressão fechada, impossibilitando qualquer aproximação. Respiro fundo, e decido atender.

— Boa tarde. — Mantenho a voz firme, mas por dentro tremendo de medo.

— Senhorita Carter? — Sua voz fria e penetrante faz minha pele arrepiar.

— Sim. Desculpe prof... — Não termino de falar.

— Não quero saber das suas desculpas, guarde para quem realmente irá acreditar nelas. Sabe o quanto estimo as notas dos meus alunos, todos se graduam com louvor e não aceito menos. Dessa vez vou dar uma colher de chá, tem até amanhã para entregar a tese, caso contrário irei reprová-la na minha disciplina. Boa tarde.

Em seguida só ouço o som da finalização de chamada. Não esperou nem que me despedisse. Isso só pode ser falta de sexo, apesar de que ouvi boatos que várias mulheres o assediam pelos corredores da universidade. Para um homem com quarenta e cinco anos, ele é bem gostoso. Mas com aquela cara sempre amarrada duvido que saia com alguém. Tenho medo só de imaginar, ou o professor Luca pode ser o famoso come quieto. Bom, isso não é da minha conta. Deito na cama de costas, jogo o celular no meio dos travesseiros, e encaro o teto azul pálido. Preciso terminar esse trabalho, não posso reprovar nessa matéria.

“Suas mãos ásperas deslizam por minha barriga lentamente. Fecho os olhos absorvendo o calor do seu toque. Ansiosa, mordo os lábios esperando por mais. Pouco a pouco, suavemente, suas mãos abrem o botão da calça. Apoio o corpo com os cotovelos levantando o tronco. Quero vê-lo. Contorço-me quando seus dedos roçam meu clitóris, esfregando. Em seguida sinto-os dentro de mim, fodendo minha boceta úmida. Entrando, saindo, entrando, saindo, com ferocidade. Um dedo, depois dois, três, alargando o centro para ele. — Brian — sussurro. Erguendo a cabeça seus olhos castanhos se encontram com os meus em uma conexão intensa e excitante. Os bicos dos meus seios se arrepiam de tesão marcando em evidência no tecido da regata. Selvagem, cru, meu delegado me fode com os dedos de um jeito dolorosamente prazeroso. A cada investida só quero mais, mais, mais...”

Assustada, e suando frio, sento na cama. O que foi isso? Não Camilly, esse homem não é para você, nem mesmo nos sonhos. Esqueça e siga em frente. Além do mais, aquele ogro nem mesmo mandou uma mensagem para saber como ficou após nosso flagra e sua saída temperamental. E Alyssa ainda tem a cara de pau de dizer que Brian Garcia é um homem honesto, sensível, ótimo partido. Aonde? No mínimo deve estar achando que sou descartável, só porque paguei um boquete para ele. É como todos os outros só mudam a profissão. Quer saber? Nunca mais quero olhar para esse cretino, insensível. Pode viver em eterno luto pela esposa perfeita dele, já que nenhuma mulher se iguala ao patamar de perfeição da falecida. Fala sério.

Capítulo 3

Ainda enrolada na toalha, levanto, abro o armário em busca do notebook. Enquanto ligo o note, vou até a cozinha e preparo uma xícara de café. Cafeína será minha única companheira por hoje.

Atravesso o hall de entrada da universidade correndo como louca. Tenho dez minutos para entregar a tese que virei à noite escrevendo. A bolsa no ombro escorrega várias vezes ameaçando ir para o chão. Esbarro em algumas pessoas no caminho, mesmo tentando desviar ao máximo, sempre tem aqueles que ficam dormindo no corredor, e especialmente hoje não estou com paciência.

Bato na porta da sala do senhor Luca, e aguardo. Sinto os pulmões arderem a cada vez que respiro fundo, engulo em seco controlando a vontade de vomitar meus órgãos. Definitivamente preciso praticar exercícios físicos.

Após alguns minutos, a porta se abre revelando o professor gostosão. Arrumo a bolsa novamente, e abro um sorriso amarelo. É difícil se recompor instantaneamente quando você sentiu como se a sua alma tivesse fugido do corpo.

Arrogante como sempre e com seu olhar de superioridade, estende a mão para mim sem dizer nenhuma palavra. Entrego trabalho, e balanço a

cabeça positivamente. A sensação de alívio é maravilhosa. Sinto que estou atraindo olhares, e só então, percebo que estou de pijama e chinelo.

— Droga — resmungo baixo, envergonhada.

Mais que depressa procuro a saída do bloco principal. Só posso estar enlouquecendo de vez, a angústia e medo eram tanto que nem ao menos me dei conta que não tinha trocado de roupa. Não tem problema, afinal, consegui entregar a tese e estou livre dessa disciplina. Com a consciência tranquila, caminho até o estacionamento em busca do carro. Conforme me aproximo, aciono o alarme para abrir a porta.

Dirijo pelas ruas de Nova York escutando “Pyro – Kings of Leon”. E para completar a vergonha do dia, desafino cantando junto com o cantor, com o braço apoiado na janela e uma mão no volante. Em vinte minutos estaciono em frente do prédio. Sabe aquela música que faz parte da sua playlist e você passaria o dia repetindo por várias e várias vezes? Essa é uma delas. Então, contínuo sentada esperando que Kings of Leon termine seu ícone musical. Fecho os olhos, e encosto a cabeça no banco.

Gritos femininos roubam minha atenção. Imediatamente coloco a cabeça para fora e vejo Yasmim à vizinha de porta com seu namorado. Ele está segurando-a pelos braços e chacoalhando o pequeno corpo violentamente. Yasmim tenta se desvencilhar, mas é inútil. Ainda me pergunto como uma jovem de dezessete anos pode perder tempo com um traste. Ela súplica pedindo que ele pare. Lembranças nublam meus pensamentos, me deixando paralisada. Quero sair do carro e ajudá-la, mas não consigo me mexer. A mesma voz de cinco anos atrás sussurra que tenho que reagir ser forte mais uma vez.

Buscando forças internamente, pego o celular dentro da bolsa e disco o número da polícia relatando a agressão. E como sempre informam que iram mandar uma viatura, mais em quanto tempo? Uma hora, meia hora? Tempo suficiente para acontecer uma desgraça. Desligo a chamada, e cogito a hipótese de descer do carro e ir até lá e esfregar a cara desse cretino no chão.

Através do retrovisor consigo ter uma boa visão da situação, e sou surpreendida quando o homem ergue sua grande mão descendo uma tapa no rosto de Yasmim, fazendo a jovem recuar alguns passos para trás. Sem pensar em nada e cega de raiva, abro a porta com força, e corro até o cretino pulando nas suas costas. Assustado, ele cambaleia em seus próprios pés. Com os braços em volta do seu pescoço aperto para sufocá-lo, infelizmente não tenho força suficiente.

Desesperado, agarra em meus braços tentando me tirar de cima, nem um guindaste me tira daqui. Grito vários palavrões em seu ouvido e continuo pendurada. O agressor xinga, esbraveja, enquanto Yasmim assisti a cena de longe sentada no chão. A luz vermelha e azul reflete na fachada do prédio, e a sirene soa alto.

Até que enfim.

— Vou processar essa delegacia.

Ouço vozes alteradas vindo diretamente da recepção. Processar-nos por qual motivo? Penso comigo mesmo enquanto termino o relatório da promotora Suzana. Estou atrasado com o prazo de entrega, então, decido que outros podem muito bem lidar com a situação.

— Eu não fiz nada, ele fez. Bateu nela, e a polícia demorou demais, alguém podia ter morrido.

— A senhorita é testemunha da agressão. E senão ficar calma, irei detê-la por desacato, entendeu?

OK. Acho que está na hora de intervir.

Clico em enviar o documento, fecho o notebook. Ajeito minha camisa deslizando as mãos para tirar as marcas do tecido. Abro a porta da sala, e quanto mais me aproximo da confusão tenho a ligeira impressão de que conheço aquela voz.

PUTA QUE PARIU! Camilly?

Não consigo evitar que meus olhos percorram seu corpo. Cabelos soltos, nos pés chinelos de tecido, e de pijama. Na, verdade não posso considerar isso como pijama. O short é tão curto marcando a bunda que tenho vontade de arrancá-lo com os dentes, e a parte de cima desperta meu pau causando os efeitos de uma bomba atômica dentro da calça. Ela não está usando sutiã? Seus bicos arrepiados marcando o cetim me faz salivar.

Merda. Merda. Merda. A visão de tê-la sobre a mesa com as pernas abertas, rendida aos meus desejos me enlouquece.

Lembranças da sua boca chupando e engolindo meu pau dentro do banheiro invadem meus pensamentos. Paralisado, observo de longe tentando manter o controle para me aproximar. Sheron. Isso, prometi que não iria ter outra mulher na minha vida e manterei a promessa. Abro dois botões da camisa para refrescar o calor que está me consumindo. Respiro fundo, e avanço os passos em direção à confusão.

— Camilly? — chamo por seu nome.

Lentamente ela se virá para trás ao ouvir minha voz. Seus olhos castanhos se encontram com os meus, e posso ver que ficou tão surpresa quanto eu. Engolindo em seco, noto que suas bochechas ficam coradas instantemente. Ergo uma sobrancelha totalmente confuso. Nunca imaginei que poderia vê-la com vergonha, nem sabia que ela sentia isso.

— Brian? Ah que ótimo você é o delegado, então? — Sua expressão muda de surpresa para furiosa em fração de segundos.

— Sim, sou. O que está acontecendo? — direciono a pergunta ao policial responsável.

— Senhor, essa moça é testemunha de uma agressão física. O casal está prestando esclarecimentos. Mas, não entendo...

— Olha aqui. — Camilly ergue a mão interrompendo o policial. — Ele bateu na namorada na rua, e eu bati nele. Ele não tem que prestar depoimento e sim ser PRESO, entendeu? P.R.E.S.O — soletra a palavra para o policial.

Caralho, como pode ficar ainda mais sexy?

Limpo a garganta atraindo sua atenção, e cruzo os braços fazendo minha melhor cara de delegado mal.

— Por que está de pijama na rua?

Maldição que porra de pergunta é essa? Perdi a oportunidade de ficar calado. Foco Brian, a questão aqui é a agressão e não as curvas da meliante.

Inquieto troco o peso do corpo de uma perna para a outra.

— Isso não é da sua conta, delegado — esbraveja entre dentes como uma leoa furiosa.

Encaro os lábios carnudos, mas não entendo nenhuma palavra, só consigo lembrar quando esteve envolta do meu membro. Então, tudo acontece muito rápido. Camilly tem seu corpo girado contra o balcão com os braços para trás, o policial recita o código penal enquanto pega as algemas. Avanço sobre ele, seguro seu braço e o empurro para trás. Cambaleando recua alguns passos e me encara surpreso com a atitude.

— Não toque nela, entendeu? — O som da minha voz em conjunto com as palavras soa possessivamente. — Dispensado, vou cuidar pessoalmente da senhorita.

Minhas mãos descem até a cintura de Camilly segurando firme, e ajudo-a a se recompor, mas não consigo evitar o contato físico. Essa mulher é como fogo, sempre pronta para incendiar tudo ao redor, o problema é o estrago que causa no final. Subo suavemente às mãos por suas costas, acariciando a pele por cima do tecido de cetim. Respirando fundo, seu peito sobe e desce rapidamente. Sinto a maciez dos seus cabelos nas pontas dos dedos misturando à fragrância deliciosa de morango. Distraído com a situação, não notei que atraímos olhares curiosos.

Afasto-me rapidamente, devolvendo aos expectadores uma expressão cortante e mortal. Camilly permanece calada e encarando o nada a sua frente.

— Senhor posso registrar a ocorrência? — Catarine empurra a cadeira e fica em pé atrás do balcão.

— Sim, e você — aponto para a senhorita encrenca. — Vem comigo.

— Limpo a garganta. — VOCÊS NÃO TÊM O QUE FAZER? — grito dispersando os policiais.

Enfio as mãos nos bolsos da calça, viro de costas, e com passadas largas entro na minha sala. Encosto no batente e a espero entrar também. Assim que atravessa a porta, fecho e tranco passando a chave. Puxo a cadeira e faço gesto para que se sente. Calada, muda, e sem reclamar, ela senta cruzando as pernas sensualmente para me atormentar. Aposto que está fazendo de propósito querendo me desestabilizar, mas dessa vez não. Desvio o olhar, suando frio. Dou a volta por trás do seu corpo, indo até à mesa e sento-me. Desconfortável, inquieto, e queimando por dentro apoio os cotovelos na madeira maciça, e encaro seu rosto diabólico.

Algo está diferente. Por que não ergueu a cabeça ainda? Essa não é uma atitude típica de Camilly Carter.

— O que está errado? Quer dizer, além do fato de se meter em uma briga na rua, e estar em uma delegacia só de pijama.

— É só que me lembrei do meu... — Calando-se imediatamente não termina a frase. — Não é da sua conta, delegado. Vai pegar meu depoimento ou não? Tenho coisas para fazer. Pode ser?

Agora sim, essa é a Camilly que conheço. Ousada, agressiva, determinada, gostosa. BRIAN. FOCO.

— Conte como aconteceu, quero detalhes. — Digito o código do sistema, e anoto cada palavra minuciosamente.

Erguendo os braços, ela puxa seus cabelos para cima e faz um coque, prendendo-os. Alguns fios escapam contornando o rosto, deixando-a ainda mais sensual. Engulo em seco, observando seus movimentos. Como se notasse o efeito que causa sobre mim, desliza as mãos pelo pescoço.

PALAVRAS, DEPOIMENTO, SISTEMA.

Tento ao máximo voltar minha atenção para a tela do computador, mas meus olhos são traidores e não desviam dessa tentação. É isso, estou sendo colocado a prova, só pode.

— Pronto isso é tudo pode ir — concluo o mais rápido possível.

— Já acabou?

— Sim — respondo.

— Então, vou indo. Obrigado Brian.

O som do meu nome saindo dos seus lábios arrepia os pelos da minha nuca. Levanto da cadeira, e passo por ela para abrir a porta.

— Por favor, não entre em mais confusão.

— Olha aqui, você não manda em mim, ok? — responde nervosa.

Que caralho é esse? Só quero ajudar essa ingrata. Avanço alguns passos em sua direção enquanto ela recua para trás até encostar-se à parede. Espalmo uma mão de cada lado da parede, encurralando-a no meio dos meus braços. Aproximo o rosto do seu para que possa sentir minha respiração. Encaro dentro dos seus olhos, e agora quem está engolindo em seco não sou eu.

— Você não vai se meter em encrenca de novo, senão te coloco em uma cela e deixo dormir lá. Entendeu?

— Eu não...

Interrompo-a.

— Entendeu Camilly Carter? — digo entre dentes.

Como não reparei antes que suas irises têm rajadas de cor verde? E assim de perto seu perfume é ainda mais gostoso. Mas essa demônia

consegue puxar a merda para fora do meu controle.

— Si... Sim... Entendi — gagueja.

Abro um sorriso de canto, e desço o nariz até a curva do seu pescoço, roço suavemente contra a pele, inalando seu cheiro. Ofegante, sinto Camilly se remexer.

PORRA! PORRA!

Subo os lábios até sua orelha, e sussurro.

— Ótimo. — Para brincar de gato e rato é preciso de dois indivíduos, senhorita Carter. — Agora vai, tenho coisas importantes para fazer.

Puxo os braços e inclino o corpo para trás, mas Camilly agarra a frente da minha camisa me puxando de encontro ao seu corpo. Esfregando os seios no meu peito, ela sorri descaradamente.

— É bem sexy seu lado mandão. Mas, não preciso de você, cuide da sua vida, Brian.

Ficando nas pontas dos pés, ela roça os lábios nos meus delicadamente. Em segundos me segurando, em seguida me empurrando para longe.

— Adeus!

Sem dizer nenhuma palavra a vejo sair da sala rebolando a bunda, os cabelos escapando do coque e cobrindo suas costas.

Essa mulher vai ser minha perdição.

Atravesso a porta de saída da delegacia, e sinto os raios de sol tocando minha pele. Fecho os olhos e respiro fundo em uma tentativa de acalmar meu coração que bate acelerado. Minhas mãos tremem em conjunto com o resto do corpo, esse delegado é louco. Como se atreve a me tratar daquele jeito? Primeiro se faz de difícil, depois se rende por inteiro, mas corre igual diabo foge da cruz, e agora, quer bancar o preocupado? Senhor Delegado Brian Garcia está precisando de tratamento psicológico, maluco.

Flashs de consciência atingem meus pensamentos, e noto que acabei vindo até o lugar que mais tenho receio e medo, a polícia. Assassina, fugitiva, e com identidade falsa, no mínimo trinta anos de reclusão. Quando decidi que iria cursar a faculdade de direito, Josefy não entendeu o porquê, já que seria sua herdeira e responsável por administrar seus bens, mas uma mulher prevenida vale por duas, precisava saber tudo sobre leis e os riscos que corro caso me encontrem. Por fim, gostei do curso.

Caminhando rapidamente me afasto do prédio da polícia.

Sem carteira, dinheiro, carro, e de pijama, ando pelas ruas de ova York. Devia ter pedido carona para os policiais, mas não iria dar o gostinho para aquele ogro rir de mim logo após dizer que não preciso de cuidados. Pelo menos estou fazendo o exercício da semana inteira, nota mental, nada de academia.

Depois de uma hora andando a pé, algo me diz que deveria ter engolido meu orgulho. Meus pés estão em bolhas e as pernas latejando. Força Camily, você já passou por coisas muito pior que isso. De longe vejo uma praça, acelero os passos e sento no primeiro banco que encontro.

Exausta tombo a cabeça para trás apoiando na madeira, e encaro o céu estrelado. Recordo-me das noites que adormeci ao relento sentindo frio, fome e medo. Acho que nunca serei grata o suficiente a Josefy. Às vezes me questiono por que demorei tanto tempo para fugir daquele monstro? Medo? Covardia? Não ter dinheiro? Apoio? Família? Spencer sempre jogava na minha cara que não tinha como sobreviver sem ele, suas agressões verbais eram tão fortes quanto às físicas. Para ser sincera acho até que eram as verbais que doíam mais, minando minha capacidade como ser humano. Dia após dia, a pessoa falando o quanto se é inútil, imprestável, indesejável, se torna sua verdade. Infelizmente. Sinto lágrimas rolando por minha face.

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