Capa do Romance Onde a Estrada nos Levou

Onde a Estrada nos Levou

9.1 / 10.0
A vida acadêmica de Nina era pautada por livros e pressões, até que suas viagens de carro ganharam um novo sentido. Lucas, seu motorista, é um homem enigmático cujos mistérios despertam uma atração profunda. O que eram apenas diálogos casuais evolui para um romance intenso, desafiando barreiras sociais e receios pessoais. Em meio a escolhas difíceis e um destino incerto, ela precisará decidir se está pronta para seguir esse amor por caminhos desconhecidos.

Onde a Estrada nos Levou Capítulo 1

O som do motor cortou o silêncio do meu apartamento antes mesmo de eu abrir os olhos. Era uma daquelas manhãs em que o mundo parecia pesado demais, e eu não tinha energia para encará-lo. Mais um dia de faculdade, mais uma rotina que eu arrastava com a sensação constante de estar atrasada para a própria vida.

Meu pai já não estava em casa há semanas, ou talvez fosse só mais uma viagem de negócios. Ele sempre foi presente quando queria, mas a vida adulta dele, cheia de compromissos e viagens, deixava pouco espaço para nós. Gabriel ainda dormia profundamente, alheio à minha inquietação. Eu, por outro lado, tinha aprendido a lidar com a solidão desde cedo. A morte da minha mãe ainda deixava um espaço vazio que ninguém conseguia preencher. A ausência constante de meu pai apenas reforçava aquela sensação de que, no fundo, eu precisava cuidar de mim mesma.

Desci as escadas com o peso da mochila no ombro e os olhos semicerrados pelo cansaço. O carro já estava parado na garagem. Lucas estava encostado no capô, com a postura calma que sempre me irritava e, ao mesmo tempo, me fazia reparar nele. Ele levantou a mão, sorrindo levemente.

- Bom dia, Nina.

Segurei minha respiração e passei direto, sem sequer olhar para ele. Meu silêncio não era por maldade; era um escudo, uma maneira de manter distância de qualquer coisa que pudesse me puxar para fora da minha rotina. Lucas apenas observou, imóvel, sem uma expressão de aborrecimento. Eu me perguntava como ele conseguia ser tão paciente.

Entrei no carro, jogando a mochila no banco de trás, evitando qualquer contato visual. Quando o carro começou a se mover, o silêncio tomou conta. Havia algo nele que me incomodava e me atraía ao mesmo tempo. Não era uma sensação clara, apenas um reconhecimento: ele era... gato. Não era um pensamento consciente, mas o meu cérebro não conseguia ignorar a presença dele.

- Está frio hoje, não acha? - ele comentou de forma casual, como se estivesse tentando quebrar o silêncio.

Arqueei uma sobrancelha e murmurei:

- Não é da sua conta.

Minha resposta foi mais dura do que pretendia. Não queria me mostrar vulnerável de forma alguma. Lucas apenas sorriu, pequeno e tranquilo, sem qualquer sinal de ofensa. Era irritante. Como alguém podia permanecer calmo diante da minha indiferença? Eu deveria me sentir irritada, e de fato me sentia, mas havia outra sensação misturada ali, algo que eu não queria reconhecer.

Olhei pela janela, fingindo me concentrar na estrada que se estendia à frente. Cada árvore, cada placa, cada curva parecia mais longa do que o normal. Meu cérebro, no entanto, insistia em voltar para ele. Lucas dirigia com cuidado, os olhos atentos ao trânsito, e de vez em quando seu olhar parecia cruzar o meu no retrovisor, apenas por um instante. Eu não quis admitir, mas aquilo me deixava inquieta. Não era que eu estivesse interessada; era apenas... curiosidade. Um reconhecimento silencioso de que ele era atraente, sem que eu quisesse me dar conta disso.

O trajeto continuava, e eu me afundei em pensamentos sobre a faculdade. Trabalhos, prazos, notas... tudo parecia urgente demais, mas ainda assim, minha mente voltava para ele. Lucas não era invasivo, não falava demais. Ele simplesmente existia, ali, com uma presença calma que me fazia sentir que estava sendo observada, sem ser invadida. Era irritantemente agradável e, de certa forma, perigoso para quem, como eu, não queria se aproximar de ninguém.

O carro finalmente parou em frente à faculdade. Lucas desligou o motor e me lançou um olhar discreto, como se esperasse alguma reação minha. Não deu certo. Eu apenas segurei minha mochila com firmeza e saí, ignorando a necessidade de responder a qualquer coisa.

- Até amanhã. - ele disse, com a mesma calma de sempre.

- Hm. - murmurei, sem me virar.

Enquanto caminhava pelos corredores da faculdade, senti olhares curiosos. Minhas amigas logo perceberiam que eu estava mais introspectiva do que de costume. Laura e Bela provavelmente tentariam me arrancar um sorriso, me fazer conversar sobre alguma coisa, mas eu não estava pronta para isso. Não queria compartilhar pensamentos sobre o carro, sobre Lucas, sobre qualquer coisa que pudesse me fazer parecer vulnerável. Vulnerabilidade era um luxo que eu não podia me dar.

Mesmo assim, havia uma pequena voz dentro de mim que insistia em notar sua presença. Ele era mais do que atraente; tinha aquele tipo de segurança silenciosa que fazia meu coração acelerar sem motivo aparente. Era irritante e, ao mesmo tempo, intrigante. Eu sabia que nada daquilo deveria me importar. Não agora. Mas, por um instante, eu permiti que meu olhar vagasse em direção ao lugar onde ele teria estacionado o carro, imaginando seu rosto, a forma como segurava o volante, seu sorriso tranquilo que eu ainda não via direito.

Sentei-me, abri meu caderno e tentei me concentrar nas anotações. Mas mesmo entre fórmulas e definições, o pensamento dele invadia minha mente, insistente. Eu neguei, fechei os olhos por um instante e respirei fundo. A estrada estava à minha frente, mas eu não precisava me distrair. Pelo menos não agora.

Mas, mesmo sem admitir, algo me dizia que aquela estrada já estava me levando a algum lugar... e que Lucas, de alguma forma, já estava na direção.

Sentei-me na primeira fileira da sala de aula, tentando concentrar-me nas anotações que o professor espalhava pelo quadro. Mas, como sempre, minha mente insistia em vagar. O lápis girava entre meus dedos enquanto eu tentava focar nas fórmulas de psicologia comportamental, mas era impossível ignorar a lembrança do trajeto até a faculdade.

Não era apenas o carro, ou a estrada, ou o som suave do motor. Era Lucas. Não podia dizer que me interessava por ele - ainda não. Mas havia algo nele que me fazia prestar atenção, mesmo quando eu jurava a mim mesma que não ligava para nada além da minha própria vida. A forma como ele dirigia, o cuidado com que olhava pelo retrovisor, até mesmo aquele leve sorriso que ele tentava esconder... tudo isso permanecia comigo, silencioso e insistente.

Enquanto o professor falava sobre teorias de comportamento humano, eu observava discretamente os colegas de classe, tentando me distrair. Laura e Bela estavam nas últimas filas, cochichando e rindo baixinho, sem perceber que eu estava mergulhada em pensamentos muito mais complexos. Eu não me sentia triste, mas sentia uma estranha inquietação, como se algo estivesse prestes a mudar, mesmo que eu não quisesse admitir.

O intervalo chegou, e eu caminhei até o pátio sem pressa. Respirei fundo o ar frio da manhã, sentindo a brisa tocar meu rosto. Algumas pessoas passavam apressadas, rindo ou discutindo sobre trabalhos e provas. Eu permanecia observando, com os braços cruzados, tentando encontrar algum ponto de referência no caos da faculdade.

Foi então que notei um grupo de alunos olhando na direção do estacionamento. Meu coração acelerou por um segundo, e imediatamente me dei conta do porquê: era Lucas, estacionando o carro, como se tivesse seguido meus passos sem que eu percebesse. Ele não me olhou diretamente, mas algo na sua postura parecia... ciente de mim, mesmo que eu quisesse ignorar.

Sacudi a cabeça, tentando afastar o pensamento. Não era hora de distrações. Eu tinha provas, trabalhos e uma agenda cheia. Nada de motorista gato, nada de pensamentos indesejados. E, ainda assim, não conseguia evitar a sensação de que algo estava prestes a acontecer. Algo pequeno, talvez, mas importante.

Voltei para a sala, fingindo não ter visto nada. Mas minha atenção estava dividida entre as anotações e a lembrança do sorriso dele. Era irritante como alguém podia ser tão tranquilo e, ao mesmo tempo, tão marcante sem fazer esforço algum. Eu deveria me concentrar, eu dizia a mim mesma, mas cada vez que fechava os olhos, via novamente aquele olhar calmo e firme.

Quando a aula terminou, Laura e Bela me puxaram para o corredor, rindo e comentando sobre alguma série nova que estavam acompanhando. Eu respondi com breves acenos e murmúrios, sem realmente participar da conversa. Elas perceberam meu silêncio, mas não insistiram. Pelo menos não naquele momento.

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