Capítulo 2

— Porra! Quantas vezes eu tenho que pedir para que me entregue essa

droga de contrato?

Bato minhas mãos contra a mesa de mogno do meu escritório e me

arrependo assim que sinto a dor se alastrar dos dedos até o braço. Minha

paciência já se esgotou, essa assistente nova é lerda demais, já é a terceira vez

que peço pela mesma coisa e nada! Preciso ler o maldito contrato antes que a

reunião comece, e agora tenho menos de uma hora para me preparar.

— De-Desculpa senhor Knight! A impressora estava sem tinta e tive

que trocar o cartucho...

— Achei que tivesse dito que era proativa na entrevista! Como deixou

que algo assim acontecesse, hein?

— Me...me perdoa! Já venho trazer os papéis...

A assistente, da qual não lembro o nome, se desculpa profusamente

antes de sair em busca do bendito contrato. Percebo uma lágrima escorrer

pelo seu rosto no instante em que se vira e, vendo aquela cena, sinto que

minha cabeça vai explodir.

Merda!

Massageio minha têmpora e inspiro fundo algumas vezes para

controlar o estresse.

— Cara, o que foi que você fez dessa vez?

Aperto os olhos com força e passo as mãos pelos meus cabelos antes

de olhar o meu irmão mais novo que acabara de entrar sem permissão, como

de costume, na minha sala.

— Eu não fiz nada, Gabe! Aquela assistente é que não sabe fazer o

trabalho dela.

— James, não precisava fazer a pobre coitada chorar...

— Se não aguenta a pressão, então devo demiti-la! Eu avisei a maneira

como as coisas são aqui na empresa logo na entrevista e ela aceitou.

Gabe me encara por um longo momento sem falar nada e então

balança a cabeça.

— Cara, eu e Pete concordamos que precisamos conversar.

Já sei sobre que os meus irmãos querem conversar, mas finjo

ignorância a respeito.

— Então conversem os dois, ué! Agora me dê licença, preciso

organizar a papelada antes que os nossos clientes cheguem.

— Não se faça de desentendido, James. Precisamos conversar, nós

três.

A porta se abre novamente e eu me levanto, achando que é a tal

assistente me trazendo o contrato. Fecho a cara quando vejo que é o meu

outro irmão.

Cacete!

Cadê. A. Porra. Da. Minha. Assistente. Imprestável?

— O que você quer, Pete? — esbravejo.

Meu irmão do meio levanta as mãos para o alto e me olha espantado.

— Opa! Calma brother, só vim avisar que os slides e tudo o mais estão

prontos na sala de reunião.

Meus irmãos gêmeos me olham preocupados, o que só piora o meu

humor. Odeio que me olhem dessa maneira. Não suporto que sintam pena de

mim. Eu deveria ser o mais forte — sendo o irmão mais velho, ainda que por

alguns minutos — sou eu quem devia me preocupar com o bem estar deles.

— Obrigado por avisar, Pete. E você, Gabe? — Amanso o meu tom de

voz o máximo que consigo.

— Como já disse antes, eu consegui baixar os números, o projeto está

bem mais viável sem perder a qualidade.

— Ótimo! Os contratos estão prontos, mas preciso deles impressos!

Mal termino de falar e a porta se abre novamente, minha ampla sala

parece menor com tanta gente aqui dentro.

— Aqui está senhor, desculpe a demora. — Ela me entrega os

documentos com as mãos trêmulas e seu olhar fixo ao chão.

— Evite que isso aconteça novamente, ou então será demitida.

A mulher assente e vai embora.

— James! Você não pode tratar uma funcionária dessa maneira, cara!

— Gabe me admoesta e vejo que Pete concorda.

— Brother, você precisa de umas férias, se divertir um pouco. Está

ficando cada vez mais ranziza, pô!

— Não preciso de nada disso! Amo o meu trabalho, por mais que seja

estressante ás vezes... — Afrouxo a gravata, sentindo-me sufocado.

Meus irmãos trocam olhares.

— James... você só vive aqui no escritório. Não têm saído com a

gente, nem com seus amigos.

— É, brother. Nós não dissemos nada antes por respeito... mas não

acha que já passou da hora?

Merda! Não acredito que esses filhos da mãe estão me dizendo isso!

Sinto o meu coração bater contra o tórax tão forte que fico com falta

de ar. As lembranças tentam se apoderar de mim, me sufocando, mas eu luto

contra elas e as bloqueio.

— Vocês não sabem do que estão falando, porra!

— Cara, nós sabemos que você odeia que toquem no assunto, mas já

faz quase dois anos desde que ela se foi. — Gabe encolhe os ombros e sua

expressão fica mais séria, algo incomum de se ver.

A pressão no tórax aumenta a cada palavra que sai da boca de Gabe,

minha visão fica turva e luto para não transparecer minha dor. Porra, eu não

quero sentir isso!

— Eu sei que você a amava e respeitamos o seu luto, mas já está na

hora meu brother... — Fecho os olhos com força ao ouvir Pete, e quando os

abro vejo tudo vermelho — Stacy não gostaria de te ver desse modo. Se

afastando cada vez mais das pessoas e se tornando esse ser que parece prestes

a explodir a qualquer segundo!

Vôo pra cima dele com a mão fechada em punho, mas Gabe me segura

antes que eu acerte o rosto do meu outro irmão. Me solto bruscamente dos

braços de Gabe e me afasto dos dois, antes que desfigure os seus rostos.

Chego a parar para pensar como seria mais fácil de nos discernir se eu fizesse

isso, mas inspiro fundo e acalmo meus nervos.

— Não abram mais a boca para falar sobre isso! — Afasto-me até

minha mesa com o peito arfante — Eu estou bem da maneira como estou

lidando com minha vida. O trabalho é a única coisa que me preenche o vazio

que Stacy deixou.

— Desculpa, James. — Eles dizem em uníssono.

Quando enfim acho que o assunto está por encerrado, ouço o Gabe

falar:

— Mas você tem que admitir que está fora de controle. Tive que pagar

uma nota na indenização de Suzanna.

Olho para ele incrédulo.

— Suzanna? Quem é essa?

— Sua última assistente, aquela que se demitiu por justa causa!

Esfrego as mãos no meu rosto quando enfim lembro-me de quem ele

está falando. Suzanna se demitiu quando gritei com ela, e com razão, por ela

não ter me passado a ligação do meu cliente mais importante. Tudo bem que

pedi para avisar que estava fora enquanto eu redigia a porra do contrato desse

mesmo cliente, mas fui claro ao dizer que se fosse relacionado a ele, era para

me passar as malditas ligações.

— Nós somos seus irmãos e te amamos, mas nem a gente está

aguentando, bro.

Encaro os dois sem palavras, tenho estado com a cabeça quente

ultimamente, admito. Mas não imaginava ser tão grave assim.

— O que vocês dois me sugerem então? Que eu tire as benditas férias?

E então o que será das reuniões agendas nesses meses todos, hein? — Cruzo

os braços à espera da brilhante resposta.

Pete coça a cabeça e olha para o Gabe. Os dois se comunicam em

silêncio, coisas de gêmeos, por isso também compreendo o significado

daqueles olhares.

— Nem fodendo! Literalmente! — Nego veemente com a cabeça,

tremendo de raiva.

— Mas você está precisando, cara! Vamos sair essa noite e arrumar

uma gata para você.

Posso sentir a pressão do sangue subindo até a minha cabeça. Só de me

imaginar com outra mulher sinto como se estivesse traindo a Stacy. Confesso

que sai com algumas mulheres, mas todas as vezes que terminava a foda eu

me sentia péssimo. A culpa era tanta que sequer sentia prazer no ato do sexo,

tinha que fechar os olhos e imaginar minha esposa para poder gozar.

Lembrava-me do seu perfume de rosas misturado com seu suor, seus cabelos

pretos revoltos contra o travesseiro e os sons que ela emitia a cada estocada

minha. Desisti de buscar prazer em outras mulheres e desde então alivio a

tensão com as mãos mesmo, buscando em minha memória a sua perfeição.

— Não adianta, porra! Vocês não acham que já tentei? Depois desses

vinte meses, acham mesmo que não transei com outras?

Os olhares de alívio deles só aumentam minha raiva. Parece que a

única coisa que os preocupavam era se eu havia transado. Caralho, do que

adianta transar e não sentir a porra do desejo?

— Não deve ter tentado direito então, brother. — Pete balança a

cabeça sorrindo, me dá vontade de quebrar seus dentes.

— Não se feche pro mundo, James. Há tanta mulher legal por ai... não

tô dizendo que é para você se apaixonar de novo, mas se divertir e relaxar.

— Não estou a fim de conhecer ninguém. — resmungo.

— Mas é o que tô tentando dizer, cara! Não precisa conhecer! Não

precisa sequer saber seu nome...

— Não sou como você, Gabe. — Passo os dedos por meus cabelos

curtos e os levo até a nuca.

— Brother, faça o que quiser. Só por favor... Alivie essa tensão. Se

não quiser sair por ai atrás de sexo gostoso o problema é seu! Mas não venha

nos encher o saco, não aguentamos mais essa merda!

Alguém bate na porta me impedindo de dar uma boa resposta ao Pete.

— Entre!

— Com licença. O senhor Mitchell e sua equipe chegaram. — Minha

assistente comunica num sussurro irritante.

Puta que me pariu! Os filhos da mãe ficaram me perturbando tanto que

nem tive tempo de reler os papéis! Agora já era, a reunião deve começar.

Minha pressão aumenta fazendo a dor de cabeça voltar com força total.

Gabe e Pete me fitam preocupados quando me flagram massageando

novamente a têmpora, um gesto comum ultimamente.

Talvez eles tenham alguma de razão. Não concordo em tudo, mas

realmente eu preciso relaxar um pouco e me aliviar dessa tensão.

Capítulo 3

A festa da fraternidade Kappa Sigma, onde meu amigo Michael vive,

começou tarde, como sempre. Por isso estou saindo do Campus da

Universidade Stanford em plena madrugada, espero conseguir chegar ao

Hospital em Fresno no início da manhã! Olho para o relógio digital no painel

do carro percebendo já quase ser três horas, mas não posso acelerar sem por

minha vida em risco. Meus olhos estão cheios de lágrimas e está sendo

extremamente difícil enxergar, por mais que eu queira chegar logo e ver meu

pai, não posso arriscar sofrer um acidente.

Do que adiantaria? Não ajudaria em nada o meu pai se estivesse morta.

Normalmente eu levo por volta de três horas saindo de Palo Alto, em

San Francisco, até a minha cidade natal. No entanto, a estrada está mais

deserta e sem o trânsito consigo chegar um pouco mais rápido, eu acho. Meu

celular começa a tocar alto fazendo meu coração disparar com o susto, mas

não atendo. Provavelmente é a Nathy querendo saber onde fui parar.

Droga!

Na minha pressa e desespero esqueci completamente de deixar uma

mensagem. Paro o carro no encostamento e retorno sua ligação.

— Alô?

— Cadê você? Estava morrendo de preocupação! Sumiu da festa e não

te encontrei em casa... Oh não! Eu estou atrapalhando alguma coisa?

Finalmente deixou de ser caretinha e está na cama de um cara gostoso?

Nathy não me dá nenhuma brecha para responder! Caramba! Como ela

consegue falar tanto sem dar uma pausa para respirar?

— Não, ami-miga... — Minha voz sai entrecortada com os pequenos

soluços.

— Candice, está me preocupando. O que aconteceu? Onde você está?

Inspiro fundo e solto o ar pela boca antes de responder.

— Estou indo ver meu pai... Ele está no hospital, Nathy.

Posso escutar minha amiga arfando no outro lado da linha.

— Por que não me avisou? Eu iria com você! Está com o meu carro?

Eu não o achei no estacionamento.

— Nem pensei amiga, só precisava sair logo daí. Desculpe pelo

carro...

Fungo e seco o nariz, encostando a testa no volante.

— Eu não me importo com isso! Só acho que você não deveria estar

dirigindo nessas condições, eu poderia levá-la...

— Eu estou conseguindo dirigir, não se preocupe comigo. Quando eu

chegar lá te aviso, ok? Só me faça um favor... avise aos nossos professores

em comum na segunda se eu não voltar a tempo?

— Claro amiga, mesmo se eu não avisar eles saberão que algo

aconteceu. Vão sentir falta da melhor aluna, se eu não fosse sua amiga

sentiria inveja!

Solto um pequeno riso e balanço a cabeça. Nathy sempre implica

comigo sobre eu ser estudiosa. Diferente dela, que tem uma família com

dinheiro, eu não posso me dar ao luxo de perder minha bolsa de estudos.

Além do mais, prometi ao meu pai.

— Te amo sua louca, preciso ir agora...

— Também te amo, amiga CDF linda! Mantenha-me informada...

Finalizo a ligação e volto minha atenção à pista escura.

Já estou a caminho, papai.

***

Adentro o estacionamento do Hospital do Coração e fico de boca

aberta com a fachada, ironicamente meu peito dói! Parece mais um hotel de

luxo, imagine quanto vai ser a conta hospitalar... Uma facada.

Corro até a entrada e espero a recepcionista me atender, estou

tremendo dos pés à cabeça e meus olhos estão inchados de tanto chorar, mas

tento manter a compostura.

— Bom dia, meu pai está internado aqui e preciso vê-lo.

— Qual é o nome do paciente?

— Thomas Greece, ele foi internado ontem à noite.

A recepcionista digita as informações no computador com destreza e

logo me olha por sobre o alto balcão.

— Aguarde, por favor. A Dra. Green irá chamá-la.

Como assim? Tenho que esperar para poder ver o meu próprio pai?

— Não posso ver o meu pai antes?

— Infelizmente são ordens, a doutora gostaria de conversar com você

antes de levá-la ao quarto.

Sento-me angustiada na sala de espera e observo o interior do hospital

para passar o tempo. É tudo tão limpo e bem iluminado, as cadeiras e sofás

são confortáveis e o estilo lembra mesmo a de um Hotel SPA. Será que os

pacientes recebem um tratamento de massagem como parte da internação?

Sorrio com esse pensamento, tão logo o sorriso surge em meus lábios ele

some. Isso aqui não é brincadeira, meu pai está mal e talvez precise de

cirurgia.

— Senhorita Greece?

Aquela mesma voz feminina e forte do telefone chama pelo meu

nome. Levanto o olhar e me deparo com uma mulher usando um jaleco

branco, seus cabelos ruivos estão presos em um alto coque. Sua altivez é um

tanto intimidadora, mas quando fito seus olhos ternos sinto empatia.

— Sim... sou eu!

Levanto-me do assento para conversar melhor e fico uns quinze

centímetros mais alta do que ela. Que engraçado, a primeira vista ela parecia

bem maior, deve ser sua postura.

— Vou direto ao ponto com você, o seu pai sofreu infarto agudo do

miocárdio causado por entupimento das artérias. A caminho do hospital ele

teve uma parada cardíaca, mas a equipe conseguiu fazê-lo bater sozinho

novamente. Tivemos que administrar alguns remédios para tratar de

coágulos e fizemos cateterismo...

Assinto catatônica, meu rosto molhado com a torrente de lágrimas que

cai sem eu precisar sequer piscar.

Eu quase perdi a única pessoa que tenho nessa vida!

Nunca conheci minha mãe, ela me abandonou com meu pai depois que

nasci e nunca quis saber de mim, então não fiz questão de saber sobre ela

também. Papai diz que ela foi sua namorada e que haviam terminado antes

dela descobrir que estava grávida. Quando ele soube da gravidez quis

reconciliar, porém ela não aceitou, e se não fosse pela insistência do senhor

Thomas eu nem estaria aqui hoje! Meus avós já são falecidos, lembro-me

pouco deles, pois eu ainda era pequena quando estavam vivos. Portanto, só de

pensar na possibilidade de meu pai morrer é terrível. Como se eu fosse

jogada num abismo escuro e sem fim, engolida pelas sombras num vortex. A

ânsia de vômito volta, sinto a visão escurecer e fico tonta.

— Candice? Você está bem?

A doutora segura meu braço quando minhas pernas se dobram como

gelatinas.

— Eu... não. Não estou nada bem. — Fecho os olhos esperando a

vertigem passar.

Ela me ajuda a sentar na cadeira mais próxima e tenta me acalmar.

— Acalme-se, seu pai está estável agora.

— Eu quero vê-lo! Por favor, me deixe ver meu pai...

Dra. Green assente rapidamente, seu rosto é um misto de sobriedade e

compaixão.

— Tudo bem, eu só preciso que você entenda que ele vai precisar

continuar com o tratamento. Precisa tomar os remédios todos os dias daqui

para frente. E se por acaso ele tiver qualquer sintoma, teremos que pensar na

cirurgia.

— Está bem, quando ele pode ter alta?

— Devemos monitorar o ritmo cardíaco e fazer o tratamento intensivo,

se tudo ocorrer bem ele será liberado amanhã à tarde.

Percorro pelos corredores seguindo os passos da doutora, quando ela

para em frente à porta do quarto começo a estremecer novamente. Prendo a

respiração e adentro o pequeno cômodo, meus olhos buscam pela figura do

meu pai e o encontram deitado e adormecido na maca. Seu aspecto frágil e

pálido me deixa sem ar, mas o que me dói mais é ver tantos tubos

intravenosos em seu corpo inerte. Ando até ele e toco delicadamente a sua

mão, ele está tão gelado! Seguro o fino cobertor e puxo até que lhe cubra

melhor.

— Vou deixá-los a sós. Se tiver alguma dúvida me chame.

Murmuro um agradecimento e a ouço sair enquanto continuo fitando o

rosto do papai. Avisto uma cadeira acolchoada e sento-me ao lado da maca,

fico ali observando o rosto pacífico dele enquanto dorme. Suas pálpebras se

movimentam e o assisto abrir os olhos lentamente.

— Pai? — sussurro.

— Candice? O que está fazendo aqui, filha? — Sua voz soa quase

inaudível.

— Como assim o que eu faço aqui? O senhor me deu um baita susto,

foi isso! Está no hospital, se lembra de algo?

— Sim querida, mas não precisava vir e atrapalhar seus estudos...

Levanto-me e me aproximo do seu rosto, lhe beijando a face.

— Paizinho, pare de bobagem! É claro que eu viria! — Suspiro

quando vejo sua expressão de culpa, como se ele fosse um incomodo para

mim.

— Pai, eu estou falando sério. Por que não me ligou antes? Você se

sentiu mal de repente?

Ele fecha seus olhos azuis com força e balança a cabeça.

— Já havia sentido alguns sintomas antes, mas não sabia que era o

coração. Achei que fosse o estômago ou algo parecido...

Acaricio seus cabelos loiros curtos, mal se nota os fios grisalhos. Meu

pai ainda é jovem e em forma, por isso é tão difícil de entender. Como ele

pode ter sofrido um infarto? Tem somente trinta e nove anos, nunca fumou,

não bebe, e raramente come besteiras! Sempre gostou de correr e fazer

caminhadas... Eu simplesmente não compreendo.

— Deveria ter ido ao médico, pai. Você prometeu que ia se cuidar

enquanto eu tivesse fora. Não faça mais isso, ok?

— Aprendi da pior forma, filha. Não se preocupe comigo, não vou dar

essa bola de novo. — Volta a fechar os olhos e então noto sua respiração

ofegante.

— Ficarei com você até te darem alta, já pedi para meus amigos me

passarem anotações das aulas e avisar meus professores...

— Não! Candice, você deve voltar para faculdade. Não precisa ficar

aqui, eu estou bem. Foi só um susto. — Não sei de onde ele tirou as forças,

mas segura minha mão firmemente.

Ele está louco se acha que vou deixá-lo sozinho!

— Pai! Já conversei com a médica, ela disse que talvez você tenha alta

amanhã. Não vou embora.

— Você é teimosa, filha. Era para você estar focando nos seus estudos

e não se preocupando com seu velho!

Meu celular toca e verifico o número que está ligando. É a Nathy!

Esqueci de avisar que cheguei bem!

— Amiga! Foi mal, eu me esqueci de ligar.

— Percebi. Está tudo bem?

Olho de relance para o meu pai e gesticulo para ele dizendo que já

volto. Caminho até a porta, saindo para o corredor.

— Nathy, meu pai é um cabeça dura... ele está tentando amenizar toda

a situação.

— Eu já sabia que ele iria fazer isso! Senhor Thomas não gosta de te

preocupar, amiga.

Apesar de todos o chamarem de “senhor”, inclusive eu, papai está

longe de ser um idoso. Por isso reviro os olhos, pois Nathy pronunciou essa

palavra de forma sedutora. Faz isso só para implicar comigo, como de

costume!

— É... eu sei. O pior é que ele estava me escondendo o jogo sobre sua

situação financeira! — Passo os dedos pelas minhas madeixas loiras,

enrolando as pontas. — A médica já me avisou do seguro, ele não cobre tudo.

Vou pagar sem ele saber, papai não pode se estressar por causa do coração.

— Nossa! Se precisar de dinheiro emprestado eu posso falar com

minha mãe...

Nunca! Eu amo a minha amiga como uma irmã, mas nunca faria isso.

Ainda mais pedir dinheiro para sua mãe, elas não se dão bem!

— Não é necessário, eu tenho minhas economias. Juntei cada centavo

de quando trabalhei como recepcionista no consultório dentário.

— Ah, verdade, mas me avise se mudar de ideia, ok?

— Ok...

Desligamos e passo rapidamente na lanchonete para tomar meu café da

manhã, quase almoço, antes de voltar ao quarto. Retorno com a barriga

forrada e me acomodo na cadeira novamente, percebendo que papai apagou,

aproveito e fecho os olhos para um cochilo...

— Senhorita?

Uma voz calma me desperta do torpor. Apuro minha visão borrada

com o sono e vejo uma enfermeira.

— Oi? — Digo um pouco grogue, ainda despertando.

— Senhorita, me perdoe a intromissão, mas já está dormindo faz

algumas horas e notei que não comeu nada... Até o seu pai já almoçou e

voltou a dormir.

Que exagerada, eu fui dormir pouco depois de uma hora!

— Obrigada. Pode me informar as horas?

Ajeito-me no assento e sinto os músculos gritarem de dor. Dormi

numa posição horrível! Massageio a nuca com desespero, mas assim que

começo a acordar para valer várias sensações de incomodo me afligem.

Primeiro é a bexiga cheia, preciso urgente ir ao banheiro! A segunda é a fome

corrosiva, meu estômago está doendo já implorando por comida, de novo!

— Querida, são duas horas da tarde de domingo.

O que? Não é possível! Estou dormindo por vinte e quatro horas?

vinte e quatro?

Meu queixo cai, estou pasma. Fiquei praticamente em coma e ninguém

me acordou? Pensando bem eu não dormi por um dia inteiro e ainda viajei de

carro na madrugada. Estava exausta, fisicamente e emocionalmente.

O lado bom disso tudo é que meu pai logo terá alta, assim espero!

Olho para ele deitado em sua fina maca, dormindo... ao menos já

acordou e fez suas coisas antes de voltar pro seu sono restaurador.

Corro para o banheiro antes de passar no refeitório do hospital, compro

dois sanduíches naturais e um suco de laranja para matar o que estava me

matando: a fome. Aproveito e respondo as centenas de mensagens dos meus

amigos. Retornando ao aposento onde meu pai está internado, deparo-me

com a doutora no corredor.

— Olá, era você mesmo quem eu estava procurando — diz com um

pequeno sorriso.

— Sim? Ele já pode ir?

— Felizmente sim, já dei alta. Seus batimentos cardíacos estão bons e

não houve nenhuma recaída. No entanto, ele continuará tomando alguns

medicamentos como parte do tratamento.

Assinto aliviada. Finalmente meu pai pode voltar pra casa!

— Preciso que algum responsável siga até a recepção para receber a

conta. Logo ele poderá ser liberado.

Vou até o local indicado e espero a atendente me informar o total dos

gastos, minhas mãos tremem de nervoso e expectativa. Preencho algumas

papeladas e, quando finalmente recebo a conta, quase caio para trás. Por dois

dias de internação, mais os exames médicos, as medicações e o procedimento

de cateter eu terei de pagar vinte mil dólares! Vinte mil!

Já era... Eu só tenho míseros três mil na poupança! Como faço?

— Hã... Tem como eu pagar uma parte agora e o resto em prestações?

A mulher me olha séria, afinando os lábios.

— Você tem até noventa dias para pagar o total.

Entrego o meu cartão com as mãos suando frio, e rezo para conseguir

esse dinheiro, ou terei que pagar juros e de quebra ficar com o nome sujo!

Nossa... Ainda tem as medicações da receita para comprar!

Prendo o choro e tento raciocinar.

Preciso encontrar um emprego urgente e que pague bem.

Super bem!

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