Capítulo 2

Ana Lúcia segurava o troféu de ouro com as mãos trêmulas, a vitória no campeonato regional ainda vibrando em suas veias, mas o ar em sua casa era pesado, destituído de qualquer celebração. Seu pai, sua mãe e seu irmão a encaravam com olhares que ela conhecia bem demais. Não havia orgulho ali, apenas uma frieza calculada.

Ao lado deles estava Carlos Eduardo, o filho do fazendeiro mais rico da região. Ele sorria, um sorriso que não alcançava seus olhos, e estendeu uma pequena caixa de veludo.

"Ana Lúcia, eu sei que isso é repentino," ele começou, a voz ensaiada, "mas eu admiro sua força e sua determinação. Case-se comigo."

A proposta pairou no ar, um absurdo tão grande quanto o troféu em suas mãos. Casar? Ela queria o mundo, queria os estádios lotados, queria a glória do futebol. Casamento era uma gaiola, e eles estavam lhe oferecendo a chave.

Foi então que as vozes começaram, como sempre faziam. Não eram sons audíveis, mas pensamentos crus, derramando-se em sua mente como veneno. Era sua maldição, sua habilidade secreta: ouvir os pensamentos de sua família.

Ela tem que aceitar, pensou sua mãe, o rosto uma máscara de preocupação fingida. É a única forma de parar essa loucura com o futebol e proteger a Isabela.

Essa garota teimosa, a mente de seu pai rosnou. Se ela continuar, vai destruir o futuro da nossa verdadeira filha. O livro foi claro.

Ela precisa ser controlada, a voz de seu irmão, Pedro, ecoou com rispidez. O casamento com Carlos Eduardo vai amarrá-la. Finalmente.

O choque daquelas palavras era uma agressão familiar. Eles não a viam, não viam seu talento, seu sonho. Viam apenas um obstáculo, uma vilã de uma história que só eles conheciam.

A traição não era nova. Ela se lembrava de todas as vezes que tentaram sabotá-la. A chuteira que sumiu misteriosamente antes de um teste importante. O uniforme rasgado na véspera de um jogo. As palavras cruéis disfarçadas de conselhos, sempre com o mesmo objetivo: fazê-la desistir. Mas ela nunca desistiu. Cada obstáculo apenas alimentava sua teimosia, sua necessidade de provar que eles estavam errados.

Ana Lúcia ergueu o queixo, o peso do troféu dando-lhe força.

"Não," ela disse, a voz firme, cortando a tensão. "Eu não vou me casar com você, Carlos Eduardo. Eu não vou desistir do meu sonho."

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de fúria contida. Seu pai deu um passo à frente, a mão erguida como se fosse golpeá-la.

"Você não tem escolha!"

"Ela tem sim!"

Uma nova voz, clara e protetora, soou da porta. Isabela estava ali, os olhos brilhando de raiva. Ela era a razão de tudo aquilo, a irmã adotiva que a família idolatrava e protegia com uma devoção doentia. Mas Isabela era a única que a amava de verdade.

Ela correu para o lado de Ana Lúcia, colocando-se entre a irmã e o resto da família.

"Deixem ela em paz! Vocês não podem forçá-la a fazer isso!"

Carlos Eduardo, pego de surpresa, tentou recompor seu papel de pretendente encantador. Ele deu um passo em direção a Isabela, o sorriso voltando ao seu rosto.

"Isabela, querida, estamos apenas preocupados com o futuro da Ana. Um dia, você vai entender."

Mas Ana Lúcia ouviu o que ele realmente pensava, a verdade que se escondia por trás de suas palavras doces.

Como ela é linda quando está brava, a mente de Carlos Eduardo cantava. É por ela que estou fazendo tudo isso. Quando Ana Lúcia estiver fora do caminho, Isabela será minha.

O estômago de Ana Lúcia se revirou. Outra camada de mentiras, outra traição. Ele não a queria. Ele queria Isabela, e estava usando-a, conspirando com sua família para aprisioná-la. A sensação de isolamento a sufocou. Naquela casa, ela estava completamente sozinha, exceto por uma pessoa.

Mais tarde, no quarto que dividiam, Isabela segurou suas mãos. O mundo lá fora, na sala de estar, era hostil, mas ali, com sua irmã, havia um refúgio.

"Não ligue para eles, Ana," Isabela sussurrou, os olhos cheios de uma fé inabalável. "Você foi incrível hoje. Eu vi. Você vai ser a maior jogadora do mundo, eu sei que vai. E eu vou estar na primeira fila, torcendo por você."

As palavras de Isabela eram um bálsamo, um calor pequeno em meio ao frio cortante. Ana Lúcia forçou um sorriso, abraçando a irmã com força.

"Obrigada, Bela. Obrigada por acreditar em mim."

Mas enquanto segurava sua irmã, uma tosse seca escapou de seus lábios, e uma vertigem súbita a fez se apoiar na cama. Ela escondeu o mal-estar rapidamente, mas o medo gelado a percorreu. O tempo estava se esgotando, de uma forma que ninguém, nem mesmo sua família cruel, poderia prever. Ela tinha que correr, não apenas contra o ódio deles, mas contra o próprio corpo.

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Capítulo 3

Tudo mudou no dia em que Isabela chegou. Ana Lúcia tinha dez anos e se lembrava de um tempo antes, um tempo em que os sorrisos de seus pais eram para ela, em que os abraços de seu pai não pareciam um dever. Isabela, um bebê órfão de parentes distantes, foi acolhida com uma intensidade que beirava a obsessão. De repente, Ana Lúcia se tornou uma figura secundária na própria casa.

A verdadeira fratura, no entanto, ocorreu dois anos depois, no funeral de seu avô. Ele era um veterano de guerra, um homem que via a mesma fibra de lutadora em Ana Lúcia. Antes de morrer, ele lhe deu sua mais preciosa posse: uma velha medalha de honra, pesada e gasta. "Para a minha campeã," ele dissera. Naquele mesmo dia, enquanto ela segurava a medalha fria em seu quarto, as vozes começaram. Um sussurro confuso, os pensamentos de sua mãe vindos do corredor, repletos de uma ansiedade que ela não compreendeu.

A ansiedade logo se transformou em hostilidade aberta, e a habilidade de Ana Lúcia se tornou uma tortura diária. Ela não sabia como ou por que aquilo acontecia, só sabia que coincidiu com o momento em que o amor de sua família por ela se transformou em pó.

Um dia, escondida no topo da escada, ela ouviu a primeira menção ao segredo que regia suas vidas.

O livro diz que a Ana Lúcia vai trazer a desgraça para a Isabela, pensou sua mãe, enquanto arrumava os cabelos de Isabela, que brincava no tapete. Ela é a vilã da história da nossa Bela. Temos que impedi-la.

Vilã? Livro? Ana Lúcia sentiu uma vertigem de confusão e injustiça. Que livro? Que história? Era como ser julgada por um crime que não cometeu, em um tribunal que não existia. A absurdidade daquilo a deixava sem ar. Era uma loucura, e ela estava presa no meio dela.

Em meio a essa loucura, Isabela era sua única âncora. Enquanto a família a tratava com desdém, Isabela a defendia com a ferocidade de uma leoa. Trazia-lhe lanches às escondidas quando a deixavam sem jantar como castigo por "responder mal" . Remendava suas roupas de treino que seu irmão, Pedro, "acidentalmente" rasgava. A lealdade de Isabela era a única coisa real naquele mundo de ficção e paranoia.

A paranoia da família atingiu um novo pico uma semana antes das seletivas nacionais. Ana Lúcia descia as escadas, ansiosa para o treino, quando Pedro passou correndo por ela. Ele não a empurrou de verdade, foi mais um encontrão "sem querer" , mas foi o suficiente para fazê-la perder o equilíbrio.

Ela rolou pelos últimos degraus, uma dor aguda explodindo em seu tornozelo.

Seus pais vieram correndo, mas a preocupação em seus rostos era falsa. Ana Lúcia ouviu a verdade em suas mentes.

Ótimo, pensou seu pai. Com o tornozelo assim, ela não vai a lugar nenhum.

Finalmente algo que a pare, a mente de sua mãe concordou, satisfeita.

Eles a levaram para o quarto, não para o hospital. Deixaram-na lá, com uma bolsa de gelo e a porta fechada. A dor no tornozelo era excruciante, mas a dor da negligência era pior. Encolhida na cama, olhando para o teto rachado, Ana Lúcia desejou, pela primeira vez, que tudo aquilo acabasse. Desejou desaparecer, dormir e não acordar mais. A morte parecia uma libertação daquele pesadelo constante.

Foi Isabela quem a encontrou, horas depois, pálida e chorando silenciosamente.

"Ana! O que eles fizeram?" Isabela gritou, correndo para o seu lado.

Sua comoção forçou seus pais a agirem. Eles apareceram na porta, adotando expressões de cuidado.

"Querida, só queríamos que você descansasse," disse a mãe, a voz suave como seda.

Mas Ana Lúcia ouviu o pensamento por trás da máscara.

A Isabela é tão ingênua. Ela não vê que estamos protegendo-a da própria irmã.

Eles a levaram para um médico na cidade vizinha, um homem que devia favores ao seu pai. Enquanto o médico examinava seu tornozelo, Ana Lúcia sentiu uma familiar falta de ar, uma pontada no peito que vinha se tornando mais frequente. Ela tossiu discretamente na mão, tentando ignorar. O médico declarou que era apenas uma torção leve, mas a reação em seus pais revelou um plano mais sinistro.

Podemos usar isso, a mente de seu pai maquinou. Podemos dizer ao médico que ela está instável, que precisa de repouso absoluto. Um repouso que dure até depois das seletivas.

O medo gelou o sangue de Ana Lúcia. Eles não iam apenas impedi-la de jogar. Iam aprisioná-la.

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