Ponto de Vista de Jade Alencar:
O zumbido insistente do meu celular me tirou de um sono agitado e sem sonhos. Eu nem me dei ao trabalho de tirar meu robe de seda. O sol estava apenas começando a riscar o céu com tons de cinza e rosa pálido sobre a Baía de Guanabara.
O identificador de chamadas exibia "Eugênio Monteiro". O pai de Rodrigo. O patriarca das Indústrias Monteiro. O homem que praticamente me implorou para casar com seu filho, seus olhos cheios de esperança desesperada pela salvação que eu representava.
Silenciei a chamada e joguei o celular nos lençóis de seda ao meu lado.
Tocou de novo. Imediatamente.
Silenciei novamente.
Uma mensagem de texto se seguiu. Depois outra. E outra. Uma cascata frenética de súplicas digitais. Meu celular vibrava contra a cama como um inseto preso.
Finalmente o peguei, meu polegar pairando sobre a tela.
Eugênio: Jade, por favor, atenda o telefone. Precisamos conversar.
Eugênio: Isso é um desastre. Você tem que parar com isso.
Eugênio: O que o Rodrigo fez foi imperdoável, eu sei, mas isso? Isso está nos destruindo!
Então, uma nova mensagem, de um número que eu ainda não havia bloqueado. Rodrigo.
Rodrigo: Você está feliz agora? Você está destruindo minha família. Tudo porque seu ego foi ferido.
Rodrigo: Eu me apaixonei, Jade. Isso é um crime tão grande? Você não pode controlar quem alguém ama. Você tentou me controlar, e eu me libertei. Por que você não pode simplesmente me deixar ir?
Rodrigo: Isso é mesquinho e vingativo. Prova que eu estava certo sobre você. Você é uma vadia cruel e sem coração.
Soltei uma risada curta e aguda. Era um som oco na vasta e vazia cobertura. Cruel? Ele achava que isso era cruel? Ele ainda não tinha visto o que era crueldade.
Ele se postou diante de nossos amigos, nossas famílias, o mundo inteiro, e me rotulou como uma megera incapaz de ser amada que teve que comprar um marido. Ele pegou minha vulnerabilidade, o afeto genuíno que eu sentia por ele, e o transformou em uma arma para me humilhar. Ele e sua pequena estagiária eram agora os queridinhos da internet, um conto de fadas moderno do amor conquistando a ganância corporativa.
E eu era o dragão a ser abatido.
Ele, o homem que usava sua suposta misofobia para manipular todos ao seu redor, que recuava quando eu tentava segurar sua mão, mas não tinha problema em compartilhar saliva com outra mulher. Ele, que sussurrou promessas de um futuro, uma família, enquanto já construía uma vida com outra pessoa.
Ele me transformou em motivo de chacota. Meu nome, o nome que eu construí em um império de poder e respeito, era agora uma piada em um drama sórdido de tabloide.
Por que você não pode simplesmente me deixar ir?
A pergunta era tão absurda, tão completamente desconectada da realidade de suas ações, que era quase engraçada. Ele não queria ser "deixado ir". Ele queria escapar das consequências de um acordo que ele quebrou. Ele repudiou publicamente nosso contrato, e agora estava chocado que as penalidades financeiras estavam sendo aplicadas.
Outra mensagem dele vibrou.
Rodrigo: Estou te implorando, Jade. Pelo bem do que quase tivemos. Cancele tudo. Podemos chegar a um acordo. Não destrua tudo.
Um acordo. Claro. Esse era o objetivo final. Ele achou que poderia me desgraçar publicamente, virar a opinião pública contra mim, e então forçar minha mão a um generoso pacote de saída para fazê-lo ir embora. Ele não queria apenas me deixar; ele queria ser pago por isso.
A raiva fria dentro de mim se condensou em um único e afiado ponto de foco.
Peguei meu celular e enviei uma mensagem, não para Rodrigo, mas para minha assistente, Zara.
Eu: Acelere a Fase Dois. Quero pressão máxima. Agora.
A resposta de Zara foi instantânea.
Zara: Entendido.
Caminhei até as janelas do chão ao teto e olhei para a cidade que despertava. Meu outro monitor já estava ligado, exibindo os dados do pré-mercado. As Indústrias Monteiro (I.M.) estavam em queda livre. Era uma cachoeira de vermelho. O valor de mercado deles estava evaporando em tempo real. Milhões de reais, virando fumaça a cada segundo que passava.
Era uma bela visão.
Eu conhecia Eugênio Monteiro. Ele era um empresário da velha guarda, de uma geração que valorizava o orgulho acima de tudo. Ele estaria em pânico. Veria o legado de sua família, uma empresa que estava em seu nome por três gerações, virando pó por causa do psicodrama idiota e ganancioso de seu filho. Ele não ficaria parado vendo isso acontecer. Ele agiria.
Exatamente como previ, meu celular acendeu com uma nova mensagem de Rodrigo. O tom era marcadamente diferente. A arrogância se fora, substituída por uma fina camada de pânico.
Rodrigo: Jade. Ok. Eu entendi. Você está com raiva. Eu mereço. Vamos conversar. Por favor.
Rodrigo: Eu faço qualquer coisa. Só... recue os cães de caça. A empresa não vai sobreviver a isso.
Rodrigo: Eu te dou um pedido de desculpas público. Direi que estava errado. O que você quiser.
Suas súplicas eram como música. Li e reli, saboreando a mudança da autojustificação arrogante para o medo rastejante. Ele estava começando a entender. Estava começando a perceber que não tinha apenas cutucado um urso. Ele tinha entrado voluntariamente na jaula de um leão faminto, armado apenas com seu próprio ego.
E o leão estava prestes a se alimentar.
Ponto de Vista de Jade Alencar:
Deixei-o marinar em seu próprio pânico por uma hora, observando os números vermelhos na minha tela ficarem mais intensos. As ações das Indústrias Monteiro foram agora suspensas devido à extrema volatilidade. Eles estavam sangrando valor a uma taxa catastrófica.
Finalmente, mandei-lhe uma única frase de volta.
Eu: Se quer conversar, mostre-me que é sincero.
Sua resposta veio em menos de dez segundos.
Rodrigo: Eu sei o que fazer. Vou consertar as coisas. Eu prometo.
A resposta foi... estranha. Vaga. Não era o rastejar desesperado que eu esperava. Era outra coisa, algo com uma corrente subterrânea que eu não conseguia decifrar. Uma estranha sensação de confiança, quase. Um arrepio de inquietação percorreu minha espinha. Que jogo ele estava jogando agora?
Afastei o pensamento. Eu tinha uma empresa para administrar. Passei o dia em reuniões consecutivas, meu foco absoluto. O Grupo Alencar funcionava com eficiência implacável, e eu era seu motor. Traição e coração partido eram emoções. Negócios eram lógica. E, logicamente, eu estava desmantelando um concorrente que se provou ser um passivo.
Quando saí do escritório, o sol já havia se posto, pintando o céu com pinceladas de fogo de laranja e roxo. Senti uma pequena parte da tensão em meus ombros começar a diminuir. A primeira parte do meu plano estava completa. A ferida financeira era profunda, mortal.
Então meu telefone tocou. Era minha melhor amiga, Maya. Sua voz estava afiada de alarme.
"Jade, você viu as notícias? Viu as redes sociais do Rodrigo?"
"Não", eu disse, minha mão apertando o volante. "Estive em reuniões. O que ele fez?"
"Ele está no telhado do seu prédio de escritórios", disse Maya, suas palavras saindo apressadas. "O prédio do Grupo Alencar. Ele está transmitindo ao vivo. Ele está... Jade, ele está ameaçando pular."
Um bloco de gelo se formou no meu estômago. Não de medo por ele. De fúria.
"E ele está culpando você", continuou Maya, sua voz tremendo de fúria em meu nome. "Ele está dizendo a todos que você o empurrou para isso. Que sua 'crueldade' e 'recusa em deixá-lo ir' não lhe deixaram outra escolha. Está em toda a internet. A polícia está lá, equipes de notícias... é um circo."
Eu entendi agora. Aquela estranha confiança em sua mensagem. *Eu sei o que fazer.*
Essa era a sinceridade dele. Uma tentativa de suicídio encenada. Um espetáculo público projetado para armar a simpatia pública e me transformar de uma mulher injustiçada em uma vilã assassina. Ele estava tentando me queimar ameaçando atear fogo a si mesmo.
Era brilhante. E era desprezível.
Tive que me forçar a respirar. Inspira. Expira. Minha mente, geralmente uma fortaleza de cálculo calmo, era uma tempestade de fúria branca e quente. Ele estava usando a forma mais extrema de chantagem emocional imaginável, e estava fazendo isso no meu palco. Meu prédio. Minha empresa.
"Maya, eu tenho que ir", eu disse, minha voz tensa.
"Não vá lá, Jade! É uma armadilha!", ela implorou.
"É o meu nome que ele está arrastando na lama do topo do meu prédio. Eu não vou me esconder", eu disse, e encerrei a chamada.
Virei o carro em um retorno brusco, os pneus cantando em protesto. Meus nós dos dedos estavam brancos no volante. Com a mão livre, abri o Instagram de Rodrigo.
A transmissão ao vivo estava ativa. Milhares de pessoas estavam assistindo. E lá estava ele, o rosto pálido e manchado de lágrimas, o vento chicoteando seu cabelo perfeito. Mas seu último post foi o que fez meu sangue gelar.
Era uma captura de tela da nossa troca de mensagens. Minha mensagem — *Se quer conversar, mostre-me que é sincero* — estava destacada.
Acima dela, ele havia escrito uma legenda: *Eu tentei contato. Implorei por misericórdia. Eu queria consertar as coisas. Esta foi a resposta dela. Ela pediu uma demonstração de sinceridade. Acho que esta é a única que me resta dar. Se eu morrer esta noite, é porque Jade Alencar decidiu que minha vida valia menos que seu orgulho. Me desculpe, Camila. Eu te amo.*
Soltei um som que era metade risada, metade rosnado. O desgraçado manipulador. Ele havia distorcido minhas palavras, as transformado em armas e se pintado como uma vítima trágica sendo empurrada para a morte.
Joguei o celular no banco do passageiro e pisei fundo no acelerador.
Ao me aproximar da sede da minha empresa, vi as luzes piscando. Vermelho e azul estroboscópicos contra o vidro e o aço do arranha-céu. Carros de polícia, caminhões de bombeiros, uma ambulância. Um enorme colchão inflável estava sendo montado na rua abaixo. Uma multidão de curiosos se reunira, seus rostos inclinados para cima, seus celulares erguidos, gravando o drama.
Contornei o caos, dirigindo para a garagem subterrânea privada. Não parei no saguão. Peguei meu elevador privativo diretamente para o último andar, o andar executivo, que tinha acesso ao terraço.
As portas se abriram para uma cena de caos controlado. Policiais, negociadores de crise. E no meio de tudo, a família Monteiro.
A mãe de Rodrigo estava soluçando, amparada por um parente, o rosto uma bagunça de lágrimas e maquiagem. Eugênio estava rígido, o rosto cinzento, os olhos fixos nas portas de vidro que levavam ao terraço.
E Camila. Ela estava lá, claro. Vestida com algo recatado e pálido, ela chorava histericamente, uma imagem perfeita de uma amante angustiada. "Rodrigo, não! Por favor! A culpa é minha! É tudo culpa minha!", ela gritava, alto o suficiente para todos ouvirem.
Era uma grande performance. Um circo de três picadeiros de luto fabricado.
E no picadeiro central, de pé na borda estreita do lado de fora da barreira de segurança de vidro, estava Rodrigo. Suas costas estavam para a cidade, o vento puxando seu terno caro. Seus braços estavam abertos, como um mártir em uma cruz.
E a poucos metros de distância, um de seus amigos bajuladores segurava um celular, a transmissão ao vivo ainda rodando, capturando cada momento agonizante para o mundo ver.
Isso não era uma tentativa de suicídio.
Era uma execução da minha reputação, transmitida ao vivo.