Capa do Romance Ele negou a última jornada do meu irmão

Ele negou a última jornada do meu irmão

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Após oito anos vivendo um romance secreto com o bilionário Caio Ferraz, vi meu mundo ruir. Ele negou ajuda para repatriar o corpo do meu irmão, tratando meu luto como burocracia. O apoio real veio de João, meu amigo de infância. Ao tentar romper com Caio, descobri sua assistente em nossa casa, revelando traições e sabotagens profissionais que ele prontamente defendeu. Cansei de ser um risco oculto. Abandonei meu cargo e anunciei a todos: vou me casar, mas longe de Caio.

Ele negou a última jornada do meu irmão Capítulo 1

Meu namorado bilionário se recusou a me emprestar duzentos mil reais para trazer o corpo do meu irmão para casa.

Três dias depois, encontrei a assistente dele vestindo meu robe de seda na nossa cobertura.

Foi nesse momento que decidi me casar com meu amigo de infância.

Por oito anos, fui o segredinho sujo de Caio Ferraz.

Aceitei viver nas sombras, acreditando que seus "Protocolos de Relacionamento" eram apenas as excentricidades de um gênio da tecnologia.

Mas quando meu irmão morreu tragicamente no exterior, Caio não ofereceu conforto.

Ele me ofereceu um formulário de empréstimo corporativo, que sua assistente, Daniela, negou prontamente.

Enquanto eu me afogava em luto, João apareceu.

Ele pagou pela repatriação sem hesitar, provando o que o amor verdadeiro realmente significava.

Fui ao apartamento de Caio para terminar tudo, apenas para encontrar Daniela lá, exibindo um chupão fresco no pescoço e um sorriso presunçoso.

A verdade desabou sobre mim como um deslizamento de terra.

Ela não tinha apenas roubado meu namorado; ela vinha interceptando meus bônus e sabotando minha carreira há anos.

E o Caio? Ele a defendeu.

Ele me chamou de "risco desnecessário" e ameaçou me arruinar se eu fizesse um escândalo.

Então, eu não apenas me demiti.

Enviei uma foto minha com o João para o grupo de WhatsApp da empresa com uma legenda que silenciou o escritório inteiro.

"Vou me casar. E não é com Caio Ferraz."

Capítulo 1

A morte do meu irmão no exterior foi um soco no estômago, uma verdade fria e dura que expulsou todo o ar dos meus pulmões. A ligação do consulado foi um borrão de termos médicos e custos de repatriação, uma soma tão astronômica que parecia outra piada cruel do destino. Duzentos mil reais. Como eu conseguiria esse dinheiro? Minha mente foi imediatamente para o Caio. Ele tinha que ajudar. Ele precisava ajudar.

— Preciso falar com o Caio, é urgente — engasguei para Daniela Fontes, sua assistente executiva, minha voz crua com as lágrimas que eu segurava. — É sobre meu irmão. Ele... ele se foi.

A voz dela, geralmente tão lisa quanto mármore polido, assumiu uma ponta quebradiça.

— Srta. Barros, você conhece o "Protocolo de Relacionamento" do Sr. Ferraz. Todos os assuntos pessoais devem passar pelos canais corporativos.

— Canais corporativos? — gritei, a palavra tendo gosto de cinzas na minha boca. — Meu irmão está morto, Daniela! Minha única família!

— Entendo que este seja um momento difícil — continuou ela, completamente impassível —, mas o procedimento é claro. Você pode enviar um pedido de empréstimo para funcionários, e ele será analisado como qualquer outro.

Desliguei, minha mão tremendo tanto que quase deixei o celular cair. O empréstimo foi negado, é claro, três dias depois. Um e-mail estéril, sem explicação. Apenas um "não" frio e duro. Foi como se me dissessem que meu luto não era importante o suficiente, que a vida do meu irmão não valia um simples empréstimo.

Foi aí que o João entrou em cena. Ele não fez perguntas. Apenas ouviu, seus olhos sustentando um calor que parecia uma boia salva-vidas no meu mundo congelante. Ele adiantou o dinheiro do próprio bolso, uma quantia que eu sabia ser significativa até para sua empresa de logística em crescimento. Ele cuidou de tudo — a papelada, a logística de trazer o corpo do Lucas para o Brasil, o funeral. Ele estava lá, uma âncora sólida, enquanto meu mundo girava fora de controle.

— Obrigada, João — sussurrei, minha voz quase inaudível acima do farfalhar das folhas no cemitério. O cheiro de terra úmida e flores murchas impregnava o ar. — Não sei o que eu teria feito sem você.

Ele apenas apertou minha mão, o polegar traçando círculos lentos na minha pele. Seus olhos, geralmente tão brilhantes, estavam cheios de uma ternura crua que fez minha garganta doer.

— Você não precisa me agradecer, Camila. Somos família.

Família. A palavra vibrou no meu peito, um contraste gritante com o eco vazio dos "canais corporativos" de Caio.

— Casa comigo — deixei escapar, as palavras travando na garganta antes de caírem livres. Não foi uma pergunta. Foi um apelo desesperado, uma clareza súbita e cegante na névoa do meu luto.

Os olhos de João se arregalaram, um lampejo de surpresa, depois algo parecido com medo escurecendo suas profundezas. Ele olhou para mim, seu olhar varrendo meu rosto manchado de lágrimas, meus ombros trêmulos. Ele parecia de coração partido, sua expressão um espelho da minha própria dor.

— Camila — começou ele, a voz grossa de preocupação —, você não precisa fazer isso. Não assim. Você está sofrendo.

Balancei a cabeça, uma determinação feroz endurecendo meu olhar.

— Não, João. Não estou. Isso não é sobre a dor. Isso é sobre... tudo. Sobre o que importa. Por favor, casa comigo. — Minha voz falhou na última palavra, mas minha resolução permaneceu. Era ele. Sempre deveria ter sido ele.

Como pude ser tão cega? Por oito anos, fui a namorada secreta de Caio Ferraz, um acessório invisível em sua vida perfeitamente curada. Enquanto eu trabalhava incansavelmente como uma especialista em marketing subvalorizada na empresa dele, ele mal reconhecia minha existência fora das quatro paredes de sua cobertura. Meu irmão, Lucas, estava escalando na Patagônia, perseguindo um sonho que terminou em tragédia. Caio nem sabia que Lucas existia. Ele certamente não sabia que ele estava morto.

Caio, o bilionário da tecnologia desapegado, vivia em um mundo onde relacionamentos eram ativos, gerenciados e delegados. Seu tempo era precioso, cada minuto otimizado para eficiência máxima. Ele não desperdiçaria um segundo com o irmão moribundo de uma funcionária, muito menos com a crise pessoal de uma mera namorada. Nossos oito anos juntos pareciam uma história de fantasmas, um segredo que eu carregava, enquanto ele vivia uma vida pública de poder e prestígio. Minha família, minhas lutas, minha própria existência, estavam escondidas, irrelevantes.

Uma nova onda de dor me invadiu, uma realização arrepiante que se instalou fundo nos meus ossos. Meu coração parecia um tambor oco, batendo um ritmo lento e fúnebre. Eu tinha oferecido a ele minha lealdade, meu amor, meu ser inteiro, e ele me ofereceu... um protocolo. Um canal corporativo.

Peguei meu celular, meus dedos atrapalhados na tela. Digitei rápido, ferozmente, cada palavra um prego no caixão do nosso relacionamento.

*Caio, acabou. Cansei.*

A mensagem foi enviada. Observei a tela, esperando. Não por ele, mas por ela.

Quase imediatamente, o nome de Daniela piscou na tela.

*Srta. Barros, o Sr. Ferraz está atualmente em uma reunião crucial do conselho. Repassarei sua mensagem assim que possível. Esteja ciente de que toda comunicação sobre assuntos pessoais está sujeita a revisão de acordo com o Protocolo de Relacionamento estabelecido.*

Meu coração se contorceu, uma dor fria e aguda florescendo no meu peito. Mesmo terminando as coisas, eu não conseguia alcançá-lo diretamente. Era sempre Daniela, sua guardiã, sua sombra, a arquiteta da nossa existência transacional. Era ela quem agendava nossos "encontros", escolhia meus "presentes" e até me enviava textos de aniversário pré-escritos em nome de Caio. Tentei lutar contra isso uma vez, anos atrás, implorando a Caio por apenas um momento espontâneo, uma conversa sem roteiro. Ele olhou para mim, os olhos vazios de emoção, e disse: "Daniela cuida dessas coisas para que eu possa focar no que é importante. Não seja irracional, Camila." Ele até insinuou que eu estava sendo infantil, reagindo exageradamente à "eficiência".

Sempre aceitei, sempre disse a mim mesma que era o jeito dele, uma excentricidade de gênio. Eu via a eficiência de Daniela como um mal necessário, permitindo o sucesso de Caio, que eu tolamente acreditava ser nosso futuro compartilhado. Mas ela era mais do que eficiente; ela era uma predadora, desmantelando meticulosamente minha conexão com Caio, tijolo por tijolo. Ela era um lembrete constante da minha insignificância, uma barreira elegante e afiada.

Meus olhos ardiam, um gosto amargo e salgado enchendo minha boca. Eu tinha diminuído minha própria luz, me encolhido para caber na sombra dele, acreditando que era o preço do amor. Fui leal, dedicada e financeiramente independente, mas meus salários suprimidos, um mistério que eu não conseguia desvendar, me deixaram vulnerável. Agora, meu irmão se foi, e eu nem podia pagar para trazê-lo para casa.

Esse homem, esse Caio Ferraz, a quem dei tudo, estava tão isolado pela riqueza e conveniência delegada que não podia nem dispensar um pensamento para meu irmão morto. Ele realmente me via apenas como outro ativo, gerenciado por sua assistente, uma conveniência passageira.

— Tudo bem — sussurrei, a palavra um sopro irregular. — Ele pode ficar com ela. Ele merece ela. — As palavras eram para mim mesma, para o fantasma da mulher que eu costumava ser, aquela que acreditava em contos de fadas.

O funeral acabou. Meu irmão finalmente descansou. E agora, o ato final dessa tragédia estava prestes a se desenrolar. Agarrei a mão de João, seu calor um contraste gritante com o vazio frio na minha alma. Eu estava pronta para fechar este capítulo, queimar a ponte e nunca mais olhar para trás.

O mundo borrou ao meu redor, a cerca do cemitério parecendo se inclinar, as lápides uma plateia silenciosa e zombeteira. Meu peito apertou, um peso esmagador pressionando meus pulmões. A mensagem de Daniela, fria e impessoal, ecoava na minha mente. Era um novo tipo de dor, mais profunda, instalando-se no núcleo do meu ser.

Senti uma pressão vertiginosa na cabeça, um latejar atrás dos olhos que ameaçava partir meu crânio. Minha visão embaçou novamente, desta vez com lágrimas quentes e raivosas. Não era mais apenas luto por Lucas. Era raiva, humilhação e uma sensação nauseante de traição. A realização me atingiu como um golpe físico: eu estava vivendo uma mentira, uma ilusão cuidadosamente construída. E a arquiteta dessa ilusão era Daniela.

Meus joelhos cederam.

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