Ponto de Vista de Beatriz:
O branco estéril do quarto do hospital era um contraste gritante com a decoração luxuosa, porém sufocante, da suíte de recuperação em que me encontrei. Uma gaiola dourada, talvez. Minha cabeça latejava, uma dor surda que espelhava o vazio em meu peito. Eu me mexi, os lençóis de seda sussurrando com meu movimento.
Caio, que estava sentado perto da janela, virou-se instantaneamente. Seu rosto era um retrato de preocupação ensaiada, uma carranca preocupada gravada entre suas sobrancelhas perfeitamente cuidadas.
"Bia, você acordou", disse ele, sua voz um murmúrio suave, do tipo que costumava me derreter. Ele se moveu em direção à cama, sua mão buscando a minha. "Como você está se sentindo, meu bem?"
Eu recuei ligeiramente, puxando minha mão antes que ele pudesse me tocar. O calor fantasma de sua mão, um calor que eu antes ansiava, agora parecia uma marca de ferro. Seus olhos piscaram, um flash momentâneo de algo indecifrável antes que a máscara de preocupação se acomodasse de volta no lugar.
"Estou bem", eu disse, minha voz plana, desprovida da emoção que costumava surgir sempre que ele estava perto.
Ele se sentou na beira da cama, uma postura confortável e familiar que agora parecia invasiva.
"Olha, Alessandra está muito chateada com o que aconteceu. Ela se sente péssima", ele começou, a mesma velha ladainha. "Ela não queria que você se machucasse, você sabe como ela pode ser impulsiva."
"Impulsiva?", eu o cortei, um tom afiado na minha voz. "Ela tentou me matar, Caio. Isso não é impulso, é tentativa de homicídio." As palavras tinham gosto de cinzas na minha boca.
Ele suspirou, passando a mão por seus cabelos escuros.
"Eu sei que parece ruim, mas você tem que entender minha posição, Bia. Minha família... os Dantas... eles finalmente me aceitaram. Este noivado com Alessandra, é crucial. Solidifica meu lugar." Ele alcançou minha mão novamente, seus dedos roçando os meus. "É tudo por nós, Bia. Assim que eu garantir minha posição, poderemos ficar juntos abertamente, sem todo esse drama."
Ele falava de 'nós', de 'nosso futuro', mas as palavras eram ocas, desprovidas de qualquer significado real. Lembrei-me dele me dizendo a mesma coisa depois que Alessandra denunciou anonimamente minha inscrição para bolsa de estudos de arte por plágio, quase arruinando minha carreira acadêmica. "É apenas um contratempo temporário, querida", ele disse, segurando meu rosto em suas mãos. "Assim que eu estiver estável, construiremos um império juntos." Eu via através da performance agora, a pretensão cuidadosamente elaborada de um sonho compartilhado.
"Não existe 'nós', Caio", afirmei, minha voz firme apesar do tremor em minha alma. Eu olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi um estranho. O homem que eu amava era um fantasma, substituído por esta casca ambiciosa e manipuladora.
Seus olhos se arregalaram, a confusão nublando-os.
"Do que você está falando? Claro que existe um nós! Estamos juntos há três anos, Bia. Você não se lembra de todos os nossos planos?" Ele parecia genuinamente perplexo, como se minha clareza repentina fosse uma anomalia, não uma consequência de suas ações. Ele até tentou um pequeno sorriso suplicante, um que costumava torcer meu coração de afeto. "Por favor, Bia. Não jogue tudo isso fora."
Eu me inclinei para trás contra os travesseiros, uma risada seca e sem humor escapando dos meus lábios.
"Planos, Caio? Você quer dizer seus planos para eu ser sua enfermeira e saco de pancadas conveniente e não remunerada enquanto você subia na escala social?" Minha voz se elevou, uma maré amarga. "Você me sacrificou, Caio. Noventa e nove vezes, você a deixou me machucar, e na centésima vez, você estava pronto para deixá-la me matar por sua preciosa herança."
Naquele momento, a porta se abriu com um estrondo. Uma enfermeira, com o rosto pálido, entrou correndo.
"Sr. Dantas, a Srta. Guerra está ferida! Os médicos estão chamando por você imediatamente!"
A cabeça de Caio se virou para a porta, sua fachada cuidadosamente construída rachando. Seus olhos, que momentos antes me suplicavam, agora se encheram de alarme genuíno por Alessandra. Ele se levantou abruptamente, sem um olhar para trás.
"Estou indo!", ele gritou, sua voz tensa de urgência. Ele saiu correndo, a porta se fechando atrás dele, deixando-me sozinha no quarto silencioso e estéril.
Meu coração não se partiu. Já havia se estilhaçado em um milhão de pedaços na noite anterior. Isso era apenas mais um caco, caindo no abismo. Fechei os olhos, uma única lágrima quente traçando um caminho pela minha têmpora. Eu era descartável. Ele tinha feito sua escolha.
Lutando contra a dor, lentamente balancei minhas pernas para o lado da cama. O mundo inclinou, mas eu continuei, meu corpo ainda fraco, mas minha determinação dura como ferro. Eu tinha que ver. Eu tinha que testemunhar sua verdadeira lealdade com meus próprios olhos, para queimar isso em minha memória para que não houvesse volta.
Eu mancava pelo corredor imaculado, guiada pelo murmúrio de vozes. Eu os encontrei em um quarto particular, apenas algumas portas adiante. Alessandra, envolta em uma camisola de hospital frágil, estava dramaticamente segurando seu braço enfaixado, seus olhos arregalados e lacrimejantes enquanto olhava para Caio.
"Oh, Caio!", ela choramingou, sua voz teatral. "Foi tão assustador! Ela simplesmente me atacou do nada!"
Caio sentou-se ao lado dela, seu braço envolvendo seus ombros trêmulos, acariciando seu cabelo.
"Shhh, está tudo bem, querida", ele acalmou, sua voz pingando afeto. "Você está segura agora. Não vou deixar que ela te toque de novo." Seu olhar caiu sobre meu reflexo na janela, um flash de irritação cruzando seu rosto. Minha presença era um inconveniente.
Ele se levantou, caminhando em minha direção, sua expressão severa.
"Bia, o que você está fazendo aqui? Você deveria estar descansando." Ele pegou meu braço, seu aperto surpreendentemente firme. "Vamos voltar para o seu quarto. Você está exausta." Ele tentou me levar embora, fingir que tudo estava normal, que eu ainda era sua namorada dócil e amorosa.
Eu puxei meu braço, meus olhos fixos em Alessandra, que agora observava com um sorriso presunçoso e vitorioso.
"Descansar? Depois de você ter acabado de anunciar seu noivado com ela e me chamado de 'degrau descartável'?" Minha voz era baixa, mas cada palavra era um dardo envenenado. "Você quer que eu descanse enquanto sua noiva, a mulher que me aterrorizou por anos, está sendo confortada por você, o homem que deixou isso acontecer?"
O rosto de Caio corou. Ele olhou para trás, um olhar de pânico para Alessandra e a porta aberta.
"Bia, não seja ridícula. Você está emotiva. Alessandra é minha noiva, sim, mas você sabe que é para mostrar, para os Dantas." Ele se inclinou, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Você é meu amor verdadeiro, Bia. Sempre foi. Apenas seja paciente. Vamos superar isso."
Minha espinha se enrijeceu. Paciência? Amor? As palavras eram uma paródia grotesca do nosso passado.
"Você não é meu amor verdadeiro, Caio. Você nunca foi. Você era um parasita, se alimentando da minha bondade, do meu talento, da minha devoção inabalável." Apontei um dedo trêmulo para Alessandra. "E ela era sua cúmplice. Vocês dois se merecem."
O ar crepitou com tensão. A mandíbula de Caio se contraiu.
"Bia, você está fazendo uma cena. E está acusando Alessandra injustamente." Ele se virou para ela, sua voz suavizando mais uma vez. "Querida, por favor, ignore-a. Ela está claramente delirando por causa dos ferimentos."
Alessandra, sempre a atriz, enxugou os olhos.
"Está tudo bem, Caio. Eu entendo que ela está chateada. Mas eu gostaria que ela não fizesse acusações tão absurdas. Eu sempre tentei ser amiga dela."
Caio se virou para mim, seus olhos ardendo com uma fúria fria.
"Peça desculpas, Bia. Peça desculpas a Alessandra agora." Sua voz era baixa, mas continha uma ameaça inegável. "Ou você não vai gostar das consequências."
Eu o encarei, o estranho que ele havia se tornado. Este não era o homem que eu amava. Este não era nem mesmo um homem que eu reconhecia. Era um predador, astuto e implacável, envolto em um falso charme. Minha visão embaçou, não com lágrimas, mas com uma sensação súbita e avassaladora de finalidade. Uma parede de gelo se formou ao redor do meu coração, selando-o da dor, da traição.
"Não há mais nada a dizer, Caio", sussurrei, minha voz assustadoramente calma. "Espero que você e sua nova noiva tenham uma vida maravilhosa juntos."
Então, eu me virei e fui embora, cada passo uma agonia, mas cada passo também uma libertação. Saí daquele quarto, daquele hospital, e da vida de Caio Dantas, sem nunca olhar para trás.
Ponto de Vista de Beatriz:
A noite caiu como uma mortalha, pesada e sufocante. Eu estava deitada na cama da suíte do hospital, olhando para o teto, o brilho das luzes da cidade pintando padrões abstratos no branco imaculado. O sono era um luxo que minha mente atormentada não podia pagar. Caio não havia retornado. Não que eu esperasse que ele voltasse, não depois do que eu testemunhei.
Uma batida suave interrompeu o silêncio. A eficiente governanta de cabelos prateados da propriedade dos Dantas, Dona Elvira, entrou.
"Senhorita Macedo", disse ela, sua voz seca e formal. "O Sr. Dantas me pediu para informá-la que ele chegará tarde, cuidando de um assunto familiar urgente."
"Um assunto familiar urgente", repeti, um gosto amargo na boca. Um assunto familiar chamado Alessandra Guerra. Eu assenti, dispensando-a com um aceno de mão. Ela saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos e a dor agonizante em meu peito.
Meu celular, agarrado em minha mão, vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido. Minha respiração engatou. Era uma foto. Caio, rindo, seu braço firmemente em volta de Alessandra, a cabeça dela aninhada em seu ombro. Eles estavam em algum restaurante chique, a luz de velas brilhando em suas taças de vinho. Abaixo da foto, uma legenda: "Aproveitando uma noite adorável com meu noivo. Algumas pessoas simplesmente não sabem quando desistir." Era Alessandra, se gabando, esfregando sal nas feridas que ela mesma havia cavado.
Verifiquei a marcação de localização. Era a quilômetros de distância do hospital, em nenhum lugar perto de qualquer "assunto familiar urgente". A mentira, tão casual, tão sem esforço, torceu a faca em minhas entranhas. Ele nem se deu ao trabalho de inventar um álibi convincente. Eu não era nada.
Uma calma estranha se instalou sobre mim, fria e absoluta. Meus dedos, agora firmes, digitaram um endereço no aplicativo de mapas. Era o endereço do restaurante. Levantei-me da cama, ignorando os protestos do meu corpo ainda em recuperação. A dor era irrelevante. Apenas a clareza permanecia.
Chamei um táxi, o ar fresco da noite fazendo pouco para acalmar o fogo em minhas veias. O restaurante era um farol de luzes suaves e risadas abafadas. Paguei o motorista e caminhei em direção à entrada, meu coração batendo um ritmo lento e deliberado. O manobrista, reconhecendo-me de minhas visitas anteriores com Caio, acenou educadamente.
"Boa noite, Senhorita Macedo. O Sr. Dantas está lá dentro, com a Senhorita Guerra." Seu tom era deferente, inconsciente da tempestade que se formava dentro de mim.
Passei por ele, meu olhar fixo na sala de jantar privativa que eu sabia que Caio preferia. A porta estava ligeiramente entreaberta, uma fresta de luz e o murmúrio de vozes escapando. A voz de Caio. Meu sangue gelou.
"Beatriz Macedo? Ela é uma artista patética e grudenta", ele zombou, sua voz alta o suficiente para passar pela fresta. "Sempre tão emotiva. Honestamente, não sei o que vi nela."
Uma onda de risadas seguiu suas palavras.
"Oh, Caio, você é muito gentil", uma voz de mulher ronronou. "Todos nós sabemos que você sempre teve olho para qualidade. E Beatriz... coitadinha, ela era simplesmente ingênua demais." Era uma das bajuladoras de Alessandra.
A própria voz de Alessandra cortou, afiada e triunfante.
"Ela realmente achou que podia competir, não é? Depois de tudo que você fez por ela, Caio, ela ainda acreditava que era indispensável."
Minhas mãos se fecharam em punhos, meus nós dos dedos brancos. Meu coração batia forte, mas era um tambor de fúria, não de dor. Era isso. A verdade final e inegável.
"Indispensável?", Caio zombou, uma risada cruel se seguindo. "Ela foi útil, nada mais. Uma distração conveniente, um tapa-buraco até que eu pudesse garantir o que era meu por direito. Mas agora, com a família de Alessandra me apoiando, minha posição é inegável. Beatriz é notícia velha."
Ele continuou, sua voz espessa com uma arrogância egoísta.
"Alessandra é o futuro. Ela traz status, poder, conexões reais. Beatriz trouxe... aquarelas e dívidas de estudante." Mais risadas. O som arranhou minha alma.
Pensei nas longas noites que passei cuidando dele em seus episódios cardíacos, nos turnos extras que peguei para cobrir suas extravagantes contas médicas, na maneira como pintei encomenda após encomenda, sacrificando minha própria visão artística para manter um teto sobre nossas cabeças. Tudo por um homem que me via como nada mais do que um inconveniente temporário.
A voz de Alessandra interrompeu meus pensamentos, mais perto agora. Espiei pela fresta e a vi se levantar, taça na mão, movendo-se em direção a Caio. Ela se inclinou, seus lábios quase tocando sua orelha.
"E sabe, querido", ela sussurrou, sua voz tingida de um triunfo venenoso, "estamos juntos há muito mais tempo do que ela jamais suspeitou. Todas as vezes que ela veio chorando para você sobre mim, eu já estava com você."
Minha respiração engatou. O mundo inclinou. Não 99 atos de crueldade. Noventa e nove atos de tortura orquestrada, com Caio como seu cúmplice silencioso e voluntário. A dor era física, uma agonia aguda e lancinante que ameaçava me partir em duas.
Alessandra se afastou, seus olhos encontrando os de Caio.
"Ela realmente acreditava que você a amava, não é? Mesmo quando eu disse a ela, você sempre foi tão bom em fazê-la duvidar de si mesma." Seu olhar mudou, seus olhos se fixando nos meus através da estreita fresta na porta. Um sorriso lento e arrepiante se espalhou por seu rosto. "Considere este seu aviso final, Beatriz. Fique longe do Caio, ou você se arrependerá muito mais do que pode imaginar."
Caio, seus olhos vidrados de álcool e triunfo, não notou o olhar sinistro de Alessandra. Ele tropeçou ligeiramente, passando por ela com uma risada bêbada.
"Saia, Beatriz! Saia da minha vida!", ele arrastou as palavras, acenando com uma mão desdenhosa, como se eu fosse uma mosca incômoda.
Meus olhos, fixos nos dele, ardiam com uma fúria fria e clara. A raiva, pura e emocionante, lavou todos os últimos vestígios de dor. Ele era um monstro. Um verdadeiro monstro. E eu o amei. Mas não mais. Minha mão disparou, pegando uma garrafa de vinho meio vazia de uma mesa próxima. Com um grito que rasgou de minhas entranhas, eu a balancei, não para ele, mas para o caro lustre de cristal pendurado acima de sua cabeça. O vidro se estilhaçou, chovendo fragmentos, cada caco um reflexo do meu coração partido.
"Você me quer fora, Caio?", gritei, minha voz rouca, ecoando pelo silêncio atordoado da sala. "Tudo bem! Mas prepare-se, porque da próxima vez que você me vir, você desejará nunca ter visto!"
Eu me virei, meus olhos encontrando os de Alessandra. Seu sorriso vacilou, substituído por um lampejo de medo genuíno. Eu lhe dei um sorriso lento e predatório.
"Isso não acabou, Alessandra. Nem de longe."
Com isso, saí, deixando para trás os destroços do meu amor e entrando na noite fria e implacável. O engano, a traição, as mentiras - tudo estava exposto. E em seu lugar, uma nova e aterrorizante determinação havia nascido.