Capa do Romance Bella Zafira – A Esposa do Mafioso

Bella Zafira – A Esposa do Mafioso

8.9 / 10.0
Zafira não recuou diante do perigo; ela o desafiou. Armada com um mapa antigo e sede de justiça, ela propõe um casamento estratégico a Marcello Caravaggio, o temido líder da máfia siciliana. O pacto é claro: proteção absoluta em troca de segredos enterrados. No entanto, em um mundo de traições e sangue, o controle escapa quando um desejo proibido surge entre o carrasco e a estrategista. Entre o dever e a paixão, Zafira dita as regras de um jogo onde o destino já foi escrito.

Bella Zafira – A Esposa do Mafioso Capítulo 1

Prólogo

“Ela dançava, e eu a devorava com os olhos — como um animal faminto à espera do toque final antes do ataque.

Seu quadril se movia com a precisão de quem sabia exatamente o que causava.

Zafira era a serpente... e eu, o homem tolo que não queria escapar do veneno.

Porque ela era ambos — o veneno e o antídoto.

Minha perdição inteira concentrada nas curvas que me hipnotizavam.”

Ela me olhava como quem desafia. Sabia do poder que exercia. Sabia o quanto me torturava com aquele olhar felino, meio insolente, meio entregue.

E eu? Eu estava à beira do limite.

Levantei-me sem pensar, apenas sentindo. Ela continuou a se mover, provocando até o último fio da minha sanidade.

Puxei-a pela cintura. O contato do seu corpo contra o meu fez o mundo desaparecer.

E então a beijei.

Com fome. Com fúria. Com tudo o que eu era e tudo o que ela despertava.

— Maktub — ela sussurrou entre o toque dos nossos lábios.

Estava escrito.

E eu aprofundei o beijo como quem sela um pacto silencioso, arrancando dela um suspiro que não deixava dúvidas —

Naquele instante, Zafira era minha.

Mesmo que fosse apenas por um instante.

— Marcello Caravaggio

Capítulo 1

"A hora mais escura do dia é a que vem antes do sol nascer." — Provérbio Árabe

Marrakech – Marrocos

Zafira Ziane

O sol já se deitava atrás das dunas e meu corpo implorava por descanso. Soltei a pashmina dos cabelos no exato momento em que adentrei o pátio do Riad Hikaya. O tempo escorria e eu ainda precisava concluir as entregas para os outros clientes da vinícola de papai.

Acelerei o passo pelos jardins do hotel, ignorando o perfume das flores e a beleza das lanternas que se acendiam aos poucos. O bar estava adiante, e meu foco era único: vender aquela safra de vinho.

A música soava alta, reverberando nos azulejos coloridos das paredes, e Jamal não estava onde deveria. Cruzei pelas mesas vazias, segui em direção ao corredor estreito que descia até a cantina.

Aquela hora costumava ser de pouco movimento, mas o vazio que encontrei era incomum. Um silêncio tenso se misturava ao som abafado da música, como se o próprio ambiente pressentisse o que me esperava.

Desci os degraus com cautela, o eco dos meus passos misturando-se ao som grave do baixo que vinha do sistema de som. Chamei por Jamal — foi inútil. O volume alto abafava qualquer tentativa de ser ouvida.

Quando alcancei os últimos degraus e empurrei a porta entreaberta da cantina, um calafrio cortou minha espinha.

O sangue em minhas veias pareceu congelar.

Ali, diante de mim, um policial local estava preso a uma cadeira, coberto de sangue, o rosto irreconhecível de tão deformado. Em pé, de costas para mim, um homem alto, de músculos definidos e pele reluzente pelo suor, desferia mais um soco brutal.

Estava sem camisa. Os pulsos manchados de vermelho denunciavam que não era a primeira vez que os usava daquela forma.

O oficial gemeu.

Minha primeira reação foi o pavor. O impulso de correr era quase incontrolável, mas qualquer som, qualquer movimento precipitado, poderia selar meu destino.

Eu precisava fugir. Precisava escapar daquele lugar. Mas algo me manteve imóvel, presa àquele chão como se as sandálias tivessem se enraizado.

Os olhos do homem espancado, ainda que inchados, encontraram os meus por uma fração de segundo. E naquele breve instante, ele me denunciou.

O homem de costas se virou com precisão felina, o olhar atravessando o ambiente até pousar em mim.

Com um simples gesto de cabeça, surgiram dois homens ainda maiores que ele — braços como troncos, ombros largos, expressões impassíveis. Cercaram-me antes que eu pudesse reagir.

Fui arrastada para dentro da sala. Não gritei, mas me debatia como pude. Os olhos do homem sem camisa me mantinham hipnotizada. Nenhuma emoção se estampava em seu rosto. Apenas uma quietude perigosa.

— Possiamo dare fin alla ragazza, capo.

Podemos eliminá-la agora, chefe.

Eles eram italianos. Eu conhecia bem o idioma — um dos muitos que aprendi com meu pai. Mas fingi não entender. Precisava ouvir mais. Precisava saber se teria chance de sair dali viva.

— Io non voglio questo, non adesso.

Eu não quero isso. Ainda não.

Ele se aproximou devagar, com a leveza silenciosa de um predador. Os olhos cravados nos meus, os passos firmes, o torso coberto de vestígios carmesins.

— Ma asmuk? — perguntou, em árabe.

“Qual é o seu nome?”

— Mi chiamo Zafira! — respondi em italiano, firme.

Um sorriso surgiu. Perigoso. Devastador.

— Fala muito bem o italiano, garota. Vejo que é bem instruída... mas não muito esperta ao enfiar o nariz onde não deve.

Sua voz era um veneno envolto em seda. Eu tremia por dentro, embora tentasse a todo custo manter a compostura.

— Eu... eu não me interesso pelo que está fazendo aqui. Só estou trabalhando...

— Não acredito muito nisso, piccola.

Ele começou a girar em torno de mim. O cheiro metálico do sangue se misturava a uma fragrância masculina amadeirada, profunda e perturbadoramente agradável.

Seus olhos percorriam cada centímetro do meu corpo com precisão cirúrgica. E então, vi.

Nos dedos, ele usava um soco inglês — ensanguentado.

Cada golpe com aquilo era mais letal do que os punhos nus. E se ele decidisse usá-lo em mim, bastariam dois... talvez um.

As gotas vermelhas escorriam pelo chão de ladrilhos, e tudo que eu ouvia era meu próprio coração implorando por sobrevivência.

“Nunca demonstre o medo”, meu pai sempre dizia. Fácil falar quando não se está diante de um assassino.

Foi então que escutei passos apressados. Uma figura entrou na sala como um sopro de esperança.

— Perdão, Senhor Marcello! A garota não é ameaça. Eu garanto! Ela só veio entregar os vinhos do hotel.

Jamal. Finalmente.

O homem — Marcello — manteve os olhos nos meus ao responder:

— Eu te disse para não deixar ninguém chegar até aqui. Caso contrário, eu teria que eliminar qualquer testemunha.

Engoli em seco.

Estava mesmo prestes a morrer. Fechei os olhos. As lágrimas escorreram sem som. Pensei em papai. Em Samira.

Senti seus dedos se embrenharem nos meus cabelos. Quando abri os olhos, seu rosto estava próximo ao meu. Um sorriso zombeteiro curvou seus lábios.

— Finalmente... alguma emoção nesse olhar misterioso. Saia da minha frente. Mas se abrir a boca sobre o que viu, considere-se morta. Você e sua família.

Eu não consegui responder. Apenas deixei que as lágrimas corressem silenciosas enquanto ele se afastava. Fui arrastada para fora da cantina.

******

No bar, Jamal veio até mim com os olhos tomados pela culpa.

— Sinto muito, Zafira. Um hóspede causava confusão no andar de cima e precisei sair.

Ele me entregou uma garrafa de água e o pagamento pelos vinhos.

— Pelo seu bem, esqueça o que viu. Aqui está o valor. Espero seis caixas da próxima remessa. Agora vá. E não olhe para trás.

Dirigi o mais rápido que pude, eliminando da rota o último cliente e indo direto para casa.

Eu precisava ver minha família. Precisava do cheiro de casa, da voz firme de papai, do sorriso de Samira.

Ainda tremia quando entrei. Logo, ouvi vozes alteradas vindo do escritório de papai.

— Sou seu melhor amigo, Kalil! Você pode confiar em mim. Me entregue o que tem. É a única saída! Se não fizer isso, colocará todos em risco!

A resposta veio como um trovão:

— Não vou entregar nada!

Mais uma vez naquele dia, eu espionava uma cena que não era para mim. E, como antes, os olhares se voltaram assim que fui percebida.

Era Omar quem discutia com papai. Ele me lançou um olhar furioso e saiu, batendo a porta com força.

— Papai?

Corri para ele. Meus braços ao redor do seu pescoço, os soluços rompendo como ondas.

— Acalme-se, Zafira... eu sinto muito.

Ele acariciou meus cabelos, mas havia algo nos olhos dele — uma inquietude que não combinava com a suavidade do gesto.

Quando finalmente parei de chorar, ele se afastou, foi até a estante e pegou uma pequena caixa de madeira.

Colocou-a em minhas mãos.

— Escute, filha. Pegue esta caixa, coloque na cesta de vime e vá até o vinhedo como se fosse colher uvas. Cave um buraco. Enterre-a.

— Mas o que tem nela? Por quê?

— Apenas faça, Zafira. Para o bem de todos nós.

A vontade de abrir era insuportável, mas obedeci.

DOIS DIAS DEPOIS

A música vibrava através do meu corpo. Me movia com alegria, sentindo-me viva pela primeira vez desde o encontro com o monstro. Samira tentava acompanhar meus passos desajeitados.

— Zafira, eu não consigo! Você nasceu pra isso, eu não...

— Deixa fluir, Samira! Assim...

— Pra você é fácil!

Ríamos como crianças. Dançar me libertava.

— Quando eu tiver a sua idade, talvez consiga sua experiência...

A frase ficou suspensa no ar.

A porta da sala se abriu com violência. Ambas gritamos de susto — até vermos papai, ensanguentado, os olhos alucinados.

— Zafira, você tem que sair. Agora!

— Mas o quê...

— Não temos tempo! Todos morreremos se você não for rápida. Escute: vocês precisam ir para a Itália. Sicília. Hotel San Domenico. Lá, perguntem por um homem chamado Senhor Kosta. Diga que é minha filha. Peça proteção.

— Papai, eu não posso...

— Você pode. E vai conseguir. Vão para o esconderijo. Não saiam de lá, aconteça o que acontecer.

O barulho do portão interrompeu nossa conversa. Corri para a janela e vi: Yusef.

O pior.

O mais cruel traficante de Marrakech.

Ele vinha em direção à nossa casa.

O olhar de papai me implorava. E foi o instinto que me moveu.

Segurei a mão de Samira. E corremos.

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