Capítulo 2

Ainda um pouco chocado com a revelação, Henrique não conseguia emitir nenhuma palavra. Eduarda já estava ficando impaciente achando que ele fosse um mal-educado.

- Você sabe falar? – Ela o pergunta antes de cometer alguma gafe.

O seu olhar que antes era de puro transe, ele a olha com uma certa raiva. Nunca em toda a vida dele, ouviu alguém falar com ele assim.

- Sei, já que acabei de perguntar quem você era.

- Está certo. Mas não pareci até pouco tempo, mas agora não vem ao caso.

- Quem pediu para que você viesse?

Eduarda olha o papel em que ela tinha anotado o nome e falou logo após ler.

- Vinícius Pinto. Como ele acha que você não saberá de quem se trata, ele disse que era para falar que é o trator. Acho que agora sabe bem quem é.

Ele sorri e sabe que o seu braço direito lhe trouxe a melhor, mas não sabia ao certo se teria forças o suficiente para ter o controle em não provocar ou não beijar a baixinha astuta na sua frente.

- Sim, eu sei. Mas e aí dona, vai poder me ajudar?

- Olha, vou ser bem franca com você, a garota de nome Estefane Alves alega que você a estuprou e que ainda tentou mata-la. O seu caso é bem complicado, ainda mais que você não tem um álibi para o dia e hora em que aconteceu tudo com ela.

- Álibi eu tenho.

- Então fale logo de uma vez, para que possamos traçar melhor os planos para resolução do seu caso.

Henrique estala a língua olhando para Eduarda que aguarda ansiosamente que ele lhe diga qual é o seu álibi de fato. Mas o silêncio é a sua resposta.

Como ele não diz nada, ela levanta-se da cadeira organizando tudo.

Henrique se desespera e os seus olhos se movimentam rapidamente vendo todos os movimentos que ela dá.

- O que tá fazendo?

- Organizando as minhas coisas para ir embora não tá vendo?! – Ela fala ríspida.

- Eu tô vendo, já que não sou cego! Mas porque vai embora, não vai me defender? - O seu tom também é do mesmo jeito.

Eduarda sorri sarcasticamente e o encara. Aqueles olhos cor de mel ao se encontrar com aquelas duas jabuticabas, faz com que se percam por alguns segundos nos olhares um do outro. Lembrando que ele é um possível cliente, ela se recompõe e fala calmamente.

- Você é um caso perdido. Se não quer me contar qual o seu álibi realmente, não tenho como ajudar a sair dessa enrascada. Senhor Henrique, se não quer ajuda, eu vou embora!

- Por favor dona, se o Trator mandou a senhora aqui, é porque é mesmo boa, mas se eu falar o meu álibi, aí sim, que eu vou morfar aqui nessa cadeia e os meus precisam de mim lá fora.

Abrindo a porta da sala especial, o carcereiro avisa.

- Doutora Medeiros, o tempo com o seu cliente acabou.

Olhando para o carcereiro e depois para Henrique ela suspira. A sua razão diz para recusar, mas algo em seu coração lhe diz para não deixar aquele homem preso. Ela olha de volta para o carcereiro e faz um pedido.

- Senhor, me dê apenas um minuto com ele e já o chamo, ok?

O carcereiro relutante, acaba cedendo a advogada.

- Tudo bem. Um minuto doutora.

Ela sorri e quando ela faz isso, Henrique fica hipnotizado. É o sorriso mais lindo que ele já viu na vida. Ele sentiu o seu coração descompassar. Assim que o carcereiro os deixando para mais um minuto sozinhos, ela fica novamente séria e encara Henrique.

- Bem, já que algo me diz que eu vou me arrepender, voltarei novamente aqui. E acho bom me contar toda a verdade se quiser sair daqui e que eu o ajude. Fui clara?

Com um sorriso bobo, ele assente.

- Sim, dona.

Ela pega a sua pasta e caminha até a porta. Ela bate para avisar ao carcereiro que já estava de saída. Assim que ela sai, ele murmura consigo mesmo.

- Mais além de linda é uma baixinha astuta e abusada mesmo hein.

Não demora muito, Henrique é levado para a sua cela, enquanto Eduarda segue para o seu carro e lá ao entrar e sentar frente ao volante, ela solta todo o ar que parecia estar preso em seu peito. Assim que ela se recompõe, Eduarda segue para o seu escritório.

Júlio que é um colega de profissão e apaixonado por ela, a esperava para saber se eles teriam mais um caso no escritório ou não. Assim que as portas do elevador se abrem, Eduarda caminha até o balcão da recepção e pega as correspondências e confere cada uma.

- Oi Duda, e então, como foi lá?

- Tudo tranquilo. Alguma novidade no processo de injúria racial daquela socialite contra a nossa cliente?

- Não. Ainda estou buscando algumas pessoas que insistem em não querer testemunhar. Mas já estou buscando as imagens das câmeras de segurança.

- Perfeito! E o meu pai ligou?

- Ligou. Disse que estará a esperando para jantar em casa.

- Tudo bem. – Eduarda olha para Júlio e sorri.

Caminha até a sua sala e coloca a sua maleta sobre a estante. Retira o seu blazer e coloca em volta da sua cadeira. Ela senta-se e apoiando os cotovelos sobre a mesa, ela massageia a sua testa. A sua dor de cabeça que sempre teve, está sentindo aquela dor que fazia tempo que não sentia vindo com força total.

- O que foi Duda, tudo bem?

- Vou ficar. Tem mais alguma coisa Júlio?

- Não.

- Então vou fazer uma ligação e depois vou para casa. Se quiser pode ir embora meu amigo.

Ele sorri fraco. Achava que ela o chamaria para jantar junto com o pai dela, para aproveitar e a pedir em namoro, mas não será dessa vez.

- Está bem.

Assim que ele sai, ela se pega pensando naquele belo espécime.

- O que será que ele fez de tão errado para não dizer que álibi ele tem. Quer saber, vou para casa.

Ela levanta-se, pega as suas coisas e segue para o seu apartamento e de lá se arrumaria para ir jantar com o seu pai na sua casa.

Capítulo 3

Se arrumando para ir ao jantar na mansão onde o seu pai mora atualmente com a sua avó Yolanda, ela pensa no seu cliente de mais cedo.

Como pode um homem em tão pouco tempo abalar as estruturas de uma mulher que prometeu a si mesma que jamais se envolveria ou sentiria algo por um homem sendo ele quem fosse. Mas o que mais a deixava pensativa, era que o homem quem abalara as suas estruturas nada mais era que um homem totalmente oposto a ela em todos os sentidos.

Tirada dos seus pensamentos, o toque do seu celular que a traz de volta a realidade. Ao olhar o visor, ela sorri, é a sua avó.

-  Grootmoeder (avó em holandês), como é bom ouvir a sua voz. – Ela fala com um sorriso largo.

- Se eu não ligo para a minha kleindochter (neta em holandês), não consigo falar com ela não é?

Eduarda engole em seco. Mas sabe que a sua avó está fazendo o seu dramalhão de sempre.

- Não fale assim mijn liefde (meu amor em holandês). Sabe que tenho andado ocupada, mas estou saindo daqui agora para jantar com a senhora e o meu pa (pai em holandês).

Sua avó abre um imenso sorriso e gargalha do outro lado da linha.

- Então se apresse para vir logo. Quero beijar muito a minha kostbaar (preciosa em holandês).

Sorrindo, ela assente.

- Certo minha linda e kostbaar. Já chego aí. Kus (Beijo em holandês).

- Kus.

Ao encerrar a ligação, ela sorri. Dá uma última olhada no espelho e fica muito feliz do jeito que está vestida. Uma rasteirinha preta com um vestido branco com listras pretas e os seus cachos soltos e volumosos. Um gloss leve e nada de maquiagem. Pegou a sua bolsa branca e saiu.

O trânsito do Rio para onde ela ia estava tranquilo dessa vez. Ao parar em um semáforo, ela vê um pequeno garotinho fazendo malabares. Ele passa por entre os carros para conseguir uns trocados e por mais que ela soubesse que o risco é grande devido a violência que cada vez aumenta, ela abre um pouco a janela do seu carro com uma nota de R$20,00 na mão. Quando o garotinho passa pelo seu carro, ela coloca o dinheiro no chapéu vermelho dele e ele arregala os olhos.

Para ele, era muito dinheiro, já que quando recebe algum trocado, sempre é R$2,00 em nota, moedas de dez, cinquenta e até um real. Mas aquele valor, era a primeira vez que ele recebia.

Coçando os seus cabelinhos, ele devolve a ela aquela nota. Eduarda acha estranho e arqueia a sobrancelha.

- O que foi, você não quer?

- Não dona, não posso aceitar. É muito dinheiro.

- Pode ficar, estou dando de coração. – Ela sorri e o sinal abre.

Uma buzina logo atrás fica mais alta por ela estar parada no lugar. Antes que ele devolvesse o dinheiro, ela coloca novamente o dinheiro, sorri e arranca o seu carro, deixando o menino olhando ela partir no meio da rua.

Ela olha pelo retrovisor e o garotinho sorrindo, pega o dinheiro e coloca dentro do bolso da sua calça e corre em direção a calçada. Eduarda sorri por ver a honestidade de uma criança mesmo com os problemas que a sociedade enfrenta e impõe as pessoas menos favorecidas a fazer algo de mais grave até.

Saindo da estrada movimentada, ela segue uma rua que ela conhece bem. A rua que dá ao final onde a bela mansão da família Medeiros está lá intocável com vários seguranças ao redor.

- Boa noite senhorita Medeiros.

- Boa noite Lucas. Vim ver o meu pai.

- O senhor nos avisou. Vou abrir para a senhorita.

- Obrigada.

Os portões são abertos após Eduarda falar no interfone e o carro percorre aquele longo caminho até chegar ao pátio que dá na entrada da mansão.

Uma mansão digna de novelas e filmes. Mas era a mansão da família que ela ama.

Caminhando até a porta, ela encontra a governanta que ela chama de Nana. Uma senhora que a viu nascer e esteve com ela em todos os momentos da sua vida.

- Nana! – Sorrindo, ela a abraça.

- Minha princesa. Minha pérola. Cada dia mais linda!

- Saudades de você meu amor.

- Também estou com muitas saudades. Tem que vir mais vezes, está tão magrinha a minha pérola.

- Ah Nana, como sempre achando que eu tenho que viver empanturrada de comida.

- Humrum. Atrapalho?

Yolanda, interrompe a conversa das duas. Sempre elegante, mas com uma pitada de ciúmes em ver a sua doce neta em uma conversa com Leandra e não ter ido falar com ela.

- Jamais minha amora. – Correndo, ela abraça a avó lhe dando um beijo estalado na bochecha.

- Hum, sei.

- Nossa, que avó mais ciumenta que eu tenho, já viu Nana.

Leandra sorri timidamente e assente de cabeça baixa. Ela pede licença deixando as duas sozinhas na entrada da mansão. As duas caminham juntas até a sala e Eduarda pergunta pelo seu pai.

- E o meu pai?

- No escritório.

- Minha linda, eu vou falar com ele. Estou estudando um caso e preciso falar algo muito importante.

- Vá. Eu vou até a cozinha ver como está tudo para o jantar.

Eduarda sorri e segue após dar um beijo na sua avó para o escritório. Ao bater na porta, o seu pai não escuta por estar em uma discussão calorosa ao telefone e ela entra, escutando parte da conversa dele.

- Não quero saber. Não quero que ela se envolva com esse tipo de gente.

- Pai?

Ele se assusta ao olhar para trás e ver a sua filha com os braços cruzados olhando-o.

- Depois conversamos melhor. Agora preciso desligar.

Assim que ele encerra a ligação, Eduarda fica desconfiada pela ligação do seu pai. Ele caminha até a sua filha sorrindo e lhe dando um abraço. A mesma lhe retribui da mesma forma.

- Minha querida. Está cada dia mais linda.

- Oi pai, estava falando com quem?

Ao afastar-se da sua filha, ele a encara fixamente com um sorriso e desconversa.

- Era somente trabalho minha filha. E você como está?

- Hum, eu estou bem. Estou estudando um caso que o escritório vai defender.

Olhando para o seu pai, percebe que ele ficou tenso. O seu corpo se enrijeceu. Mas, ao olhar para a sua filha o encarando, ele disfarça.

- Ah, é mesmo. Eu soube por alo. Mas não sabia que iria ficar com o caso.

Por mais que ela quisesse caminhar com as suas próprias pernas, o seu pai sempre achava um meio de se meter. Ela ficou logo com raiva. Por mais que ela falasse calmamente, não adiantava nada discutir ou se exasperar com ele. Sempre ele iria dar um jeito de se meter e saber da sua vida.

- Pai!

- Eu mesmo filha.

- Te pedi tanto para não fazer mais isso.

- Isso o que filha?

- Ah pai, isso de ficar se metendo em tudo que faço até o meu trabalho poxa!

- Filha, mas eu faço isso para o seu bem.

Antes que a discussão começasse a ficar acalorada, Yolanda entra no escritório para avisar sobre o jantar.

- Sei que vocês querem conversar mais, só que o jantar já está na mesa.

- Hum, estou morrendo de fome Moeder (mãe em holandês). Vamos então?

Desconversando, ele sai arrastando a sua mãe. Eduarda, que vem logo atrás revira os olhos e balança a cabeça em negação e dá uma lufada de ar por ver que o seu pai não passa de um caso perdido. Pensando nisso, ela sorri ao lembrar de falar isso para Henrique mais cedo naquela sala no presídio. Ela vai até a sala de jantar sorrindo.

Seu pai e a sua avó se entreolham por ver um lindo sorriso no rosto dela. Ao perceber que estão a olhando, ela fecha logo o seu semblante, ficando séria.

Os dois então, acham melhor não falar nada para não estragar o jantar entre eles, já que cada vez mais tem se tornado escasso entre eles devido ao dia a dia corriqueiro.

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