Capa do Romance Eu fui enganada

Eu fui enganada

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Cristal Malory é uma mulher resiliente que se sacrifica para financiar o tratamento de sua mãe. Contudo, após uma traição cruel de seu chefe, ela se vê vendida como mercadoria em um leilão sombrio. Entre o desprezo de seus familiares e as adversidades de uma realidade implacável, Cristal inicia uma trajetória de superação. Para reaver sua honra e liberdade, essa heroína improvável precisará despertar uma força interior capaz de vencer todas as humilhações.

Eu fui enganada Capítulo 1

Olá, me chamo Cristal e tenho 23 anos. Meus pais vieram para o México assim que nasci e moro com eles e com a minha irmã Vitória.

Bom, deixa eu contar um pouquinho da minha história.

Sou garçonete em um bar. De manhã, ele é apenas um bar, mas à noite ele se transforma em uma boate e eu não faço a mínima ideia do que acontece lá. Bem, na verdade eu sei o que acontece, mas isso não me afeta em nada. Entro para trabalhar às 8:00 da manhã e saio às 18:00 horas.

Às vezes, faço alguns trabalhos extras à noite como fisioterapeuta nas casas de alguns conhecidos. Cobro menos do que um profissional, pois não concluí o curso de fisioterapia. No entanto, esse é o meu sonho e sei que vou realizá-lo. Eu sei que é errado me colocar como profissional, mas quando as pessoas me chamam, deixo claro que não sou formada e elas não se importam, pois tudo o que eu faço é com muito amor.

Tive que trancar a minha faculdade, pois não estava conseguindo arcar com as despesas da casa sozinha.

Namoro com Matheu há dois anos. Ele tem 1,80 de altura e seu corpo é muito bem definido. Sua pele é negra e seus olhos são pretos como uma jabuticaba. Sabe quando você acha que encontrou sua alma gêmea? Então, é isso que sinto quando estou com ele.

Matheu é meu primeiro namorado, meu primeiro amor. Foi com ele que dei meu primeiro beijo e foi com ele que tive minha primeira noite de amor. Ele é carinhoso, bom, às vezes. Por causa dos seus estudos, ele está um pouco distante, mas mesmo assim ele não deixa de me fazer sentir bem ao seu lado, nem que seja por pouco tempo.

Em casa, divido o quarto com minha irmã Vitória. Ela é muito importante para mim, mesmo com suas inúmeras grosserias e muitas vezes me decepcionando com suas atitudes. Eu a amo muito. Quando éramos pequenas, éramos muito unidas. Porém, com o tempo, algo mudou e hoje mal conseguimos trocar três palavras sem que eu saia machucada.

Vitória sempre está muito bem arrumada, com seus cabelos loiros um pouco abaixo dos ombros sempre escovados e unhas perfeitas. Ela sempre foi muito vaidosa, ao contrário de mim, que mal tenho tempo para me olhar no espelho.

Se não bastasse os problemas que tenho com meu pai, minha mãe Inês está muito doente. Seu estado de saúde é grave e com muito custo consigo comprar seus remédios, que estão cada dia mais caros. É por ela que venho tentando aguentar toda a humilhação e as agressões, não só verbais, mas também físicas, que sofro do meu pai. Minha mãe nem sonha que isso acontece, ela acha que é só implicância dele.

Com a doença e os medicamentos não trazendo os resultados esperados, o médico disse que ela terá que passar por uma cirurgia. Mas aí está o X da questão: onde é que vou tirar 200 mil para a cirurgia, os medicamentos e também a internação? Tudo que ganho com a fisioterapia guardo para seu tratamento. Com muito custo e deixando muitas vezes de comprar algo para mim, consegui juntar 10 mil. Sim, parece pouco, mas cada nota que está guardada foi uma lágrima que tive que derramar, alguma vontade que tive que esquecer, me contentar com as minhas velhas e surradas roupas. Mas tudo tem um propósito maior. Minha mãe é tudo que tenho e por ela faço e aguento qualquer coisa.

Minha relação com meu pai Luiz nunca foi boa. E digo que em circunstância alguma ele sempre me reduz a nada. Para ele, sou uma qualquer, mesmo com meus esforços para conquistá-lo. Tudo que eu queria era um pouco do amor que ele dá para minha irmã Vitória.

Minha vida é trabalhar para manter nossa casa. Já que sou a única que trabalha para sustentá-los, Vitória também trabalha, mas como ela diz, "o dinheiro dela é só dela", tudo vai para os seus estudos, roupas caras e baladas. Mesmo assim, mesmo com ela trabalhando e ganhando o dobro do que eu ganho com os dois empregos, ainda preciso ajudá-la com as apostilas e outras coisas que ela me pede. Sei que é um absurdo, mas meu pai diz que não faço nada de mais e que é minha obrigação sustentá-los.

Estou voltando de mais um dia de trabalho. Hoje, o bar estava uma loucura, o movimento estava tão intenso que não tive tempo nem para comer.

Chego em casa e vou ver minha mãe. Seus remédios são muito fortes e, por causa disso, ela anda muito fraca. Passa a maior parte do tempo dormindo. O médico disse que a fórmula desse remédio não está fazendo o efeito esperado, mas o outro, mesmo trabalhando dois meses sem descanso, não conseguiria comprar.

— Ah, mãe, um dia vou ter o dinheiro para sua cirurgia. — Passo levemente minha mão em seu rosto. — Só espero que seja logo.

Respiro fundo, sentindo seu cheiro fresco de flores. Quando estou no trabalho, minha vizinha Dona Joana vem dar uma olhada nela. As duas sempre foram muito amigas desde pequenas. Ela me ajuda com o banho e, às vezes, traz algo para minha mãe comer, já que meu patrão quase nunca me deixa sair para o almoço.

Dou um beijo na sua testa e fecho a porta sem fazer barulho. Entro no quarto que divido com minha irmã. Agradeço aos céus por ela não estar no momento. Tomo um banho rápido, pois com o preço que está vindo a conta de luz, não posso me dar ao luxo de demorar, já que Vitória esquece do mundo quando entra debaixo do chuveiro.

Depois de alguns minutos, estou pronta para ir à casa da senhora Clara. Ela caiu há algum tempo e tentou todos os tipos de tratamento, mas nenhum teve o resultado desejado por ela e pelo senhor Mauro. Na verdade, alguns profissionais não tinham muita paciência. Ela, por ter que ficar sem andar, começou a ficar mal-humorada. Confesso que no começo foi difícil, mas lembrei que os remédios da minha mãe estavam acabando e não queria gastar o que está guardado.

Mas posso falar, trabalhar para eles foi a melhor coisa que fiz. Dona Clara é uma mulher muito bondosa e só precisava de alguém para desabafar. Eu caí meio que de paraquedas em seu caminho e desde o dia que comecei sua fisioterapia, ela vem progredindo bastante em sua recuperação...

Desço os poucos degraus da minha casa e vou para a cozinha. Tomo um copo de água e, antes de sair, encontro meu pai na sala, sentado e abraçado com minha irmã. Fico alguns segundos olhando para eles até que Vitória percebe e dá um sorriso de lado. Ela sabe que tudo que eu queria era a atenção e o carinho do meu pai.

— Que horas o jantar vai ficar pronto? — Meu pai fala sem me olhar.

— Quando eu voltar da casa da senhora Clara!

— Vê se não vai parar na cama do Mauro. Já não basta ser uma inútil, não preciso ouvir que você é uma vagabunda também!

— O senhor sabe bem que não faço isso. Não sei por que insiste em me ofender.

— Não se faça de inocente, Cristal. Essa sua cara de vadia se vê de longe. Não é à toa a fama que tem.

Lágrimas brotam em meus olhos. Os fecho com força para impedir que elas rolem no meu rosto. Ouço chinelos sendo arrastados no topo da escada. Olho para trás e vejo que é minha mãe que está descendo. Corro na sua direção para ajudá-la.

— Oh mãe, o que faz de pé? Quer alguma coisa?

— Não amor, só estou cansada de ficar naquele quarto. — Com as suas mãos trêmulas, ela passa no meu rosto. Abro um sorriso e abraço sua cintura, caminhando lentamente ao seu lado e a coloco sentada na poltrona. — Luiz, por favor, pare de torturar nossa filha. Ela não merece isso.

Meu pai a olha com desdém. Meus olhos encontram os da minha irmã. Fico espantada com o que vejo, ela está rindo como se estivesse gostando da situação.

— Pode deixar mãe, já estou acostumada. Peça para alguém te ajudar a subir. Te amo.

— Também te amo. Que Deus te acompanhe, minha filha. — Pego minha bolsa para sair, me despeço da minha mãe. Quando estou na porta, meu pai grita.

— Se for começar a se prostituir para o Mauro, vê se cobra uma boa grana. Pois, faminta por dinheiro do jeito que você é, essa é uma ótima saída.

— Luiz! Pelo amor de Deus. — Minha mãe fala com a voz chorosa. Fecho a porta e volto à sua frente. Ele se levanta com os punhos fechados e com um olhar que nunca tinha visto até hoje.

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