Capítulo 2

Eu, bom, eu só era a Mandy, comum,

complicada demais e com uma responsabilidade que acabou de fazer três anos.

Talvez as coisas pudessem ser diferentes, se oportunidades como essa de ficarmos sozinhos acontecessem mais, pensei ao dar dois passos em direção a ele. Quem sabe eu criasse coragem e pudesse...

— Xerife? — gemi baixinho, após ouvir a sineta tocar e a porta dupla abrir em um rompante

— Temos um problema.

Foi como acordar de um sonho, como um dos muitos que tive com Dallas, refleti, frustrada.

— O que foi, Derek? — Um olhar duro tomou o lugar do olhar suave com que me encarava — Onde acontece o incêndio?

— É o Sr. Green... — informou seu assistente — causando confusão de novo.

O nome foi suficiente para fazer Dallas ajeitar o chapéu na cabeça e se afastar de mim. As

bebedeiras e escândalos de Dylan Green tornaram- se lendárias na cidade. Constantemente ele passava a manhã, tarde ou noite inteira dentro de uma cela. Não que fosse perigoso, mas o único que sabia manter Dylan quieto e comportado era o xerife.

— Bem. Até logo, Mandy.

— Até logo, xerife.

Com a mesma velocidade que a decepção caiu sobre mim, a Sra. Chan surgiu com Jody no colo, exibindo um olhar reprovador, possivelmente por eu ter deixado uma grande oportunidade de conseguir a atenção de Dallas escapar.

— Den-dy — Jody estendeu um prato de bolo para mim, exibindo um sorriso manchado de glacê — Jody ama Den-dy.

E quem poderia se sentir triste, com uma declaração tão sincera como a dela?

— E Mandy ama Jody.

Sua chegada foi assustadoramente

inesperada, mas não conseguia mais imaginar a minha vida sem ela.

Capítulo 2

Acorda, Mandy!

Você precisa parar de sonhar acordada. Com um suspiro preso em minha garganta,

observei Dallas sair acompanhado de seu assistente.

— E aí, como foi? — A Sra. Chan colocou Jody sentada no balcão, pronta para me encher de perguntas, provavelmente uma mais constrangedora que a outra — Marcaram de sair? Você disse que o bumbum dele é…

Ela ergueu os dois polegares, sorrindo em aprovação ao traseiro do xerife, que eu precisava concordar: Dallas possuía o bumbum mais atraente do Texas. Falando sério, ele todinho simbolizava os desejos secretos de uma mulher.

— Sra. Chan! — adverti, sentindo meu rosto corar.

Eu sentia falta da época que eu entrava na lanchonete muda e saía calada. Pelo menos minha vida amorosa – ou a falta dela – não era analisada dessa forma.

— Os jovens de hoje são tão lerdos. — Ela revirou os olhos, alisando o balcão — Na minha época…

— Na sua época — murmurei, pegando Jody, levando-a para o seu local seguro, onde poderia passar o dia sem que eu viesse a me preocupar enquanto trabalhava —, as pessoas eram muito mais recatadas que hoje.

A Sra. Chan sacudiu a mão no ar.

— Tudo bem, mas ele já teria me levado para tomar um sorvete e tentado passar as mãos nos meus peitos umas duas vezes.

Literalmente fiquei de boca aberta,

enquanto ela voltava para a cozinha resmungando que eu nunca conquistaria o xerife se continuasse agindo como uma palerma. Comecei a rir e fui finalmente colocar a plaquinha de ‘aberto’ na porta. Não demorou muito para os clientes começarem a surgir. O primeiro deles foi James, o melhor e único mecânico da cidade. Foi o melhor amigo de Julienne na cidade, irmã de Dallas. Ele tinha um excelente relacionamento com a família Walker.

— Café sem açúcar e torta de maçã? — perguntei, anotando o pedido que eu sabia de cor.

— Uma mulher que sabe o que um homem precisa. — Ele piscou de forma sedutora, e eu sorri

— Quando crescer, juro que me caso com você, Mandy.

Já havia perdido as contas de quantas vezes ouvi a mesma promessa, sem nenhum fundo de verdade. Exatamente todas as manhãs em que James aparecia aqui para o desjejum. Se a

declaração tivesse acontecido na época da escola, quando ele era um jovem magricelo e tímido demais para levar uma conversa fluída com alguma garota que não fosse Julienne, eu teria levado a proposta com mais seriedade. Mas agora, depois de anos dando duro na oficina, que assumiu logo após a morte de seu pai, e o tempo que deveria gastar malhando, fizeram de James um homem que não escapava dos olhares apreciativos das garotas que, um dia, ousaram olhar torto para ele.

— Dispenso o casamento — respondi sorrindo, ao buscar o bule de café — Mas ficaria feliz se me dissesse que encontrou a peça para a caminhonete.

— O que você deveria fazer é aposentar aquela sua lata velha — Ele me olhou com uma seriedade que me deixou preocupada — Não vai durar muito.

Se o meu mecânico afirmava que não era

seguro andar por aí com a carcaça ambulante que eu chamo de carro, acho que devo mesmo me preocupar. Já estava pensando em trocar a velha caminhonete por algo melhor, até mesmo para a segurança de Jody, mas desde que ela chegou, meus gastos dobraram. Suas roupas e sapatos pareciam encolher a cada mês e precisava colocar na lista as vezes que ela ficava doente, prejudicando ainda mais o meu orçamento. Ah, agora, mais do que nunca, tenho que trocar o telhado, o que deveria ter feito há dois anos, se necessidades mais importantes não tivessem surgido.

— Olha, eu vou até Houston nesse fim de semana. — Penso que minha cara de desolação se mostrou expressiva o suficiente para que James se compadecesse de mim e despertasse sua solidariedade — Acho que encontro as peças para você.

— Isso seria realmente incrível, James — agradeci, servindo sua xícara — Vou pegar a sua torta. Foi feita essa manhã.

Todas as pessoas, vez ou outra, enfrentavam obstáculos na vida, e comigo não poderia ser diferente, mas eu sempre encontrava boas pessoas que facilitavam esse caminho de alguma forma. Primeiro, a Sra. Chan, por me dar um emprego onde pudesse manter Jody comigo. Os clientes no café, em sua maioria sendo residentes de Peachwood, tratavam-me com gentileza e amabilidade. Esse era um lugar onde todos se conheciam e meio que formavam uma grande e calorosa família. E só por isso já me sentia uma pessoa grata e afortunada.

— Ovos mexidos, tiras de bacon, salsichas fritas e suflê de chocolate. — Ergui meu olhar da caderneta de pedido, antes mesmo de poder anotar os três últimos itens.

— A Sra. Brandon não disse que está proibido de comer bacon e batata frita, Sr. Brandon?

Devido ao colesterol altíssimo, a Sra. Brandon controlava as refeições do marido como um general. Há alguns meses, entrou como um furacão no café, com uma lista bem extensas de coisas que eu nunca deveria servir ao seu marido. E embora ela possuísse uma voz mansa e sorriso cordial, eu não era louca o suficiente de ignorar seus avisos, para ser convocada à sua casa onde me passaria um sermão de, no mínimo, uma hora, enquanto me fazia sentir a pior pessoa do mundo.

— A Sra. Brandon não está na cidade. — Ele resmungou, cruzando os braços como se me desafiasse.

Se meus avós estivessem vivos, acho que não me importaria se fossem como o casal.

— Ah, ela não está?

— Foi visitar nosso filho, você sabe que a mulher dele está para ter o bebê, e Marlene foi para lá ajudar — Ele se inclinou na mesa e fez um sinal para que eu me aproximasse — Sabe, Mandy, isso pode ser um segredinho nosso.

— Um segredinho nosso — repeti, em um tom conspiratório.

De jeito nenhum. Eu não daria até o fim dessa tarde para que a Sra. Brandon ligasse para o café e me exigisse os ingredientes de cada refeição que havia colocado no prato dele.

— Sim para os ovos — assinalei o item antes de continuar: — E sim para a maravilhoso rocambole de espinafre que a Sra. Chan acabou de tirar do forno. E para recompensar, trago depois um belo pedaço de torta de pêssego.

— Espinafre? Veja se eu tenho cara de quem come espinafre, mocinha. — Para um novato, o olhar encolerizado e rosto vermelho do invocado

velhinho poderiam ser intimidadores, mas não para mim — Veja, chame a Chan. Ela precisa saber que seus clientes não são bem tratados aqui.

— Você tem certeza? — Ergui a sobrancelha e cruzei os meus braços, abrindo um sorriso para ele — A Sra. Chan, com toda certeza, irá cortar a torta de maçã.

No fundo, ele sabia que sua tentativa em me intimidar não alcançaria o resultado desejado. Chan e Marlene Brandon eram amigas de longa data. E minha chefe adorava pegar no pé do Sr. Brandon, com a esposa dele dando, ou não, munições para isso.

— Pensando bem, a Chan deve estar bem ocupada — disse ele em um tom impressionantemente brando — Vou aceitar os ovos, o rocambole de espinafre e dois pedaços de torta de pêssego.

Capítulo 3

r. Brandon… — iniciei, pronta para

voltar a argumentar.

— Vou levar para o jantar, sua pequena intrometida — bufou ele, antes de resmungar — Os jovens de hoje não sabem a importância que cabelos brancos têm.

Visto que ele possuía uma calvície proeminente e bem poucos cabelos brancos, apenas sorri e me afastei, rindo, para providenciar seu pedido.

O café não ficava sempre cheio, mas pessoas entravam e saíam o tempo todo. Vi a sineta tocar e um casal acompanhado de duas crianças se dirigiram a uma das mesas. Forasteiros, disso eu tinha certeza.

Peachwood ficava na rota da interestadual e constantemente pessoas paravam por aqui para pedir informação, usar a oficina mecânica de James ou comer alguma coisa.

— Boa tarde. — Me aproximei da mesa

para fazer os pedidos — O que gostariam?

A mulher, assim como as crianças, não desviou os olhos fixos na mesa para olhar para mim. O homem, em compensação, me varreu dos pés à cabeça, dando um sorriso apreciativo que eu não gostei.

Já atendi clientes homens que ousaram dar o seu telefone ou me passaram uma cantada barata. Trabalhar em um café, mesmo que em um condado pequeno como esse, nos deixavam suscetíveis a isso. Mas nenhum deles era casado ou estava acompanhado.

— Uma cerveja, gracinha — disse o homem, e percebi que sua fala já se encontrava enrolada.

— Não servimos bebidas alcoólicas,

senhor.

Para isso havia o bar country do outro lado

da rua, que ficava aberto vinte e quatro horas.

fica…

— Mas o senhor pode ir ao Hell, que

— Aquela espelunca? — esbravejou ele,

fazendo tanto as crianças quanto a mulher se encolher no lugar — Já estivemos lá, aqueles caipiras não sabem como atender as pessoas.

Pela educação do senhor em questão, acho que o gerente não deve ter é tido paciência de lidar com alguém como ele. Embora uma vez ou outra acontecesse, aqueles “caipiras” não gostavam de confusão.

— Então, traga refrigerantes, dois hambúrgueres e batata frita.

Anotei o pedido com pressa, querendo me afastar dele o mais rápido possível. Se pessoas carregavam mesmo algum tipo de cor de energia, eu poderia dizer que a desse homem era muito escura.

Ajudei a Sra. Chan na preparação dos

pedidos, e antes de entregar dei uma olhada em Jody, que brincava, meio sonolenta, em seu cercado. Faltavam apenas três horas para que eu encerrasse meu turno, e estava tão cansada quanto ela. As sextas-feiras são cansativas, por serem final da semana, e pelo maior fluxo de pessoas e pedidos também.

Depois de atender os viajantes e aguentar mais uma vez os olhares lascivos do homem, me refugiei atrás do balcão. Limpei, organizei e reabasteci os potes de açúcar e sal. Troquei os frascos de ketchup, mostarda e maionese. Estava abrindo uma nova caixa de guardanapos, quando vozes exaltadas chamaram minha atenção.

Um dos garotos, o mais novo, pelo que parecia, derrubou refrigerante na mesa, sujando sem querer a calça do pai. Rapidamente peguei um bolo de guardanapo de papel e me dirigi até a mesa deles, para ajudar.

— Seu garoto retardado! — O grito do homem contra o menino me fez paralisar no lugar

— Olha o que você fez!

Assisti, atônita, o homem erguer a mão fechada em direção ao menino, que só não levou um grande soco no rostinho assustado porque a mulher entrou na frente, levando o golpe por ele.

— Sua cadela! — A fúria do maldito covarde agora estava sobre a mulher — Já avisei para não se intrometer. Por isso ele é um mariquinhas.

E quando ele segurou a mulher assustada pela garganta, fui obrigada a reagir.

— Não faça isso!

O senhor Brosnan, que ainda estava no café, apesar de já ter terminado sua refeição, saltou da mesa.

— Não seja covarde, meu jovem — disse ele, exaltado — Não é assim que se trata uma

mulher e crianças.

— Cala a boca, velhote! — disse o homem, raivoso.

Emiti um grito acuado quando o vi empurrar o Sr. Brosnan para longe, que caiu sobre uma mesa em um baque estridente.

— O senhor está bem? — indaguei, quase sem fôlego ao correr até ele.

Ele se ergueu lentamente, gemendo, e o ajudei a ocupar uma cadeira. Virei em direção ao monstro que tinha voltado a soltar sua fúria na esposa. Nesse momento, Chan saiu da cozinha com uma grande e pesada frigideira. O pânico de que o mesmo que aconteceu ao Sr. Brosnan pudesse acontecer com ela me fez voar para junto dela.

— Não, Chan! — Tirei a frigideira pesada de sua mão — Vá até a delegacia e chame o xerife.

Uma verdadeira confusão se instaurou no café. Brosnan, mais humilhado do que realmente

ferido, se enfurecia a cada nova cena agressiva que via. As duas crianças choravam abraçando uma a outra, encolhidas contra a mesa. E até Jody começou a chorar, assustada, gritando por mim.

— Vá, Sra. Chan! — Empurrei-a em direção à saída.

Eu sabia que ela queria enfrentar o grandalhão e dar uma bela lição nele. Mas alguém precisava agir sensatamente. Diante de nós estava um touro furioso e embriagado. Não admitiria que a Sra. Chan fosse machucada. Antes, o covarde metido a valentão teria que me derrubar.

— Você é uma estúpida que nunca aprende — Vi sua mão se erguer no ar e atingir o rosto da mulher, que já possuía um enorme hematoma na face esquerda, que eu não sabia se foi da agressão anterior ou de outras antes dessa.

Eu estava farta e com muita revolta de como o troglodita se comportava com os mais

frágeis que ele.

— Pare com Isso! — Segurei o cabo da frigideira com mais força ou me aproximar — O xerife está chegando.

Não sei se foi o objeto que usava como arma, o grito que dei ou a ameaça da chegada do xerife que o fez se afastar da mulher. Mas não pude respirar aliviada. Agora, a atenção do homem nojento estava focada em mim. Minhas mãos tremeram, e o ferro pesado fazia meus pulsos começarem a doer.

— Olha só, gracinha — balbuciou ele, dando um passo largo e vacilante em minha direção

— Sei bem como tratar uma belezinha como você.

Não foram suas palavras asquerosos e a forma repugnante que me encarava que me levaram a agir, mas o choro dos inocentes atrás dele e os gritos assustados de Jody. Ergui a frigideira o mais alto que consegui, e quando o homem se aproximou

mais, o atingi com toda força na testa.

Ele levou a mão à cabeça, onde um corte começava a sangrar, como se fosse uma torneira aberta.

— Sua… sua… — Ele cambaleou de um lado para o outro — Sua cadela maldi…

Assisti-o cair sobre uma mesa com meu olhar arregalado. O cabo deslizou pelas minhas mãos, caindo pesadamente no chão. Estava petrificada no lugar.

— Meu Deus! — gritou a mulher, olhando incrédula para mim — Você o matou.

Você o matou! Você o matou! Você o matou…

A declaração ricocheteava na minha cabeça, enquanto eu dava pequenos passos para trás. As perguntas surgiam como flashes, me deixando desnorteada.

O que aconteceria agora? Eu seria presa? O que seria de Jody sem a mãe e, agora, também sem mim?

Mesmo que tivesse sido em legítima defesa, ou não, eu havia matado uma pessoa.

Minha mente rodava e rodava como se eu tivesse sido jogada em um liquidificador gigante. E cada vez que olhava para o corpo esparramado em cima da mesa, sem vida, uma grande onda de pânico me dominava.

— Mandy?

Minha vista já começava a escurecer, quando vi Dallas entrar no café. E seu rosto preocupado foi a última coisa que vi, antes de perder a consciência em seus braços.

Acordei tão assustada que o meu salto fez com que caísse da estreita cama onde me

encontrava.

— Jody!

Olhei em volta, tentando me orientar. Vi as paredes cinzas e a lâmpada, que quase me cegou, fixada no teto. Uma pia e um vaso sanitário à minha esquerda. Mas o que me fez gemer e começar a chorar baixinho foi ver as grades grossas à minha frente.

Eu tinha mesmo sido presa e era uma criminosa que passaria o resto dos dias pagando por ter tirado a vida de outra pessoa, mesmo que fosse de alguém tão vil como aquele homem.

— Xerife! — gritei, ao agarrar as grades com força — Xerife.

Como um homem da lei, Dallas deveria ter uma ideia do que aconteceria comigo, e eu ansiava saber qual seria o destino de Jody.

Será que procurariam Glenda? Ou a enviariam a um orfanato?

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Eu e o Fazendeiro

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