Jonny sentia-se desconfortável naquele ambiente, já tinha perdido a conta de quantas canecas de cerveja bebeu. Afrouxou a gravata, tirou umas notas da carteira, entregou ao Marcos para cobrir sua despesa e despediu-se.
— Vai lá cunhado, não se esqueça de pedir a Ana para atender os meus telefonemas, o.k.?
— Claro, vou falar com ela.
— Hey, ainda é cedo, nem deu meia-noite, fica mais um pouco. — Pediu Marta.
O olhar de Jonny e Diego se encontraram, Jonny abaixou a cabeça, constrangido.
— Estou cansado e velho demais para essas coisas, Marta. Tudo o que quero agora é cama!
— Ah, qual é, Jonny? Diego é da sua idade e está aí firme e forte como um garoto — Disse Marta, apontando para o amigo que pedia ao garçom um sex on the beach.
— Meu amor, eu sou um bebê, olhe a minha cútis! — Diego passou a mão pelo próprio rosto. — Trinta e um anos é a flor da idade, Jonny é que já nasceu velho!
Marta pareceu desistir com um muxoxo e Jonny se retirou. No caminho do estacionamento, porém, ouviu passos correndo em sua direção.
— Jonny espera, eu vou com você.
Jonny franziu a testa enquanto esperava Marta, lembrou-se de imediato das palavras de Diego.
— Olha, Marta, não é porque você me chamou pra vir que tem que se sentir obrigada a ir embora comigo. Pode se divertir com os caras, eu vou ficar bem.
— Na verdade, eu também quero ir pra casa, o Marcos está mais sem noção hoje que o normal.
Jonny riu e abriu a porta do carro para que Marta entrasse, como um perfeito cavalheiro.
— O.k., e o Marcos fez dessa vez? — Perguntou Jonny, depois de sair do estacionamento e seguir seu caminho pelas ruas.
— Nada de grave, só me perguntou se eu namoraria ele.
— E o que você respondeu?
— Que no momento estou muito focada no trabalho e não tenho cabeça para relacionamentos.
— Por que você não dá uma chance a ele? Marcos é um sujeito legal e é pintoso, a mulherada curte!
Ela não respondeu, olhou para ele com um meio sorriso no rosto.
— Como está sua esposa? — Ela mudou de assunto.
— Do mesmo jeito… não sei mais o que fazer, às vezes, sinto que sempre que damos um passo para frente, damos três para trás… — Ele respondeu, passando a mão pelo rosto angustiado.
— Eu sinto tanto que você tenha que passar por tudo isso, Jonny. — Enquanto falava, Marta pousou a mão na perna dele, mas tirou logo depois.
Ficaram em silêncio o resto do caminho. O apartamento de Marta ficava a apenas cinco minutos do Beers.
Jonny parou o carro na calçada.
— Pronto, está entregue sã e salva. — Brincou Jonny.
— Por que você não entra, Jonny? Venha, podemos conversar um pouco sem a barulheira do Beers.
— Acho melhor não…
— Não seja bobo, será como nos velhos tempos, um desabafando com o outro. Tenho uma garrafa do seu vinho favorito.
— Acho que você não aguentaria os meus desabafos. — Brincou Jonny.
— Provavelmente não, mas posso fingir que te escuto, afinal, para que servem os amigos?
Ao ouvir a palavra “amigos”, Jonny sentiu-se culpado. Talvez estivesse se deixado levar pelas palavras de Diego, e em consequência disso, sendo injusto com Marta, que sempre se comportou de modo respeitoso e franca com ele. Depois de todos esses anos, ele não podia começar a evitar sua melhor amiga por desconfiar dos sentimentos dela. Ainda que ela fosse, de fato, apaixonada por ele, isso não era um defeito. Simplesmente se manteria em termos respeitosos e não haveria problemas. E talvez não houvesse nenhum sentimento romântico da parte dela.
Esses eram os pensamentos de Jonny naquele exato momento em que Marta o olhava, esperando uma resposta.
Em voz alta, ele disse:
— O.k., estou mesmo precisando de uma taça de vinho.
Jonny estacionou o carro e os dois subiram pelo elevador até o oitavo andar. Jonny entrou e estranhou o fato de que não se sentia nem um pouco à vontade como costumava se sentir com ela, anos atrás. Ela pôs a bolsa sobre a mesa e saiu da sala dizendo:
— Jonny, não faça cerimônia, “mi casa su casa”! Vou buscar o vinho pra gente, volto já.
Jonny colocou as duas mãos nos bolsos da calça, olhando em volta, impressionado com o requinte do lugar.
— Há quanto tempo eu não venho aqui, Marta? Seu apartamento está realmente incrível! — Disse em voz alta.
— Mais de um ano, eu acho… — Ela respondeu, falando da cozinha, enquanto tirava a rolha da garrafa.
Ele continuou olhando em volta, no outro ambiente da ampla sala, tinha uma incrível estante de madeira, modelo muito antigo, com vários porta-retratos. No centro, tinha um porta-retratos de cristal, com a mesma foto que Marta usava como descanso de tela do notebook. Ele percebeu que, mais uma vez, Ana tinha sido cortada da foto.
Ele segurava o porta-retratos quando Marta apareceu com a garrafa e duas taças.
— Aqui está o vinho, Jonny — Ela falou. Enquanto entregava a taça a ele, ela viu o que ele segurava. — Essa foto tiramos na sua formatura, lembra?
— Lembro sim, eu tenho uma cópia, mas creio que Ana também aparece nela, se me lembro bem…
— Deixe-me ver — Ela tirou o porta-retratos da mão dele e o olhou com atenção — Hum… Não, essa é outra! Tiramos duas, uma só nós dois e outra com ela.
— Eu devo estar com a memória afetada, só me lembro de termos tirado uma.
Jonny pôs a fotografia de volta no lugar e eles voltaram para a sala. Ele sentou no sofá, enquanto ela foi até uma antiga vitrola e colocou um disco para tocar.
— Lembra-se desse som, Jonny?
— Caramba, Marta, a gente ouvia essa música o dia inteiro! — Jonny riu ao lembrar da música, em coro cantaram o refrão.
Ela sentou ao lado dele.
— Sinto muita saudade daquela época. — Ela comentou pensativa. — Você não sente, Jonny?
— Não sou do tipo saudosista, não, Marta. Na verdade, pelo que me lembro, até o mestrado, tudo o que eu fazia era estudar e comer macarrão instantâneo. Eu não tinha dinheiro nem para um refrigerante e as poucas vezes que saímos, você pagou a maioria das contas.
— Ah, para, você também pagava!
— Eu era um cotista duro, Marta, mal tinha dinheiro para comer e tirar xérox…
— Verdade, você era bem magrinho, nem se compara com o corpo definido que você tem agora.
Jonny abaixou a cabeça, sorrindo, porém, constrangido com o elogio inesperado.
— Se lembra do dia em que nos conhecemos? — Perguntou Marta.
— Para falar a verdade, não… Não vai me dizer que você lembra?
— Claro que lembro! Era meu primeiro dia na faculdade, não sabia para onde ir, vi você com Marcos sentado na portaria monitorando o trote e pedi informação.
— É verdade! Lembro que Marcos ficou louco com você, disse nunca ter visto mulher mais bonita na vida.
— Que exagero! — Ripostou Marta com modéstia. — Eu era muito sem graça.
— Na verdade, ele tinha razão! Você chegou parecendo uma top model, todos olhavam para você quando passava, até as mulheres.
— Menos você… — Ela encheu mais uma vez a taça dele de vinho.
— Você tinha um namorado e eu sabia que você jamais olharia para um nerd duro como eu… Até hoje, surpreendo-me por termos nos tornado amigos naquela época.
— Sabe o que é engraçado, Jonny? — Ela chegou mais perto dele enquanto falava. — Naquela época eu era apaixonada por você.
Jonny respirou fundo, suas bochechas ficaram vermelhas. Mordeu os lábios passando o dedo indicador pela testa, como fazia sempre que se sentia nervoso.
— Não fique vermelho, Jonny! Não vai me dizer que você nunca percebeu?
— Marta, você era a garota mais quente de lá. Corpão sexy, umas pernas… Como eu imaginaria algo assim? Eu era um sujeitinho feio e mal-acabado.
— Eu demorei muito para tomar coragem de me declarar, ia te contar na noite em que conheceu Ana.
Jonny passou a mão pelo cabelo, sentindo-se desconcertado.
— Eu não sei o que dizer…
— Não precisa dizer nada, guardei para mim porque dou muito valor a nossa amizade. O que sempre importou, para mim, foi saber que você era feliz.
— Obrigado, Marta! Saiba que sempre dei muito valor a nossa amizade também.
— O ponto da questão é: Você é feliz, Jonny?
Jonny sorriu, um sorriso triste. Seus olhos verdes tinham um brilho peculiar e seus traços indicavam um grande cansaço mental. Marta o encarou com um leve sorriso no rosto. Todos aqueles anos passaram-se sem que os sentimentos dela por ele diminuíssem, mas naquele momento, pareciam ter se multiplicado por dez, por cem, por mil. Estar tão próxima dele, ao mesmo tempo, tão distante, parecia uma tortura. O lado do disco que estavam ouvindo acabou de tocar, ela foi até a vitrola e trocou o lado. Começou uma música lenta.
Ela parou em frente a ele e esticou o braço.
— Dance comigo, Jonny.
— Eu não sou muito bom dançando, Marta.
— Não seja bobo, depois do Marcos pisando no meu pé, você vai parecer o Fred Astaire.
Jonny segurou a mão dela e levantou do sofá desajeitado. Ela segurou as duas mãos dele e as passou em volta da cintura, e as dela em torno do pescoço dele. Nenhum dos dois disse coisa alguma, embora ambos tivessem mil coisas na mente naquele exato momento. Quando a música terminou, ela continuou a abraçá-lo, e sussurrando no ouvido dele, disse:
— Eu acho que continuo tão apaixonada por você quanto eu era na faculdade.
Por um instante, Jonny parou de respirar, engoliu com dificuldade, petrificado com o que acabara de ouvir. Os sentimentos dela, no fundo, não o surpreenderam, mas a naturalidade com que ela confessou o que sentia o fez gelar. Ele não sabia o que fazer ou dizer. Como advogado, sempre preparou as suas falas e atitudes com antecedência, e mesmo quando pego de surpresa, sua rapidez de raciocínio era invejável. No entanto, estar naquela posição com uma mulher que, além de linda, era sua melhor amiga, o fez sentir, no mínimo, desconfortável.
— Marta, está ficando tarde, nós bebemos demais, eu acho melhor ir embora.
Ele afastou-se tentando, de alguma forma, não parecer rude, embora o efeito fosse contrário para a percepção dela. Ele desejou que ela nunca tivesse dito aquelas palavras, ou que ele não tivesse aceitado o convite para subir. Ele tinha imaginado que algo do tipo pudesse acontecer? Não saberia responder a essa pergunta.
— Não precisa ir embora, se não quiser. Eu não estou te pedindo nada, só precisava desabafar. Antes, eu guardava segredo porque você era feliz, mas, agora, Jonny, eu sinto que você precisa de mim tanto quanto eu de você.
Ela deu um passo na direção dele, mas ele afastou-se ainda mais. Ela encarava-o com os olhos brilhando de alívio e angústia. Pela primeira vez, esses sentimentos habitavam simultaneamente o seu coração. Finalmente se abriu, agora ele sabia. Faria alguma diferença?
Ele levou as mãos ao rosto e suspirou.
— Eu tenho que ir, Marta, a minha esposa está me esperando. Até segunda!
Ele foi até ela, deu um beijo na sua testa e partiu.
◆◆◆
Jonny estacionou o carro na garagem de casa, mas não saiu, ficou sentado, braços e cabeça sobre o volante, os seus pensamentos o levavam a vários lugares e momentos ao mesmo tempo.
Ana…
Eram tão felizes juntos antes de…
Pensou em quando a viu pela primeira vez. Não se lembrava do que ela vestia ou algo que o valha, mas lembra de como ela sorriu. O sorriso mais bonito que ele já vira. Menina e mulher, lábios perfeitos, olhos tímidos e sagazes, covinhas nas bochechas e um jeitinho travesso…
Ele soube, desde aquele momento, que ela tinha roubado seu coração e que ele não o queria de volta. A levou para casa, conversaram sobre tudo, coisas importantes, coisas bobas… Foram de ônibus, Jonny não tinha carro, mas ela não se importou. Quando se despediram na entrada, Jonny segurou a mão dela e levou aos lábios. Ela inclinou a cabeça para o lado, tímida.
Sem perder tempo, Jonny a convidou para sair. Marcaram de se encontrar no dia seguinte e ele não sabia como faria para sair com ela sem dinheiro algum. Vendeu todos os discos de rock que tinha para um colega, só para levá-la ao cinema…
Bateu os punhos no volante com força. Depois, abaixou a cabeça encostando a testa nele. Assim, sozinho e de olhos fechados dentro do carro, chorou. As lágrimas rolaram pelo seu rosto descontroladamente. Ninguém que já o tivesse visto num tribunal o reconheceria. Conhecido como um homem seguro, impenetrável, altivo, até mesmo arrogante. O famoso advogado conquistava simpatia dos jurados mais difíceis e a antipatia dos promotores.
Entrou em casa tentando não fazer barulho, para não acordar a esposa, no entanto, assim que fechou a porta atrás de si, a luz do abajur se acendeu.
Ana havia adormecido no sofá onde estivera esperando ele voltar.
— Oi, querida, ainda acordada? — Perguntou enquanto se sentava no sofá em frente ao dela, tirando a gravata.
— Estava esperando você chegar, acabei por cair no sono.
— Sinto muito não ter te avisado que ia demorar, fui beber com o pessoal do trabalho. Falando nisso, seu irmão te pediu para atender as ligações dele.
— Eu… eu não quero falar com ninguém ao telefone, tentam ser gentis, mas isso só piora as coisas.
— Ana, ele é seu irmão e te ama, está preocupado com você. Não pode continuar assim.
— Você está certo, eu sei que não posso me esconder das pessoas que amo, mas não é fácil… — Ana fez uma pausa então segurou a mão dele entre as dela. — João, quero pedir desculpas pelo que aconteceu hoje de manhã.
— Não precisa se desculpar, está tudo bem. — Mentiu, desviando o olhar.
— Não está nada bem, João, eu sei que não está… Você não merece ser tratado assim.
Ele afastou a mão e levantou. Ela continuou sentada, olhando para ele com os olhos marejados.
— Ana, eu estou realmente cansado, hoje foi um dia corrido e já é tarde, vou me deitar, boa noite!
Ana sentiu um vazio no peito ao vê-lo seguir na direção do quarto de hóspedes, como vinha fazendo há mais de dois meses…
◆◆◆
Segunda-feira, quando Ana acordou, Jonny já havia saído para o trabalho, mais uma vez sem se despedir. Ele passou o fim de semana trancado no escritório, argumentando que precisava estudar um caso novo e urgente. Ela só o viu durante a noite, no jantar, mas ele permaneceu de cabeça baixa e em silêncio.
Desde que se casaram, Jonny a beijava antes de ir para o trabalho, sempre fazia questão do beijo de despedida antes de ir à qualquer lugar, e de chegada, tão logo retornava. Aquela era a segunda vez que ele havia negligenciado o hábito, e tudo por culpa dela…
Ana parou em frente a porta aberta do quarto de hóspedes e olhou para a cama em que ele havia dormido, um tanto quanto mal arrumada e sorriu. O marido, famoso e inteligente advogado, não conseguia esticar o lençol sobre a cama.
Ela foi até a cama, se deitou e abraçou o travesseiro, inspirando profundamente, inalando o cheiro dele. O cheiro do homem a quem tanto amava e ainda assim não conseguia tocar… Ele também a amava, pelo menos ela acreditava que sim, mas se perguntava até quando ele suportaria tudo aquilo? Ela queria tanto ser mais forte, superar o que lhe causara tanta dor.
Aquela noite era para ser uma noite feliz para o casal, mas foi o início do fim…
O fim, porque, por mais amoroso que Jonny fosse, por quanto tempo continuaria a amar a esposa que o tratava tão mal? E se ele desistisse dela e fosse embora, como ela poderia culpá-lo?
“Meu Deus, e se ele se for?”
Jonny saiu apressado de casa naquela manhã, precisava chegar cedo ao escritório e preparar o discurso final da defesa. O caso estava praticamente ganho. Seus colegas estiveram preocupados porque o cliente não tinha álibi comprovado até pouco antes do dia do julgamento, e assim sendo, dificilmente escaparia da condenação por latrocínio. Jonny já tinha encontrado o taxista antes, mas manteve segredo até para a equipe dele. Era importante para a tática escolhida que a equipe dele não parecesse confiante. Ele gostava da maneira que manipulava e ludibriava a promotoria.
Com efeito, o júri logo demonstrou empatia pelo réu, que considerou injustiçado. A agressividade da acusação agora tinha o efeito desejado por Jonny, que sorriu como um lobo para o promotor do caso.
Com mais uma vitória no seu currículo, Jonny estava satisfeito. Devia essa vitória, assim como muitas outras, a Ana. Foi ela quem sugeriu que o álibi fosse ocultado dos estagiários propositadamente.
O caso era complicado, as provas eram dúbias e dependiam da interpretação do corpo do júri. Ana lembrou-lhe que dessa forma a promotoria acreditaria ter ganho o caso, relaxariam e agiriam com agressividade contra o réu, na tentativa de conseguir pena máxima. Um grave erro que causou a empatia entre jurados e réu. O tipo de jogada que deixava a promotoria extremamente irritada com ele, e, ao mesmo tempo, elevaria o valor do seu nome e o fazia receber inúmeras propostas.
Jonny admirava mais ainda a esposa e a perspicácia dela, era grato ao apoio que sempre proporcionou à carreira dele, mesmo nos momentos mais difíceis.
Naquela manhã, antes de sair de casa, ele havia visitado o quarto dela. A encontrou dormindo, em paz, fisionomia tranquila, livre das sombras e crueldade do mundo real. O rosto tão sereno, que ele não quis acordá-la, preferiu beijá-la em silêncio e permitir que ela descansasse um pouco mais.
Noites de sono eram raras para ela…
O Julgamento demorou três horas. Jonny se mostrou brilhante como sempre e a sua atuação foi decisiva para o veredito final. Os jurados estavam há pouco mais de vinte minutos deliberando. Durante o intervalo para a deliberação, Jonny estava parado no corredor, encostado na parede bebendo café. Um homem bem-vestido, cerca de 60 anos, olhar sério e sobrancelhas grossas aproximou-se.
— Excelente atuação advogado, a promotoria não tinha a menor chance.
— Muito obrigado, Doutor Moura, vindo do senhor, o elogio tem valor incomparável.
— Então me conhece? Fico lisonjeado.
— Pergunto-me por que um homem importante como o senhor estaria numa audiência sem significação política?
— Tem razão, Doutor Baresi, esse é um caso um tanto ordinário. — Se interrompeu, estendendo a mão para cumprimentarem-se.
— Doutor Moura, é um prazer finalmente conhecê-lo pessoalmente.
— O prazer é todo meu! Aliás, você é a razão da minha presença e não esse caso. Ainda é jovem, no entanto, é razoavelmente experiente e sem dúvidas muito talentoso defendendo criminosos. Nunca pensou em estar do outro lado do tribunal?
— Devo lembrar-lhe que o meu cliente será devidamente inocentado, doravante, não é um criminoso.
— Não me referi a ele em específico.
— O senhor se refere a estar do lado da defesa?
— Sim, imagino que um homem como você na promotoria, ao lado da acusação, faria o ministério público varrer as ruas.
— Para isso, senhor, com todo o respeito, já existem os garis. — Disse Jonny, debochado.
— Perdoe as minhas palavras, a expressão é antiga, muito usada por um político amigo de meu pai.
Um policial militar fardado aproximou-se de Jonny, alertando o chamado do meirinho. O júri havia terminado a deliberação e ele deveria voltar ao tribunal.
Doutor Moura despediu-se logo em seguida.
— O senhor não vai ficar para o veredito?
— Não é necessário, nós dois sabemos o resultado. Peço-lhe, no entanto, que pense bem na minha proposta.
— Então foi uma proposta?
Doutor Moura sorriu e saiu sem responder.
◆◆◆
Depois do almoço, de volta à firma, Jonny estava sentado em frente a sua mesa, organizando os arquivos do caso que acabara de encerrar. O escritório dele era amplo, composto de dois ambientes, com janelas de vidro que iam do chão ao teto e mobiliado com móveis que poderiam ser objetos de museu, escolhidos a dedo por Jonny, que era admirador da era Vitoriana.
Ele desviou sua atenção da tela do computador para a porta que se abriu.
— Oi, Jonny! Eu vim parabenizá-lo pela vitória de hoje.
— Muito obrigado, Marta! Devo dizer que minha equipe e eu conseguimos essa vitória juntos.
Marta entrou fechando a porta atrás de si e deu uns passos em direção à mesa de Jonny, contornando-a de modo que pudesse ficar de frente para ele sem que a enorme mesa de madeira se interpusesse entre eles.
— Jonny, sobre ontem… eu só queria te dizer…
— Está tudo bem, Marta, nós bebemos demais e eu nem sei se lembro direito de coisa alguma. — Disse Jonny, tentando fazê-la sentir-se melhor sobre o assunto.
— Jonny, você sabe…
Aporta se abriu mais uma vez interrompendo o que Marta pretendia dizer. Diego segurava um envelope e olhava para Jonny com a fisionomia séria.
— O que houve, Diego? — Perguntou Marta, irritada com o amigo pela interrupção.
Diego olhou para os dois na sala com os olhos arregalados por trás dos óculos, então se virou para Jonny e disse com um suspiro:
— Atendi, hoje pela manhã, um telefonema do delegado Meireles, ele tentou ligar para sua casa, mas como ninguém atendeu, ele ligou para cá. Eu estava me sentindo lindo e entediado aqui sozinho, então atendi o seu telefone.— Diego suspirou — Jonny, você precisa de um novo secretário urgente. De preferência um bonito, eficiente e não muito inteligente, por favor.
— Vou ver o que posso fazer sobre isso, assim que me tornar sócio. Do que se tratava a ligação afinal de contas? — Perguntou Jonny, olhando para o envelope que Diego tinha em mãos.
Marta aproveitou a deixa e saiu do escritório, deixando-os sozinhos. Diego acompanhou a saída dela com os olhos.
— Jonny, prenderam o sujeito! Ele foi reconhecido por uma mocinha no shopping. Estava com a mãe que ligou para a polícia na hora. O delegado está pedindo para você levar a sua esposa para reconhecimento antes que ele acabe sendo solto. Sabe como é, né… Ela tem apenas dezesseis anos… Peguei tudo o que achei sobre ele e reuni nesse envelope pra você.
— Obrigado, Diego. — Jonny respondeu ao analisar o conteúdo do envelope.
Nome completo do homem, nome da jovem que o reconheceu, nome da mãe da jovem, escola onde estuda, local de trabalho do indivíduo…
— Esse desgraçado filho da mãe é filho de um coronel? — Perguntou Jonny irritado.
— Hum hum — Respondeu Diego fazendo um muxoxo. — Isso vai dar trabalho Jonny…Não gosto de dar conselho, mas se eu fosse você, entraria em contato com a promotoria, quem sabe você não dá uma mãozinha a eles?
Jonny guardou o conteúdo do envelope em sua pasta e levantou, não respondendo o conselho de Diego, embora o tivesse guardado em mente.
— Diego, eu vou sair, tenho que falar com minha esposa. Qualquer coisa, me liga.