Conheci Francisco na Faculdade de Administração, no primeiro semestre nos tornamos amigos. Eu era bolsista, pois minha família era pobre. Ele tinha uma herança de seu pai que era um ator famoso e morreu em uma cena de filme, deixando um enorme patrimônio e um processo gigantesco que foi dividido entre os familiares. Nunca tocamos nesse assunto, pois Francisco era reservado sobre a família; sei que foi criado por várias babás, mas às vezes falava de uma nona, mas logo trocava o assunto quando eu questionava quem era.
Eu sabia seus limites, tudo era difícil já que ele era gay e a sociedade não aceitava muito isso. Ele trabalhava em uma pequena empresa, mesmo sem precisar. Adorava animais e tinha um cãozinho chamado Rock.
Tinha alguns namorados, mas nada que fosse sério.
Assim que conheci Oliver, liguei para ele muito animada. Lembro dele ter dito: "Não se meta com a família Lasier, eles são perigosos."
Não dei bola, afinal ele sempre exagerava em tudo.
Nas sextas-feiras íamos para sua cobertura, comíamos pizza e ríamos até adormecer. Nunca fomos de festa, a faculdade nos traumatizou nessa parte, pois eram tantos jovens bêbados e chatos que prometíamos nunca tomar porre daquele jeito.
Já era noite quando eu recebi uma ligação.
— E aí, perua. Vamos sair ou vai ficar pensando no teu príncipe encantado?
— Francisco, deixa de bobagem, conheci ele ontem e são só negócios.
— Sei, soube que o dia foi bem agitado.
— Eu jamais teria chance com ele.
— Não se tiver usando essas roupas de velha.
— Francisco, você não presta mesmo.
— Você sabe que eu te amo, mesmo quando mistura verde com laranja.
Rimos muito.
— Quer vir aqui para casa para jantarmos?
— Ah, querido. Estou muito cansada e não sei o que o dia me reserva amanhã.
— Ué, vai ir para a realeza novamente?
— Sim, tenho que conhecer mais a empresa e o trabalho dos Lasier.
— Aí está ficando importante, né?
— Pare de deboche, já estou cheia de pressão por conta do meu chefe.
— Amiga, você sempre arrasa. Por que agora seria diferente?
— Não sei, mas achei que seria muito diferente e vou te dizer, achava que o Oliver era bem diferente.
— Ui... Oliver.
— Deixa de palhaçada e vou desligar; preciso tomar banho.
— Está bem, amiga. Eu te amo!
— Também amo você, seu bobo.
Desliguei e logo recebi uma mensagem.
"Adorei passar o dia com você! Ansioso por amanhã!"
Fiquei incrédula com aquela mensagem. Não poderia nem pensar em ter alguma coisa com aquela pessoa de outro patamar e tantas riquezas. Mesmo que o senhor Ricardo tinha dito que era para ir com tudo, acho que não era bem isso que ele estava falando.
Até pensei se eu deveria responder ou se era um teste para ver o quanto eu era interesseira.
Resolvi apenas mandar um emoji sorrindo e não obtive resposta.
Logo pensei como eu era boba. Ele devia estar falando dos negócios e quis me deixar à vontade para o próximo dia.
Estava sem sono e decidi ir pesquisar sobre a família Laiser. Descobri que o legado vem antes do avô do Oliver. Algumas pessoas diziam que ele enrolou um fazendeiro rico, casou-se com sua filha e herdou toda a fortuna; ela faleceu em um acidente misterioso, parece que os freios de seu carro falharam. A partir dali, a fortuna só foi crescendo e como não havia herdeiros do tal fazendeiro, a família Laiser foi aumentando o patrimônio. Mas quem realmente alavancou a fortuna foi o Sr. Olavo que fez negócios internacionais com empresas importantes.
O Sr. Olavo já havia sido casado e tinha uma filha de 25 anos que morava na mansão com a família. Era óbvio que Joana a odiava, pois lembrava muito sua mãe que era sua melhor amiga, até a traição. Dizem que Manuela morreu de desgosto quando sua filha completou 8 anos. Pois tinha tudo quando casada com o Olavo, até mesmo ajudava a alavancar a empresa, tinha muito conhecimento sobre negócios. Mas apresentou sua amiga Joana ao marido, sem imaginar que a tragédia estava por vir. Depois de 6 meses sendo querida e prestativa, veio a quebra da confiança. O Sr. Olavo anunciou seu divórcio e divulgou seu novo relacionamento com Joana. Dali por diante, Manuela se viu obrigada a morar na casa que era para os empregados, junto com sua filha Rebeca. Não podia nem acessar a mansão e chegar próxima ao casal. Quando Rebeca completou 8 anos, Manuela estava esgotada e não tinha mais vontade de viver; pegou uma corda e amarrou na viga mais alta que a casa tinha, morreu na mesma hora. Joana lamentou e disse que a amiga sempre apresentou problemas psicológicos.
Joana era de família pobre e sempre se definiu como uma mulher boa demais para aquela vida simples. Era muito quando jovem, morena alta, esbelta e com grandes atributos. Sempre dizia para a mãe: "Jamais irei casar com um pobre como você". Haviam mais 4 irmãs que trabalhavam na roça e já estavam casadas com simples homens, mas educados. Um dia encontrou sua mãe chorando; seu pai havia falecido cortando cana. Fizeram o enterro simples e sem luxo; foi aí que Joana colocou um ponto final na história. Iria se mudar no outro dia para a cidade grande e encontrar o homem mais rico e poderoso de todos.
Começou a pesquisar todos os homens da cidade grande; alguns eram bonitos, mas não eram ricos o suficiente. Até que recebeu um panfleto de uma empresa chamada Laiser. Ficou alucinada por um tal de Olivio Lasier e nem se importou que o casal tinha uma filha. Começou a vigiar a mansão e monitorar cada passo deles. Até que um dia viu Manuela com roupa de corrida e anotou o horário. No outro dia, lá estava Joana toda pronta para a corrida; comprou roupas em um brechó próximo à pousada em que ficava, conseguia se manter com o dinheiro que recebia de alguns amantes. Assim que Manuela começou a correr, Joana viu sua oportunidade, começou a corrida e simulou um tombo. O que fez Manuela ajudá-la e levá-la para dentro da mansão. Os dias foram passando e ambas começaram a se encontrar; Joana contava histórias para Manuela de como era morar no interior e que seus pais eram ricos e estaria na cidade para concluir seu mestrado. Claro que com a inocência de Manuela, foi bem fácil para Joana frequentar a casa e despertar interesse em Olavo.
Já era tarde e eu precisava dormir; desliguei o computador e adormeci.
Acordei maravilhada; tinha sido uma noite perfeita e eu estava muito feliz! Estava me arrumando quando a campainha tocou — era um entregador com flores. Peguei o cartão no qual estava escrito "Para o grande amor da minha vida!" e assinado pelo Oliver. Suspirei de amor; nada me faria mais feliz naquele momento. Jamais imaginaria que terminaria esse dia de forma lamentável.
Liguei para Oliver imediatamente para agradecer pelas flores. Trocamos algumas palavras quando meu chefe me ligou.
— Oliver, preciso desligar, é meu chefe na linha.
— Certo, acho que boas notícias estão a caminho.
— Ah, tomara.
— Beijos, e já estou ansioso para te ver.
— Eu também. Beijos, querido!
Desliguei e atendi a chamada que estava em espera.
— Chefe, tão cedo?
— Bom dia para a melhor funcionária da empresa!
— Como assim? O que fiz de certo?
— O Senhor Laiser me ligou cedo, dizendo que está impressionado com a sua desenvoltura, e que será ótimo ter um contrato conosco.
— Sim, nossos acionistas estão pulando de alegria!
— Ai, que maravilha, e já temos o contrato?
— Na verdade, ele quer jantar com você hoje à noite para discutir os detalhes.
— Você irá ou alguém da empresa?
— Na verdade, ele quer algo mais informal e que seja com você.
— Tudo bem, me mande os detalhes de local e horário.
— Ah, você sabe se o Oliver estará presente?
— O Senhor Oliver terá que viajar a trabalho esta tarde.
— Ah, entendi.
— Aguarde as informações e tire a tarde de folga. Amanhã iremos comemorar.
— Está bem, até mais.
Achei tudo aquilo muito estranho. Como eu decidiria o que colocar no contrato valioso daquele? Acho que eu nem estava apta para isso. E que estranho o Oliver nem me avisou que ia viajar. Mas também não tinha por que ele me dar satisfações ou explicação sobre seus negócios.
Decidi chamar o Francisco para um café, já que estava com a tarde livre.
— Olá, meu amigo!
— Oi, sumida!
— Vamos tomar um café?
— Claro, a senhorita está de folga?
— Sim, acho que fechamos o contrato.
— Ótimo! Consegue vir naquela cafeteria perto da minha empresa?
— Consigo sim, mas tenho que voltar cedo, pois tenho um jantar.
— Hum, vai sair novamente com o príncipe encantado?
— Na verdade, com o pai dele.
— Amiga, você está rápida, hein.
— Não seja bobo. Te explico tudo quando chegar aí.
— Está bom, vou te aguardar.
Me arrumei com roupas leves. Fazia muito tempo que não sabia o que era uma folga, até porque nossa empresa estava passando por uma crise e não podíamos nos dar o luxo de ficar fora. Estava pronta quando recebi a mensagem de Oliver avisando que iria viajar naquela tarde e que voltaria em 3 dias.
Chamei um táxi, pois meu carro estava em revisão e não tinha previsão de entrega.
Quando cheguei ao local, o Francisco já estava comendo e tomando café.
— Seu guloso, nem me esperou.
— Ai, gata, estou faminto. Vem aqui me dar um abraço.
— Quanta saudade.
— Sim, a princesa agora não me procura mais.
— Ah, Francisco, menos drama. Estamos aqui agora e vamos aproveitar.
— Então, conte-me como vai o conto de fadas.
— É tudo mágico, nem parece que ele é de uma família tão poderosa. Tem uma simplicidade nele que não sei explicar.
— Vai ver ele é adotado.
— Francisco, para de ser bobo.
— Amiga, você não conhece os Lasier. Seriam capazes de tudo.
— Enfim, e você, como estão as coisas?
— Tenho saído com um cara lindo, mas não vai passar disso. Acho ele muito burro.
Começamos a rir.
— Francisco, sempre tão exigente.
— É, amiga, só você pode ter o pacote completo: lindo, rico e humilde.
— E agora me conta o que o chefão quer?
— Então, ele avisou o meu chefe que quer conversar sobre os detalhes do acordo para fechar o contrato. Será um jantar de negócios hoje à noite. Ainda nem sei onde será.
— Seu chefe irá?
— Não, o Sr. Olavio quer somente eu na reunião.
— Que estranho, não?
— Também achei, mas sabe como são esses figurões, querem manter tudo em sigilo total.
— Só tome cuidado, amiga.
— Pode deixar, nada de mal irá acontecer, até porque o Sr. Olavo sempre foi muito atencioso e respeitoso.
— É, mas nunca é o que parece.
— Francisco, para de ser pessimista.
— Ixi, amiga, tenho que ir. Meu chefe está me procurando e eu disse que só iria ao banheiro.
— Meu Deus, Francisco! Por que não me avisou? Eu viria outra hora.
— E perder a oportunidade de ficar com você.
Nos abraçamos e ele foi embora. Fiquei tomando meu café e, depois, peguei um táxi.
Recebi a mensagem de que o jantar seria às 21 horas e o motorista iria me buscar.
Comecei a me arrumar e pensando como era sortuda por tudo o que estava acontecendo. Provavelmente ganharia um aumento salarial, e agora conheci o grande amor da minha vida. Era o melhor momento da minha vida.
Já estava pronta e aguardei o horário. Na verdade, eu nem sabia o que vestir, mas por se tratar de um Laiser, a ocasião pedia sofisticação. Peguei um vestido preto tubinho e salto alto. Achei meio exagerado, já que não tenho o costume de usar roupas justas. Coloquei um terninho para ficar mais apresentável e desci.
— Olá, Mauricio! Que bom te ver novamente.
— É um prazer também estar com a senhora. O Senhor Lasier está te aguardando na empresa.
Pensei: "Ué, profissionalismo sempre".
— Não se preocupe, aquela empresa tem uns cinco restaurantes, não ficará com fome.
Somente dei um sorriso. Estava nervosa e ansiosa. Meu chefe mandou uma mensagem desejando boa sorte. Sentia o peso do mundo nas minhas costas e não podia decepcionar.
Cheguei ao local e fui encaminhada para a cobertura. Havia uma mesa sob a lua, garçons e o Senhor Lasier me esperavam.
— Acho que estou atrasada, peço perdão.
— Não, está tudo bem. Eu que sou adiantado mesmo. Você está muito linda!
Agradeci meio sem graça, pois não estava acostumada a receber elogios de alguém tão importante.
— Então, sua empresa me mostrou que podemos confiar nossas ações a vocês.
— E meu filho foi excelente nessa negociação. A noiva dele ficou muito orgulhosa.
— Noiva?
— Sim, Camila. Terás o prazer de conhecê-la. Estamos promovendo-a a Gerente de Projetos. Oliver saiu em viagem para comemorar.
Fiquei pasma e com raiva.
— Você ficou corada, está tudo bem?
— Sim, desculpe, deve ser a pimenta.
— Quer que eu peça para trocarem o seu prato?
— Não, está tudo bem. Beberei água.
— Seu chefe me encaminhou o contrato, só devo assiná-lo.
— Ah, claro!
Já tinha perdido todas as minhas forças e alegria naquele momento. Não podia acreditar que Oliver estava me enganando.
Jantamos e ele me convidou para um tour na empresa. Me mostrou cada canto e chegamos a uma sala reservada e escura.
— Este é o meu canto predileto, não possui câmeras, ninguém me vigia.
— Muito lindo este lugar.
Apesar de escuro, era luxuoso. Uma sala ampla, como um loft, com um sofá gigante que parecia muito confortável.
— Você está maravilhosa, e acho que você combina com este lugar!
— Obrigada novamente.
Comecei a ficar desconfortável, porque ele estava se aproximando.
— Então, vem aqui mais pertinho.
Disse Olavo, puxando-me pelo braço e pressionando meu corpo contra o dele. Ele era alto e forte, não tive chance de me esquivar quando me beijou.
Me soltei e dei um tapa na cara dele.
— Como ousa, sua vagabunda? Meu filho é melhor que eu? Acha que eu não vi vocês no restaurante?
Novamente, ele me pegou pelos braços.
— Me solte, seu atrevido.
Ele me deu um tapa, e eu caí no sofá. Começou a apertar meu pescoço e me beijar.
Após terminar aquele desespero, o Sr. Olavo saiu e voltou rapidamente.
— Toma, sua mulherzinha, o contrato está assinado.
Aquela noite eu fui estuprada e violentada, e minha vida jamais seria a mesma.