Capítulo 2

A boate lotou rápido demais.

Era como se a cidade inteira tivesse decidido entrar naquele lugar ao mesmo tempo.

Luzes vermelhas atravessavam o salão escuro enquanto a música eletrônica fazia o chão vibrar sob meus pés. O cheiro de perfume caro, álcool e fumaça artificial se misturava no ar de um jeito sufocante. Pessoas dançavam apertadas umas contra as outras, garçons corriam de um lado para o outro e eu mal conseguia respirar sem alguém esbarrar em mim.

- Mesa seis!

- Quem pegou o combo premium?!

- Anastasia, bebida no camarote!

As vozes vinham de todos os lados.

Eu já tinha perdido completamente a noção das horas.

Meu cabelo começava a escapar do coque, meus pés doíam e minhas costas pareciam prestes a quebrar ao meio, mas pelo menos existia um lado bom naquela loucura:

As gorjetas.

Meu avental já estava mais pesado do que o normal por causa das notas dobradas que alguns clientes colocavam ali. Alguns homens davam dinheiro só porque eu sorria. Outros porque eu ignorava as cantadas horríveis deles.

Um senhor grisalho tentou segurar minha mão quando fui entregar um whisky.

- Casa comigo, boneca.

Forcei um sorriso profissional.

- Acho que sua esposa não gostaria muito da ideia.

Ele gargalhou alto, completamente bêbado.

- Eu pago bem!

- Boa noite, senhor.

Saí antes que ele tentasse tocar em mim de novo.

Outro homem passou a mão pela minha cintura quando cruzei o salão.

Desviei imediatamente.

Respira, Anastasia.

Só trabalha.

Só sobrevive mais uma noite.

Passei atrás do bar para pegar outro pedido quando ouvi a voz do gerente atravessando o caos.

- ANASTASIA!

Fechei os olhos por um segundo antes de me virar.

Augusto estava perto do caixa apontando para uma bandeja enorme cheia de bebidas caras.

Muito cheia.

Cheia demais.

- Pedido três. Área VIP.

Olhei a bandeja.

Depois olhei para ele.

- Você quer mesmo que eu leve isso sozinha?

- Sim.

- Tem umas quinze taças aí.

- E?

Ergui uma sobrancelha.

- Está pesada pra caramba.

Augusto deu um sorriso frio.

- O problema é seu.

Meu maxilar travou.

Por um segundo inteiro imaginei jogando aquela bandeja na cabeça dele.

Mas eu precisava daquele emprego.

Então apenas respirei fundo, coloquei a bandeja nos braços e comecei a atravessar a multidão.

O peso era absurdo.

Meus pulsos ardiam enquanto eu desviava das pessoas no salão principal. Subir a escada para a área VIP foi ainda pior porque eu precisava equilibrar as bebidas enquanto homens bêbados praticamente bloqueavam meu caminho.

Quando finalmente alcancei o topo, precisei parar um segundo para recuperar o fôlego.

E foi aí que percebi.

A área VIP estava diferente do resto da boate.

Mais silenciosa.

Mais tensa.

Ali o dinheiro parecia gritar.

Homens usando relógios que provavelmente custavam mais que minha casa inteira estavam espalhados pelos sofás luxuosos. Mulheres lindíssimas riam sentadas nos colos deles, usando vestidos mínimos e joias brilhantes.

Mas o mais estranho era que havia muito mais mulheres do que homens.

Como se aquelas pessoas fossem... acompanhantes.

Meu estômago revirou um pouco.

Continuei andando até a mesa principal.

E então meus olhos encontraram ele.

O único homem que não tinha ninguém pendurado no colo.

Loiro.

Muito alto.

Bonito não chegava nem perto.

Ele devia ter pouco mais de trinta anos, talvez trinta e cinco. Ombros largos, barba clara extremamente bem feita e uma presença tão absurda que parecia ocupar espaço demais mesmo sentado.

E os olhos...

Meu Deus.

Os olhos dele eram frios.

Não frios de um jeito arrogante.

Frios de um jeito perigoso.

Como gelo antes de uma tempestade.

Ele estava encostado no sofá escuro usando um terno preto impecável enquanto observava o ambiente ao redor como alguém que nunca realmente relaxava.

Quando nossos olhos se encontraram, meu coração falhou uma batida.

Literalmente.

Pisquei rapidamente.

Tá.

Muito gato.

Muito, muito gato.

Fiz uma nota mental instantânea:

Preciso contar pra Beck sobre esse homem.

Aproximei-me da mesa tentando ignorar o jeito como ele continuava olhando para mim.

Comecei a servir as bebidas uma por uma.

Whisky.

Vodka.

Champanhe.

As mulheres mal agradeciam. Algumas nem olhavam na minha cara.

Um homem moreno pegou a taça da minha mão e sorriu torto.

- Um desperdício você trabalhar como garçonete.

Ignorei.

Outro riu.

- Concordo.

Continuei servindo.

Aprendi fazia tempo que responder homens assim só piorava as coisas.

Então cheguei até ele.

O misterioso loiro.

De perto era pior.

Ou melhor.

Muito melhor.

O perfume dele era amadeirado e forte. O maxilar perfeitamente desenhado parecia saído de filme. E mesmo sentado ele parecia enorme.

Estendi a mão para servir a bebida.

E então aconteceu.

Meu pé virou.

Talvez por causa do salto.

Talvez porque alguém esbarrou em mim.

Talvez porque eu estivesse nervosa demais sob aquele olhar.

Só sei que tropecei.

A bandeja inclinou.

E o líquido gelado caiu direto nele.

No terno preto impecável.

No peito.

No colo.

O mundo parou.

Meu cérebro simplesmente apagou.

Pronto.

É meu fim.

- Meu Deus!

A bandeja escapou parcialmente da minha mão e algumas taças caíram no chão com um som alto de vidro quebrando.

- Desculpa! Desculpa, eu-

Minha respiração travou.

O homem continuava sentado.

Imóvel.

A bebida escorria lentamente pelo tecido escuro do terno enquanto todos ao redor olhavam para nós.

Ninguém ria agora.

O silêncio ficou pesado.

Perigoso.

Abaixei imediatamente para recolher os cacos com as mãos trêmulas.

- Me desculpa... eu sinto muito... eu-

Quando me virei, vi Augusto vindo praticamente correndo até nós.

Ótimo.

Agora sim minha vida acabou.

- Anastasia! Que porra você fez?!

- Foi sem querer, eu-

Ele me ignorou completamente.

Abaixou-se para pegar alguns cacos e depois segurou meu braço com força demais.

- Você é burra?!

Senti todos olhando.

As mulheres.

Os homens.

Os seguranças.

Meu rosto queimou na mesma hora.

- Eu tropecei...

- Você tinha UMA função! UMA!

- Augusto-

- Cala a boca!

Meu peito apertou instantaneamente.

Eu odiava quando gritavam comigo.

Odiava.

As pessoas da mesa começaram a observar a cena como entretenimento.

Uma das mulheres riu baixo.

Outra cochichou algo no ouvido do homem ao lado.

Augusto continuava.

- Você faz ideia de quanto custa esse terno?! Faz?!

Minha garganta queimou.

- Eu vou pagar...

Aquilo fez alguns deles rirem.

Rirem.

Porque sabiam que eu nunca teria dinheiro para isso.

Augusto soltou uma risada debochada.

- Pagar? Com salário de garçonete? Você levaria uns dez anos.

Meu rosto começou a arder.

Humilhação pura.

Crua.

E o pior de tudo?

O homem loiro continuava me olhando em silêncio.

Sem rir.

Sem falar nada.

Apenas olhando.

Aquilo somehow piorava tudo.

Augusto soltou meu braço bruscamente.

- Some da minha frente antes que eu te mande embora agora mesmo.

Eu não consegui responder.

Porque se abrisse a boca iria chorar ali mesmo.

Então apenas me virei.

E desci correndo.

A música da boate voltou a parecer ensurdecedora enquanto eu atravessava as escadas sem enxergar direito por causa das lágrimas. Meu peito doía tanto que parecia difícil respirar.

Passei pelo corredor dos funcionários ignorando quem tentava falar comigo.

Só queria sair dali.

Só queria desaparecer.

As lágrimas escorriam quentes pelo meu rosto enquanto eu empurrava a porta dos fundos da boate e o ar frio da noite me atingia em cheio.

Humilhada.

Na frente de todos.

E sem fazer ideia de que, naquele exato momento, o homem mais perigoso daquela sala ainda observava o lugar onde eu estava segundos antes... completamente incapaz de tirar da cabeça meus olhos absurdamente azuis.

Capítulo 3

O gosto do whisky ficou irrelevante no momento em que ela saiu correndo.

As risadas ao redor continuavam.

Altas.

Irritantes.

Vazias.

Observei a porta da escada pela qual a garota desapareceu enquanto o líquido gelado escorria lentamente pela minha camisa social preta. O tecido grudava levemente na minha pele, mas eu mal percebia.

Porque só conseguia pensar nela.

Nos olhos.

Porra...

Aqueles olhos.

Azuis demais.

Não o azul artificial que mulheres tentavam criar com lentes baratas. Não. Os dela eram diferentes. Claros, vivos, absurdamente intensos.

Pareciam errados naquele lugar.

Como algo puro jogado dentro de um poço cheio de sujeira.

Peguei lentamente o guardanapo sobre a mesa e comecei a secar a bebida da camisa sem pressa alguma.

Ao meu redor, alguns ainda riam da cena.

Idiotas.

Nikolai, sentado no sofá ao lado, soltou uma risada nasal.

- A garota parecia prestes a morrer.

Ignorei.

Outro homem comentou:

- O gerente quase arrancou a cabeça dela ali mesmo.

Mais risadas.

Meu maxilar travou devagar.

Então olhei para o gerente.

Ele ainda recolhia os cacos no chão enquanto tentava sorrir para os outros homens da mesa, claramente nervoso.

Quando percebeu que eu o encarava, o sorriso desapareceu imediatamente.

Bom.

Levantei devagar.

O silêncio começou antes mesmo de eu falar qualquer coisa.

Sempre acontecia.

Não porque eu gritava.

Não porque ameaçava.

Mas porque homens inteligentes percebiam perigo antes dele explodir.

Peguei o paletó molhado do sofá e o entreguei a um dos seguranças sem desviar os olhos do gerente.

O homem engoliu seco.

- Senhor... eu peço desculpas pelo ocorrido. A garota é nova, desastrada, eu-

Aproximei-me lentamente.

Ele calou a boca sozinho.

Interessante.

Parei bem na frente dele.

Mais alto.

Mais forte.

E completamente sem paciência para aquele tipo de verme.

- Você sente prazer nisso?

Ele piscou confuso.

- Senhor?

- Humilhar pessoas.

Minha voz saiu baixa.

Controlada.

Muito pior do que quando eu gritava.

O gerente começou a suar quase imediatamente.

- Não... eu só precisava resolver a situação...

Inclinei levemente a cabeça.

- Resolvê-la?

As mulheres ao redor começaram a ficar quietas.

Os homens também.

- Ela derrubou bebida no senhor, eu precisava-

- E por isso decidiu destruí-la na frente de todos?

Ele abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

- Eu...

As risadas atrás de mim continuavam baixas. Alguns daqueles imbecis ainda pareciam achar aquilo engraçado.

Perdi a paciência.

Virei lentamente o rosto para o restante da área VIP.

- Saiam.

Silêncio absoluto.

Uma das mulheres riu nervosa achando que era brincadeira.

Não era.

Olhei diretamente para ela.

Ela parou de rir na mesma hora.

- Todos vocês - falei friamente. - Agora.

Ninguém discutiu.

Nunca discutiam.

Em menos de dois minutos a área VIP inteira começou a esvaziar. Saltos ecoavam apressados pelo piso escuro enquanto homens pegavam bebidas e casacos sem coragem de reclamar.

Nikolai passou por mim soltando um pequeno assobio divertido.

- O pobre coitado vai morrer?

Ignorei.

A porta se fechou atrás do último homem.

Agora restavam apenas eu, o gerente... e meus seguranças perto da entrada.

O silêncio ficou pesado.

O gerente estava quase tremendo.

Aproximei-me novamente.

- Qual o nome dela?

- Senhor?

- A garçonete.

- Anastasia.

Anastasia.

O nome encaixou perfeitamente nela.

Limpo demais para aquele lugar.

Passei a língua lentamente pelos dentes enquanto observava o homem à minha frente.

- Chame ela.

O gerente empalideceu.

- Senhor... ela provavelmente foi embora...

Meus olhos encontraram os dele outra vez.

Ele parou de respirar direito.

- Então encontre.

- Sim, senhor.

Ele praticamente tropeçou nos próprios pés ao sair dali.

Observei a porta se fechar atrás dele.

Então caminhei lentamente até o sofá outra vez.

Sentei.

E pela primeira vez em semanas percebi algo irritante:

Eu não conseguia tirar uma desconhecida da cabeça.

Isso não acontecia comigo.

Nunca.

Mulheres sempre existiram ao meu redor.

Belas.

Disponíveis.

Descartáveis.

Eu nunca prestava atenção o suficiente para lembrar seus rostos no dia seguinte.

Mas aquela garota...

A forma como tentou pedir desculpas mesmo claramente aterrorizada.

O jeito que a voz dela tremia.

E aqueles olhos absurdamente azuis me encarando por um segundo antes do desastre.

Fechei os olhos brevemente.

Perigoso.

Muito perigoso.

Porque obsessão começava exatamente assim.

Pequena.

Silenciosa.

Quase inocente.

Até consumir tudo.

A porta da área VIP se abriu novamente alguns minutos depois.

O gerente voltou.

Sozinho.

Meu olhar ergueu lentamente até ele.

- E então?

Ele engoliu seco.

- Ela... ela não quer voltar, senhor.

Um sorriso frio quase surgiu no meu rosto.

Não quer voltar.

A maioria pisaria nos próprios amigos para entrar naquela área VIP outra vez.

Mas Anastasia tinha fugido.

Como um animal assustado tentando sobreviver.

Interessante.

Muito interessante.

Cruzei os braços devagar.

- Traga ela mesmo assim.

- Senhor... ela está chorando...

Olhei para ele em silêncio.

O homem pareceu perceber tarde demais que tinha falado demais.

- Eu vou buscá-la agora. Desculpe.

Ele saiu quase correndo novamente.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti algo raro crescer lentamente dentro de mim.

Curiosidade.

Porque naquela cidade cheia de pessoas falsas, interesseiras e desesperadas por dinheiro...

A garota dos olhos azuis tinha olhado para mim como se eu fosse apenas mais um homem.

E eu já estava começando a perceber que isso talvez fosse um problema.

Quando a porta da área VIP se abriu novamente, eu esperava encontrar uma funcionária tentando manter a postura.

Mas a garota que entrou parecia prestes a desmoronar.

Anastasia mantinha os braços grudados ao próprio corpo como se estivesse tentando ocupar menos espaço no mundo. O rosto estava vermelho, os olhos inchados e brilhantes pelas lágrimas recentes, e ela tremia discretamente enquanto caminhava para dentro da sala.

Ainda assim...

Ainda era linda pra caralho.

O vestido preto simples do uniforme abraçava o corpo dela sem exageros, o cabelo preso às pressas deixava alguns fios claros escaparem perto do rosto e aqueles olhos azuis pareciam ainda mais intensos depois do choro.

Ela evitava me olhar diretamente agora.

Interessante.

O gerente vinha logo atrás dela, tenso como um condenado indo para execução.

Anastasia parou alguns passos distante de mim.

- Senhor... eu... eu queria pedir desculpas outra vez.

A voz dela saiu baixa.

Frágil.

- Isso não costuma acontecer. Eu realmente tropecei, foi sem querer e-

Ela respirou fundo rapidamente como se estivesse tentando não chorar de novo.

- Eu sinto muito pela sua camisa.

Meu olhar foi imediatamente para o gerente.

O homem mantinha a cabeça baixa agora, mas ainda havia algo ali que me irritava profundamente.

Covardia.

Ele só gritava quando achava que tinha poder.

Odeio homens assim.

Meu sangue ferveu outra vez ao lembrar dela sendo humilhada na frente de todos enquanto aqueles idiotas riam.

Injustiça sempre me irritou.

Talvez porque eu tenha crescido cercado dela.

Talvez porque homens fracos adorassem destruir quem não podia revidar.

Apontei para o sofá à minha frente.

- Sente-se.

Ela piscou surpresa.

- O quê?

- Você está tremendo.

Anastasia hesitou.

Como se estivesse esperando aquilo virar uma armadilha.

Depois sentou lentamente na ponta do sofá, claramente desconfortável.

Peguei uma caixa de lenços sobre a mesa de vidro e estendi para ela.

Os dedos dela tocaram os meus rapidamente quando pegou.

Gelados.

Muito gelados.

Ela murmurou um "obrigada" quase inaudível enquanto enxugava o rosto discretamente.

Então olhei para o gerente.

E toda a temperatura da sala pareceu cair.

- Você está demitido.

O homem levantou a cabeça imediatamente.

- Senhor, eu-

- Por justa causa.

O silêncio ficou absoluto.

Anastasia ergueu os olhos rapidamente para mim.

O gerente empalideceu.

- Senhor Dmitry, eu só estava tentando proteger a imagem da-

- Acho que você não sabe de uma coisa.

Aproximei-me devagar.

O homem começou a recuar instintivamente.

- Esta boate é minha.

Ele parou de respirar direito.

Bom.

Continuei:

- E eu não pago funcionários para humilhar mulheres na frente de clientes como um animal sem controle.

- Senhor, ela derrubou bebida em-

- Foi um acidente.

Minha voz saiu mortalmente calma.

Muito pior.

- E você transformou um acidente em espetáculo.

Ele começou a gaguejar.

- Eu... eu posso melhorar... isso não vai acontecer de novo...

Inclinei levemente a cabeça.

- Suma da minha frente antes que eu mude de ideia e ache que sua cara de bunda não merece continuar viva.

O homem congelou.

Anastasia também.

Por alguns segundos ninguém se moveu.

Então o gerente praticamente saiu correndo da área VIP.

A porta bateu forte atrás dele.

Silêncio.

Voltei minha atenção para Anastasia.

Ela ainda me encarava como se estivesse tentando entender se aquilo tinha realmente acontecido.

Os dedos apertavam o lenço nervosamente.

- Você não precisava fazer isso... - ela murmurou.

- Precisava, sim.

Ela abaixou os olhos.

Bonita até fazendo isso.

Porra.

Passei a mão lentamente pela barba tentando controlar a irritação que ainda queimava dentro de mim.

- Qual seu nome completo?

- Anastasia Volkova.

Volkova.

Quase sorri.

Destino tinha senso de humor às vezes.

- Você estuda?

Ela pareceu surpresa pela pergunta.

- Veterinária.

- Hm.

Ela ajeitou a postura discretamente quando percebeu que eu continuava olhando para ela por tempo demais.

Como se tivesse ficado consciente do próprio corpo de repente.

Fofo.

Perigoso.

Ela limpou a garganta antes de falar:

- Eu vou dar um jeito de pagar sua camisa.

A risada escapou antes que eu pudesse impedir.

Baixa.

Verdadeira.

Isso pareceu surpreendê-la ainda mais.

- Anastasia...

Inclinei-me um pouco para frente.

- Iguais a essa eu tenho muitas.

Ela ficou vermelha outra vez.

- Mesmo assim-

- E eu nunca faria aquilo com alguém por causa de um acidente.

Os olhos dela finalmente encontraram os meus de novo.

Azuis.

Cristo...

Aquela garota tinha olhos capazes de começar guerras.

Ela desviou primeiro.

Claro que desviou.

Pessoas sempre desviavam de mim eventualmente.

Mas não antes de eu perceber algo importante:

Anastasia não parecia interessada no meu dinheiro.

Nem impressionada.

Nem tentando me agradar.

Ela parecia apenas... assustada.

E isso tornava tudo pior.

Porque eu queria fazê-la parar de olhar para mim daquele jeito.

Ela respirou fundo.

- Então... eu estou demitida?

Ergui uma sobrancelha.

- Não.

Ela pareceu genuinamente confusa.

- Não?

Cruzei os braços devagar.

- Agora você é a gerente.

O silêncio seguinte foi tão absoluto que consegui ouvir a música distante da boate lá embaixo.

Anastasia arregalou os olhos imediatamente.

- O quê?!

Quase sorri outra vez.

- Você ouviu.

- Não, não... isso não faz sentido! Eu nem sei administrar uma boate!

- Seu ex-gerente também não sabia.

Ela abriu e fechou a boca algumas vezes claramente sem conseguir processar.

Bonita.

Muito bonita.

Então, antes que eu esperasse, ela segurou minha mão com as duas dela impulsivamente.

Quente agora.

Pequena.

Delicada.

Meu corpo inteiro ficou perigosamente atento ao toque.

- Obrigada... sério... obrigada.

Os olhos dela brilhavam outra vez, mas agora sem lágrimas.

E naquele exato momento percebi algo extremamente inconveniente:

Eu estava completamente fodido.

Porque homens como eu não sobreviviam bem depois de encontrar algo que despertava interesse real.

E Anastasia acabava de se tornar exatamente isso.

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