Capítulo 2

No dia do meu casamento, o noivo desapareceu.

Liguei para o telemóvel dele, mas estava desligado.

Os convidados começaram a murmurar, os seus olhares a passarem de pena para desprezo.

O meu pai, com o rosto pálido, tentava manter a compostura, mas as suas mãos a tremer denunciavam o seu nervosismo.

"Eva, o que se passa com o Leo? Porque é que ele ainda não chegou?"

Eu não sabia o que responder.

Agarrei com força o meu vestido de noiva, o tecido caro a amachucar-se nos meus dedos.

Nesse momento, o meu telemóvel vibrou.

Era uma mensagem de um número desconhecido, com uma fotografia anexada.

Abri a imagem e o meu mundo desabou.

Era o Leo, o meu noivo, deitado numa cama de hospital, com o rosto pálido e os olhos fechados. Ao seu lado, a segurar-lhe a mão, estava a minha irmã mais nova, a Sofia. Ela olhava para ele com uma expressão de profunda preocupação.

A legenda da foto dizia: "O Leo desmaiou de repente. Os médicos dizem que é uma arritmia grave. Eva, ele precisa de mim agora. Não posso deixá-lo."

Arritmia.

A mesma doença cardíaca que eu tinha. A doença que me fez passar a infância e a adolescência dentro e fora de hospitais.

Senti o meu próprio coração a falhar uma batida, não por causa da doença, mas pela traição.

O Leo sabia tudo sobre a minha condição, ele prometeu cuidar de mim para sempre.

E agora, ele estava no hospital, e a pessoa ao seu lado não era eu, a sua noiva, mas a minha irmã.

A minha mãe correu para o meu lado, arrancando o telemóvel da minha mão.

Quando viu a foto, o seu rosto ficou lívido de raiva.

"Aquela desgraçada! Como é que ela se atreve? Depois de tudo o que fizemos por ela!"

Ela agarrou no seu próprio telemóvel e ligou para a Sofia. A chamada foi para o altifalante.

"Sofia! O que pensas que estás a fazer? Volta já para aqui! Hoje é o casamento da tua irmã!"

A voz da Sofia soou do outro lado, calma e desafiadora.

"Mãe, o Leo está doente. Ele precisa de mim."

"Ele tem a Eva! Ela é a noiva dele! É com ela que ele se vai casar, não contigo!" gritou a minha mãe, a sua voz a ecoar pela sala silenciosa.

"Mas eu sou a única que o pode salvar," respondeu a Sofia, a sua voz baixa mas firme. "Os médicos disseram que ele precisa de um transplante de coração, e o meu tipo de sangue é compatível. O da Eva não é."

Capítulo 3

Um transplante de coração.

Aquelas palavras atingiram-me com a força de um soco.

Eu sabia que o meu tipo de sangue, O negativo, era raro. O do Leo era AB positivo, o recetor universal.

O da Sofia, no entanto, também era O negativo.

A minha mãe ficou sem palavras por um momento, a sua raiva substituída por um pânico visível.

"Sofia, não sejas estúpida! Doar o teu coração? Isso é suicídio! Tu és a nossa filha!"

"E o Leo não é o vosso futuro genro?" a Sofia retorquiu. "Vocês sempre disseram que ele era como um filho para vocês. Estão dispostos a deixá-lo morrer?"

Um silêncio pesado caiu sobre a sala.

Eu olhei para os meus pais. O meu pai tinha o rosto enterrado nas mãos, a minha mãe olhava para o telemóvel com horror.

Eles amavam o Leo. Ele era o filho que nunca tiveram, o genro perfeito, o CEO de uma empresa de sucesso que prometia um futuro dourado para a sua filha mais velha e doente.

Mas a Sofia... ela era a filha saudável, a sua esperança para o futuro.

"Não," sussurrou a minha mãe. "Não podes fazer isso."

"Eu já me decidi," disse a Sofia. "Eu amo o Leo. Sempre o amei. Se ele morrer, a minha vida também não tem sentido."

O amor dela.

Sempre soube que a Sofia tinha uma paixoneta pelo Leo, mas pensei que era apenas admiração inocente.

Nunca imaginei que fosse tão profundo, tão sacrificial.

"Eva," a voz da Sofia dirigiu-se a mim através do telemóvel. "Desculpa. Eu sei que hoje é o teu grande dia. Mas não posso deixá-lo morrer. Por favor, perdoa-me."

Perdoá-la?

Ela roubou-me o noivo no dia do meu casamento, usando o seu próprio coração como arma.

Como poderia eu perdoá-la?

"Não," disse eu, a minha voz a sair mais forte do que esperava. "Eu não te perdoo."

Desliguei a chamada.

Olhei para a multidão de convidados, para os seus rostos cheios de pena e curiosidade mórbida.

Subi ao pequeno palco montado para a cerimónia.

Peguei no microfone.

"Peço desculpa a todos," anunciei, a minha voz a tremer ligeiramente. "Parece que o noivo encontrou alguém que o ama mais do que eu. Alguém disposta a morrer por ele."

Fiz uma pausa, deixando as minhas palavras pairarem no ar.

"O casamento está cancelado."

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