Lucas
Entrei em casa ainda sentindo meu rosto quente, e vermelho. Que menina louca, meu primeiro "beijo" não foi nem de longe como eu imaginei.
- Onde cê tava Lucas? Minha mãe estava parada na porta me olhando atentamente.
- É... Eu fui à farmácia. Gaguejei, lembrei de Julia, de novo.
- Na garupa da moto da Julinha? Essa mulher sabe de tudo como pode?
- Ela me pediu ajuda, na farmácia. Minha mãe me olhou desconfiada, abaixei a cabeça.
- A Julinha não é companhia para você, Lucas. Esse mundo que ela vive não é o teu.
- Mas a Bíblia fala para não virar as costas para nossos irmãos.
- Meu filho, é mais fácil ela te levar pro mundo dela do que ela vir para o seu. Olhei para minha mãe. - Se afasta dela, é um conselho que te dou. Permaneci calado, não sei se consegue ria me afastar agora de Julia.
Entrei no quarto, e deitei na cama. Meu celular tocou.
- Alô.
- Consegui seu número por aí. Sorri, era ela.
- Fala...
- Quer sair hoje a noite? Vamos em um restaurante.
- Não posso. Hoje tenho culto. Quer ir?
- Sim! Que horas?
- A.. As 19.
Gaguejei, ela vai mesmo? Me despedi e desliguei o telefone sem acreditar.
Terminei às 18 horas, passei mais um pouco de perfume, peguei meu celular, a Bíblia e fui caminhando para a igreja. Meu pai me pede para chegar cedo e esperar os irmãos, ele diz que assim vou aprender mais para me tornar um bom pastor no futuro, como ele mesmo diz: depois que eu me casar...
Será se Julia realmente vai? Parei na porta da igreja de cabeça baixa.
- E aí, cara? Levantei a cabeça.
- Oi, Igor tudo bem?
- Te vi hoje subir o morro com a minha irmã. Ele levantou a camisa me mostrando a ponta do 38 que estava em sua cintura.
- Você me conhece bem. Eu sou a última pessoa que colocaria um dedo nela. Ele balançou a cabeça afirmando e saiu andando devagar, passei as duas mãos na cabeça. Olhei para cima e vi Julia descendo a rua. Ela estava linda usando um vestido rosa de mangas longas que chegava perto dos seus joelhos. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque com alguns fios soltos. Meu coração acelerou quando a-vi chegando mais perto, ela realmente veio. Até me esqueci que Igor acabava de me ameaçar por esta perto dela. - Oi, Julinha. Falei sorrindo. - Você veio! Ela assentiu, me dando um beijo no rosto.
- Falei que viria. Olhei meu relógio já era (19:10). Conduzi-a para dentro da igreja, e nós sentamos em um dos últimos bancos. Coloquei ela mais afastada por medo dela se senti desconfortável com os olhares de julgamento, mas Julia parecia não se incomodar.
- Tô forçando a barra? Ela me olhou por um segundo e voltou a atenção para o púlpito.
- Não, eu gosto de esta com você. Apertei levemente a mão dela e soltei. Julia permaneceu em silêncio, mas vi que um sorriso se formou em seu lábio. No momento em que o coral começou a cantar vi Julia ficar atenta.
Eu vi que aquele louvor tocou ao coração de Julia, e me emocionei com ela.
Quando o culto acabou, Julia se despediu de mim com um abraço e foi embora, caminhando. Ela não tentou me beijar de novo, não me convidou para sair. Só me deu um abraço e falou:
- Obrigada por me convidar. Fiquei confuso, voltei para casa a todo momento verificando seu havia alguma mensagem, ou ligações. Tentei retornar para ela, mas a sua ligação foi de um número privado.
- Por favor me liga. Falei olhando para a tela do celular.
Já era quase 1:00 hora da manhã quando desisti de esperar... Quando me deitei na cama, e em poucos minutos eu já está a um sono profundo, sonhei com Julia chegando na igreja. Que cena perfeita...
Muito longe ouvia o toque do meu despertador, abri os olhos e peguei celular, desativei o alarme, mas ainda não tinha nenhuma mensagem de Julia, provavelmente ela desistiu de mim, é... eu deveria ter dado ouvidos a minha mãe. Que por acaso está parada na porta me olhando, ela vai brigar!
- Bom dia, mamãe. Me levantei, fui até ela, dei um beijo em sua bochecha e me afastei esperando o que estava por vir.
- Bom dia, filho. Fiquei sabendo que você levou a Julinha ontem na igreja, você sabe o que está fazendo, Lucas? Na realidade não, mas o que posso dizer? Julia é especial para mim, e não poderia deixar de convidá-la para a igreja. Acho que ele nunca foi em um culto, Jesus jamais perderia a oportunidade de levar sua palavra para uma alma. Minha mãe aguardava uma resposta.
- É só amizade mãe, eu só quero que ela conheça a palavra. Ela balançou a cabeça e saiu. Lembro bem de ter dito a Julinha que eu não queria problemas, e agora tenho dois: o irmão dela, e minha mãe. Melhor eu ir para a faculdade...
- Lucas? Ouvi a voz dela, enquanto descia o morro para pegar a condução, a voz dela estava tão suave aos meus ouvidos aquele momento, que até fui capaz de fingir que não ouvi só para ela falar mais nome mais uma vez com aquele lindo sotaque. - Lucas? Me virei sorrindo, possivelmente com a maior cara de bobo do mundo.
- Bom dia, Julinha. Ela sorriu, com seus lindos olhos brilhando. Julia estava dentro do carro do irmão dela, provavelmente indo para a escola. Aqui no morro todo mundo sabe da vida um do outro e todos dizem que o que Igor mais quer é que ela se forme para sair daqui. Já ouvi dizer que ele é super protetor com ela porque já juraram Julinha de morte, não por ela fazer algo, mas por saberem que ela é o único ponto fraco dele.
Julia
- Quer carona? Ele balançou a cabeça afirmando. Pela primeira vez não preciso insistir. Abri a porta do carro e Lucas entrou. - UFRJ né? Falei enquanto colocava no GPS do celular. Puts, 40 minutos acho que vou desistir dessa carona.
- É longe. Ele sorriu. Coloquei a mão na perna dele e vi todo o seu corpo ficar tenso. Tirei imediatamente. - Gostou do culto?
- Sim, foi ótimo, quero ir mais vezes. Lucas olhou para mim. - Quer sair hoje? Arrisquei.
- Aonde vamos? Uau, mais uma vez não precisei insistir. Ainda quero um beijo dele, um não vários, mas depois de ontem como posso pedir isso a ele? Seria de extrema falta de compreensão da minha parte. A.. Horrível não poder ter ele a todo momento, mesmo estando aqui tão perto. - Podemos ir ao restaurante que você falou ontem? Voltei ao presente.
- Sim. Vamos jantar! Que horas te busco? O celular dele tocou, ele me pediu um minuto e atendeu, fiquei em silêncio.
"Oi, Beatriz. Não, vou chegar um pouco mais cedo hoje. Sim... estou levando, ok. Tchau!"
Beatriz? Não vou perguntar, fiquei calada. O clima ficou pesado, estranho. Não estou com ciúmes, só foi estranho.
- Posso te levar? Ele falou, respirei fundo, acho que nem quero mais ir.
- Vamos adiar. Lucas me olhou sem entender, mas não questionou, talvez por perceber que fiquei cismada, ou talvez apenas por não fazer questão. Pisei acelerador, para acabar logo com o clima tenso entre nós, meu carro ficou do tamanho de uma lata de sardinha.
- Obrigada pela carona. Lucas tirou o cinto, se aproximou de mim, ele encostou seus lábios em meu rosto e eu fechei meus olhos, por um segundo achei que ele ia me beijar. - Julia... sua voz macia fez meu corpo arrepiar, seus lábios continuavam encostados em meu rosto, coloquei as mãos em seu cabelo, enrolando-os em meus dedos. Segurei seu rosto com às duas mãos, e encostei meus lábios nos dele. Lucas segurou em meu pescoço, deu continuidade ao beijo, que beijo esperado. Os lábios dele estavam quentes, macios e pareciam ansiar por esse beijo tanto quanto os meus.
- Desculpa. Fechei meus olhos encostando minha testa na dele, seria errado pedir a ele mais um beijo agora? Lucas colocou uma mecha de meu cabelo para detrás da orelha, e encostou seus lábios mais uma vez nos meus, ele pareceu ler o meu pensamento. Até me arrisco a dizer que estou me apaixonando, será?
- Posso te pegar para a gente ir jantar? Sorri, vai ser difícil me afastar dele agora. - As 19?
- Estarei te esperando. Lucas piscou para mim e saiu do carro. Vou passar o dia agora pensando nesse beijo, Igor não pode sonhar que isso está acontecendo, não gosto nem de imaginar o que ele poderia fazer.
Cheguei no colégio, cedo me sentei na escada da entrada, esperando chegar a hora. Peguei meu celular e enviei uma mensagem para Lucas.
"Te encontro na saída?"
Isso é muito coisa de adolescente, guardei celular e fui para a minha sala, primeira aula português, uma das minhas matérias preferidas. Atentei-me ao conteúdo e deixei de lado as banalidades do dia, se eu não recuperasse o que perdi nos últimos três dias Igor iria pegar muito no meu pé, e talvez até dá, um jeito de não me deixar sair de casa, e agora eu não posso me dá esse luxo. O meu período de aulas já estava chegando ao fim quando peguei meu celular para vê se havia alguma mensagem de Lucas, mas, na verdade, o que me chamou atenção foram as várias ligações perdidas de Igor. Atendi:
" - Julinha? pá pá pá... Julinha, tá me ouvindo?"
Meu coração acelerou.
"- Sim, pode falar."
"- pá pá pá... Não vem para cá, fica na escola, ou vai para casa de alguma amiga, que seja seguro. Não vem... pá pá pá "
Igor desligou, minhas mãos estavam tremendo, e meu coração acelerado, olhei para o céu e pedi a Deus para não acontecer nada com o meu irmão. Disquei o número de Lucas na tela do celular após alguns toques ele atendeu falei:
"- Lu...Lucas? Onde você está?"
Lágrimas estava presa em meus olhos e minha voz estava embargada pelo choro preso em minha garganta.
"- Saindo da faculdade, Julinha. O que houve?"
"- Me espera ai."
"- Ok."
Desliguei o telefone e dirigi até a faculdade de Lucas, ele me esperava no mesmo lugar que o-deixei de manhã, em poucos segundos ele já estava sentado no banco do carona. Ao perceber que eu estava tremendo ele rapidamente me abraçou.
- Minha mãe me ligou, falando para não voltar agora. As lágrimas começaram a descer sem que eu pudesse as segurar, Lucas me abraçou com mais força. - Não vai acontecer nada com o Igor, não é a polícia que está lá, é outra facção.
- Isso não reduz o meu medo. Me soltei do abraço dele limpando meu rosto. - Igor, não me disse o que estava acontecendo, só que não era para voltar.
- Minha mãe disse que alguns criminosos entraram lá para roubar armas. E aí virou isso, tô preocupado também, mas ela me falou que todos estão seguros em casa, só é perigoso sair ou entrar agora. Assenti olhando mais uma vez meu celular. - Vamos para algum lugar! Quer que eu dirija? Assenti, Lucas apertou minha mão enquanto me olhava com ternura, trocamos de lugar e ele saiu dirigindo sem rumo. Após alguns minutos ele parou em frente a praia do arpoador. - Tudo bem ficarmos aqui um pouco? Olhei ao redor, mesmo sendo uma quarta-feira a tarde haviam várias pessoas na praia, talvez aproveitando o clima quente de agosto, no rio 30 graus dava uma sensação térmica de 40, agradeci mentalmente por meu carro ter ar condicionado
- Sim, vamos esperar aqui por mais notícias. Coloquei minha cabeça no ombro de Lucas fechado meus olhos, ele segurou minha mão - São apenas vocês dois né? Balancei a cabeça em afirmação. - Julinha, você está com fome?
- Não. Sorri fraco para ele, a única coisa que eu queria agora é me deitar em uma cama com a certeza de que tudo esta bem.
- Estou cansada, quero deitar, dormir um pouco.
- Não podemos voltar ainda. Ele acariciou meu rosto, pegou minha mão e depositou um beijo, entrelaçou seus dedos nos meus,
enquanto encostava sua cabeça no banco, ele fechou os olhos. - Sonho com o dia que isso vai acabar, essa criminalidade, as mortes tudo.
- Quando meu pai morreu ele pediu para Igor deixar essa vida, mas ele já achava que não tinha mais escolha, por isso essa vontade tão grande que eu estude para sair de lá. Ele tem medo que eu acabe entrando nessa vida também. Sequei uma
lágrima que estava descendo pela minha bochecha, Lucas me olhava com carinho.
- E você o que quer? Sorri, fechando meus olhos também.
- Quero que isso tudo acabe bem, quero ajudar as crianças do morro a verem que elas têm mais opções que o crime.
E quero ajudar meu irmão a sair dessa vida. Nós só temos um ao outro... Meu celular começou a tocar.
" - Oi, Julia."
"- Igor? Como você está? Posso voltar? "
"- Tá tudo tranquilo já, pegamo uns vacilão aqui. Mas tu não é pra voltar não. Vai pra o Hotel, passa a noite.
Ainda tá perigoso pra entrar sair."
respirei fundo olhando para Lucas que esperava eu finalizar a ligação aparentemente ansiosa, deve querer voltar para casa nesse Momento tanto quanto eu.
"- Quero ir pra casa, Igor."
"- Me ouve Julia.
"- Tudo bem, mas só até amanhã de manhã, e por favor, me manda notícias.
Desliguei o telefone.
- Eu ainda não posso voltar, mas Igor disse que já está tudo bem lá. Vou te deixar mais perto.
- Não, ei, para onde você vai? Olhei ao redor.
- Em algum hotel por aqui. Onde você quer ficar?
- Com você! Hoje você não vai ficar sozinha. Vamos achar o hotel, e jantamos lá dentro para você não correr riscos. Balancei a cabeça, Lucas se aproximou de mim encostando nossos lábios em um selinho. - Não quero me despedir agora. Ele sorriu me dando vários beijos na boca.
- Eu quero você! Falei sussurrando, vendo-o sorrir.