Capítulo 1

A chuva caía forte sobre o Rio de Janeiro.

Daquelas chuvas que engolem a cidade inteira.

As luzes dos carros se espalhavam pelo asfalto molhado da Avenida Brasil como manchas vermelhas e douradas, enquanto sirenes cortavam a madrugada em algum ponto mais à frente.

Emily Bastos soltou o ar lentamente e apoiou a cabeça no volante do carro.

Exausta.

O salto machucava os seus pés.

Sua cabeça latejava.

E a única coisa que ela queria naquela noite era chegar em casa, tirar aquela droga de blazer e esquecer que o mundo existia por algumas horas.

Mas o Rio nunca deixava ninguém esquecer.

Principalmente pessoas como ela.

Seu celular vibrou no banco ao lado.

Pai

Emily encarou a tela por dois segundos.

Depois virou o aparelho com a tela para baixo.

Ignorando.

De novo.

Ela já tinha passado o dia inteiro ouvindo homens poderosos tentando controlar cada detalhe da própria vida.

Não estava com paciência para Augusto Bastos naquela noite.

Lá fora, policiais armados cercavam carros enquanto uma blitz fechava metade da avenida.

Helicóptero.

Luzes.

Armas.

Gritos.

Tudo parecia caótico demais.

Emily passou os dedos cansados pelos cabelos e encarou o trânsito parado à frente.

Foi quando ouviu o motor.

Alto.

Violento.

Errado.

Uma moto surgiu cortando os carros em alta velocidade.

Rápida demais.

Perigosa demais.

Os policiais começaram a gritar imediatamente.

— FECHA A PISTA!

— AGORA!

Emily rapidamente se endireitou no banco.

O helicóptero iluminou a avenida.

A moto avançou entre os carros como um vulto negro.

E então ela viu um homem entrar no meio da pista.

Com a arma em punho.

Imóvel.

Frio.

Assustadoramente calmo.

O disparo atravessou a madrugada.

O pneu da moto explodiu.

Tudo aconteceu rápido demais.

A moto perdeu o controle violentamente.

Metal raspando no asfalto.

Faíscas.

Gritos.

O corpo do piloto deslizou pela pista molhada até bater próximo à mureta de proteção.

E então…

silêncio.

Emily sentiu o coração disparar.

Sem pensar, abriu a porta do carro.

— Senhora! Volta pro veículo!

Ela ignorou.

A chuva gelada atingiu seu rosto imediatamente enquanto corria em direção ao homem caído.

Os saltos escorregavam no asfalto molhado.

Mesmo assim, ela continuou.

Porque alguma coisa dentro dela já estava errada antes mesmo de chegar perto.

Emily caiu de joelhos ao lado do motociclista.

O capacete estava rachado.

Havia sangue escorrendo pelo canto da boca dele.

Ela segurou o braço dele imediatamente.

Quente.

Forte.

Familiar.

— Ei… olha pra mim… você consegue me ouvir?

O homem soltou um gemido baixo.

Depois virou lentamente o rosto.

E o mundo dela simplesmente parou.

Não.

Não podia ser.

O ar desapareceu dos pulmões dela na mesma hora.

Porque aqueles olhos…

ela conhecia bem.

Conheceria em qualquer lugar do mundo.

Mesmo depois de anos.

Mesmo depois de toda dor.

— …Ro drigo?

O nome saiu quebrado.

Fraco.

Como se o próprio corpo dela não acreditasse.

Os olhos dele focaram nela aos poucos.

E então ele sorriu.

Mesmo machucado.

Mesmo sangrando.

O mesmo sorriso torto que um dia fez Emily acreditar que o amor podia destruir uma pessoa… e ainda assim valer a pena.

— Caralho… — a voz rouca atravessou ela inteira — …tu continua correndo direto pro problema, princesa.

O coração dela apertou violentamente.

Porque nenhuma parte sua tinha conseguido esquecer aquele garoto.

Nem a voz.

Nem o sorriso.

Nem o jeito irresponsável que fazia ela se sentir viva.

Emily sentiu o coração disparar de um jeito que não acontecia há muito tempo.

Um jeito perigoso.

Doloroso.

Familiar.

Porque algumas pessoas podem desaparecer da nossa vida.

Mas nunca desaparecem completamente da nossa alma.

Emily passou a mão nervosa pelo rosto dele.

— Você tá sangrando.

Rodrigo soltou uma risada fraca.

— Tu continua linda quando tá preocupada comigo.

Mas não se preocupa eu já estive pior.

— Cala a boca.

Mas a voz dela falhou.

Porque olhar pra ele daquele jeito…

quase parecia voltar no tempo.

Quase parecia adolescência.

Quase parecia antes de tudo desmoronar entre eles.

— Claro que já esteve pior. — uma voz surgiu atrás dela. — Porque você nunca soube a hora de parar.

O corpo inteiro de Emily travou.

Não.

Não pode ser ele.

Ela virou lentamente.

E encontrou Matheus Albuquerque parado atrás dos dois.

A chuva escorria lentamente pelo rosto dele.

Camisa preta colada no corpo.

Arma ainda na mão.

Olhar frio.

Pesado.

Familiar demais.

Só que agora…

muito mais homem do que ela lembrava.

Muito mais perigoso.

E o pior?

Emily odiou perceber que o coração dela acelerou de novo quando olhou para ele.

Droga.

Rodrigo cuspiu sangue no asfalto e começou a rir.

Mesmo machucado.

Mesmo ferrado.

— Eu sabia. — murmurou rouco. — Tu ainda entra nas cenas parecendo protagonista de filme ruim.

O maxilar de Matheus travou imediatamente.

— Você atravessou uma blitz armado numa moto roubada.

Rodrigo sorriu de lado.

— E mesmo assim tu atirou no pneu.

Nunca soube perder, né?

Emily olhou de um para o outro sem conseguir respirar direito.

Porque aquilo não parecia conversa entre inimigos.

Parecia pior.

Parecia intimidade.

Passado.

Anos de amizade escondidos dentro de provocações que só os dois entendiam.

Matheus se aproximou devagar.

Os olhos indo primeiro para Rodrigo.

Depois parando nela.

E Emily odiou o jeito que ele ainda olhava daquele jeito.

Como se sempre estivesse tentando descobrir alguma coisa dentro dela.

— Levanta, Emily.

A voz saiu baixa.

Controlada.

Mas não era um pedido.

Nunca era.

Emily ergueu o rosto imediatamente.

— Continua mandando nas pessoas como se fosse dono do mundo?

O olhar dele encontrou o dela.

Frio.

Irritantemente firme.

— E você continua correndo direto pro problema.

Emily soltou uma risada sem humor.

— Talvez o problema me siga.

Rodrigo começou a rir no chão.

— Meu Deus… vocês ainda brigam igual casal divorciado.

— Cala a boca, Rodrigo. — os dois responderam juntos.

Silêncio.

Rodrigo começou a gargalhar mesmo sentindo dor.

E Emily odiou perceber que quase teve vontade de rir também.

Meu Deus.

Nada tinha mudado.

Era isso que assustava.

Os três ali outra vez.

Como anos atrás.

Rodrigo no meio.

Matheus implicando com ela.

Ela irritada com Matheus.

E aquela tensão estranha que sempre existia entre os dois mesmo quando fingiam se odiar.

Matheus abaixou lentamente a arma.

Mas continuou olhando para Rodrigo.

— Você tá ferrando tua vida de novo.

Rodrigo apoiou a cabeça na pista molhada e riu cansado.

— E tu continua tentando salvar todo mundo como se fosse teu trabalho.

— Porque alguém precisa pensar nessa merda.

— Tu sempre foi chato assim ou a farda piorou?

Emily observava os dois em silêncio.

E aquilo doeu mais do que deveria.

Porque ouvir eles daquele jeito…

quase parecia casa.

Quase parecia juventude.

Quase parecia antes do mundo separar os três.

Mas então Matheus falou:

— Ele tá metido com gente muito pior do que você imagina.

Emily olhou imediatamente para Rodrigo.

— O que ele quer dizer com isso?

Rodrigo sustentou o olhar dela por alguns segundos.

E pela primeira vez…

o sorriso dele enfraqueceu.

Só um pouco.

Mas ela percebeu.

Sempre percebia.

— Longa história, princesa.

O coração dela apertou.

Porque naquele instante…

Emily percebeu uma coisa terrível:

ela não fazia ideia de quem Rodrigo tinha se tornado.

Mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa

o celular de Matheus começou a tocar.

Ele atendeu sem desviar os olhos de Rodrigo.

Silêncio.

Então o rosto dele mudou.

Frio.

Muito frio.

Emily sentiu o estômago apertar imediatamente.

— Entendi. — Matheus falou baixo.

Desligou.

Depois olhou diretamente para Rodrigo.

E dessa vez…

não havia ironia.

Nem provocação.

Só tensão.

Pesada.

Perigosa.

— A gente precisa sair daqui agora.

Emily franziu a testa.

— O quê?

Mas Matheus não respondeu.

Porque naquele mesmo instante…

o helicóptero da polícia iluminou o outro lado da avenida.

E vários homens armados começaram a surgir entre os carros parados.

Homens que definitivamente…

não eram policiais.

Rodrigo perdeu o sorriso na mesma hora.

E foi exatamente aí que Emily percebeu:

aquilo não era uma simples blitz.

Eles estavam sendo caçados.

Capítulo 2

Cinco anos antes.

A primeira coisa que Emily ouviu foi a risada de Rodrigo.

Alta.

Solta.

Daquelas que chamavam atenção mesmo no meio da música estourando pelo clube inteiro.

Ela nem precisou procurar muito.

Rodrigo estava em pé em cima de uma cadeira perto da piscina, segurando uma garrafa de cerveja como se fosse dono do lugar.

Idiota.

Completamente idiota.

E mesmo assim...

Emily sorriu.

Porque era impossível não sorrir perto dele.

- EU JURO QUE SE TU PULAR NESSA PISCINA EU VOU EMBORA! - ela gritou no meio da música.

Rodrigo colocou a mão no peito dramaticamente.

- Tu me abandonaria bêbado?

- Com prazer.

- Crueldade feminina me assusta.

Emily revirou os olhos rindo baixo.

E então alguém apareceu ao lado dela.

- Ele vai pular.

Ela nem precisou olhar.

Matheus Albuquerque.

Claro.

Sempre aparecendo do nada com aquela cara de quem já nasceu irritado.

Emily cruzou os braços imediatamente.

- Você segue a gente por hobby ou é problema psicológico?

Matheus ignorou completamente a provocação.

Os olhos presos em Rodrigo do outro lado da piscina.

- Conheço aquele imbecil desde os oito anos.

Ele vai pular.

- Você fala dele como se fosse pai dele.

- Às vezes parece que eu sou.

Emily soltou uma risada sem querer.

Pequena.

Rápida.

Mas Matheus ouviu.

Ela percebeu pelo canto dos olhos.

Droga.

Rodrigo abriu os braços dramaticamente no outro lado da piscina.

- EMILY!

SE EU MORRER TU CUIDA DA MINHA MÃE!

- Rodrigo, desce daí!

- TARDE DEMAIS PRA ME AMAR!

E então ele pulou.

Direto na piscina.

Com roupa, tênis e tudo.

As pessoas começaram a gritar e rir ao redor.

Emily levou a mão ao rosto imediatamente.

- Meu Deus... eu namoro uma criança.

- Finalmente percebeu? - Matheus murmurou ao lado dela.

Ela virou o rosto rápido.

- E você parece um velho de quarenta anos preso no corpo de alguém de vinte.

Pela primeira vez naquela noite...

Matheus sorriu de verdade.

Um sorriso pequeno.

Mas sorriu.

E aquilo pegou Emily desprevenida.

Porque Matheus quase nunca sorria daquele jeito.

Quase nunca parecia leve.

Rodrigo surgiu da água segundos depois, completamente encharcado.

O cabelo escuro caindo na testa.

A camisa grudada no corpo.

Sorrindo como se a vida fosse a coisa mais divertida do mundo.

Emily sentiu o coração apertar.

Era ridículo o quanto amava aquele garoto.

Ridículo até demais.

Rodrigo saiu da piscina rindo e caminhou direto até eles.

Molhando tudo pelo caminho.

Matheus já balançava a cabeça antes mesmo dele chegar perto.

- Tu é doente.

- Mas tu me ama mesmo assim.

- Infelizmente.

Rodrigo abriu um sorriso enorme.

Depois puxou Emily pela cintura sem aviso.

Molhado.

Gelado.

- AH!

RODRIGO!

Ela começou a rir tentando empurrar ele.

- Você tá todo molhado!

- E tu continua linda irritada.

Emily sentiu o rosto esquentar imediatamente.

E Rodrigo percebeu.

Claro que percebeu.

Ele sempre percebia.

Rodrigo aproximou o rosto devagar.

O nariz encostando no dela.

Aquela intimidade fácil que fazia Emily esquecer como respirar.

- Diz que me ama.

Ela sorriu tentando esconder a vergonha.

- Você é convencido demais.

- Diz mesmo assim.

Emily passou os braços pelo pescoço dele lentamente.

E Deus.

Ela amava aquele garoto.

Amava de um jeito inteiro.

Sem defesa.

Sem medo.

- Eu amo você.

Rodrigo fechou os olhos sorrindo.

Como se ouvir aquilo ainda bagunçasse ele por dentro.

E bagunçava.

E Emily sabia.

Porque Rodrigo podia brincar com o mundo inteiro...

menos com ela.

- Caralho... - ele murmurou baixinho. - Eu vou casar contigo qualquer dia desses.

- Você não consegue nem chegar no horário das aulas.

- Isso é apenas detalhes.

Emily começou a rir.

Mas então percebeu o silêncio.

Olhou de lado.

Matheus estava observando os dois.

Quieto.

Com os braços cruzados.

A expressão neutra.

Só que Emily já conhecia ele o suficiente pra perceber pequenas coisas.

O maxilar travado.

Os olhos escuros presos na mão de Rodrigo na cintura dela.

E aquilo irritou ela instantaneamente.

- Qual é o teu problema agora?

Matheus piscou devagar.

Como se tivesse voltando pra realidade.

- Nenhum.

- Mentira.

Você tá com essa cara.

- Que cara?

Emily soltou uma risada sem humor.

- Essa cara de quem acha que o mundo inteiro faz escolhas erradas.

Rodrigo começou a gargalhar imediatamente.

- Ela te conhece muito bem, irmão.

- Infelizmente eu convivo com ela há anos.

Emily empurrou o ombro dele.

- Eu não lembro de ter pedido sua opinião em nenhum momento.

Matheus olhou diretamente pra ela.

E droga.

Emily odiava quando ele fazia aquilo.

Porque o olhar dele parecia firme demais.

Intenso demais.

Como se sempre estivesse tentando enxergar alguma coisa escondida dentro dela.

- Esse é exatamente o problema.

Tu nunca pede opinião de ninguém antes de fazer merda.

- Ah pronto.

Rodrigo entrou no meio dos dois imediatamente.

Literalmente.

Colocando uma mão no ombro de cada um.

- Ok.

Chega.

Vocês dois começam a discutir e daqui a pouco sobra pra mim.

- Porque você vive colocando ele no meio de tudo! - Emily reclamou.

- Eu?!

Ele aparece sozinho igual assombração!

Matheus soltou uma risada baixa.

- Assombração é teu boletim escolar.

- Vai tomar no teu cu, Albuquerque.

Emily começou a rir.

E Rodrigo olhou pra ela sorrindo imediatamente.

Pronto.

Era sempre assim.

Ele vivia pra arrancar aquele sorriso dela.

Matheus observava os dois em silêncio.

E Emily percebeu outra vez.

Aquela sensação estranha.

Como se ele ficasse diferente quando olhava pros dois juntos.

Ela nunca entendeu exatamente o motivo.

Nem queria entender.

Rodrigo puxou Emily mais pra perto e beijou o topo da cabeça dela distraidamente enquanto conversava.

Natural.

Automático.

Como alguém que já pertencia a ela.

- Tu vai dormir lá em casa hoje? - ele perguntou olhando pra ela.

Emily sorriu.

- Seu quarto parece zona de guerra.

- Mas tu ama minha zona de guerra.

- Infelizmente amo.

Rodrigo abriu aquele sorriso torto de novo.

O favorito dela.

O mais perigoso.

Porque fazia Emily esquecer qualquer possibilidade de futuro ruim.

E talvez esse fosse o problema.

Ela amava tanto Rodrigo...

que nunca conseguiu imaginar o mundo sem ele dentro.

Mas então Matheus ficou sério de repente.

Muito sério.

Os olhos saindo dos dois e indo diretamente pra entrada do clube.

O corpo inteiro endurecendo.

Emily franziu a testa imediatamente.

- Matheus?

Ele não respondeu.

Continuava olhando fixamente pra frente.

Como um animal percebendo perigo antes de todo mundo.

E Rodrigo percebeu também.

O sorriso diminuindo devagar.

- Que foi?

Silêncio.

A música continuava alta.

Pessoas riam perto da piscina.

Mas alguma coisa tinha mudado.

Emily sentiu.

Matheus deu um passo à frente lentamente.

Os olhos escuros completamente presos em alguém do outro lado do clube.

E quando falou...

a voz saiu baixa.

Fria.

Perigosa.

- Emily...

teu pai tá vindo pra cá.

O coração dela falhou uma batida.

Mas não foi isso que assustou ela.

Foi o resto.

Porque Augusto Bastos não estava sozinho.

E o homem ao lado dele carregava uma arma na cintura.

Capítulo 3

O sorriso de Emily desapareceu lentamente.

Porque Augusto Bastos nunca andava acompanhado daquele tipo de homem.

Nunca.

O segurança ao lado do pai dela tinha uma postura militar.

Uma postura fria.

Ameaçadora.

E ainda carregava uma arma na cintura sem nem tentar escondê-la.

A música continuava alta perto da piscina.

As pessoas riam.

Dançavam.

Mas alguma coisa no ar tinha mudado.

Emily sentiu.

E Matheus também.

Porque ele já estava completamente diferente agora.

O corpo rígido.

Os olhos atentos.

Como se tivesse entrado automaticamente em estado de alerta.

Rodrigo soltou o ar devagar ao lado dela.

— Pronto.

Começou.

Emily franziu a testa.

— O que tá acontecendo?

Mas nenhum dos dois respondeu.

E isso irritou ela instantaneamente.

— Eu odeio quando vocês fazem isso.

Rodrigo desviou os olhos de Augusto só pra olhar pra ela.

— Isso o quê?

— Essa coisa de agir como se soubessem de alguma coisa e eu fosse a última a descobrir.

Rodrigo abriu um sorriso pequeno.

Mais fraco dessa vez.

— Princesa…

— Não.

Não me chama assim quando tá tentando me enrolar.

Matheus quase soltou uma risada.

Quase.

Mais Emily percebeu pelo canto do olho.

E aquilo irritou ela ainda mais.

— Tá rindo do quê?

— Nada.

— Você tá com cara de quem tá rindo de mim.

— Talvez porque você fique irritada rápido demais.

Emily cruzou os braços imediatamente.

— E talvez você seja insuportável.

Rodrigo entrou no meio dos dois antes que começassem outra discussão.

Literalmente.

Colocando uma mão no ombro de Matheus e outra na cintura dela.

— Ok.

Chega.

Vocês dois vão acabar se matando e eu tô tentando aproveitar minha noite.

Emily revirou os olhos.

— Ele começou.

— Claro.

A culpa é sempre minha. — Matheus respondeu seco.

Rodrigo começou a rir sozinho.

— Eu juro por Deus…

às vezes parece que vocês são um casal brigado há quinze anos.

— Cala a boca, Rodrigo. — os dois responderam juntos outra vez.

Silêncio.

Rodrigo arregalou os olhos dramaticamente.

Depois apontou pros dois.

— Isso aí já tá começando a me assustar.

Emily acabou rindo.

E droga.

Ela odiava o fato de Matheus ter olhado pra ela exatamente naquele momento.

Como se prestasse atenção demais nela.

Sempre.

Desde adolescente, Matheus Albuquerque tinha aquele hábito irritante de observar tudo.

Principalmente ela.

O jeito que ela falava.

O jeito que ela reagia.

O jeito que ela ria.

E Emily nunca conseguiu decidir se aquilo irritava mais…

ou bagunçava mais ela por dentro.

Augusto Bastos começou a subir lentamente a arquibancada.

Otávio Albuquerque vinha logo atrás.

Os dois homens tinham presença demais.

Poder demais.

Era impossível ignorar quando chegavam em algum lugar.

Rodrigo automaticamente tirou a mão da cintura de Emily.

Respeito.

Instinto.

Mas ela percebeu.

E percebeu outra coisa também:

Matheus observou isso.

E é claro que observou.

Ele observava tudo.

Augusto parou na frente dos três.

E Augusto Bastos sorriu.

O tipo de sorriso que funcionava perfeitamente diante das câmeras.

Educado.

Controlado.

Treinado.

Mas Emily conhecia aquele sorriso.

Sabia exatamente o que existia por trás dele.

Porque Augusto raramente demonstrava raiva.

Ele preferia algo muito pior.

Preferia esperar.

Observar.

E vencer sem precisar levantar a voz.

O olhar dele foi primeiro em Matheus.

Depois em Rodrigo.

E por último na própria filha.

Frio.

Controlado.

Político.

— Emily.

Você não atende meu telefone.

Ela cruzou os braços imediatamente.

— Porque eu sabia que você ia estragar minha noite.

Rodrigo tossiu tentando esconder a risada.

Otávio Albuquerque balançou a cabeça lentamente.

— Tu provoca teu pai desde pequena ou fez curso?

Emily sorriu de lado.

— Nasci talentosa.

Rodrigo começou a rir.

Mas Matheus…

Matheus continuava sério.

Observando o segurança atrás de Augusto.

Emily percebeu.

E aquilo começou a incomodar ela.

E muito.

Augusto olhou rapidamente para Rodrigo.

— Sua mãe sabe onde você está?

Rodrigo abriu um sorriso relaxado.

— Tecnicamente?

Não.

— Rodrigo.

O tom de Augusto ficou mais duro.

Mas Rodrigo não parecia intimidado.

Nunca parecia.

E talvez fosse exatamente isso que incomodava tanto os adultos.

Rodrigo não abaixava a cabeça pra ninguém.

Nem pro homem mais poderoso do Estado.

Emily sentiu o braço dele encostar discretamente no dela.

Gesto pequeno.

Quase imperceptível.

Mas suficiente pra acalmar ela.

Sempre suficiente.

Rodrigo tinha esse efeito absurdo sobre ela.

Como se tudo ficasse mais leve quando ele tocava nela.

Mesmo quando o mundo inteiro parecia prestes a explodir.

Otávio observou os dois rapidamente.

Depois olhou para o próprio filho.

— Matheus.

— Senhor.

— Leva Emily pra casa.

Silêncio.

Emily arregalou os olhos imediatamente.

— O quê?

Rodrigo franziu a testa na mesma hora.

— Pra quê?

Augusto sustentou o olhar da filha.

— Porque eu mandei.

Emily soltou uma risada incrédula.

— Você tá brincando comigo?

— Emily.

— Não.

Eu acabei de chegar.

— E agora vai embora.

Rodrigo deu um passo à frente.

Instintivo.

Protetor.

— Ela não quer ir.

O clima mudou na mesma hora.

Pesado.

Perigoso.

Augusto Bastos encarou Rodrigo em silêncio.

E pela primeira vez naquela noite…

Emily sentiu alguma coisa gelar dentro dela.

Porque o olhar do pai tinha mudado.

Frio demais.

Cortante demais.

Otávio percebeu também.

— Rodrigo… — tentou aliviar.

Mas Rodrigo não recuou.

Claro que não.

Ele nunca recuava.

— Eu tô falando com ela, não com o senhor.

Emily sentiu o coração acelerar imediatamente.

Meu Deus.

Matheus fechou os olhos por um segundo.

Como alguém prevendo exatamente o desastre prestes a acontecer.

E então Augusto falou.

Baixo.

Controlado.

Ele é muito pior daquele jeito.

— Você está começando a esquecer qual é o seu lugar.

O sorriso de Rodrigo desapareceu.

Completamente.

Emily sentiu o estômago afundar.

Porque aquilo não foi só uma frase.

Foi um aviso.

E Rodrigo sentiu isso também.

Ela viu.

Viu no jeito que o maxilar dele travou.

No jeito que os olhos dele escureceram.

No jeito que Matheus imediatamente ficou tenso entre os dois.

Como alguém prestes a impedir uma explosão.

— Augusto… — Otávio tentou outra vez.

Mas já era tarde.

Porque Rodrigo deu outro passo à frente.

E respondeu olhando diretamente nos olhos do pai dela:

— E o senhor tá começando a esquecer que ela não é propriedade sua.

Silêncio novamente.

A música continuava alta lá embaixo.

As pessoas ainda dançavam.

Mas na arquibancada…

o mundo inteiro tinha parado.

Emily sentiu o coração bater tão forte que começou a doer.

Porque alguma coisa acabava de mudar.

Definitivamente.

E ela percebeu isso no segundo em que Augusto Bastos olhou para Matheus.

Não para Rodrigo.

Para Matheus.

E disse:

— Tira ela daqui.

Agora.

Mas o pior não foi isso.

O pior…

foi o jeito que Matheus olhou pra Rodrigo antes de se mexer.

Como alguém preso entre as duas pessoas mais importantes da própria vida.

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