Ela tinha tanto medo de encontrar Lian Fa novamente, tanto medo de sofrer e ter que correr ao lado oposto ao dele. Tanto medo de ser forçada a deixá-lo, o medo fazia suas pernas travarem mesmo quando ela queria sair correndo dali, e no fim ela sabia que apenas tinha medo de não ser capaz de proteger Gao Lian Fa novamente. Ela pensou durante vários minutos sobre o que deveria fazer, o vento ficou mais forte e agora haviam pétalas das flores caídas até mesmo sobre sua guqin, diante disso ela tomou sua decisão: Meng Shan iria para casa. Meng Shan levantou-se, guardou sua guqin atrás de suas costas e se preparou para ir, entretanto ela finalmente notou um erro em seu plano, para chegar em sua casa o caminho que ela deveria percorrer passava exatamente no lugar em que o homem estava. Não havia um caminho alternativo para sua casa, se ela pegasse o caminho reto desde a árvore ela acabaria chegando ao centro da cidade. Meng Shan sempre soube disso, ela mesma escolheu morar perto do centro para ficar próximo de onde ela dançava e tocava, o problema é que ela se esqueceu completamente disso no momento em que pensou ter visto seu amado. Aparentemente, poderiam passar-se anos, séculos e até milênios, mas Lian Fa ainda mexeria com a mente dela como da primeira vez. A única coisa que ela implorava, era que da próxima vez fosse o verdadeiro Gao Lian Fa, e não apenas uma ilusão criada por sua mente insana e angustiada.
Meng Shan suspirou e fechou seus olhos por alguns minutos, ela não sabia se estava preparada para andar até o outro lado e ter a realização de que o homem não tinha nada parecido com Gao Lian Fa o alcançando. No final, ela saiu de perto da árvore e começou seu caminho e, pela primeira vez ela notou que todo o lago Linghun até alcançar a árvore era um círculo perfeito, ela notou que a lenda fazia mais sentido se pensando que o círculo representava o ciclo que uma alma leva todas as vezes até reencarnar. Enquanto ela andava, já próximo de onde havia visto o homem, ela pensava se o seu círculo e o de Lian Fa estavam conectados de alguma maneira, ou se apenas sua vida passada foi a única ocasião onde ela poderia ter o amor daquele que ainda era dono de seu coração e alma. Se ela soubesse que seu coração teria tantas dúvidas agora, se ela soubesse que seria tão difícil encontrar o homem novamente, ela não teria tomado aquela decisão e teria impedido o outro de tomá-la também. Mas, ela ainda estava feliz com a maneira que tudo se encerrou.
Quando Meng Shan estava há dez passos de passar exatamente atrás daquele homem, ela parou e ficou analisando-o. O homem, agora, estava parado e abaixado no chão, ele parecia olhar para uma pequena caixa de papelão que emitia alguns ruídos semelhantes a gemidos. Do lugar em que estava, Meng Shan não conseguia ver o rosto do homem ou ver o que havia na caixa, ela só conseguia ver que o homem usava roupas pretas com um cinto vermelho e carregava uma bolsa, mas o rosto que era o que importava para Meng Shan era impossível de ser visto. Ela começava a duvidar do que havia visto de longe, provavelmente ela apenas havia se confundido mais uma vez. Deste modo, ela apenas continuou andando até que tivesse passado completamente por trás do homem.
Mas então seus passos pararam repentinamente no momento em que ela escutou “Lua Vermelha” ser tocada em uma flauta, e o som estava vindo de onde o homem estava.
Meng Shan virou-se tremendo para trás, e olhou para o homem parado agora de pé, mas que ainda olhava para a caixa de papelão. Anteriormente, o homem parecia estar tremendo enquanto mexia com o que estava dentro da caixa, mas agora era ela quem tremia com passos vagarosos que levavam-na para mais perto do homem. Meng Shan fez mais uma pausa, enquanto sentia a melodia de “Lua Vermelha” ser tocada por mais alguém além dela mesma.
Em sua mente, as mesmas palavras “me desculpe” e “obrigada” que apareciam incansavelmente em seus sonhos, rodavam e rodavam por sua mente, e aquilo já estava resultando em uma grande tontura em sua cabeça. Mas, mais do que isso, enquanto ela ouvia a música ser tocada pelo homem, ela sentia como se a melodia mandasse aquelas duas palavras para seu coração, de fato era como se depois de tantos anos, Gao Lian Fa estivesse ali na sua frente repetindo aquelas duas palavras mais uma vez. Naquele momento, Meng Shan lembrou-se que sempre sentiu que sua consciência atual sempre esteve afogada em um mar de incertezas e, de alguma forma, “Lua Vermelja” tocada daquela maneira delicada trouxe o verdadeiro ela para a superfície e a salvou de todos esses anos de culpa. As marcas da vida passada ardiam e queimavam, mas com cada nova melodia seu medo era varrido para longe e uma esperança inexplicável entrava no lugar. Desde sempre, as pessoas diziam que Meng Shan sorria apenas quando perguntavam-lhe quem era Gao Lian Fa, mas que seu sorriso era tão triste que o coração das pessoas doía. Toda vez que ela ouvia isso, Meng Shan se sentia vazia por dentro, era como se o seu coração estivesse quebrado e ela nunca conseguia esquecer a voz do homem de seus sonhos.
— Essa música é tão pesada, Lian Fa, é tão pesada quanto as vezes que eu tenho que segurar as lágrimas durante as madrugadas por sonhar com você, mas de alguma forma essa melodia suprime o vazio que eu sinto. — Meng Shan sussurrou, enquanto olhava para o homem em sua frente. Ela estava olhando a nuca do homem quando disse aquilo, e só notou que a música parou quando o homem que estava de costas para ela, de repente virou-se para ela e começou a olhá-la.
Era ele. Era Gao Lian Fa.
Meng Shan já tinha certeza que era Gao Lian Fa apenas ao escutar a música, ela sabia que o único que poderia saber sobre “Lua Vermelha” além dela, só poderia ser aquele homem. Seus olhos daquela vez não encheram-se de lágrimas, mas seu coração transbordou amor ao lembrar-se que da última vez, ela também havia reconhecido Lian Fa graças à “Lua Vermelha”. Aquela música era a ponte que ligava sua alma a dele, ela não se importava se o seu círculo e o dele estavam ligados ou não, ela apenas agradecia por ter feito aquela música quando teve a oportunidade e não se arrependia de tê-la apresentado para Lian Fa. Em contrapartida, o homem em sua frente que agora ela sabia ser quem ela buscava, não teve nem tempo de reagir antes que Meng Shan tomasse uma atitude drástica: ela andou apressadamente os passos que restavam para chegar até ele, e segurou o pulso da mão onde jazia a flauta.
— Achei você, Gao Lian Fa. — Foram as únicas palavras que Meng Shan falou, enquanto ainda segurava o pulso do outro com uma força duvidosa. Mesmo que a vontade de Meng Shan fosse poder sentir cada vez mais a pele do outro, ela simplesmente não se sentia capaz de segurar mais forte o pulso dele, de fato ela realmente tinha um medo tremendo que fazendo isso o homem desaparecesse. O homem, por outro lado, sorriu para ela.
— Hehe, pequena lótus, não existe essa fala na peça. Se deseja ser uma grande atriz no futuro, você deveria memorizar melhor as falas. — Meng Shan não entendia o que raios o outro queria dizer com isso, ela não sabia de peça nenhuma e muito menos queria ser uma atriz! Sem contar, qual era o motivo dele estar chamando-a de “pequena lótus”? Meng Shan simplesmente não conseguia conciliar as palavras do outro, então ela colocou a cabeça de lado com uma expressão de dúvida.
— O que… Você quer dizer? — Foi a única coisa que saiu da boca de Meng Shan, ela estava mais surpresa com a forma de tratamento do que com qualquer outra coisa, talvez o outro se lembrasse de sua vida passada também? Quando ela pensou nisso, ela notou que ainda não havia soltado o pulso dele. Mas, ela não era a única que pensava naquele contato, o outro também estava questionando o motivo de sentir-se tão bem enquanto a mão de Meng Shan envolvia seu pulso, porém para a infelicidade dele Meng Shan soltou vagarosamente seu pulso.
— Eh? Bem, a pequena lótus me chamou de “Gao Lian Fa”, está carregando uma guqin nas costas e também está usando uma faixa de testa. Na verdade, a pequena lótus poderia estar fazendo cosplay de qualquer personagem da seita Yan, mas algo me diz que a pequena lótus tem algo muito parecido com Yan Fu Zhao aqui. — Quando ele disse “aqui”, ele tocou delicadamente sobre o coração de Meng Shan. O toque foi o suficiente para algo se acender em Meng Shan, sua pele ardeu e queimou mesmo com uma camada de roupa separando as duas peles, ela não poderia ter mais certeza que aquele era Gao Lian Fa. — Mas, a pequena lótus não está mesmo fazendo cosplay de Yan Fu Zhao? Nem mesmo quer treinar falas para ser uma atriz?
— Hm, isso está certo. — Mesmo que Meng Shan sentisse seus olhos coçando para olhar para a mão do outro que ainda não havia deixado seu coração, ela era completamente incapaz de desviar seus olhos dos dele.
— Pequena lótus, qual é o seu nome? — Por fim, o outro perguntou a Meng Shan e também cessou o contato de sua mão com o coração dela. Depois de fazer a pergunta, o homem se virou para trás e começou a mexer na caixa de papelão mais uma vez enquanto aguardava a resposta.
— Meng Shan. — Meng Shan falou sem em nenhum momento deixar de olhar para o outro, que apenas balançou a cabeça ao ouvir a resposta dela. Então, sem que Meng Shan esperasse, o homem levantou-se e olhou para ela mais uma vez.
— Pequena lótus, meu nome é Zhang Qian. — Zhang Qian estava de frente para Meng Shan, ele girava sua flauta nos dedos e sorria para a mulher. O mundo todo havia parado para Meng Shan, que via Zhang Qian mas também via a grande árvore onde ela estivera antes atrás de Zhang Qian, o vento fez os cabelos do outro voarem e era possível ver os galhos da árvore se mexendo e as pétalas caindo, era como se toda a beleza da árvore fizesse uma saudação para a beleza de Zhang Qian. Meng Shan estava deslumbrada, e então ela desviou o olhar para baixo e viu refletido na água da margem do lago Linghun a imagem perfeita de Gao Lian Fa de costas.
Antes que ela notasse qualquer aproximação, Zhang Qian estava do lado do ombro esquerdo de Meng Shan. Sutilmente, Zhang Qian assoprou uma pétala rosa que jazia solitária no ombro de Meng Shan. Neste mesmo ritmo, Meng Shan virou o rosto e olhou para o outro. Zhang Qian continuou com o rosto próximo ao ombro dela, mas seus olhos moveram-se para o canto e encararam Meng Shan com um olhar um tanto quanto sensual.
— Mantenha seus olhos em mim, Shan-jiejie. — Zhang Qian disse sem, em absolutamente momento algum, interromper o contato de seus olhos e de Meng Shan.
No final, Meng Shan notou que sempre estivera olhando para Zhang Qian, desde que ele era Gao Lian Fa até ele tornar-se Zhang Qian. E ela definitivamente, sabia que desde aquele momento jamais seria capaz de mover seus olhos para outro lugar.
Zhang Qian permanecia ali, parado perigosamente ao lado de Meng Shan. O rosto do primeiro estava audaciosamente circunvizinho ao rosto da mulher e, se por alguma obra maldita — ou talvez não tão maldita na opinião de Meng Shan —, aquele ser de face-grossa tivesse a brilhante ideia de virar minimamente seu rosto para o lado, sua respiração quente e até mesmo um pouco acelerada iria atingir com grande força o pescoço exposto dela. O coração de Meng Shan começava a tornar-se pesaroso somente em pensar no que ela sentiria caso tal situação viesse a acontecer, mas talvez ela estivesse relativamente mais cautelosa com o que aconteceria com determinadas partes de seu corpo naquela situação supositória. Na realidade, Meng Shan estava controlando-se excepcionalmente forte para não sair correndo o mais veloz possível, e daquela vez ela nem estava se segurando por saber que correr seria uma extrema falta de educação. Ah, não, definitivamente aquele não era o motivo de Meng Shan estar sendo tão radical em sua escolha de permanecer ao lado de Zhang Qian. Havia algo em seu ser, algo que retumbava e estremecia as paredes que protegiam sua mente e coração, algo que gritava em sua alma e faziam-na ser uma floresta de ciprestes solitário à deriva, esperando que alguém viesse apreciar a beleza de suas folhas verdes de esperança e amor, e suas raízes de lealdade. Mas seus ciprestes eram especiais, eles davam flores.
As flores eram pura saudade.
Saudade dele.
Saudade do toque.
As flores cor púrpura, que demonstravam ternura. Mas, que ainda assim, resultavam em amargura.
O tão aguardado toque, e o tão esperado Lian Fa, apenas um deles havia chegado até Meng Shan. Talvez, era apenas um talvez, ela estivesse sendo muito gananciosa em esperar que Zhang Qian tocasse nela no mesmo dia em que eles se conheceram. Não era o outro que passara vinte e dois longos anos à procura de alguém que poderia nem sequer existir, portanto Meng Shan não poderia ser aquela que cobraria o mínimo de toque da outra parte. Ela sabia, ela sentia como seria complicado estar perto do homem parado ao seu lado, e ter que entender que o envolvimento deles não pertencia mais a este mundo. De fato, todos os encontros carnais, todos os momentos de carinho e todos os momentos de raiva e amor, não pertenciam a nenhum outro lugar senão às tristes lembranças de Meng Shan. Ela teria que engolir seus sentimentos mais uma vez, como na época em que ambos eram adolescentes, pois as lembranças eram dela e Zhang Qian não carregava mais suas culpas. Entretanto, por que raios era tão doloroso vê-lo e não ter a opção de tocá-lo como antes? Mesmo que Meng Shan se fizesse aquela pergunta, ela já sabia muito bem qual era a resposta certa para ela. Ela sabia e poderia dizer, ela poderia gritar, ela poderia segurar nas mãos do outro e falar aquelas seis palavras, mas ela também sabia que Zhang Qian não voltaria a tocá-la como antes.
Bem, talvez ela estivesse terrivelmente enganado.
No momento em que Meng Shan ponderava silenciosamente em seus pensamentos sobre as poucas probabilidades de Zhang Qian tocá-la de uma maneira mais íntima, comparada a quando ele tocou o peito dela, Zhang Qian colocou seu queixo sobre o ombro onde, anteriormente, jazia a pétala.
— Aigoo, jiejie, você é confortavelmente calada. — Zhang Qian suspirou lentamente ao dizer aquelas palavras e, graças a qualquer coisa que prezasse pela saúde mental de Meng Shan, ela não pensou em suspirar na direção do pescoço do outro. Pelo contrário, ao suspirar ela sentiu um leve gracejo de sândalo no ar, demorou alguns segundos para que Zhang Qian fosse capaz de associar o cheiro inebriante de sândalo à mulher. Por alguns instantes, Zhang Qian foi levado há sentimentos que ele parecia já conhecer, além disso ele também sentiu sensações que arrepiavam seu corpo dos pés à cabeça… Era como se ele sentisse uma mão menor que a sua a segurando, entrelaçando os dedos e depois ele ainda sentiu um beijo na palma de sua mão! Quão pervertido seria, se ele dissesse que teve a sensação de um corpo quente por cima do seu?
Antes que Zhang Qian tivesse qualquer ação sobre aquele cheiro, antes que ele pudesse tentar sentir aquele cheiro um pouco mais de perto, mais uma vez um grande vento acertou seu corpo. Mas, desta vez, Meng Shan foi aquela que recebeu toda a carga pesada da ventania e as sobras da fita que ela trazia na testa foram parar na frente de seu rosto, no lado em que Zhang Qian olhava para ela.
Nenhum dos dois haviam rompido o olhar inicial, o rosto de Meng Shan permanecia virado para o do outro e os olhos de Zhang Qian continuavam olhando para os dela, sem absolutamente nenhum dos dois sequer cogitar a possibilidade de desviar o olhar. Zhang Qian havia sentido e dito aquelas coisas, mas ele sentia como se o contato de seu queixo e o ombro da mulher formassem uma ponte que prendiam seus olhares um ao outro. Na verdade, não havia muito a ser dito, mas Zhang Qian sentia um ímpeto de falar com o outro, observar suas reações depois que ele tomava esse tipo de atitude. Zhang Qian sempre foi de pensamentos reflexivos e falas elaboradas, mesmo agora quando ela queria falar coisas bobas ao homem que ela acabara de conhecer, ela sentia que suas palavras tinham mais impacto do que deveriam ter. Se era assim, e se aquele toque era realmente uma ponte que havia deixado ambos naquela atmosfera intrigante, o que poderia acontecer se as peles se encostassem? Zhang Qian não pensou muito sobre isso.
Na verdade, ele foi diretamente para a prática.
Zhang Qian aproveitou a deixa que a ventania deu para ele e, delicadamente, ele passou a mão pela sobra da fita de testa de Meng Shan, mas ele ainda fez questão que seu dedo encostasse vagarosa e suavemente na pele dela. Oh, que péssima ideia diria Lian Fa se aquela a ser tocado depois de tantos anos de procura fosse Yan Fu Zhao, e ele também não esperaria dois segundos para pegá-la em seus braços. Mas aquela a ser tocada não era Yan Fu Zhao, e aquele a testá-la não era Lian Fa.
Aqueles eram Meng Shan e Zhang Qian, reencarnados e prontos para amar outra vez.
Mas ninguém é capaz de apagar as lembranças de duas almas culpadas e sedentas pelo toque.
O contato da pele de Zhang Qian contra a da mulher causou um choque tremendo e arrepios nos corpos de ambos, e a pior parte ainda estava por vir. Zhang Qian, no momento em que a tocou, recordou-se que sempre teve a sensação que alguém queria tocá-lo, queria comunicar-se com ele, queria estar ao seu lado e ser o anjo que iria protegê-lo e amá-lo pelo resto de sua vida. Ele sempre pensou que aquela sensação era algum tipo de devaneio dele, mas depois de algum tempo ele teve certeza que ele deveria procurar pela pessoa. Mas o seu anjo protetor e amável, nunca chegou em sua vida, ele apenas deixava a sensação do toque e seu cheiro no ar. Agora, pensava ele, por que caralhos sua pele se sentia como se fosse tocada pelo anjo, quando ela na verdade estava em contato com a de Meng Shan? E não era só isso, o cheiro da mulher era estranhamente — e confortavelmente — familiar para ele. Havia um milhão de perguntas que ele desejava fazer para Meng Shan, e ele sabia que aquelas perguntas valiam tanto quanto uma reencarnação para sanar os pecados de alguém.
Em contrapartida, o coração de Meng Shan; antes calmo, parecia ter sido jogado de uma altura de cento e cinquenta metros até cair certeiramente dentro de um vulcão em erupção. A altura, representava o choque, a surpresa, o pavor e a melancolia dos momentos que antecederam o toque de Zhang Qian, momentos aqueles que ela havia observado com olhos arregalados e parecia que tudo havia acontecido em câmera lenta. Já, o vulcão não queimava necessariamente seu coração, mas o fogo purificava um pouco de sua culpa aterradora. Para ela, que esperava com tanta urgência por aquilo, o toque de Zhang Qian era sua salvação. Mas parecia que Zhang Qian, que possivelmente não mantinha recordações de sua vida passada, teve reações não tanto moderadas assim.
Os joelhos de Zhang Qian cederam, e seu corpo todo tombou para a frente.
Sua mão, que havia acabado de retirar a fita de testa do rosto de Meng Shan, ainda segurava a fita e, com a queda repentina, ele se agarrou à fita e ela lentamente se desprendeu do cabelo de Meng Shan.
O queixo dele ainda estava apoiado no ombro de Meng Shan e, deste modo, seu corpo caiu totalmente por cima do dela. Inicialmente, Meng Shan travou. Era uma grande verdade que ela ansiava pelo toque, mas de alguma maneira era muito para ela que o corpo todo de Zhang Qian estivesse em contato com o seu. Mas, em questão de instantes ela conseguiu se recompor e, mesmo que levemente sem jeito, ela abraçou o corpo de Zhang Qian e sentou-se no chão lentamente enquanto ainda segurava o corpo de Zhang Qian daquela maneira, e apenas quando estava totalmente no chão ela colocou o corpo do outro de lado por cima de uma de suas pernas. O corpo do outro vacilava e seu pescoço parecia estranho, a respiração estava ofegante e ele parecia delirar. Na verdade, ele estava definitivamente recordando de algumas coisas.
— Zhang Qian, o tempo vai acabar em breve… — O homem parado na frente de Zhang Qian o fazia parecer tão pequeno. — Você poderá respirar livremente.
— Huang-shi, mas e o meu anjo? — Zhang Qian, mesmo que não conseguisse compreender de onde ele acreditava ter um anjo o protegendo, ainda queria saber quem ele era.
O homem, por outro lado, mantinha preocupações sobre Zhang Qian, e nunca havia entendido como o “anjo” citado pelo garoto havia deixado aquilo acontecer para o pobre Zhang Qian, que tinha apenas uma tenra idade e já estava sofrendo com aquele tipo de coisa.
Mas, o homem sabia que deveria incentivar a pureza do garoto, e dar pequenos empurrões para que ele sempre carregasse aquele tipo de sentimento gracioso dentro de si, afinal, logo Zhang Qian poderia respirar livremente.
— Bem, o seu anjo — Ele olhou para Zhang Qian, sentado com as perninhas juntas e o encarando, e logo sorriu na direção do pequeno menino e afagou seus fios macios de cabelo. — Tenho certeza que você ainda irá conhecê-lo e, além disso, ele irá te dar a proteção que você precisa, Zhang Qian.
Qualquer pensamento engraçado não levaria a tensão embora agora, ela ainda permanecia preocupada ao extremo com o homem em seu colo. Zhang Qian parecia sofrer com algum conflito interno, com lembranças passadas que ele gostaria de não possuir e de sentimentos que ainda eram uma incógnita para ele, era realmente possível que mesmo depois de uma reencarnação a alma dele estivesse fadada ao sofrimento? Enquanto ele segurava na roupa de Meng Shan, ele sussurrava o nome daquela que o segurava firmemente, e isso fazia Meng Shan sentir-se sufocada de preocupação. Ela não tinha certeza se Zhang Qian estava desmaiado, mas seus sintomas não indicavam que ele estivesse na mais perfeita condição.
— Isso… — Antes de continuar sua fala, Meng Shan sentiu sua boca coçar e ela pensou que, alguma vez que havia fugido de sua memória, ela já tivesse dito aquela frase. Ainda assim, pensando que seria melhor dar um apoio ao homem em seu colo, ela segurou na mão de Zhang Qian. — Dói? — Por fim ela concluiu sua fala. “Ah, sim, Lian Fa, parece que nem mesmo minhas falas mudaram de lá para cá”, foi o que ela pensou logo após dizer. Entretanto, logo ela fez uma correção mental: ela não deveria mais chamar aquela pessoa de Lian Fa, deveria respeitar o novo “eu” de seu amor e deveria chamá-lo de Zhang Qian. Meng Shan não iria errar novamente com ele, ela jamais poderia fazer isso novamente.
— Bem, — Zhang Qian abriu seus olhos lentamente. — Doeria mais se você não estivesse aqui… Jiejie. — Ele sorriu ao dizer aquelas palavras e, sem mais e nem menos, ele levantou-se do colo de Meng Shan e caminhou até sua mochila. Ele pegou uma garrafa d’água e um pequeno remédio, que Meng Shan logo reconheceu como sendo um remédio específico para tonturas. Quando era pequena, ela mesma sofria muito com tonturas, passava dias sentada reta para que suas cabeça não girasse e ela não sofresse nenhum tipo de acidente, e também passava noites dormindo sentada para que quando acordasse sentisse menos tonturas. Em seu caso, aquilo era a culpa que Meng Shan carregava e a avalanche de lembranças que a acertavam dia e noite, mas pelos outros sintomas de Zhang Qian aquilo só poderia ser tontura causada por grandes períodos de estresse. Era muito provável que, além das tonturas, ele sofresse com dores pelo corpo frequentemente e muito mais dores na cabeça, como as temidas enxaquecas, mas apenas um pouco mais dolorosas.
— Você tem muitos picos de estresse, Zhang-shi? — Meng Shan decidiu, por fim, fazer a pergunta, ela não queria ser taxada como “sem assunto” e ela também queria ouvir mais sobre como Zhang Qian era nesta vida.
— Aiya, por que está usando “shi” comigo, jiejie?
— Por que está usando “jiejie” comigo? — Meng Shan rebateu no mesmo segundo.
— Vejamos, talvez seja igual eu saber que você tem algo de Yan Fu Zhao dentro de você, eu apenas sinto que você é mais velha que eu. E, além disso, eu sinto que você quer que eu a chame assim… Mas eu ainda gosto mais de "pequena lótus" — Zhang Qian fechou a garrafa d’água e a colocou novamente em sua mochila. — Afinal, quantos anos a jiejie tem? — Ele não olhava para Meng Shan, mas ela não havia movido seus olhos dele.
— Vinte e dois. — Ela queria acrescentar com “procurando por você, Zhang Qian”, mas ela sabia que não adiantaria iniciar aquele assunto quando o outro não compartilhava de suas memórias.
— Bem, você é ainda um ano mais velha que eu, no final posso te chamar de jiejie livremente, pequena lótus. — Ele sorriu enquanto brincava com a fita que ainda estava em sua mão, ela estava agora totalmente enrolada sobre seus dedos e o tecido dela fazia cócegas boas na pele de Zhang Qian. Meng Shan notou que, pela primeira vez depois de tanto tempo, ela não se importava com o outro mexendo em algo que, em sua vida passada, fora tão precioso. Na verdade, a cena de Zhang Qian brincando com sua fita, aquecia o seu coração congelado pelo tempo e faziam-na se recordar de memórias muito mais distante, cada uma delas com um sentimento diferente.
— Zhang-shi, por que você estava tocando flauta para aquela caixa? — Mais uma vez, Meng Shan havia usado o “shi” para se referir ao outro, mas ela não escaparia dessa tão facilmente quanto antes. Ela já havia notado que Zhang Qian não queria ser tratado com honoríficos como “shi”, que eram utilizados quando não se tinha intimidade com as pessoas, mas de alguma maneira Meng Shan ainda queria saber o que ele faria se fosse tratado daquela maneira. Bem, foi Zhang Qian quem o chamou de “pequema lótus” primeiro.
— Aigoo, jiejie, você realmente é… — Zhang Qian não terminou sua fala, ele acabou olhando para os olhos de Meng Shan e, por um momento, imaginou uma coloração mais dourada naqueles penetrantes olhos pretos e aquilo fez seu coração vacilar. Por sorte, sua tontura não veio, mas uma ideia surgiu em sua mente. Ele desenrolou a fita de seus dedos e de seu pulso, depois de analisar que se a prendesse com o botão que existia no final do tecido, formava-se o desenho de uma guqin azul. Era um desenho simples bordado, mas era magicamente bonito. Ele caminhou até Meng Shan, que ainda o olhava esperando que ele terminasse sua frase, com as mãos esticando o tecido da fita. A diferença de altura dos dois não era tanta, mas Zhang Qian ainda precisou ficar levemente na ponta dos pés enquanto passava suas mãos e a fita pelos ombros da mulher, erguendo um pouco os braços para colocar a fita do jeito correto na testa de Meng Shan. Ele deu dois nós, e deixou suas mãos caminharem por todo o tecido que sobrava até a ponta, no final cruzando os braços e os repousando cada um em um ombro da mulher. — Agora sim, você está do jeito que eu te conheci, apesar de ter me visto tocar flauta para uma caixa de papelão, hehe. Aliás, jiejie… — Zhang Qian chegou lentamente perto do ouvido de Meng Shan, e sussurrou: — … Me chame de Zhang-didi.
Meng Shan estava totalmente estática, aquilo era realmente verdade?! Zhang Qian estava tão, tão, tão próximo de si e de seu rosto, era possível sentir o ar quente saindo de suas narinas e era possível sentir seu hálito! Talvez Meng Shan estivesse num surto interno, e mais uma vez ela estava a agradecer algo: que o corpo de Zhang Qian não estava grudado ao seu, pois se estivesse seria impossível o outro não sentir as batidas de seu coração retumbando feito louco. Mas infelizmente para ela, não era só o coração que revelava as coisas que ela escondia em si, haviam coisas em seu ser que não haviam mudado nem mesmo depois de uma reencarnação e deste modo suas orelhas estavam ficando vermelhas como um pimentão! Agora ela tinha que torcer muito para que o mais alto não notasse aquele pequeno detalhe, ela tinha certeza que mesmo Zhang Qian não tendo recordações do passado, ele entenderia o que raios estava acontecendo ali.
Tarde demais para ela, Zhang Qian já tinha visto.