Capa do Romance Tá Tudo Errado, Mas Tá Bom. Você virou amante.

Tá Tudo Errado, Mas Tá Bom. Você virou amante.

8.2 / 10.0
Marília Marques, advogada de reputação ilibada, vê sua ética ruir ao se envolver com Fábio Cruz. O homem, que escondeu estar casado no início, transformou-se em um vício perigoso. Entre mensagens furtivas e encontros secretos, ela se afunda em uma paixão proibida. Contudo, Fábio guarda segredos que vão além da traição. Agora, Marília deve escolher entre resgatar sua dignidade ou seguir entregue a alguém que jamais abandonará o próprio conforto por ela.

Tá Tudo Errado, Mas Tá Bom. Você virou amante. Capítulo 1

Prólogo:

Juro por Deus e pela minha coleção de vinhos que eu nunca quis ser amante de ninguém.

Sempre critiquei esse tipo de mulher. Sempre falei mal. Mas... aqui estou eu.

Engolindo as palavras - e algumas lágrimas - dentro de um banheiro de hotel.

Sou Marília Marques, 30 anos, advogada sênior, independente, controladora.

Amo listas, amo rotina. Odeio imprevistos.

E prefiro mais uma noite fria com minha taça de Cabernet do que me envolver com homem casado.

Mas o universo - esse brincalhão sem limites - resolveu me presentear com uma combinação explosiva:

Um sorriso torto. Uma conversa afiada. Um terno sob medida.

E, claro, um estado civil que ele convenientemente "esqueceu" de mencionar.

Resultado? Estou trancada no banheiro de um hotel boutique em Campinas, com o rímel escorrendo, o coração disparado como se eu tivesse tomado cinco expressos duplos, e uma mensagem piscando no celular:

"Saia pela porta dos fundos. A Rebeca acabou de chegar."

Rebeca. Nome de esposa. Nome de problema.

O nosso problema. Ou melhor, o meu problema.

Eu deveria correr. Me esconder. Chorar.

Mas sabe o que eu faço?

Respiro fundo, limpo o batom borrado, encaro meu reflexo no espelho iluminado e digo, sem piscar:

- Parabéns, Marília. Você virou estatística. Virou amante.

Justamente aquilo que sempre jurou que nunca seria.

O Dia em que Virei a Outra:

"Se não fosse pelo jeito que eu me sinto nos braços dele, juro por Deus que já teria bloqueado, ignorado, esquecido. Mas é nele que eu me perco - e é isso que me prende."

Eu juro por Deus, pela minha dignidade (que ainda tento salvar) e pela minha coleção de vinhos importados que eu nunca quis ser amante de ninguém. Nunca.

Sempre olhei torto para esse tipo de mulher - "Ah, coitada, não se valoriza, é trouxa, deve ter autoestima do tamanho de uma azeitona."

Pois bem! Se alguém aí em cima tá ouvindo, parabéns: hoje eu sou exatamente essa mulher. Tô aqui, trancada num banheiro de hotel boutique em Campinas, o rímel escorrendo, o coração disparado como se eu tivesse bebido cinco expressos duplos, e uma notificação piscando no meu celular:

"Saia pela porta dos fundos. A Rebeca acabou de chegar."

Rebeca. Nome de esposa. Nome de problema.

Nos meus trinta anos de vida, nunca tive problema em reconhecer sinais de perigo: cláusulas mal redigidas num contrato, cliente querendo dar calote, ex-namorado que some na véspera do meu aniversário. Eu sempre vi antes. Sempre cortei antes.

Mas hoje... ah, hoje falhei feio.

Deixo o celular escorregar pelo balcão de mármore. Ele vibra de novo. Outra mensagem, outra ordem.

Eu deveria estar sentindo vergonha, nojo, medo - tudo isso junto. E sinto. Mas o que me paralisa de verdade é uma vozinha irritante dentro da minha cabeça repetindo: "Parabéns, Marília. Virou estatística. Virou amante. Justamente você."

Olho pro o espelho. A luz é cruel. Meu batom, um vermelho chique da MAC, virou um borrão digno de palhaça deprimida. Tem um fio de rímel atravessando minha bochecha como se fosse lágrima seca. Passo o dedo, borro mais ainda.

Por que eu tô chorando?

Porque a Rebeca chegou? Porque o Fábio é casado? Porque eu sou a outra?

Ou porque, lá no fundo, eu sabia desde o primeiro sorriso dele que isso aqui ia dar merda - e mesmo assim quis mergulhar de cabeça?

Dois meses atrás. Quinta-feira, final de expediente. Eu, de terninho bege, revisando contrato num café bobo num coworking chique no Cambuí.

Ele chegou atrasado pra uma reunião, falando alto, rindo alto, cercado de gente que ria das piadas ruins. Pensei: "Arrogante." E voltei pro meu laptop.

Cinco minutos depois, ele me perguntou - sem ser convidado - se podia sentar na cadeira vaga ao meu lado. Eu disse não. Ele sentou mesmo assim.

Terno sob medida, relógio caro, aquele perfume que fica na gola do paletó. E o sorriso. Ah, o sorriso. Um canto da boca mais torto que o outro, meio preguiçoso. Daqueles que tiram a roupa da gente sem encostar um dedo.

Conversamos banalidades: café, trânsito, política, vinho. Tudo muito civilizado. Ele pediu meu cartão - disse que tinha interesse num parecer jurídico.

Eu entreguei, fingindo que não gostei da forma como os dedos dele roçaram os meus. Voltei pra casa com uma pontada na barriga que não era fome.

Naquela mesma noite, mensagem:

"Preciso tirar uma dúvida jurídica urgente. Jantar amanhã?"

Eu deveria ter dito não.

Eu deveria ter apagado.

Eu deveria ter rido sozinha, aberto uma taça de Cabernet e assistido um reality idiota até dormir.

Em vez disso, escrevi:

"Claro. Qual o restaurante?"

Deixo a lembrança engolir meu estômago enquanto olho de novo pra mensagem piscando no celular. "Saia pela porta dos fundos."

Até nisso eu sou clichê: amante fugindo pela porta dos fundos enquanto a esposa chega.

Quantas piadas eu já fiz disso? Quantas amigas já ouvi chorar por ser a outra? Eu batia no ombro, servia vinho e dizia: "Amiga, larga. Ele nunca vai largar dela."

Olha quem devia ter ouvido o próprio conselho.

Sento na tampa do vaso sanitário, respiro fundo. Tô tonta. Não sei se do vinho ou da culpa.

Deixo o corpo cair pra frente, cotovelos nos joelhos, cabeça nas mãos. O blazer tá jogado em algum canto do quarto, o salto tá fora do pé, minha dignidade deve estar largada embaixo da cama, abraçada com uma calcinha que eu nem sei onde foi parar.

Eu não sou essa mulher.

Eu não sou a coitada.

Eu não sou a trouxa que espera homem casado desligar do viva-voz pra dizer "te amo".

Eu sou Marília Marques. Advogada sênior, carteira da OAB impecável, sócia júnior do escritório mais respeitado da cidade. Eu redijo contratos de milhões. Eu ganho causas impossíveis. Eu compro meus próprios vinhos caros.

E mesmo assim... aqui estou. Sozinha num banheiro, enquanto ele resolve a vida confortável dele com a esposa perfeita, a casa perfeita, a vida de comercial de margarina que ele faz questão de esconder de mim - ou de mostrar quando quer me manter no lugar.

Abro o celular de novo. Leio a mensagem umas cinco vezes. Tenho vontade de responder: "Vai à merda, Fábio. Vou sair pela porta da frente. Vou dar oi pra Rebeca. Vou dizer tudo."

Não faço nada disso. Só digito: "Ok." E não envio. Apago. Digito de novo. Apago de novo. Eu rio. Um riso seco, engasgado, que me faz tossir.

Meu reflexo no espelho me encara como quem diz: "Sério, Marília? Você vai engolir essa também?"

Vou.

Levanto, abro a torneira, molho as mãos, passo na nuca. Água gelada. Respira. Repasso mentalmente: Celular limpo? Sem prints? Sem mensagens? Bolsa com tudo? Rosto apresentável? Cabelo decente? Tudo sob controle - menos eu mesma.

Abro a porta do banheiro. O quarto ainda tá bagunçado: lençóis amarrotados, taças de vinho pela metade, uma gravata esquecida na poltrona. O cheiro dele ainda tá no ar - mistura de perfume caro e mentira.

Escuto vozes abafadas no corredor. Uma risada feminina. Rebeca? Deve ser. Imagino ela: salto fino, cabelo escovado, aquele blazer que combina com a bolsa. Deve ser linda. Deve ser perfeita.

Deve ser a mulher que eu dizia que seria - até virar amante.

Pego a bolsa, calço os saltos, confiro o batom borrado no espelho do celular. Nem tento arrumar muito. Não tem como polir tragédia.

Abro a porta do quarto devagar, espiando o corredor. O elevador tá longe. O recepcionista, coitado, nem vai me olhar na cara - ou vai, vai olhar com pena.

Atravesso o corredor no modo automático. Um, dois, três passos. Passo pela porta de emergência. A escada de serviço tem cheiro de desinfetante barato misturado com perfume caro - o meu, que ficou impregnado na gola do Fábio.

No meio do lance de escada, paro. Encosto na parede gelada. Fecho os olhos. Tento lembrar quem eu era antes dele. Antes desse caos.

A mulher que não aceitava migalha. A mulher que achava que amor era coisa de adolescente insegura. A mulher que ria de affair proibido em filme ruim.

Cadê ela agora?

Tá aqui, escondida dentro de mim, gritando: "Corre."

Só que é tarde demais. Não dá pra desvirar a chave. Não dá pra devolver beijo roubado. Não dá pra desdormir numa cama que não é sua.

Não dá pra devolver o coração.

O celular vibra de novo. Última notificação da noite:

"Amo você. Me espera. Vai dar certo."

O riso que sai da minha boca preenche a escada vazia. Se alguém ouve, acha que tem louca por aqui. E talvez tenha.

Respondo, num sussurro pra mim mesma:

- Parabéns, Marília. Você virou estatística. Virou amante.

E desço, degrau por degrau, carregando minha culpa, meu salto alto, minha dignidade ferida - e essa esperança burra que insiste em dizer: "Só mais um pouco. Ele vai largar dela. Ele vai escolher você."

Quando piso na calçada lateral do hotel, a madrugada me engole com seu ar gelado e seus postes de luz amarela. Eu deveria sentir alívio por ter escapado.

Mas tudo o que sinto é um aperto no peito que grita: "Esse foi só o começo."

E eu sei que é verdade.

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