Capítulo 2

Ponto de Vista de Carolina

A ala do hospital cheirava a antisséptico e lírios caros — o cheiro da tragédia mascarado pelo dinheiro.

Eu caminhava pelo corredor, meu braço esquerdo enfaixado sob a trama macia do meu cardigã de caxemira. A queimadura era superficial, ou assim disseram os médicos. Apenas um lembrete de segundo grau de onde eu estava na cadeia alimentar.

Eu carregava uma garrafa térmica com caldo de ossos caseiro. Era ridículo, na verdade. Uma performance. A esposa dedicada trazendo sustento para seu marido trabalhador. Mas em nosso mundo, as aparências eram a única moeda que importava.

Cheguei à suíte particular reservada para "Amigos da Família". A porta estava entreaberta.

Eu não deveria ter olhado. Deveria ter apenas batido, anunciado minha presença e forçado-os a se separar. Mas eu parei.

Bernardo estava sentado na beira da cama. Ele havia tirado o paletó arruinado. Sua camisa social branca estava manchada de fuligem e suor, as mangas arregaçadas para revelar seus antebraços — mãos que salvavam vidas, mãos que haviam assinado meu contrato de casamento.

Ariane estava apoiada nos travesseiros. Ela não parecia ferida. Parecia radiante daquela maneira trágica e vitoriana que ela havia aperfeiçoado. Sem queimaduras. Apenas "inalação de fumaça" e "choque".

Bernardo segurava uma colher.

Ele assoprou a sopa suavemente, sua expressão suave, focada. Ele levou a colher aos lábios dela.

"Coma, Ari", ele murmurou. "Você precisa de força."

Ela abriu a boca, aceitando a oferenda, seus olhos fixos no rosto dele com um olhar de adoração que revirou meu estômago.

"Eu estava com tanto medo, Bernardo", ela sussurrou, a voz rouca. "Pensei que ia morrer lá dentro. Pensei que nunca mais te veria."

"Eu não deixaria isso acontecer", disse ele. A convicção em sua voz foi um golpe físico. "Eu me tornei cirurgião para nunca mais ter que ficar parado vendo você sangrar. Não como naquela noite no beco."

Eu congelei.

O beco. A história de origem. Todos nós a conhecíamos. Dez anos atrás, uma gangue rival havia atacado Ariane. Bernardo, então apenas um herdeiro imprudente, não conseguiu estancar o sangramento até a chegada dos paramédicos.

Ele não se tornou um cirurgião de trauma para salvar os soldados da Família. Ele não fez isso por prestígio.

Ele fez isso por ela.

Cada cirurgia, cada noite em claro, cada milagre médico que ele realizava... era tudo apenas penitência por tê-la falhado uma vez.

Eu estava lutando contra um fantasma. Eu estava lutando contra uma ferida de dez anos que se recusava a fechar.

Olhei para a garrafa térmica em minha mão. Parecia pesada, como chumbo.

Empurrei a porta.

A cabeça de Bernardo se virou bruscamente. A suavidade desapareceu instantaneamente, substituída por uma máscara de irritação.

"Carolina", disse ele. "O que você está fazendo aqui?"

"Eu trouxe o jantar para você", eu disse, minha voz plana. Caminhei e coloquei a garrafa térmica na mesa de cabeceira, bem ao lado de um vaso de rosas brancas que eu sabia que ele havia encomendado. "Mas vejo que você está ocupado."

Ariane sorriu para mim. Era um sorriso pequeno, piedoso. "Ah, Carolina. Obrigada. Bernardo estava apenas... me ajudando. Minhas mãos estão tremendo tanto."

Ela levantou uma mão perfeitamente firme.

"Ouvi sobre seu braço", disse Bernardo, olhando para meu curativo. "Está ruim?"

"Está tudo bem", menti, mantendo o rosto impassível. "Apenas um arranhão."

"Bom", disse ele, voltando sua atenção para Ariane. "Olha, preciso ficar aqui esta noite. Monitorar os sinais vitais dela. Você vai para casa."

"Na verdade", eu disse, endireitando a coluna. "Vim te dizer outra coisa. Estou me demitindo do Conselho de Caridade da Família."

Bernardo parou, a colher pairando a meio caminho da tigela. "O quê? Por quê? Você dirige esse conselho. É a sua... coisa."

"Não tenho mais tempo para isso", eu disse. "Tenho outros projetos."

Ele não perguntou que projetos. Ele não perguntou por que eu estava desistindo do único papel público que me dava alguma aparência de identidade.

Ele apenas deu de ombros. "Tudo bem. Na verdade, isso funciona. Ariane precisa de algo para se concentrar enquanto a galeria está sendo reconstruída. Ela pode assumir seu lugar."

O ar me faltou.

"É um conselho de um centro de trauma, Bernardo", eu disse, minha voz tremendo ligeiramente. "Requer supervisão arquitetônica e gerenciamento de orçamento. Ariane administra uma galeria de arte."

"É um centro de trauma", ele corrigiu, a voz dura. "Ela entende de trauma melhor do que ninguém. Ela será perfeita."

Ele olhou para ela, e ela sorriu, parecendo uma rainha aceitando uma coroa que não havia conquistado.

"Obrigada, Bernardo", ela arrulhou. "Eu adoraria."

Ele não apenas aceitou minha demissão. Ele entregou minha vida a ela, pedaço por pedaço, bem na minha frente.

"Aproveitem a sopa", eu disse.

Virei-me e saí. Não fui para casa. Fui para o meu carro, peguei o registro e o abri na data atual.

*Menos cinco pontos. Ele deu a ela o meu lugar à mesa.*

*Pontuação Total: 45.*

Estávamos a meio caminho do zero.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Carolina

Três anos.

Exatamente mil e noventa e cinco dias sendo a Sra. Bernardo Santos.

Eu estava em frente ao espelho do chão ao teto na cobertura, alisando a seda do meu vestido verde-esmeralda. Era decotado nas costas, perigoso e deliberadamente projetado para lembrar meu marido de que ele possuía uma mulher pela qual outros homens matariam.

"Você parece uma arma", disse Bruna da porta.

Ela estava encostada no batente, segurando uma taça de vinho, sua expressão indecifrável. Ela era a única pessoa nesta cidade que sabia a verdade sobre a "Fênix Designs" — a empresa de fachada que eu havia estabelecido há três meses para canalizar os fundos que eu precisaria para sobreviver.

"Essa é a intenção", eu disse, aplicando uma camada de batom vermelho escuro que parecia sangue seco. "É nosso aniversário. Tenho que parecer o papel."

"Ele não te merece", Bruna murmurou, tomando um gole. "Você tem as contas no exterior. O passaporte está no cofre. Por que ainda estamos brincando de casinha?"

"Porque a pontuação ainda não é zero", eu disse, encontrando meu próprio olhar endurecido no espelho. "E porque se eu for embora antes de ter a vantagem para impedi-lo de me caçar, estou morta. Você sabe como os homens Santos são com suas posses."

Posses. Era tudo o que eu era. Uma luminária muito cara e bem-comportada, colocada no canto para brilhar apenas quando comandada.

"O carro está lá embaixo", a voz de Bernardo soou pelo interfone.

Despedi-me de Bruna e desci para a cova dos leões.

O restaurante era uma daquelas instituições sagradas onde o menu não tinha preços e os garçons se moviam com a discrição silenciosa de assassinos. Tínhamos a varanda privativa com vista para o horizonte de São Paulo, as luzes da cidade brilhando como joias espalhadas abaixo de nós.

Bernardo estava devastador em seu smoking. Ele mesmo serviu o vinho, uma safra rara da adega de seu avô.

"A nós", disse ele, erguendo a taça. "À estabilidade."

Não ao amor. Estabilidade. Ordem. Controle.

"A nós", ecoei, o cristal tilintando com um som oco e melancólico.

"Tenho algo para você", disse ele, enfiando a mão no bolso do paletó. Ele tirou uma caixa de veludo.

Meu coração deu um pequeno salto traiçoeiro. Talvez... talvez ele se lembrasse. Eu havia mencionado que queria um compasso de desenho antigo específico que vi em um leilão. Algo que reconhecesse *a mim*, meu trabalho, minha mente — algo que provasse que eu era mais do que apenas um acessório.

Antes que ele pudesse abrir, o celular dele acendeu na mesa.

*Ariane.*

Ele olhou para o celular. Eu olhei para ele.

"Não", eu disse. Foi uma ordem, não um pedido.

"Pode ser uma emergência", disse ele, a mão pairando sobre o aparelho como um viciado alcançando sua dose.

"É nosso jantar de aniversário, Bernardo. Ela é uma mulher adulta. Ela tem segurança. Ela tem médicos. Ela não precisa de você agora."

O telefone parou de tocar.

Soltei um suspiro trêmulo. Ele pegou a caixa de veludo novamente.

Então, uma sombra caiu sobre a mesa.

"Bernardo? Meu Deus, eu não sabia que você estava aqui!"

Eu congelei. Olhei para cima.

Ariane estava parada ali. Ela não estava mais usando um avental de hospital. Estava usando um vestido prateado que parecia mercúrio líquido escorrendo por sua estrutura frágil.

E preso em seu peito, brilhando sob as luzes do ambiente, havia um broche.

O Brasão dos Santos. Um falcão cravejado de diamantes.

O ar me faltou. Era uma herança de família. Deveria ser dado à esposa do Don. Ou à esposa do Subchefe.

Deveria ser meu.

Bernardo se levantou imediatamente. "Ariane. O que você está fazendo aqui?"

"Eu... eu só precisava sair", disse ela, os olhos arregalados e lacrimejantes, interpretando a vítima com perfeição. "O silêncio no meu apartamento... era muito alto. Senti uma crise de pânico chegando."

Ela olhou para mim, fingindo surpresa. "Ah, Carolina. Sinto muito. Estou interrompendo?"

"Sim", eu disse.

"Bobagem", disse Bernardo, me cortando. Ele puxou a cadeira vazia ao lado dele. "Sente-se. Você não deveria ficar sozinha se estiver em crise."

Ela se sentou. Pegou a mão dele sobre a toalha de mesa.

Olhei para a caixa de veludo na outra mão dele.

"Você ia dar o presente da Carolina", disse Ariane, sorrindo docemente. "Vá em frente. Não deixe que eu te impeça."

Bernardo olhou para a caixa. Depois olhou para Ariane. Ela parecia frágil, o lábio inferior tremendo ligeiramente.

Ele olhou para mim. Eu era pedra. Eu era a forte. A que não precisava ser salva. A que não precisava dele.

"Na verdade", disse Bernardo, a voz tensa. "Eu... percebi que isso não é certo para a Carolina."

Ele se virou para Ariane.

"Você teve uma semana infernal, Ari. Você precisa de um ânimo."

Ele abriu a caixa.

Dentro havia um par de brincos de diamante. Diamantes pesados, impecáveis, em forma de lágrima. Eles combinavam com o colar que usei no dia do nosso casamento.

"Bernardo", sussurrei, o som mal escapando da minha garganta.

Ele não me ouviu. Ou escolheu não ouvir. Ele estava entregando a caixa para Ariane. "Feliz... recuperação."

Ariane ofegou. "Oh, Bernardo. Você não devia. Eles são lindos."

Ela estendeu a mão e tocou sua bochecha, marcando seu território.

Eu fiquei sentada ali, vestindo minha armadura esmeralda, sangrando por dentro.

Ele não apenas me esqueceu. Ele reaproveitou meu aniversário para acalmar o ego de sua amante.

Levantei-me. A cadeira arrastou ruidosamente contra o chão, quebrando o silêncio educado.

"Onde você vai?", Bernardo perguntou, finalmente olhando para mim.

"Ao banheiro feminino", eu disse.

Eu me afastei. Não fui ao banheiro. Fui ao bar, pedi uma vodca dupla e peguei meu celular.

*Menos quinze pontos. Ele deu a minha dignidade de presente para ela.*

Pontuação Total: 30.

A contagem regressiva estava acelerando.

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