Capítulo 2

Recebi a chamada do meu marido, Pedro, às três da tarde.

A voz dele estava cheia de pânico.

"Amor, a nossa filha... a Lia... ela caiu da escada na escola. A professora acabou de ligar, ela está a caminho do hospital. Encontra-me lá!"

O meu mundo parou.

Lia, a nossa filha de cinco anos, a luz da minha vida.

Agarrei na minha mala e corri para fora do escritório, o meu coração a bater descontroladamente.

"Estou a caminho," disse eu, a minha voz a tremer.

Quando cheguei ao hospital, vi o Pedro no corredor da urgência. Mas ele não estava sozinho.

Ao lado dele estava a sua ex-namorada, a Sofia.

E ela estava a chorar nos braços dele.

A Sofia estava a segurar o pulso, que parecia inchado. O Pedro passava a mão pelo cabelo dela, a murmurar palavras de conforto.

A minha filha não estava em lado nenhum.

"Pedro? Onde está a Lia? Ela está bem?" perguntei, a minha voz aguda de pânico.

Ele finalmente olhou para mim, a sua expressão era uma mistura de irritação e culpa.

"A Lia está bem. Foi só um arranhão no joelho. A enfermeira já a tratou, ela está na sala de observação a brincar."

Um alívio imenso percorreu-me, mas foi imediatamente substituído por uma confusão fria.

"Então... o que é isto?" apontei para a Sofia.

"A Sofia estava a ajudar a professora com um evento na escola," explicou ele rapidamente. "Quando a Lia caiu, a Sofia correu para a ajudar e tropeçou, magoando o pulso. Foi uma queda feia."

A Sofia olhou para mim, os seus olhos vermelhos e lacrimejantes.

"Ana, desculpa. Eu só queria ajudar a Lia. Não queria causar problemas."

Problemas. Ela estava a chamar a isto problemas.

Eu olhei do pulso inchado dela para o rosto preocupado do meu marido.

Ele tinha-me ligado em pânico, dizendo que a nossa filha estava a caminho do hospital. Ele fez-me largar tudo, conduzir como uma louca, a imaginar os piores cenários.

Tudo por um arranhão no joelho.

E um pulso torcido da sua ex-namorada.

"Tu mentiste para mim," disse eu, a minha voz baixa e sem emoção.

"Eu não menti!" defendeu-se o Pedro. "A Lia caiu, isso é verdade! Eu só... entrei em pânico e talvez tenha exagerado um pouco. A Sofia estava com tantas dores."

"Ela estava com dores," repeti eu, sem expressão. "E a nossa filha?"

"Eu disse, ela está bem! É só um arranhão!"

Naquele momento, eu entendi tudo.

O pânico na voz dele não era pela nossa filha.

Era por ela.

Capítulo 3

Encontrei a Lia na sala de observação pediátrica.

Ela estava sentada numa pequena cadeira, a colorir um livro com um grande penso do Mickey Mouse no joelho.

Quando me viu, o seu rosto iluminou-se.

"Mamã!"

Corri para ela e abracei-a com força, a verificar se estava mesmo bem.

Ela riu-se. "Mamã, estás a esmagar-me! Eu só fiz um 'dói-dói'."

Sentei-me ao lado dela, o meu coração finalmente a abrandar.

"A tia Sofia magoou-se muito," disse a Lia, a apontar com o seu lápis de cera para a porta. "O papá está a cuidar dela."

A inocência dela era dolorosa.

Ela não via nada de errado. Para ela, o pai estava apenas a ser simpático.

Mas eu vi.

Vi o padrão que se tinha repetido inúmeras vezes.

Sempre que a Sofia precisava de algo, o Pedro largava tudo.

Um pneu furado, uma prateleira para montar, uma boleia para o aeroporto.

Ele estava sempre lá para ela.

Ele chamava-lhe "ser um bom amigo".

Eu chamava-lhe outra coisa.

O Pedro entrou na sala, a sorrir. "Vês? Eu disse que ela estava ótima. Estavas a preocupar-te por nada."

Ele tentou dar-me um beijo, mas eu virei o rosto.

O sorriso dele desapareceu. "O que se passa?"

"Vamos para casa," disse eu, a pegar na mão da Lia. "Já chega de hospital por hoje."

No carro, o silêncio era pesado.

O Pedro tentou quebrá-lo.

"O médico disse que a Sofia tem uma fratura. Vai precisar de usar gesso durante seis semanas."

Eu não respondi.

"Ela vive sozinha, sabes? Vai ser difícil para ela... cozinhar, limpar... fazer coisas básicas."

Continuei a olhar para a estrada.

"Talvez... talvez eu pudesse ir a casa dela de vez em quando para ajudar," sugeriu ele, hesitante.

Parei o carro no semáforo vermelho e virei-me para ele.

"Pedro," disse eu, a minha voz perigosamente calma. "Se puseres os pés na casa dela outra vez, peço o divórcio."

Ele olhou para mim, chocado. "O quê? Estás a falar a sério? Por causa disto? Eu só quero ajudar uma amiga!"

"Ela não é tua amiga, Pedro. Ela é a tua ex-namorada a quem tu não consegues dizer não."

"Isso não é verdade! Tu estás a ser irracional!"

"Estou a ser irracional? Tu ligaste-me a dizer que a nossa filha estava a correr para o hospital. Tu fizeste-me pensar que ela estava gravemente ferida. E porquê? Porque a tua ex-namorada torceu o pulso! Diz-me, Pedro, quem é o irracional aqui?"

Ele não teve resposta.

Ele apenas olhou pela janela, o maxilar cerrado.

A luz ficou verde. Eu acelerei, a deixar o hospital e a sua mentira para trás.

Mas eu sabia que não podia fugir para sempre.

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