Capítulo 2

Capitulo: 02

Pontualmente às 12h30, recebo uma mensagem da Sra. Victoria me lembrando do almoço. Respiro fundo, ajeito os cabelos, passo um batom discreto e sigo para o restaurante anexo ao prédio da empresa.

O mesmo onde costumamos receber clientes e parceiros importantes.

Assim que entro, meus olhos são imediatamente atraídos para a mesa próxima à janela. A luz suave do meio-dia emoldura o rosto de David, realçando ainda mais seus traços quase cinematográficos. Ele me vê e sorri — um sorriso que parece saber exatamente o efeito que causa em mim.

— Júlia! — chama Victoria com entusiasmo. — Venha, sente-se! Estávamos justamente falando de você.

— Espero que sejam coisas boas — respondo, com um sorriso tímido enquanto puxo a cadeira ao lado de David.

— As melhores — ele diz, olhando direto nos meus olhos, com uma firmeza que me faz esquecer por um segundo onde estou.

A conversa começa leve, girando em torno de campanhas, tendências e os desafios do setor.

David ouve tudo com atenção genuína, fazendo perguntas pontuais, inteligentes — o tipo de interesse que vai muito além da superfície.

Ele não é só um rosto bonito. Há algo mais. Algo que provoca.

Sua voz é calma, o tom impecavelmente educado, mas há uma firmeza sutil, uma segurança que escapa em cada palavra. E isso me intriga.

— E você, David? — pergunto, aproveitando um momento de pausa. — O que o trouxe ao Brasil?

Ele segura o copo de água, pensativo, como se saboreasse a resposta antes de oferecê-la.

— Um convite irrecusável — diz, com um meio sorriso enigmático. — E, claro, sempre tive uma curiosidade especial por este país. Pela energia das pessoas... e pelos mistérios que o envolvem.

— Mistérios? — repito, arqueando uma sobrancelha, brincando com a palavra.

— Todo lugar tem seus segredos. Às vezes, tudo o que precisamos é olhar mais de perto para enxergá-los — responde ele, fixando o olhar em mim de um jeito que faz minha pele se arrepiar.

Victoria, alheia à tensão quase palpável entre nós, começa a comentar sobre a agenda da semana. Mas eu mal ouço. Há algo em David que me tira o eixo. E o mais perigoso: me atrai.

Após o almoço, nos despedimos e voltamos ao trabalho. Mas durante o trajeto de volta, minha mente insiste em revisitar cada gesto, cada palavra.

No fundo, sei que David Jacobson não é apenas um modelo inglês contratado para uma nova campanha. Ele carrega algo. Um segredo. E eu ainda não sei se quero — ou devo — descobrir.

De volta à minha sala, tento me concentrar nos relatórios da campanha em andamento, mas minha mente insiste em vagar.

A forma como David me olhou, como se me lesse por dentro, ainda está gravada na minha pele.

Há algo naquele homem que escapa da lógica, como se ele fosse ao mesmo tempo familiar e completamente desconhecido.

Minhas mãos pairam sobre o teclado, hesitantes. Abro um novo documento, finjo revisar textos antigos, mas na verdade estou apenas esperando o tempo passar até que algo me traga de volta à realidade.

É então que recebo uma notificação no celular. Uma mensagem inesperada. Número desconhecido.

"Você percebeu também, não foi?"

Meu coração acelera. Leio a frase três vezes, como se pudesse encontrar uma explicação racional entre as letras. Mas não há nome, não há contexto. Apenas isso. Enigmático. Incômodo. Intenso.

Olho em volta, mas o escritório segue sua rotina: teclados batendo, telefones tocando, vozes abafadas discutindo prazos. Tudo parece normal, mas agora algo está diferente. Como se eu tivesse atravessado um limite invisível — e nada mais fosse exatamente como antes.

Penso em responder, mas antes que possa digitar qualquer coisa, o número desaparece da tela. A mensagem some. Arquivada? Deletada? Não sei.

Abro o aplicativo de novo, procuro, atualizo. Nada. Como se nunca tivesse existido.

Minutos depois, Victoria passa pela minha mesa e deixa alguns papéis. Está falando sobre uma reunião, mas eu quase não ouço. Só consigo pensar na mensagem. No olhar de David. E no que ele disse sobre mistérios.

Ao final do dia, já no estacionamento, vejo um carro preto parado a poucos metros do meu. Dentro, um vulto.

Não dá pra ver quem é, os vidros estão escuros demais.

Meus passos desaceleram, e meu coração acelera. Quando finalmente abro meu carro e olho de volta, o carro preto já se foi. Sem som. Sem rastro.

Entro, ligo o carro e respiro fundo. Tento me convencer de que estou apenas cansada.

Que foi um dia intenso, que minha mente está pregando peças. Mas no fundo... eu sei que tem algo estranho acontecendo.

Capítulo 3

Capitulo: 03

Na manhã seguinte, acordo com o coração acelerado. Hoje começo oficialmente a trabalhar com David Jacobson.

Levanto num pulo e sigo direto para o banho.

A água morna desliza sobre minha pele enquanto minha mente volta ao almoço de ontem.

Repasso cada detalhe — os olhares trocados, os sorrisos contidos, as palavras ditas no limite entre o profissional e o provocante.

O efeito que ele teve em mim ainda reverbera. Não deveria ser assim. Já trabalhei com tantos modelos e nunca senti nada parecido.

Respiro fundo. Preciso manter o foco. Ser a profissional que sempre fui. Ignorar essas ideias que surgem sempre que estou perto dele — ideias impróprias, perigosas.

Fecho o chuveiro, me enrolo na toalha e sigo para o closet. Escolho algo que me traga de volta à realidade, algo sóbrio, firme. Um terninho cinza, salto preto — mais baixo que o de ontem. Uma blusa de seda preta, brincos dourados, um anel solitário.

Deixo os cabelos soltos, maquiagem marcada nos tons de preto e marrom. Ao me olhar no espelho, vejo uma mulher elegante, séria. Imune. Ou quase.

Depois de um café rápido, estou no carro. No rádio, “Far Away”, do Nickelback, embala minha ansiedade. Canto baixinho, tamborilando os dedos no volante enquanto encaro o trânsito parado.

O telefone toca.

— Alô?

— Bom dia, Júlia. Vai demorar muito? — pergunta Léo, meu assistente, com a voz animada.

— Bom dia, Léo. Acredito que em meia hora estarei aí.

— Ótimo. Já tem gente te esperando — diz ele, abaixando a voz, conspirador. — O bonitão do David Jacobson parece ansioso pra te ver.

— Ansioso? — repito, surpresa.

— Sim, chefe!

— Será que ele mudou de ideia sobre o contrato?

— Não sei dizer — responde, divertido. — Mas ele já está no terceiro café.

— No terceiro?! — exclamo.

— Terceiro! — ele confirma, rindo.

— Oferece o quarto então. Já estou chegando!

Desligo e acelero o máximo que o trânsito permite. Quase uma hora depois, finalmente chego.

Abro a porta da minha sala e dou de cara com David. Está sentado no sofá, lendo um jornal.

Na mesinha ao lado, várias xícaras de café testemunham sua espera.

Ele está irresistível num jeans claro e camisa polo preta. E o perfume... meu Deus, o perfume preenche o ambiente como um convite indecente.

— Bom dia. Desculpe o atraso, o trânsito hoje estava caótico.

Ele levanta os olhos, me observa de cima a baixo com um olhar que me aquece, e sorri:

— Bom dia. Te vendo agora, posso dizer que valeu a pena a espera. — diz, com um tom provocante.

Sinto meu rosto queimar. Maldito charme britânico.

Léo, ao fundo, se engasga com a água e me lança um olhar debochado, levantando uma sobrancelha. Esse meu assistente não presta.

Deixo minhas coisas sobre a mesa, peço a David que me aguarde e corro até o banheiro para tentar me recompor.

Quando volto, ele já está sentado à frente da minha mesa, calmo, elegante, como se pertencesse àquela cadeira.

— Desculpe a demora. Achei que talvez tivesse desistido da campanha — digo, tentando manter o tom neutro.

— E por que pensou isso? — pergunta, realmente intrigado.

— Por ter vindo tão cedo à minha sala...

Lanço um olhar a Léo, que entende o recado e some por alguns instantes.

Quando ele retorna coloca sobre minha mesa as pastas com os projetos. David analisa tudo com atenção, elogiando a maioria. Apenas recusa um: o que exige fotos de cueca.

— Uma pena… — escapa dos meus lábios antes que eu possa evitar.

Quase imediatamente me repreendo. Não devia ter dito isso em voz alta.

Ouço uma risadinha contida e, ao olhar para o fundo da sala, vejo Léo tentando esconder o riso. Reprimo-o com um olhar afiado. Ele se desculpa com um aceno rápido.

— Você gostaria de me ver em trajes menores? — pergunta David, com aquele sorriso malicioso que já virou sua marca registrada.

Olho para aqueles olhos absurdamente azuis e, por um segundo, a resposta quase escapa.

Mas me contenho.

— Não é isso. É só que essa campanha tem um grande potencial. Poderia te render um ótimo retorno financeiro.

— Não estou aqui por dinheiro, senhorita Júlia — ele diz, e a firmeza da resposta me pega de surpresa.

— Não?

— Não. Meu motivo é outro.

— Posso saber qual?

— Pode. Mas não agora. Prometo que no momento certo, você saberá.

Curiosa, mudo de assunto.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Claro.

— Como você fala português tão bem?

— Falo várias línguas, senhorita. Minha profissão exige isso.

— Interessante… Eu conheço modelos que mal dominam a própria língua. Por que você é diferente?

— Porque acredito que cada um deve se apresentar ao mundo do jeito que quer ser visto. Sou exigente comigo mesmo. Estudo, me preparo, me atualizo.

Ele prende meu olhar com uma intensidade quase hipnótica.

Meu olhar escorrega até a sua boca perfeitamente desenhada. Ele percebe. E, provocador, umedece os lábios com a língua.

Fico paralisada. Ele sabe o efeito que causa em mim — e gosta disso.

Tento escapar da tensão:

— O que acha de começarmos com a campanha dos ternos?

— O que você decidir está ótimo pra mim — responde com tranquilidade.

— Perfeito. Léo vai te levar ao estúdio para começarmos as fotos.

David se levanta, mas seus olhos continuam presos em mim.

— Almoçamos juntos hoje?

— Acredito que não será possível. Tenho alguns assuntos pendentes para resolver — minto, em busca de distância.

— Que pena. Adoraria sua companhia.

Não respondo. Apenas o encaro. Ele retribui, firme.

— Vamos, senhor Jacobson — diz Léo, surgindo na hora exata.

Mas antes de sair, David se vira e lança uma última bomba:

— Lembre-se do que a Sra. Victoria disse ontem no restaurante.

Pisco os olhos tentado me lembrar.

— Ela disse que eu estou em suas mãos. E eu realmente estou, Júlia. Para o que quiser.

Aqui... ou fora daqui.

Ele sai, deixando para trás seu perfume... e o caos emocional que começa a me consumir.

Fico ali, sentada, perguntando a mim mesma: será que vou conseguir resistir a esse homem?

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