Capa do Romance A Vida com meu irmão

A Vida com meu irmão

8.0 / 10.0
Abandonada pelo pai na infância e deixada pelo irmão que partiu em busca da fama musical, Sarah carregou sozinha o peso de cuidar da mãe depressiva. Após uma tentativa de suicídio materna, ela recorre ao irmão ausente há anos. Forçada a mudar de realidade, Sarah passa a viver em uma casa repleta de músicos atraentes e tatuados. Nesse novo cenário, a jovem finalmente experimenta a liberdade da adolescência, descobrindo amizades intensas e a chance de um novo amor.

A Vida com meu irmão Capítulo 1

1-

    Estou na fila do mercado mas, estou com uma angústia tão grande no peito que a minha vontade é de largar todas as compras aqui e ir correndo pra casa.

Ultimamente tem sido assim, não consigo me afastar muito da minha mãe, mal durmo direito pra ficar vigiando ela. O motivo? Duas tentativas de suicídio, meu pai nos abandonou quando eu tinha apenas quatro anos de idade e meu irmão Noah, três anos mais velho do que eu não mora mais com a gente já faz cinco anos, a ultima noticia que eu tive dele e que havia montado uma banda com alguns garotos, fico feliz por ele mais também ressentida de aguentar a barra da minha mãe sozinha.

A depressão dela começou já faz três anos, e eu não tenho mais vida, dia e noite todas as minhas energias são concentradas nela, pra garantir que continue viva.

Noah não se importa, pelo menos é o que parece pra mim, já faz dois anos que não nos falamos. Ele não liga e não procura saber como estamos, eu consegui uma pensão baixa pela falta de condições da minha mãe de trabalhar e é tão difícil toda essa situação, a pensão mal dá pra pagar as contas, e o que sobra mal dá pra gente comer durante o mês, geralmente faço apenas uma refeição por dia por que se não for assim, não vai ter para comer todos os dias.

No início foi complicado hoje eu já me acostumei, não que seja saudável, já que todas as minhas roupas ficaram mais largas.

  Termino de pagar pelas frutas e pelos biscoitos que eu comprei e saio correndo pra casa, o mercado fica a apenas três quadras de distância mas o aperto no peito que estou sentindo não quer passar, então corro.

 Entro em casa chamando minha mãe antes mesmo de abrir totalmente a porta:

Mãe? - Deixo tudo na bancada da cozinha e vou verificar o quarto dela, já que claramente ela não está na sala, como eu a deixei quando saí.

A porta do quarto está entreaberta, e eu entro sem bater ou chamar, ela também não está na cama, meu coração aperta mais um pouco e sigo em frente, a porta do banheiro está trancada.

Mãe? - chamo de novo batendo na porta, sem resposta

Mãe,abre por favor. - não há resposta.

Começo a chutar a porta desesperadamente e não sei de onde saiu tanta força, mas consigo abrir, a cena que eu vejo vagueia nos meus piores pesadelos, não é a primeira vez, minha mãe está caída no chão desacordada, eu chacoalho ela várias e várias vezes mas ela não reage, coloco um pano debaixo da cabeça dela, virando ela de lado e enfio dois dedos na garganta dela.

Vamos, por favor - digo pra mim mesma.

Ela começa a ter ânsia de vômito e por fim vomita, tantos comprimidos que eu não consigo nem contar, onde ela achou os comprimidos e um mistério pra mim, pois eu já tinha escondido todos que tinha na casa, absolutamente tudo o que ela pode usar pra fazer algum mal a si mesma está fora de alcance, mas eu me preocupo com isso depois.

Jogo um pano sobre o vômito e a coloco deitada com um pano úmido na cabeça, me levanto correndo pra pegar meu celular e chamar uma ambulância.

Lá vamos nós de novo.

Fico sentada no chão frio do banheiro segurando a sua mão enquanto eu espero, e nessas horas eu tenho raiva de todos, raiva do meu pai por ter nos abandonado e não ter olhado para trás, raiva do Noah por estar vivendo sua vida fantástica sem se preocupar com o que restou da nossa família, e sinto raiva da minha mãe por não ser forte o suficiente e não perceber que está acabando com a minha vida. Mal tive uma adolescência, me formei aos dezessete anos e foi logo quando Noah saiu de casa, não pude fazer a minha sonhada faculdade de letras, comecei a trabalhar como caixa no mercado perto de casa pra ajudar minha mãe com as despesas, Noah ajudou nos dois primeiros anos então eu não precisava fazer turnos muito longos, até que tivemos uma discussão que eu nem lembro o motivo e ele sumir de vez, logo depois disso minha mãe entrou em uma depressão profunda, tive que largar o trabalho pra cuidar dela e minha vida se foi de vez. Não me restou um único amigo, todos haviam seguido suas vidas pras faculdades após o ensino médio, e sendo a enfermeira vinte e quatro horas por dia nunca tive um namorado sequer. Só não sei até quando vou levar isso. Não que eu sinta falta das pessoas em si, mas eu não aguento mais sentir medo a cada segundo,medo de que algo ruim assim possa acontecer, está acabando comigo.

Não chore minha boneca! - Tomo um susto com a voz da minha mãe, ela está rouca mas os olhos estão atentos, e vidrados em mim.

Não estou chorando. - digo limpando uma única lágrima que havia me escapado. A realidade era essa, eu não chorava nunca, mesmo nas horas mais difíceis e assustadoras e nas noites em claro que eu passei, eu não chorei.

Vai ficar tudo bem. - ela diz segurando minha mão, ela está tão fria e seu aperto na minha mão é tão fraco.

Vai sim, vai ficar tudo bem! - digo tentando convencer mais a mim mesma do que a ela.

Ficamos ali por mais alguns minutos, até que ouço a campainha da frente. Tudo que se passa depois, é como um borrão pra mim, minha mãe foi levada para o hospital, foi medicada e sedada, e irá ver um psicólogo mais tarde, penso em ligar pro Noah mais logo mudo de ideia.  

Por fim, depois de horas, um médico veio falar comigo, ele explica que o estado de saúde dela não é bom, que ela precisa ser internada pois sem uma intervenção, na próxima vez que eu a encontrar pode ser tarde demais.

Como explico pra ele que não temos dinheiro pra pagar uma clínica? A não ser que eu alugue a casa e, com o valor do aluguel pagar a estadia dela na clínica pelo tempo que precisar, posso voltar a trabalhar no mercado e arrumar um canto pra ficar enquanto isso.

Sim, eu tinha um plano.

Minha mãe vai passar a noite no hospital então vou pra casa, e começo a empacotar todas as coisas pessoais, começo a formular um anúncio da casa, acabo pegando no sono enquanto ainda faço os ajustes da publicação.

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