Capítulo 2

Eu estava na sala, quase arrancando os cabelos, quando ouvi a voz de Dona Dulceneia vinda da cozinha.

— Menina, você viu o escândalo de ontem?

Olhei em volta, mas, claro, Dona Dulceneia não estava em lugar nenhum. A voz, irritante e esganiçada, vinha do Zezinho, meu papagaio. A desgraça do bicho estava repetindo as fofocas da velha!

— Você viu que a Zuleica tá grávida do irmão do padeiro? — Zezinho continuou, balançando as asas como se estivesse se divertindo com aquilo.

— Zezinho, eu juro que vou te depenar se você continuar com essas fofocas! — cruzei os braços e fui até a gaiola, encarando o papagaio como se ele fosse entender. — Eu já aguento a Dona Dulceneia espalhando essas besteiras pela cidade toda. Agora você vem pra dentro de casa me atormentar com isso?

Ele inclinou a cabeça para o lado, meio que debochado, como se estivesse me desafiando.

— Mas é verdade, viu? — ele insistiu, sacudindo as penas. — Eu ouvi ela dizer!

Dei uma risada nervosa. Aquilo era uma loucura. Eu estava, literalmente, discutindo com um papagaio fofoqueiro.

— Você ouviu, né? Você e o resto da cidade! — respirei fundo, tentando manter a paciência. — E eu aqui, me preocupando com uma bananeira!

— Bananeira, bananeira, bananeira... — Zezinho começou a repetir, e eu só não quebrei o vaso na mesa porque me controlei.

Foi nessa hora que a porta se abriu e Natália apareceu, com aquele jeito descontraído de sempre, segurando uma sacola de laranja.

— Eita, mas tá tendo discussão acalorada por aqui! — ela riu, se aproximando da gaiola de Zezinho. — Esse papagaio aí tá cada vez mais afiado, hein?

— Nem me fala, Nati. — passei a mão pelo rosto, exausta. — Ele tá repetindo tudo o que ouve da Dona Dulceneia. Aí, fica jogando essas fofocas na minha cabeça o dia todo.

Natália largou as laranjas em cima da mesa e se encostou no batente da porta, me encarando com aquela cara de quem ia soltar uma verdade que eu provavelmente não estava preparada para ouvir.

— Amiga, me diz uma coisa. Não tá na hora de parar de se preocupar com essa bananeira, não?

Suspirei, já sabendo onde aquilo ia dar.

— Natália, a gente já falou sobre isso. Aquela bananeira tem história. Meu pai plantou, lembra?

Ela ergueu uma sobrancelha, já armando seu argumento.

— Lembro. E também lembro que você tá gastando suas férias se estressando com essa confusão. — ela cruzou os braços. — Rafa, você tem noção que tem uma praia linda a cinco quilômetros daqui e você tá aqui, brigando com um papagaio e defendendo uma bananeira?

— Não é só uma bananeira! — apontei para fora da janela, onde o tal pé de bananeira brilhava ao sol como se fosse um monumento histórico. — Aquela árvore é o que sobrou da memória do meu pai! Não vou deixar ninguém cortar!

Natália revirou os olhos.

— Rafa, olha só. Entendo a importância sentimental. Mas você tá deixando de viver! Essas férias eram pra ser teu momento de relaxar, curtir, sair desse stress todo. Entretanto, você tá aí, emburrada, brigando com o Daniel da fábrica, brigando com o Zezinho... — ela apontou pro papagaio, que, nesse momento, estava alheio a tudo, roendo um pedaço de madeira.

— Não tô emburrada! — cruzei os braços, me defendendo. — Só acho que eles podiam deixar a bananeira lá. Qual o problema, hein? Tem tanto espaço naquele terreno!

— Amiga, eles vão construir uma fábrica! Não dá para ficar desviando de árvore, ainda mais de uma só porque você tem apego emocional. — ela fez uma pausa, me encarando com um olhar mais suave. — Entendo sua dor. Sei que é uma ligação com teu pai, mas... ele ia querer te ver feliz, não te desgastando por causa de uma árvore.

Fiquei quieta por um segundo, tentando absorver o que ela estava dizendo. A verdade é que eu sabia que ela tinha razão, porém... era complicado demais deixar pra lá.

— É fácil falar. — me virei de costas, encarando a janela e a tal bananeira de novo. — Eu só... sinto que, se eu deixar eles cortarem, é como se eu estivesse abandonando o que restou do meu pai. E se eu não fizer isso, quem vai fazer?

— Você não tá abandonando nada, Rafa. — Natália se aproximou e colocou a mão no meu ombro. — O que teu pai deixou pra você não tá só naquela árvore. Tá nas suas lembranças, no que ele te ensinou. Essa bananeira não define isso.

Suspirei. O peso nas minhas costas parecia dobrar a cada segundo daquela conversa. Eu não queria admitir que ela estava certa, mas, ao mesmo tempo, parte de mim sabia que insistir nessa briga estava me desgastando.

— Talvez eu esteja sendo teimosa. — murmurei, ainda encarando a janela.

— Só um pouquinho. — ela sorriu, apertando de leve meu ombro. — Sua teimosia também é uma herança de família, né?

Dei uma risada curta, meio sem graça.

— Meu pai era o mais teimoso de todos. E olha onde eu fui parar.

— Defendendo uma árvore e discutindo com um papagaio. — Natália riu alto. — Você é única, amiga.

Zezinho, como se tivesse percebido que estava sendo parte da piada, soltou mais uma das suas pérolas:

— Teimosa! Teimosa!

Revirei os olhos, me sentindo derrotada pelo papagaio.

— É isso, agora até o Zezinho tá contra mim.

— Zezinho tá é certo. — Natália balançou a cabeça. — Amiga, relaxa. Aproveita suas férias. Vai dar um tempo dessa confusão com o Correia. Sabe o que você devia fazer?

— O quê?

— Ir até a praia, pegar um sol e, quem sabe, dar uma chance pro dono da fábrica. — ela deu uma piscadinha sugestiva.

Revirei os olhos, no entanto, dessa vez foi mais em diversão do que irritação.

— Ah, não começa com isso também.

— Só tô dizendo. Vai que...

Antes que eu pudesse responder, Zezinho resolveu encerrar a conversa de uma forma muito característica dele:

— Vai que... vai que... — repetiu, balançando a cabeça de um lado pro outro.

Natália caiu na gargalhada, e eu acabei rindo junto, porém, desistir estava fora de questão.

Capítulo 3

Acordei naquela quarta-feira com uma missão clara: conquistar o Rodrigo. E qual seria a melhor maneira de fazer isso? Ir para a academia, claro. Não importa que minha única atividade física nos últimos meses tenha sido desviar das fofocas da Dona Dulceneia ou carregar o Zezinho até o veterinário, o importante era fazer uma aparição triunfal na academia do Rodrigo.

Entrei pela porta da academia tentando manter a pose. Estava decidida a me mostrar como alguém que levava a saúde a sério, uma verdadeira fitness girl. Claro, isso ficou um pouco comprometido quando tropecei logo na entrada.

— Tá tudo bem? — perguntou uma moça que, pelo jeito, trabalhava lá.

— Tudo sim! Só estava... testando o reflexo do piso — respondi, tentando disfarçar o fiasco.

Ela não pareceu muito convencida, contudo, me entregou uma ficha para preencher. Enquanto escrevia meu nome e mentia sobre minha rotina de exercícios, meus olhos vasculhavam o local em busca de Rodrigo. E lá estava ele: perfeito como sempre, dando instruções a um cara que parecia ter saído de um filme de ação. Suspirei. Ele nem me notou. É claro.

Após entregar a ficha, fui direto para os aparelhos, fingindo que sabia o que estava fazendo. O primeiro que eu tentei parecia simples. Uma daquelas esteiras modernas. Sabe quando parece que você só vai andar no lugar e que não tem segredo? Pois bem, tinha.

Subi na esteira, apertei uns botões aleatórios e, de repente, ela começou a andar. No início, tudo sob controle. Eu estava me sentindo poderosa, o cabelo balançando com o ventilador da sala, quase uma cena de comercial de shampoo. Porém, a esteira aumentou a velocidade de repente.

— Eita! — gritei, tentando acompanhar.

Minhas pernas mal conseguiam acompanhar o ritmo. Quando percebi, já estava correndo como se estivesse fugindo de um enxame de abelhas. Tentei apertar os botões para diminuir a velocidade, mas nada parecia funcionar. Era como se a máquina tivesse vida própria e quisesse me desafiar.

Rodrigo, que estava de costas para mim, não fazia ideia do caos que se desenrolava. Eu, claro, estava a um passo de ser arremessada da esteira. Por sorte (ou azar), um instrutor se aproximou e, com um simples apertar de botão, resolveu o problema.

— Não é melhor começar devagar? — ele sugeriu, com um sorriso contido, segurando provavelmente o riso para não me humilhar ainda mais.

— Devagar é para os fracos. — eu menti, tentando recuperar o fôlego.

Saí da esteira me sentindo uma vencedora, mas mal conseguindo respirar. Achei que precisava de algo mais tranquilo. Vi uma máquina com uma espécie de barra na frente, e me aproximei. O pessoal puxava a barra para baixo com uma facilidade incrível, então resolvi tentar.

— Só puxar, né? Fácil demais. — murmurei para mim mesma.

Sentei no banco e puxei a barra. Quer dizer, tentei. Ela não se mexeu. Coloquei toda a minha força, e ela continuou ali, firme. Comecei a suar, entretanto, nada da barra descer.

— Precisa ajustar o peso primeiro. — uma voz grave disse atrás de mim.

Olhei para cima e lá estava ele, Rodrigo, me observando com aquele sorriso que fazia meu coração dar piruetas. Tentei parecer casual.

— Eu estava só... aquecendo. Gosto de sentir a tensão nos músculos, sabe?

Ele riu.

— Claro, Rafaela. Mas se precisar de ajuda, é só chamar.

Acenei com a cabeça, tentando disfarçar o rubor que subiu pelo meu rosto. Quando ele se afastou, fiz um juramento: jamais voltaria para aquela máquina. Na verdade, estava prestes a fugir da academia, mas aí me lembrei do motivo nobre que me trouxe até ali. E também do quanto já tinha pagado pela mensalidade.

Resolvi encerrar o treino com uma caminhada rápida. Só que ao sair, ainda sem fôlego, com o rosto vermelho e toda desajeitada, dei de cara com Daniel. Ele estava parado na frente da minha casa, com aquele olhar de quem quer ganhar uma discussão.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, já antecipando o motivo.

— Vim te ver, Rafaela. Precisamos conversar sobre a bananeira. — ele disse, com aquela calma irritante.

Revirei os olhos. Conversar? Ele queria era me obrigar a aceitar sua vontade, isso sim!

— Já te disse, Daniel. Não vou abrir mão da árvore. Meu pai plantou antes de morrer. É como se fosse parte da minha história, entende?

— Eu entendo, mas você também precisa entender que uma fábrica vai trazer empregos para a cidade. Isso vai beneficiar todo mundo.

— Todo mundo, menos a bananeira. — retruquei, cruzando os braços.

Daniel soltou um suspiro, esfregando a testa como se eu fosse a pessoa mais teimosa que ele já conheceu.

— Eu não quero ser o vilão dessa história, Rafaela. Mas precisa haver uma solução. Talvez possamos transplantar a árvore para outro lugar?

— Transplantar?! — quase gritei. — Você acha que a bananeira é um vaso de planta que dá para carregar de um lado para o outro? Além do mais, não é só a árvore. É o terreno, a memória... e você não entende isso, Daniel, porque nunca perdeu alguém importante.

Ele ficou em silêncio, me olhando de um jeito diferente. Por um segundo, achei que ele fosse desistir. Mas claro, Daniel era tão teimoso quanto eu.

— Está bem. — ele disse, depois de um longo suspiro. — Ainda assim, vou insistir. E vou achar uma solução que seja boa para você e para a fábrica.

— Boa sorte com isso! — respondi, sarcástica.

Ele deu um sorriso torto antes de se afastar.

— Você é mais teimosa do que imaginei.

— E você ainda não viu nada! — gritei para ele, me sentindo vencedora mais uma vez. Eu não sabia até onde aquele empresario insistiria em derrubar minha amada bananeira, porém, faria até o impossível para que ele desistisse dessa ideia.

Entrei em casa bufando. Que cara insistente! Porém, uma parte de mim não conseguia parar de pensar na maneira como ele olhou para mim, aquele brilho estranho nos olhos. Dei de ombros, ignorando esses pensamentos. Afinal, o importante era que eu havia sobrevivido à academia. E quem sabe, da próxima vez, eu teria finalmente a chance de impressionar o Rodrigo. Ou, pelo menos, não ser arremessada da esteira.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED