Capa do Romance Debaixo Da Bananeira

Debaixo Da Bananeira

9.5 / 10.0
No interior do Ceará, Rafaela Pereira defende com fervor a bananeira deixada por seu falecido pai, que corre o risco de ser removida para a construção de uma nova fábrica. Daniel Correia, o proprietário do empreendimento, encanta-se pela persistência da jovem, mergulhando em situações cômicas e intensas. O embate inicial evolui para uma paixão profunda, provando que o amor surge em meio a conflitos. Uma narrativa envolvente que une humor, drama e as surpresas do destino.

Debaixo Da Bananeira Capítulo 1

Rafaela Pereira

A situação estava tão fora de controle que, se eu contasse, ninguém acreditaria. Mas ali estava eu, amarrada ao pé de bananeira como se minha vida dependesse disso. E, de certa forma, dependia. Era a última lembrança do meu pai, o último vestígio do que ele plantou com tanto carinho naquele terreno. Só que, na minha cidade, nada passa despercebido, principalmente quando se trata de mim.

Eu conseguia ouvir de longe os cochichos das vizinhas, que se aglomeravam no portão para assistir ao espetáculo. A protagonista, claro, era eu. E, claro, quem liderava a turma de comentaristas era Dona Dulceneia, a rainha das fofocas. Ela gritava de longe:

— Ela tá louca! Não falei? Louca por bananas! Eu disse, eu sabia!

Respirei fundo e me virei para encarar Daniel Correia, que me olhava com uma mistura de espanto e exasperação. Ele era o dono da fábrica que ia se instalar ali, no mesmo lugar onde meu pai tinha plantado a bananeira. Por que justo aqui, meu Deus? Entre tantos terrenos no Ceará, ele tinha que escolher esse? O Daniel, com aquele jeito certinho, de quem está acostumado a resolver tudo com uma conversa civilizada, estava claramente no seu limite.

— Você precisa desamarrar isso agora. Não faz sentido... — ele começou, com aquele tom de quem está tentando ser razoável.

— Não faz sentido pra você, né? — interrompi, com a voz um pouco mais alta do que o necessário. — Pra mim, isso aqui é o que me resta do meu pai. Ele plantou essa bananeira com as próprias mãos! E vocês querem derrubar como se fosse uma coisa qualquer!

Ele passou a mão pelos cabelos, impaciente, enquanto as vizinhas se agitavam. De repente, ouvi Dulceneia gritando novamente:

— Acho que ela vai morder ele! Cuidado, moço! Essa menina é perigosa!

Daniel bufou e me encarou.

— Olha... Entendo que isso tem um valor sentimental pra você, porém, a fábrica vai trazer empregos pra cidade. Você precisa ver o lado bom da coisa.

— Empregos? Empregos!? E o emprego do meu pai, de plantar aqui, cadê? Já pensou nisso? - Eu estava me sentindo um pouco dramática, mas quem não estaria? Ele queria destruir uma parte do meu passado!

— Seu pai... Ele não está mais aqui, pelo que soube. — disse Daniel, com um tom mais brando, tentando puxar o lado racional da conversa.

Meu coração apertou, contudo, eu não ia ceder tão fácil.

— Pois é, mas a bananeira está. E eu estou aqui, lutando por ela. Então, se quer destruir essa bananeira, vai ter que passar por cima de mim.

Foi aí que percebi o tamanho do circo que estava se formando. A multidão na rua triplicara, e, com isso, aumentavam os comentários. De repente, ouvi uma voz do outro lado:

— Ô Rafaela, se tu tá precisando de banana, tem lá em casa, mulher! — gritou Dona Jacira, a verdureira da praça.

Olhei feio na direção dela, sem acreditar que essa era a preocupação da galera. Já Daniel, que claramente estava mais constrangido com a situação do que eu, tentou novamente:

— Vamos resolver isso de forma pacífica. Posso ver se a gente consegue replantar a bananeira em outro lugar. Que tal?

Olhei pra ele, incrédula. Replantar? Ele não tinha ideia do que estava falando.

— Ah, claro! Como se fosse tão fácil. Vou só desenterrar as raízes do meu passado e colocá-las em outro canto, não é? — retruquei, o sarcasmo escorrendo pela minha voz.

Ele suspirou, claramente cansado.

— Isso está ficando ridículo.

— Ridículo é você achar que vou deixar destruir a única coisa que resta do meu pai sem lutar!

A coisa estava ficando tensa, mas antes que ele pudesse responder, Dona Dulceneia, que tinha se aproximado, soltou:

— Eu disse! Louca por bananas, só pode! Isso é o que dá ficar tanto tempo sozinha, sem homem na vida!

Ah, mas essa foi a gota d'água. Eu me virei na direção dela e gritei:

— Dona Dulceneia, a senhora não tem nada melhor pra fazer não? Tipo, cuidar da sua vida?

Ela se afastou com uma expressão ofendida, enquanto algumas risadinhas ecoavam pela rua. Daniel aproveitou o momento de distração para tentar uma abordagem mais calma. Ele se agachou na minha frente, quase à altura dos meus olhos, e disse num tom mais suave:

— Rafaela, eu entendo o quanto isso é importante pra você. Mas, de verdade, será que não existe outra maneira de resolver isso sem você ter que... bem, se amarrar a uma árvore?

— Uma árvore não! — eu corrigi, irritada. — Uma bananeira!

Ele levantou as mãos em rendição.

— Certo, uma bananeira. Mas não precisa ser desse jeito, precisa?

Olhei para ele, e por um segundo, achei que ele realmente entendia. Ele tinha uns olhos que quase me faziam esquecer do motivo pelo qual eu estava ali. Quase. Mas eu me segurei.

— Você não sabe o que é perder alguém e só ter uma planta como lembrança — eu disse, mais calma, o que pareceu pegar ele de surpresa.

Daniel ficou em silêncio por um instante. Ele abriu a boca para dizer algo, no entanto, foi interrompido por uma sirene. O que agora? A polícia?

Eram os bombeiros! Claro que alguém chamou os bombeiros. Era só o que faltava.

— Rafaela, saí daí, mulher! — gritou o sargento Roberto, que já me conhecia das outras confusões em que eu me metia.

Revirei os olhos, mas não soltei a corda.

— Não saio! Vocês vão ter que me carregar daqui!

Daniel levantou, impaciente, e foi até o sargento, tentando explicar a situação. Eles conversavam à distância, e eu só conseguia pensar no que o meu pai faria se estivesse vivo. Será que ele aprovaria o meu protesto?

De repente, senti uma mão no meu ombro. Era Daniel.

— Olha, Rafaela, eu realmente não queria chegar a esse ponto, mas a obra vai começar. Se você não sair, vai acabar se machucando.

Ele parecia sincero, e eu me senti dividida entre o orgulho e o medo de que ele estivesse certo. Olhei para a bananeira, para as vizinhas, para os bombeiros, e finalmente para ele. E então suspirei, derrotada.

— Tá bom. Eu saio. — eu disse, com a voz baixa, enquanto começava a desamarrar as cordas.

A multidão soltou um "ahhh" coletivo, decepcionada com o fim do show, e eu, derrotada, deixei a cena. Mas, antes de ir, lancei um último olhar para Daniel e disse:

— Isso não acabou, Correia. Eu vou pensar em outra forma de salvar essa bananeira.

Ele sorriu de canto, como quem já esperava por isso.

— Eu não duvido.

Aquele era o começo da minha luta que poderia parecer loucura, mas que, para mim, tinha todo o sentido do mundo.

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