Capítulo 2

Chloe Narrando

Meu nome é Chloe Tundrov. Tenho 22 anos e moro em Moscou. Quer dizer, sobrevivo.

Sou prostituta. P.G. Rainha da noite. Chame como quiser. Pode até me chamar de filha da puta, só não diga que eu não sou guerreira, porque aí teremos sérios problemas.

Cresci em uma família de duas pessoas: minha mãe e eu. Nunca conheci avós, tios, primos... ninguém. Minha mãe sempre dizia que estava sozinha no mundo e que só tinha a mim. Nunca senti falta do que nunca tive.

Mas isso não significa que minha infância foi normal.

Na escola, me chamavam de filha da puta. No começo, eu não entendia bem o que aquilo significava. Só sabia que as pessoas riam de mim, que cochichavam quando eu passava, que até algumas professoras me olhavam com desprezo. "Sua mãe destrói famílias", diziam. "Mulher imunda."

Eu não compreendia o que minha mãe fazia. Para mim, ela era apenas minha mãe. Mas, com o tempo, as coisas foram ficando mais claras.

Os "amigos" que ela recebia em casa não eram amigos. Eram clientes. Os risos e gemidos que ecoavam pelo apartamento não eram felicidade, eram trabalho. Algumas noites ela saía para atender na rua, e eu gostava desses momentos. Pelo menos, quando ela não estava em casa, eu podia sair do meu quarto.

Mas, quando os atendimentos eram no apartamento, era diferente.

Minha mãe trancava a porta do meu quarto e me proibia de sair. Às vezes, passava horas presa ali, ouvindo as vozes dos homens, o ranger da cama, os gemidos abafados. Não tinha brinquedos, não tinha distrações. Apenas o silêncio forçado e o tempo que parecia se arrastar.

Se há algo que posso dizer sobre minha mãe é que, apesar de tudo, ela nunca deixou que os homens me vissem. Ela me protegia à sua maneira. Talvez soubesse que, no mundo em que vivíamos, qualquer deslize poderia ser perigoso para mim.

Mas isso não tornava minha vida menos sufocante.

À noite, quando tudo ficava em silêncio, eu rezava. Pedia ao universo um destino diferente.

Fechava os olhos e imaginava outra vida. Uma onde eu era apenas Chloe, não "a filha da puta". Onde eu podia andar pela escola sem ser apontada. Onde as professoras me tratavam como qualquer outra aluna.

Onde eu tinha uma chance.

Mas o universo não me ouviu. Ou talvez tenha decidido brincar comigo.

Porque, no fim, o destino que eu tanto temia me alcançou.

Me lembro detalhadamente daquela noite. Tomei banho, me arrumei e coloquei uma das perucas da minha mãe. O cabelo castanho comprido cobria parte do meu rosto, e a franja falsa me fazia parecer outra pessoa. Talvez fosse melhor assim.

Com o coração acelerado, fui até o escritório para falar com o cafetão. Quando ele me viu, só faltou babar.

- A filha da Mabel - Ele sorriu, me analisando dos pés à cabeça. - Olha só pra você. Tá pronta pra trabalhar, hein?

Não respondi. Mantive a postura firme, mesmo que minhas pernas estivessem tremendo. Ele chamou uma mulher, e quando ela entrou, soube na hora que não seria fácil.

Zilda.

O olhar que ela lançou para mim deixou claro que não gostava da minha mãe e que, por tabela, não gostaria de mim.

- Então é essa aí? - Ela cruzou os braços, torcendo os lábios. - Já vi que vai ser um problema.

- Vai ser um sucesso - o cafetão rebateu, animado. - Sangue novo. Os clientes vão amar.

Zilda soltou uma risada seca e deu um passo na minha direção.

- Você acha que ser filha da Mabel te dá alguma vantagem aqui?

- Não acho nada - respondi, mantendo o olhar fixo no dela.

- Pois é bom que não ache mesmo. Porque aqui você não é ninguém. Vai começar de baixo, igual todas as outras. E se vacilar- Ela apertou meu queixo com força. - Eu acabo com você.

Engoli em seco, mas não recuei. Aguentei tudo calada. Pela minha mãe. A conversa começou a ficar constrangedora e quando falei que não tinha experiência, eu vi os olhos do velho nojento brilhando. E ali na minha frente ele me tratou como uma mercadoria, mandou mensagem colocar no mural da noite. Eu queria chorar, gritar, correr. Mas não podia, afinal eu estava Ali pra isso né, para atender os clientes como um pedaço de carne em cima da cama.

- prepara ela - o cafetão ordenou. - Hoje você estreia.

Zilda me levou para um quarto pequeno, com paredes vermelhas e uma cama arrumada demais para um lugar como aquele. Assim que entramos, ela bateu a porta atrás de si e me olhou de cima a baixo, com desprezo.

- Tira essa roupa. Fica só de lingerie.

Fiz o que ela mandou sem questionar. Minha lingerie era simples, nada chamativo, e o salto nos meus pés não era muito alto. Quando terminei, cruzei os braços sobre o peito, me sentindo exposta.

- Primeira regra - Zilda começou, caminhando ao meu redor como um predador analisando a presa. - Nunca demonstre insegurança. Homem sente cheiro de medo, e se perceberem que você tá nervosa, vão se aproveitar.

Assenti em silêncio.

- Segunda regra - Ela parou na minha frente e puxou meus braços, me obrigando a descruzá-los. - Nada de se encolher. Peito pra frente, ombro erguido. Faz pose de mulher segura, mesmo que por dentro você esteja morrendo de medo.

Respirei fundo e tentei corrigir minha postura.

- Terceira regra. O jeito que você olha pra eles faz toda a diferença. Cliente quer ser desejado. Não precisa exagerar, mas olhe nos olhos, morde o lábio de vez em quando.

- Entendi.

Ela riu debochada.

- Não, você não entendeu. Mas vai entender com o tempo.

Zilda se afastou, pegou um batom vermelho na penteadeira e jogou para mim.

- Passa isso. E aprende uma coisa, garota: aqui, você não pode ser você mesma. Esquece quem você era antes de pisar nesse lugar.

Fiz o que ela mandou, porque não tinha escolha. Porque minha vida agora era essa. Ela me mandou comprar lingeries ousadas, que eu iria desfilar pelo lugar só de lingerie e salto alto.

- Veio assumir o lugar da Mabel, então irei te tratar igual ela.- Após Falar, ela saiu me deixando sozinha. Até a porta se abrir e eu vê uma silhueta enorme abrindo a porta.

Eu perdi minha virgindade em uma noite, com um desconhecido.

Meu primeiro cliente, nunca soube quem era. Só lembro dos detalhes. Ele era cheiroso, forte, com uma voz rouca que, de alguma forma, me acalmava e assustava ao mesmo tempo. Eu estava apavorada. Não sabia o que fazer. Tudo aconteceu no escuro.

Ele foi carinhoso. Mais do que eu esperava. Mas ainda assim, eu sentia o medo arranhando por dentro. Quando tudo acabou, ele simplesmente se foi. Nenhum tchau, não acendeu a luz. Só o som da porta se fechando e o silêncio pesado que ficou comigo.

E foi assim que começou.

Capítulo 3

Edward Narrando

Sou Edward Golitsyn, 40 anos, chefe da Máfia Russa. Muitos confundem o título de "chefe" com o de "Don", mas na nossa organização, a hierarquia é diferente da Cosa Nostra. O Don é mais um patriarca, uma figura tradicional, muitas vezes ocupando uma posição de respeito, mas nem sempre liderando diretamente. Na máfia russa, ser chefe significa estar no comando de tudo, tomar as decisões, administrar os negócios, impor autoridade com pulso firme. Não há um conselho para contestar minhas ordens. Eu sou a última palavra.

E não tem nada nem ninguém. Porque o medo foi enterrado junto com minha esposa.

Siena.

Ela carregava nossa filha no ventre quando foi tirada de mim. Sem nenhuma culpa, a única culpa que ela carregava foi ser casada comigo e me amar.

Me lembro daquela noite como se fosse agora. Um inverno cruel castigava Moscou, e a neve caía pesada, pintando as ruas de branco enquanto o vento gelado cortava como navalha. Siena entrou em trabalho de parto antes da hora. Seu rosto estava pálido, banhado de suor, e ela gemia de dor no banco de trás do carro.

- Aguenta, meu amor, estamos chegando - murmurei, segurando sua mão trêmula.

Naquela época, ainda não tínhamos um hospital próprio. Dependíamos de contatos em clínicas particulares, e aquela noite chuvosa tornava tudo mais lento. Meus homens estavam alertas, dirigindo em formação para nos proteger. Eu sabia que tínhamos inimigos, mas não imaginava que fossem tão covardes ao ponto de atacar quando eu estava vulnerável.

Foi quando a primeira rajada de balas atingiu nosso comboio.

O carro da frente explodiu, iluminando a noite em um clarão infernal. O impacto me jogou contra o banco, e os gritos dos meus soldados ecoaram no rádio. O motorista tentou desviar, mas outro disparo acertou o pneu, fazendo-nos derrapar na pista molhada.

- Edward! - A voz de Siena veio fraca, assustada.

Saquei minha arma e ordenei que revidassem. O barulho dos tiros se misturava ao som da chuva batendo contra o metal dos carros. Meus homens lutavam, mas estávamos em desvantagem. Eles estavam preparados. Nós não.

A porta do carro foi arrancada por um dos meus soldados, que tentava me tirar dali.

- Chefe, precisamos sair!

Mas meu olhar estava em Siena. Ela se encolhia no banco, uma mão sobre o ventre inchado, os olhos arregalados pelo medo e pela dor.

- Eu te amo - ela sussurrou.

E então veio o som que me assombra até hoje.

Um único disparo.

Não um tiro direcionado a ela. Não um ataque calculado.

Uma bala perdida.

Um fragmento de chumbo que perfurou o vidro do carro e encontrou seu caminho até o peito de Siena.

Seu corpo estremeceu. Seus lábios se entreabriram como se fosse dizer algo, mas nada saiu além de um suspiro. Seus olhos, que antes brilhavam cheios de vida, começaram a se apagar diante de mim.

- NÃO! - Gritei, segurando-a contra mim, pressionando o ferimento. Mas o sangue quente escorria entre meus dedos, indiferente ao meu desespero.

O caos ao nosso redor se tornou um borrão. Só existia Siena em meus braços, e a dor que rasgava minha alma.

- Fica comigo... por favor... - minha voz falhava, mas ela já não me ouvia.

Quando os reforços chegaram, os desgraçados que fizeram isso já tinham fugido. Meus homens tentaram me tirar dali, mas eu não queria soltar Siena.

Perdi minha esposa. Mas não Perdi minha filha.

O sangue de Siena ainda estava quente quando tomei a decisão mais insana da minha vida. Com as mãos sujas e o coração em pedaços, saquei minha faca e rasguei a camisa que cobria seu ventre. Meus homens olharam horrorizados, mas ninguém ousou me impedir.

E naquele momento, perdi qualquer resquício de humanidade que ainda restava em mim.

Desde então, o medo deixou de existir. Se a vida pode ser arrancada tão facilmente, então eu não sou diferente. E se estou condenado a viver, farei do meu nome um pesadelo para aqueles que ousaram me desafiar

Abri a barriga dela com uma precisão cruel, o frio da lâmina contrastando com o calor da carne que se partia sob meu toque. Meu corpo tremia, não pelo medo, mas pela fúria e pelo desespero que me consumiam. Eu não podia perder as duas.

Minhas mãos encontraram o pequeno corpo ensanguentado.

Minha filha.

Puxei-a para fora, e por um instante, o mundo pareceu parar. Ela não chorou de imediato, e um pânico sufocante tomou conta de mim. Então, com um estímulo leve, um gemido fraco encheu o carro. Pequeno, mas suficiente para provar que ela estava viva.

Meu milagre.

Arranquei meu casaco e envolvi sua pele delicada no tecido quente. Segurei Jasmine contra meu peito e, sem olhar para trás, deixei o corpo de Siena para trás.

- Enterrem minha esposa no Parque Jardim da cidade - ordenei com a voz fria, sem permitir que a emoção transparecesse.

E assim fizeram.

Eu não parei para velar Siena, não chorei, não me permiti fraquejar. Minha prioridade era Jasmine. Um médico de minha confiança foi chamado assim que chegamos à casa segura. Ele cuidou da minha filha, garantindo que ela sobrevivesse.

Hoje, Jasmine tem quatro anos. Cresceu longe do mundo cruel que me cerca.

Ninguém sabe de sua existência, exceto aqueles que vivem sob o meu teto. Funcionários e soldados antigos, homens e mulheres que já provaram sua lealdade inúmeras vezes. Até mesmo as professoras particulares de Jasmine assinaram acordos de silêncio e devem suas vidas à Máfia Russa.

Minha filha é escondida a sete chaves.

E assim será para sempre.

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