499 anos depois
O sol começava a se pôr em Sunlake, tingindo o céu de tons quentes enquanto a pequena vila se preparava para a festa da colheita. Havia um burburinho animado nas ruas de terra batida, e o ar cheirava a pão fresco, frutas maduras e o perfume sutil das flores que enfeitavam as casas. Hoje era um dia especial: o fim da colheita e o início de um inverno rigoroso, mas com a promessa de prosperidade, pois os campos renderam mais do que o esperado.
Eulália caminhava devagar pela rua principal, com os cabelos negros semi presos por um delicado enfeite de flores. Ela usava um vestido simples que lhe chegava até os pés, a saia tinha um tom acinzentado e o corpete tinha alguns bordados simples. Na mão, segurava uma cesta cheia de frutas recém-colhidas e seu sorriso era tão sincero quanto a brisa fresca que anunciava o fim do dia.
"Hoje vai ser um dia inesquecível", disse Eulália, com os olhos brilhando de expectativa, enquanto passava por um pequeno grupo de vizinhos que se despediam do trabalho do campo.
Seu pai, um homem de traços gentis e olhar afetuoso, apareceu logo ao seu lado, após se despedir dos trabalhadores. Ele estava carregando um ar de satisfação e orgulho, o que fazia seus olhos se iluminarem ao ver a filha.
"Lália, venha cá, deixa-me ajudar com essa cesta" disse ele, puxando-a gentilmente pelo braço.
Eulália riu e deixou a cesta nos braços dele. Juntos, seguiram pela rua, o som dos passos marcando o compasso de uma conversa repleta de carinho e simplicidade.
"Você sabe, minha menina, cada dia que passa eu agradeço aos deuses por ter você comigo. Você ilumina esta casa como as estrelas iluminam a noite", disse o pai, com a voz suave e calorosa.
"Ah, papai, assim me deixa sem graça!" retrucou Eulália, com uma risada contagiante. Mas por dentro, ela sentia uma pontada de ternura a cada elogio, mesmo que disfarçado de brincadeira.
Caminharam juntos até as últimas casas da vila, que ficavam próximas à imponente floresta que circundava Sunlake. A floresta, densa e cheia de histórias, parecia guardar segredos antigos que poucos se atreviam a desvendar. Enquanto avançavam, a conversa se enchia de lembranças e planos para o futuro.
"Lembra quando você era pequena e adorava correr entre as árvores?" perguntou o pai, sorrindo nostalgicamente.
"Claro que lembro, papai. Eu me perdia e você me achava, sempre com um abraço apertado", respondeu Eulália, os olhos cintilando com a lembrança de momentos simples e felizes.
A caminhada foi leve, com os dois imersos em uma conversa que mesclava risos e lembranças. Quando chegaram à porta de casa, a construção simples e acolhedora parecia um refúgio seguro contra o mundo lá fora. Seu pai abriu a porta com cuidado, dentro da sala, ele acendeu algumas velas, dando um ar de intimidade ao ambiente.
"Hoje, minha filha, vamos celebrar não só a colheita, mas também a promessa de um futuro repleto de bênçãos" disse ele, enquanto colocava a cesta sobre uma mesa rústica. Seus olhos, cheios de orgulho, encontraram os de Eulália, que estava sentada num banco de madeira, ouvindo atentamente.
"Papai, todas as festas de passagem são especiais", retrucou a jovem, num tom meio brincalhão. "Quem sabe nesta festa alguém finalmente se interesse por mim e você possa acalmar seu coração, em?"
O pai sorriu e aproximou-se, colocando uma mão sobre os ombros dela e respondendo:
"Minha querida Lália, você ainda tem muito tempo para isso. Mas eu confio que os deuses já têm um plano traçado, afinal, você é tão única quanto a própria lua que enfeita o nosso céu nas noites de inverno."
Eulália sorriu timidamente, lembrando-se das histórias que sua mãe costumava contar sobre amores impossíveis e destinos traçados pelas estrelas. Seu pai, então, fez uma pausa e olhou diretamente em seus olhos.
"Tenho uma surpresa para você" disse ele, com um brilho misterioso na voz.
Eulália arregalou os olhos, curiosa, enquanto seu pai caminhava até um pequeno baú de madeira encostado na parede. Abrindo-o com cuidado, ele retirou um colar com um delicado pingente em forma de lua, brilhando suavemente à luz das velas.
"Este colar pertencia à sua mãe, Anabel. Sempre disse que, assim como a lua ilumina a escuridão, o amor verdadeiro ilumina a alma. Quero que você o use hoje, para lembrar que a beleza vem dos pequenos gestos e dos laços que nos unem" explicou ele, entregando o colar a Eulália com delicadeza.
Eulália segurou o colar com as mãos trêmulas, emocionada.
"Obrigada, papai. Vou cuidar dele com todo o carinho" prometeu, fixando o olhar no pingente que reluzia como uma esperança silenciosa.
Seu pai então a encarou, com um tom sério misturado com a ternura habitual.
"Prometa-me que, hoje à noite, você vai pelo menos tentar conversar com alguém. Não fique só aí sonhando com o futuro, minha menina. O mundo tem muito a oferecer, e quem sabe, você não encontra alguém especial que te faça sorrir ainda mais."
Eulália riu e balançou a cabeça, mas o olhar dela traía um misto de nervosismo e expectativa.
"Prometo, papai. Mas sabe que eu não sou de me apressar em nada, né? Prefiro viver cada momento como ele vem" disse ela, com um sorriso que iluminava o ambiente.
"Ah, Lália, sempre tão teimosa!" exclamou ele, com um leve tom de brincadeira, mas também com um toque de preocupação. "Mas é exatamente essa sua forma de ser que me enche de orgulho. Hoje você é uma mulher, e o mundo está esperando por você."
Eulália estava no seu quarto, concentrada em se arrumar para o festival. Ela vestia o vestido de sua mãe, um traje simples, porém encantador, com um corpete que apertava suavemente a sua cintura e realçava seus seios de forma discreta. O decote, elegante e sutil, deixava transparecer uma feminilidade delicada, sem ser ousado demais. O tom rosa claro do tecido contrastava lindamente com seus cabelos negros, que estavam semi presos e adornados com flores frescas. Seus sapatos, simples e confortáveis, completavam o conjunto, enquanto a saia esvoaçante acompanhava cada movimento com graça.
Enquanto ajustava os detalhes do vestido, Eulália passava os dedos pela renda bordada à mão, sentindo a textura familiar que sempre lhe lembrava da ternura de sua mãe. Na única joia que usava, o colar com pingente de lua presenteado por seu pai, repousava a memória e a proteção daquela figura tão querida.
De repente, ouviu uma voz suave do corredor:
"Eulália, você está pronta?"
Ela virou a cabeça e viu seu pai parado na porta, com os olhos brilhando de emoção. Ele segurava, com delicadeza, o retrato da sua mãe, Anabel, o único registro que ela tinha da mulher que tanto amava. O quadro, pintado pela própria Eulália seguindo as orientações do pai, exalava carinho e lembranças.
"Papai, estou quase pronta..." respondeu ela, ajeitando um fio solto de cabelo.
Seu pai aproximou-se e, com um sorriso emocionado, disse:
"Minha querida, hoje você está deslumbrante. Olhe só para você... você se parece tanto com sua mãe."
Eulália olhou para o retrato e, por um breve instante, seus olhos se encheram de saudade e ternura. Sem perder tempo, ela respondeu:
"Eu também sinto falta dela, papai. Mas é bom saber que ela vive em mim de alguma forma."
Seu pai, ainda sorrindo, colocou o retrato sobre a penteadeira e estendeu os braços:
"Venha, Lália. Vamos aproveitar este dia. Hoje é seu aniversário, finalmente está completando 18 anos e o festival vai ser maravilhoso! Quero que você se divirta e que, pelo menos, dê uma chance para alguém, entendeu?"
Ela hesitou por um instante, mas o carinho no olhar do pai a encorajou. Com um leve suspiro e um sorriso tímido, ela respondeu:
"Está bem, papai. Prometo que tentarei aproveitar."
O pai então lhe deu um beijo suave na testa e acrescentou:
"Isso mesmo, ao menos tente se divertir e se enturmar, tenho certeza que vai gostar!"
Com essas palavras, Eulália deixou o quarto, levando consigo a emoção e a lembrança da mãe. Ao atravessar o corredor, o ambiente familiar se misturava com o som distante das preparações para o festival. Ela sentia o coração bater rápido, não só pela ansiedade do evento, mas também pela expectativa de um novo capítulo em sua vida.
Logo na entrada da casa, conseguia ouvir os sons do festival, pessoas conversando, música, muito burburinho acompanhando o anoitecer. Era uma noite feliz para todos.
"Vamos, Lália, a festa já começou!" exclamou seu pai, segurando seu braço com carinho.
Caminhando juntos pelas ruas de Sunlake, os dois se dirigiram para o centro da vila. O caminho era repleto de decorações simples, mas cheias de encanto: lanternas penduradas nas janelas, guirlandas feitas com flores locais e fitas que dançavam ao vento. O aroma de pães e frutas, misturado com o cheiro do campo, deixava o ar leve e cheio de promessas.
Ao chegarem à praça central, Eulália avistou a festa já em pleno andamento. Havia mesas repletas de comida, barracas decoradas com cores vivas e uma banda que tocava canções alegres, embalando a celebração. Homens e mulheres, jovens e idosos, estavam bem arrumados, cada um contribuindo para aquele clima de festa e união.
No meio da multidão, duas vozes se destacaram. Sussi e Blair, as únicas amigas próximas de Eulália, correram para abraçá-la com entusiasmo.
"Feliz aniversário, Lália!" exclamaram em uníssono, os rostos iluminados de alegria.
Eulália riu, abraçou as duas com força e respondeu:
"Obrigada, meninas! Vocês sempre sabem como me fazer sorrir!"
As três olharam umas para as outras, admirando seus vestidos que, mesmo simples, eram lindíssimos. Sussi foi a primeira a falar, passando as mãos pelo corpete do vestido de Eulália:
"Você está perfeita! Tenho certeza que os nobres se vestem assim, Lália!"
Eulália corou e respondeu, brincando:
"Não exagera, vocês estão perfeitas também!"
Os moradores conversavam animadamente, trocando cumprimentos e histórias enquanto a banda aumentava o ritmo, convidando todos a dançar. O ambiente era vibrante e acolhedor, repleto de sorrisos e vozes que se misturavam num coro harmonioso.
Enquanto Eulália dançava com Sussi e Blair, logo uma figura jovem e simpática aproximou-se dela. Era Tom, irmão de Sussi, que estava de olho nela desde o começo da festa. Com um sorriso tímido e sincero, ele a chamou:
"Eulália, que tal dançarmos um pouco?"
Ela olhou para Tom, surpresa. Pensou em recusar, mas, de longe, viu seu pai os olhando esperançoso, então, para agradá-lo, respondeu:
"Claro, Tom. Vamos dançar!"
Enquanto se moviam ao som da música, os dois começaram a conversar de forma descontraída:
"Sabe, eu já te observei durante a festa e..." começou Tom, hesitante, tentando encontrar as palavras certas.
"Acho melhor... Er... Deixarmos a dança falar por nós agora!", interrompeu Eulália, com um sorriso suave, desviando-o com delicadeza.
"Queria dizer algo a você, é importante", insistiu ele, tentando retomar o fio da conversa.
"Se é tão importante, melhor falar depois, não?", Eulália continuou o interrompendo, sabia o que ela provavelmente iria dizer, mas não sabia se ser pedida em casamento por Tom seria uma ideia tão boa. .
De repente, antes que Tom continuasse, um uivo profundo e inconfundível ecoou vindo de dentro da floresta que circundava a vila. Foi um som tão alto e claro que fez os passos de todos pararem e a música se interromper.
Os sorrisos se desvaneceram e as conversas cessaram num misto de surpresa e temor. Eulália e Tom pararam de dançar, seus rostos se transformando em expressões de preocupação. Ao redor, os convidados se entreolhavam, e um murmúrio inquieto começou a se espalhar.
"O que foi aquilo?", perguntou uma voz nervosa entre os presentes.
"Não foi nada, só animais da floresta" um homem disse, tentando acalmar a todos.
Nunca haviam sido atacados por nada a floresta, ao mesmo tempo que parecia puro perigo, funcionava como uma redoma os isolando do mundo.
O pai de Eulália, que até então sorrira orgulhosamente, aproximou-se rapidamente para ouvir o que estava acontecendo. Seu olhar, antes de afetuoso, agora demonstrava seriedade.
"Fiquem calmos, todos. São apenas os lobos que habitam a floresta, eles nunca vieram aqui, não vão vir hoje", afirmou ele, mas sua voz traía uma leve tensão.
Enquanto o uivo ecoava novamente, mais alto desta vez, e a atmosfera festiva se transformava num cenário de suspense, Tom segurou a mão de Eulália e a olhou com intensidade:
"Fique comigo, Lália. Se algo acontecer, vou proteger você..."
Eulália, com os olhos grandes e o coração acelerado, apenas assentiu silenciosamente.